A Universidade Católica portuguesa foi a Fátima renovar a consagração. Nada temos com os gestos gratuitos ou desvarios de quem tem alucinações. Se alguém ousasse proibir uma tal manifestação teria o meu activo repúdio na defesa da liberdade religiosa que muito prezo.
Mas não se confunda o respeito e a defesa da liberdade religiosa com a solidariedade na mentira e na demência mística.
Algumas considerações:
1 – Se a Universidade Católica foi a Fátima é porque não acredita que fosse ouvida a partir de Lisboa;
2 – Se renovou a consagração é porque o prazo de validade da anterior estava a esgotar-se ou tinha sido mal feita;
3 – Ao agradecer à Virgem toda a ajuda ao longo da existência e pedir-lhe que continue, é uma injustiça enorme para o Governo, que a subsidia, não constando que a Senhora de Fátima desembolse um único euro;
4 – «O docente João César das Neves, no final da Eucaristia, explicou a presença de Cristo na vida da Universidade Católica» – segundo se lê -, sem explicar se integra o corpo docente, se tem currículo académico e que disciplinas lecciona, ou
5 – Se faz parte do pessoal menor (pouco provável, dado o relevo que lhe deu), se é chefe da secretaria ou o chantagista de serviço para obter benefícios do Estado.
Mais importante do que Cristo e a Mãezinha têm sido os sucessivos Governos que, ao arrepio da laicidade a que estão obrigados, têm constituído a caixa de esmolas da referida instituição particular. Uma vergonha.
Uma alemã, de origem marroquina, teve a desdita de numerosas mulheres ao longo da história, casar com um homem violento que a agredia e ameaçava de morte.
Com 26 anos, mãe de dois filhos, a vítima pediu ao tribunal de família de Frankfurt para que lhe concedesse um divórcio rápido. A pancada e as ameaças não são violências que se suportem num país civilizado. E a jovem mãe, casada em 2001, há mais de um ano que era vítima de espancamentos e ameaças.
Imagine-se que lhe saiu uma juíza, Christa Datz-Winter, que entendeu não ser urgente o seu caso pois ela tinha casado «segundo as leis islâmicas» e que, segundo o Corão, ela devia saber que «Não é invulgar que o homem exerça o direito de castigar a mulher».
A título excepcional, essa juíza devia ser obrigada a viver um ano com um muçulmano violento e piedoso, despojada das vestes forenses, vergastada na rua e, a seguir, repudiada pelo homem.
Talvez aprendesse que, acima dos preconceitos religiosos, estão os direitos humanos, mais importante do que um livro sagrado é a igualdade de direitos entre os sexos.
A integração da sharia na jurisprudência dos países democráticos é o caminho mais rápido para a introdução do direito canónico e o regresso ao estado totalitário de raiz confessional.
Apostila: Recordo o saudoso Francisco Salgado Zenha, de quem fui delegado na Lourinhã, em 1965, na farsa eleitoral promovida por Salazar. Foi ele, quando ministro da Justiça, que reintroduziu o direito ao divórcio que a Concordata abolira. Tal como no Islão, vigoravam as piedosas leis cristãs de Salazar e Cerejeira.
Amável deferência do leitor M.M.
O director do jornal satírico francês Charlie Hebdo foi ontem absolvido por um tribunal parisiense da acusação de injúrias de cariz religioso.
Enquanto o Islão político procura multiplicar os véus na paisagem urbana das cidades europeias, conquistar direitos de proselitismo e erguer mesquitas para obrigar os que tiveram a desgraça de nascer na anti-cultura islâmica, os católicos semeiam nichos de virgens nas esquinas dos caminhos, plantam cruzes nas paredes das estradas e capelas no cimo dos montes.
No Islão os mujaidines chamam os fiéis para as orações e a pregação do ódio aos infiéis, no cristianismo os padres promovem a missa, a confissão, a eucaristia e a excomunhão.
Em terras de Maomé lapidam-se mulheres que amem e degolam-se os crentes que não resistam ao álcool ou à carne de porco. Nos países onde B16 lança a peçonha, combate-se o divórcio, a homossexualidade e o aborto.
No terreno da fé a intolerância marca o ritmo do amor a Deus.
De há anos a esta parte o catolicismo aparece com a mesma virulência do islamismo. Só não mata porque os governantes não usam mitra e báculo. Deve ser prodígio mimético.
As cruzes aumentam no pescoço dos cristãos e nos bolsos viajam crucifixos a substituir a velha navalha de ponta e mola. Nos automóveis adejam Cristos nos suportes dos retrovisores e espalham-se imagens de santos pelo habitáculo.
São cada vez maiores as cruzes dependuradas nos pescoços dos católicos, manifestação de fé ou provocação, vá-se lá saber, numa ostentação pública das convicções privadas.
Se as cruzes continuam a aumentar de tamanho, dentro de décadas não há católicos de cruz ao peito, há cruzes em movimento com católicos dependurados. E ai de quem não se render ao instrumento de tortura com que o Papa quer crucificar a humanidade.
Bento 16 considera o segundo casamento uma praga. Mas que autoridade assiste a quem não teve um primeiro casamento, para condenar o segundo? Celibatário há 79 anos, o último teocrata europeu não é um líder religioso, é um inquisidor violento.
Sabe-se que nasceu em tempos de cólera, que a educação da infância o há-de ter persuadido de que é herdeiro de uma raça superior, mas escusava de ser de tão má raça.
Que negue a hóstia aos casados pela segunda vez, como se faz nas tascas com o vinho a quem bebeu demais, é um direito de quem administra a mercadoria e impõe as regras de distribuição. Agora que se meta na vida dos casais e que queira escoar a água benta nas cerimónias, é uma ingerência inaceitável.
B16 é um talibã romano, um veículo litúrgico em rota de colisão com a modernidade.
Há quem se oponha a esta decisão, em nome da democracia e da liberdade individual, acusando os opositores de intolerância. Esquecem-se de que a Europa tem vivido em paz graças à laicidade do Estado que jovens muçulmanas desafiam, estimuladas pela família e pelos pregadores religiosos. Os constrangimentos sociais e o domínio sobre as mulheres são de molde a impor-lhes o símbolo da sua própria escravidão.
Só a França (até quando?) sobrepõe os direitos de cidadania aos desejos dos clérigos das diversas religiões. No exercício de funções públicas ou frequência de escolas do Estado não são permitidos os hábitos das freiras, as sotainas ou o véu islâmico. Alguém, de boa fé, nega a liberdade religiosa francesa?
Ninguém duvida do proselitismo que devora as diversas confissões, todas desejosas de convencer os ímpios da bondade do seu Deus e da única forma de salvação eterna – a sua -, impondo-a, se puderem, mesmo a quem a dispensa.
Sendo o Estado incompetente para se pronunciar sobre as convicções pessoais, só lhe resta manter a neutralidade que permita a efectiva liberdade religiosa e impedir que qualquer religião se aproprie de forma definitiva e permanente do espaço público.
Londres só agora começa a sentir o perigo do proselitismo e a reagir às provocações que faz uma multinacional do ódio que se serve de jovens com forte dependência da família, do clero e da tradição.
Desacreditar da superioridade moral da democracia em relação à teocracia e dos Estados laicos face aos confessionais, é renunciar à defesa dos direitos humanos sob o pretexto de cumprir a vontade de Deus.
DA/Ponte Europa
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