31 de Março, 2007 Carlos Esperança
João Paulo II – especialista em neurologia

Vamos entrar naquela semana em que, no final, se celebra nada mais, nada menos, que o maior embuste da civilização ocidental. Convém, portanto, estar atento.
É a semana em que nos querem fazer crer que um pai sacrificou o seu próprio filho para provar que ele era mesmo o progenitor; que o corpo do filho desapareceu três dias depois porque o pai assim quis; enfim, que o filho fugiu do sepulcro todo nu, uma vez que as roupas com que foi coberto depois de morto estão em exposição em Turim!
Cá por casa, morreu ontem um dos mandarins que as minhas filhas teimam em ter engaiolados. Tive pena que não aguentasse mais uma semana; daríamos apenas por falta dele na gaiola e teríamos a certeza que apenas optara por gozar a Primavera ao ar livre!
(Diário Ateísta/Penso, logo, sou ateu)
Todos os anos, por esta altura, o boato repete-se, divulgado nas caixas do correio.
Tudo leva a crer que os autores reincidam nos próximos anos, mas o ressuscitado não foi visto na área da paróquia nem há a menor suspeita de que se encontre na cidade.
Diz-se frequentemente que Portugal é um Estado laico com uma sociedade confessional. A primeira parte da afirmação tende a ser cada vez mais verdadeira, mas a segunda parte é cada vez mais falsa. Efectivamente, a laicidade do Estado permanece uma obra inacabada, que só pode ser terminada por um esforço deliberado e organizado dos cidadãos. Mas a evolução da sociedade portuguesa desde o 25 de Abril, como o mostra o comportamento espontâneo dos cidadãos na sua vida quotidiana, desmente que a sociedade portuguesa permaneça inalteravelmente católica.
Tentarei mostrar numa série de artigos (de que este é o primeiro), que na sociedade portuguesa actual, e ao contrário do que muita gente pensa, as determinações confessionais são cada vez menos relevantes no comportamento quotidiano dos cidadãos. Nesse sentido, a sociedade é cada vez menos confessional e mais secularizada.
A ascensão do casamento civil
No gráfico pode observar-se o crescimento da percentagem de casamentos civis entre 1966 e 2005. Ao longo destes quarenta anos, a percentagem de casamentos celebrados sem cerimónia católica prévia subiu de 12% para 45%. A década de 1971-1980 é de crescimento rápido (de 14,5% para 25,3%), a de 1981-1990 corresponde a uma estagnação (com oscilações entre 25% e 28%), e a década de 1991-2000 volta a ser de crescimento (de 28% para 35%). Os últimos cinco anos foram de crescimento acelerado: de 37,5% (2001) para 44,9% (2005). O casamento religioso poderá passar a ser minoritário já em 2008 (previsão que resulta de aplicar uma regressão linear aos últimos cinco anos) ou em 2010 (aplicando uma regressão linear aos últimos dez anos).
Em qualquer dos casos, a mensagem é clara: em 2005, nove casamentos em cada vinte foram realizados apenas pelo registo civil; e dadas as tendências de longo prazo, é de esperar que o casamento civil passe a ser maioritário nos próximos anos. Portanto, para os novos casais portugueses, o casamento é cada vez mais apenas um contrato civil (garantido pelo Estado), e não um sacramento religioso (perante «Deus»).
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]
A origem da prostituição confunde-se com a história da própria humanidade e não deixa de ser humilhante a venda do corpo, mas há infâmias maiores e crimes mais hediondos, a começar pelo rapto de pessoas e o exercício de cárcere privado.
O constrangimento social e o estímulo do clero levaram as tresloucadas alunas de uma madrassa, em puro zelo beato, à prática de vários crimes: invasão do domicílio, rapto, encarceramento e coacção física e psíquica da dona de um bordel e de duas familiares, estribadas na legitimidade do Corão e no incentivo dos próceres islâmicos.
A prisão das devotas provocou manifestações das colegas, encorajadas pelo director da escola corânica, enquanto os vizinhos, com maior terror dos talibãs do que de Maomé, ficaram «felizes e cantaram em glória de Alá».
Regressa o fundamentalismo que, como sempre, não se limita a condicionar a vida dos crentes mas a exigir, a todos, o comportamento que julgam inspirado por Deus.
No Paquistão, os talibãs estão na origem de incêndios em clubes de vídeo e na proibição de música e televisão. Os barbeiros foram proibidos de cortar barbas e as mulheres são obrigadas a usar burka, sob a ameaça de morte.
No Ocidente, que julgávamos civilizado, uma onda fundamentalista procura reconduzir a sociedade à Idade Média. O criacionismo é a arma com que, dos EUA à Europa, os prosélitos pretendem opor-se ao progresso e à investigação científica.
Há muito dinheiro investido na estratégia beata. A distribuição de um Atlas criacionista é a prova disso. É preciso estar atento.
A laicidade é um factor apaziguador das diferenças culturais que o clero se esforça por converter em divergências.
Não é legítimo agredir crentes. Devem, sim, ser protegidos deles próprios e defendidos em nome da liberdade religiosa, mas a defesa e a protecção exigem que o proselitismo seja contido em margens que não degenere em conflito.
A ICAR, como religião monoteísta, não deseja a liberdade religiosa mas a imposição da catequese obrigatória. Já não é apenas a demência islâmica que põe em risco os direitos, liberdades e garantias que as democracias defendem. As Igrejas cristãs estão a assimilar o desvario islâmico e querem regressar às origens perdidas com a Revolução Francesa.
Não é a moral religiosa que perturba, o que não se tolera é a imposição clerical aos que rejeitam a fé.
A apostasia é um dos mais sagrados direitos humanos. É preciso proclamar o direito de defender hoje o contrário daquilo em que se acreditava ontem e, eventualmente, voltar a acreditar amanhã, sob pena de destruir a liberdade religiosa.
Os padres querem que o pecado seja crime e a apostasia punível com pena máxima, mas desiludam-se os parasitas da fé. Enquanto houver cidadãos que renunciem à humilhação de andar de joelhos, Deus é a nódoa que não mancha todas as consciências, um estorvo que não elimina a liberdade, a excrescência que não corrompe toda a humanidade.
Basta que a semente da descrença alimente a independência do pensamento e a coragem da resistência se sobreponha à violência da repressão, para que os homens permaneçam livres e dignos.
A opressão precisa de carrascos. Quando a democracia avança, a fé recua e os algozes ficam frágeis. Também por isso a defesa da civilização exige o combate pela liberdade.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.