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1 de Setembro, 2004 Carlos Esperança

Secretaria de Estado do Turismo

O secretário de Estado deslocado para o Algarve elegeu como primeiro acto oficial uma visita ao bispo de Faro.

Desconhece-se se o beija-mão de Carlos Martins se insere num gesto de subserviência à Igreja ou integra o programa de Governo para o sector do Turismo.

Não foi o bispo que visitou o governante, mas o contrário, num acto que envergonha a República e compromete o carácter laico do Estado. Parece importar mais ao ajudante do ministro Telmo Correia a salvação da alma do que a defesa dos interesses de um sector vital para a economia nacional.

31 de Agosto, 2004 André Esteves

Obrigado

Pedimos as vossas sugestões e críticas.

A todos, obrigado.

31 de Agosto, 2004 Carlos Esperança

Diário de uns Ateus

Após algumas tentativas,em finais de 2003, à experiência, o Diário de uns Ateus começou o ano de 2004 com um dinamismo estimulante.

Em 31 de Agosto verificamos que ocupa o 42.º lugar em média de visitas e o 28.º em média diária de páginas visitadas, aguentando bem o período de férias.

Agradecemos afectuosamente aos numerosos amigos que nos visitam e, muito particularmente, ao devotos que nos abominam.

É com enorme satisfação que assistimos à derrota de Deus.

31 de Agosto, 2004 Mariana de Oliveira

O bispo, o cardeal e o barco

D. Jacinto Botelho, bispo de Lamego e presidente da Comissão Episcopal da Família, sobre o «barco do aborto», afirmou que «o problema fundamental não é o barco mas o aborto» demonstrando uma grande capacidade para captar os problemas da sociedade.

Não se ficando por esta constatação óbvia, o bispo disse que tal intervenção provocada num barco ou numa clínica «não muda a natureza da perversidade». Mais uma vez, vemos alguém da hierarquia católica, com as suas noções de moralidade que pretendem ser todas-poderosas, a demonizar uma forma de melhoria das condições de vida das mulheres. Sim, porque as mulheres querem-se submissas e parideiras!

Relativamente ao tratamento da chegada do «barco do aborto» a águas territoriais portuguesas (ao seu limite exterior, leia-se), Jacinto Botelho disse que o assunto é um «exagero» visto que promove «um atentado contra a vida». Portanto, o senhor bispo também deve ser contra os noticiários que relatam genocídios, guerras, assaltos e homicídios.

O barco «só pode causar polémica», afirma, uma vez que «não há ninguém bem intencionada que possa concordar com esta exibição» e adianta que a iniciativa não passa de «uma forma de exibicionismo». Claro que o barco das «Women on Waves» é uma exibição, como aliás é uma exibição toda e qualquer manifestação! Quanto às boas intenções, seria interessante que o senhor bispo explicasse onde estão elas quando milhares de mulheres se submetem a redes de aborto clandestino pagando, não raramente, com a ousadia de quererem ser donas do seu destino.

Em jeito de remate, o presidente da Comissão Episcopal da Família considera que é «contraditório» que as mesmas pessoas que «fazem manifestações contra a guerra sejam apologistas do aborto»… como se ambas as coisas fossem comparáveis.

O Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, considerou a iniciativa da organização holandesa «uma provocação». Apesar de considerar importantes o debate e a liberdade de expressão e de vivermos numa sociedade livre, «os países têm a sua dignidade», mas não esclareceu se essa dignidade inclui a condenação judicial e a estigmatização de mulheres que decidiram abortar.

Aos cristão, o cardeal pediu que não se encolham sempre uma questão seja colocada de forma mais agressiva, reiterando a «clareza da posição da Igreja Católica em relação a esta matéria», ou seja, a manutenção de redes clandestinas de abortos, de viagens a Espanha e de mortes, de muitas mortes.

31 de Agosto, 2004 André Esteves

A lambona da vaca sagrada

Através da newsletter semanal News Of The Weird/agência de notícias France Presse, chega-nos a notícia de que no Cambodja assiste-se a uma autêntica romaria para visitar uma recém-aparecida vaca sagrada.

A mística vaca nasceu na aldeia de Phum Trapeang Chum, ela também um lugar sagrado.

Mais de 400 peregrinos amontoam-se à porta do dono da vaca, para por ela serem lambidos.

Tudo começou com a notícia, dada pela mulher do dono da vaca, de que teria ficado curada de uma doença crónica pelas lambidelas da vaca. Depois de aparecerem várias histórias semelhantes no Cambodja começou a peregrinação à vaca.

Sobre as capacidades curativas da vaca nada podemos afirmar. No entanto, parece ser realmente uma santa vaca, com enormes atributos de santidade. Segundo o seu dono, ela só lambe o peregrino depois de ter visto o dono receber o equivalente a 13 cêntimos americanos que permitem 4 lambidelas.

A noticia – News of the Weird [Inglês]

30 de Agosto, 2004 André Esteves

O bem mais precioso de um homem livre

Para um crente fechado no seu mundo de Deuses e Demónios, os pecados, as proibições, as obrigações (até o amor se transforma numa obrigação!), as necessidades que lhe foram impostas ou induzidas, são as fronteiras de um mundo que o prendem à sua crença.

Sabem qual é o bem mais precioso de um homem livre?

Os seus erros.

Porque ele é livre para aprender com eles.

30 de Agosto, 2004 Palmira Silva

Ética, livre arbítrio e pecado original

Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,

Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,

Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,

Porque é preciso existir para se criar tudo,

E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,

E ser possível haver ser é maior que todos os deuses


Fernando Pessoa

Deve-se a Dario Hystapis, um dos grandes reis aqueménidas (538-330 a.C.), um fenómeno que perdura até ao século XXI, a atribuição ao governante da defesa do Bem e da Verdade, projectando sobre seus adversários, quaisquer que sejam, a pecha de serem os defensores da mentira e do mal. Integrado na civilização ocidental, constitui, de facto, a essência da Ideologia, essa «religião civil» da nossa época ou meme comum aos vários memeplexos políticos actuais.

O origem dessa dicotomia ética aplicada à política encontra-se no dualismo original da religião persa, codificada por Zarathushtra ou Zoroastro, em que Ormudz ou Ahura Mazda é o detentor da bondade e veracidade, em oposição a Arihman, o «grande satã», deus do mal e da mentira.

Continuada por Mani ou Manes (séc. III), que criou uma religião que pretendia ser ecuménica, o maniqueísmo, em que são integrados elementos do hinduismo, zoroastrismo e cristianismo. O maniqueísmo é fundamentalmente uma versão de gnosticismo, para o qual a salvação depende do conhecimento (gnose) da verdade espiritual. Como todas as formas de gnosticismo, prega que a vida terrena é dolorosa e inevitavelmente perversa. Essencialmente para o maniqueísmo há uma eterna guerra entre dois princípios primários que seriam o Bem e o Mal. E, como o artigo da Mariana demonstra, bases maniqueístas permeiam ainda hoje a ética da ICAR.

Na realidade, a maior parte dos sistemas éticos absolutos associados às religiões do livro está baseada numa dualidade simplística de recompensa e castigo, céu e inferno, em que as religiões reveladas e seus legítimos representantes são os árbitros finais da verdade. Decidindo quem são os bons e quem são os maus. Mas que levanta a questão: se Deus é omnipotente e todos os restantes omni, qual a origem do mal? Para ver como a ICAR resolveu a aparente contradição dogmática nada melhor que as palavras do grande teólogo do cristianismo, Agostinho de Hipona.

«Peço que me digas se Deus não é o autor do Mal.»

Assim é aberto por Evódio o diálogo «O Livre Arbítrio», evidenciando que a suspeita de que o Mal possa ser atribuído a Deus era algo comum à época, e especialmente desafiador para alguém, como Agostinho, que fora um maniqueísta. Se, para o Cristianismo, existe apenas uma entidade suprema e eterna, Deus, e se dele tudo provem, também seria ele a fonte do Mal. Para responder a essas interrogações Agostinho elabora este diálogo.

Sugere ser o livre arbítrio a origem do Mal, uma fardo incómodo que só pode ser alijado por sujeição à vontade divina, expressa nas regras reveladas e respectiva interpretação por quem representa o Bem na Terra . Pode-se notar também uma correlação com a doutrina socrática de que a ignorância é a raiz do Mal, uma vez que o mal decorreria da falta de instrução. Para Agostinho a ignorância de Deus e da vontade divina resultam necessariamente no Mal devido ao pecado original (de notar a obsessão de Agostinho, pelas razões que apontei num post anterior, pela lascívia, um pecado especialmente abominável).

«Homens maldizentes rosnam entre si, pecando e acusando a todos menos a si mesmos, a seguinte questão: Se foram Adão e Eva que pecaram, porquê nós, que nada fizemos, nascemos com a cegueira da Ignorância e os tormentos da Penosidade?

– Basta responder que existem aqueles que vencem a lascívia. Uma vez que Deus está em toda a parte, a ninguém foi tirada a capacidade de saber e indagar vantajosamente o que desvantajosamente se ignora.

– Aquilo que se pratica por ignorância ou por fraqueza, denominam-se pecados porque retiram sua origem do Pecado Original.
» [Capítulo XIX -A Negligência é culpável]

Assim, uma característica da doutrina cristã é negar a capacidade intrínseca humana para agir bem sem intervenção da divindade. Ou como afirma Feuerbach, em «A Origem do Cristianismo», é uma projecção de todas as boas qualidades humanas no exterior, no Deus do Cristianismo, deixando ao homem apenas o reprovável. Tema que será retomado num próximo post já que a negação do comportamente ético, da existência de uma moral fora da religião, é frequentemente utilizado como arma de arremesso contra os ateus. Porque temos quasi dois milénios de condicionamento social e alguns dogmas religiosos foram secularizados, este quiçá o mais pernicioso, urge efectivar a separação Moral-Religião!

30 de Agosto, 2004 André Esteves

Ataque na maratona de Atenas

Ontem, durante a maratona masculina um individuo, com uma farda estranha, atacou o líder da corrida, o brasileiro Vanderlei de Lima. O indivíduo em questão é um ex-padre católico que procurou desta forma, obter publicidade para o fim do mundo, como se pode ler no cartaz que ele mostra na imagem. O atleta brasileiro acabou em terceiro. Já depois de passada a meta, acabou por se benzer e agradecer a Deus por ter terminado a corrida.

Continua toda a gente a correr em modo automático…

Ninguém pára para pensar um bocadinho que seja?

A notícia [Inglês]

Mais pormenores sobre o maluco [Inglês]

29 de Agosto, 2004 Carlos Esperança

A crença pode tratar-se

Deus quimicamente é um placebo, mas a fé pode transformá-lo em droga dura. Provoca ansiedade, tremores, suores, transe e alucinações. Produz habituação e dependência. Em doses exageradas até exala cheiro – o cheiro a santidade, que se nota em quem descura o banho e exagera nas orações.

Como acontece com as outras drogas, não se combate com a repressão às vítimas, exige uma terapêutica de substituição: raciocínio fáceis, para começar, instrução, algumas dúvidas e erradicação do sentimento de culpa. A pouco e pouco o medo vai minguando, o sentimento de pecado esfuma-se e a cura surge.

A fé tem cura.

29 de Agosto, 2004 André Esteves

Björk, uma ateia até à medula.

No suplemento «Y» de música do Público da passada sexta-feira encontra-se uma entrevista com a artista islandesa Björk Gudmundsdottir, sobre o seu ultimo trabalho publicado, o album Medúlla. Na entrevista encontramos a seguinte passagem:

«O próprio princípio da convicção religiosa é para mim nefasto. Reenvia necessariamente à obrigação, à obediência. Prefiro acreditar na autodeterminação, no sentido em que todo o culto tende a privar o indivíduo das suas faculdades intuitivas mais elementares. A ideia de que um livro escrito há dois mil anos possa servir, ainda hoje, de modo de emprego existencial parece-me estranha, até despropositada. É mais gratificante descobrir as coisas por nós próprios.»

Confesso que passei a gostar ainda mais desta grande senhora.

Que a sua criatividade nos ilumine durante muitos e muitos anos.

Vale a pena ler a entrevista, chama-se: «Morrer por uma canção»

Dá-nos uma pequena imagem de uma artista que não perdeu o humano em si.

Outra entrevista de Björk, no seu site, tem ainda mais reflexões interessantes:

«Acenando com uma bandeira pirata» [Inglês]