Loading

Categoria: Não categorizado

1 de Dezembro, 2006 jvasco

Sorte ou injustiça?

Há quem diga que devemos agradecer a um deus aquilo que temos [..]. Eu tenho muito porque estar satisfeito com a minha vida. Vou ao supermercado e compro o que me apetece, gosto do meu trabalho, tenho saúde, e uma grande família de malta porreira. Tive muito mais sorte que os milhões de doentes, famintos, desabrigados, estropiados, órfãos, que sofrem por todo o mundo. E admito: não é justo. É injusto que uns corram cem metros em menos de dez segundos e outros nasçam sem pernas, ou que uns sejam compositores geniais e outros surdos. Mas ao menos é uma injustiça cega, como a lotaria. Calha a uns como podia ter calhado a outros.

Mas se a lotaria está viciada é uma injustiça terrível e maldosa. Se é por cunha que uns são corredores exímios e outros paraplégicos, que uns vivem felizes e outros sofrem, é revoltante. Se eu vivo bem enquanto outros morrem de fome e doença porque um deus puxou os cordelinhos do universo para me beneficiar à custa deles não estou nada grato. Nem percebo como se pode estar de boa consciência pensando que é assim.

——————————–[Ludwig Krippahl]

1 de Dezembro, 2006 Palmira Silva

Dia Mundial de Luta contra a Sida



Desde que o Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) foi identificado pela primeira vez há 25 anos, já causou a morte de 25 milhões de pessoas, das quais 2,9 milhões ocorreram este ano. As estimativas da ONUSIDA (Programa Conjunto das Nações Unidas e da Organização Mundial de Saúde sobre o VIH/SIDA ), indicam que existem actualmente 39,5 milhões de pessoas com o vírus da SIDA. Estes números podem ser uma estimativa conservadora já que de acordo com o relatório epidemiológico do VIH/SIDA de 2006 que acaba de ser divulgado, apenas 10 por cento das pessoas infectadas pelo VIH conhecem o seu estatuto serológico.

A epidemia de SIDA é particularmente dramática em África, onde se estima que 2.8 milhões de pessoas foram infectados em 2006. Na África sub-sahariana, cerca de 59% dos infectados são mulheres, o que é extremamente preocupante de per se mas também porque menos de 10% das mães seropositivas têm acesso aos medicamentos que previnem a transmissão do VIH ao filho.

O aparecimento do vírus HIV forçou uma mudança sem precedentes na forma com a sexualidade é discutida na praça pública. Para uma prevenção eficaz desta epidemia, um dos maiores flagelos da história da humanidade, é obrigatório falar sobre sexo – e sobre os preservativos, a forma mais eficaz de deter o progresso das infecções -, obrigação que deveria ser assumida pelas entidades públicas especialmente a nível dos profissionais da saúde (públicos e privados) e educadores.

Mas as indispensáveis campanhas de informação têm sido boicotadas nos países em que os prosélitos de Deus detêm poder político já que estes se opõem tenaz e veementemente a todos os programas de educação sexual e sobre o uso de preservativo, contrapondo como alternativa as respectivas homilias de desinformação e mentiras grosseiras, nomeadamente as mentiras que especialmente a Igreja Católica dissemina sobre a ineficácia do execrado preservativo.

De facto, a condenação católica do uso de preservativos, «tanto como medida de planeamento familiar, como em programas de prevenção da SIDA», associada a campanhas de mentira deliberada sobre o seu uso, nomeadamente em África em que responsáveis locais, para além de organizarem orgias de fé queimando preservativos, asseveram que é o preservativo o culpado pela disseminação da SIDA, tem sido desde sempre alvo de críticas, inclusive da Organização Mundial de Saúde.

De facto, a Igreja Católica e o actual Papa em especial – enquanto Raztinger considerou inadmissível o uso de preservativos – condena o uso do preservativo como profilaxia da SIDA, ou seja, é contrária ao uso de preservativos (e qualquer método contraceptivo), mesmo no caso de casais em que um dos cônjuges está infectado com o HIV.

Decorreu esta semana em Roma a XXI Conferência Internacional do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, que decorreu em Roma, sob o tema «Os aspectos pastorais dos cuidados a ter com as doenças infecciosas». No item SIDA ficámos a saber que a «a Igreja tem 26,7% das unidades existentes específicas para o tratamento da Sida» – em África a percentagem é substancialmente maior -, isto é, que em mais de um quarto destas unidades, que deveriam não só tratar como informar, os infectados são desinformados e exortados a não usarem preservativos, garantindo a perpetuação da doença.

Apesar das esperanças dos católicos normais de que o documento de 200 páginas em análise na ex-Inquisição resulte no fim da proibição da Igreja do uso de preservativo por pessoas infectadas pelo vírus (o único ponto em análise), a análise do papado de Ratzinger – que há pouco mais de 2 meses criticou a sociedade ocidental por se preocupar e dispender fundos com minudências, como políticas de saúde ou de combate à exclusão social, em vez no que deveria ser realmente importante: a evangelização – permite-me prever que a Igreja Católica continuará, 25 anos depois do início do flagelo, «o maior obstáculo na luta contra o HIV/SIDA».

Para que os objectivos da ONU de erradicação da doença sejam cumpridos é imprescindível que todos, governos, crentes de boa vontade e não crentes, se empenhem em combater este obstáculo!

30 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

3.º Aniversário do Diário Ateísta

Há três anos que denunciamos a mentira, combatemos a prepotência e nos opomos aos crimes das religiões.

Tem sido um esforço colectivo bem sucedido.

Resistimos aos insultos piedosos, às ameaças dos beatos e às orações para que Deus nos castigue.

Perante a insignificância de Deus e a impotência dos seus devotos, o Diário Ateísta é hoje um baluarte na defesa do livre-pensamento.

Blogosfera, 30 de Novembro de 2006

30 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Símbolos católicos nas assembleias de voto

A Comissão Nacional de Eleições (CNE) vai apreciar em plenário no dia 5 de Dezembro o pedido da Associação Cívica República e Laicidade (ARL) que pede o cumprimento do artigo 133º da Lei Orgânica do Regime do Referendo que proíbe a existência de propaganda nos locais de voto, isto é, pede a proibição de símbolos religiosos nas assembleias de voto no referendo sobre o aborto.

No Correio da Manhã lê-se ainda que «O tema é delicado», não explicando o autor do artigo o que há de delicado em fazer cumprir a lei, a não ser, quiçá, a pecha da Igreja de Roma em considerar que está acima da lei!

De facto, a referida lei é explícita: «por propaganda entende-se também a exibição de símbolos (…) representativos de posições assumidas perante o referendo». A ICAR tem apregoado em todos os orgãos de comunicação social a sua posição pró-prisão pelo que não há quaisquer dúvidas na interpretação da lei. Podemos apenas esperar que essa seja também a conclusão da CNE!

tag

30 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Biologia Reprodutiva – Uma Nova Síntese

Um post simplesmente genial que parodia as barbaridades debitadas pelos neo-criacionistas bíblicos disfarçados de IDiotas a que cheguei via o que já todos sabem ser o meu blog de ciência favorito! Uma sátira às imbecilidades criacionistas cristãs mais bem conseguida ainda que a teoria da Queda Inteligente e a deometria ou matemática para crentes. Hilariante desde a primeira linha, com uma mui apropriada escolha dos nomes do autor e instituição:

Biologia Reprodutiva – Uma Nova Síntese
por M. A. Charlatan, M.S., Ph.D., D.Phil, M. Div
(Um artigo encomendado pelo Instituto Indescrítivel)

passando pelo resumo do artigo:

Resumo
As teorias normalmente aceites em ciência não são sujeitas a uma re-avaliação radical excepto em casos raros (ver Kuhn para uma discussão mais alargada). Nós no Instituto Indescritível acreditamos que é tempo para uma dessas mudanças radicais de paradigma no campo da Biologia Reprodutiva – nomeadamente contestando a noção que a reprodução (normalmente definida como a «produção de novos indíviduos» ou a «perpetuação de uma dada espécie») ocorre via mecanismos geralmente aceites como sejam a «fertilização de um óvulo por espermatozóides» e «36-38 semanas de gestação» que são descritas sob a teoria «Reprodução Sexuada». Dados os numerosos problemas inerentes à Teoria da Reprodução Sexuada propomos que teorias alternativas, tais como a Teoria da Cegonha, a Teoria do Campo de Couves (equivalente à Teoria do Vindo de França em Portugal) e a Hipótese Encontrado Debaixo de uma Ponte, merecem uma análise mais alargada e devem ser ensinadas como parte de qualquer curriculum de Biologia representativo ao nível do ensino secundário.

e terminando em glória não só nas conclusões mas especialmente nas notas de rodapé:

Conclusão
Vivemos tempos excitantes no campo da Biologia Reprodutiva. Estamos no limiar de uma grande revolução. As bases em que assenta a Teoria da Reprodução Sexuada estão a desmoronar. Daqui a 10 anos, a nossa perspectiva da reprodução humana pode ser radicalmente diferente. No entretanto não podemos deixar de admirar a magnificência do espírito humano – a grandeza das nossas mentes curiosas. Está na nossa natureza desafiar ideias ultrapassadas, ver o mundo com uma nova visão, despertarmos para a glória do Universo.

Footnotes:
1) O autor não tem algo a declarar. De momento não tem financiamento, mas tem três projectos pendentes, um no NIH (National Institutes of Health), outro no NSF (Nacional Science Foundation) e outro no Toys R Us. Perguntas sobre emprego, bolsas de postdoutoramento, etc. devem ser dirigidas ao Instituto Indescrítivel.
2) Este artigo foi encomendado pelo Instituto Indescrítivel (página em construção). Entretanto, por favor visitem a instituição análoga – o Discovery Institute cuja missão é similar à nossa mas no campo da Biologia Evolucionista (não Biologia Reprodutiva). No entanto, devemos avisar os nossos leitores que enquanto nós propomos três teorias alternativas falseáveis à Reprodução Sexuada, o Discovery Institute ainda não produziu uma sequer [na realidade já produziu uma, a Teoria dos Anjos e outras tretas].

O artigo é demasiado extenso para traduzir na sua totalidade mas há detalhes deliciosos que parodiam o que ululam os IDiotas em nome de um mito, mais especificamente que há um lobby «evolucionista» que impede não só que os «muitos problemas» com o evolucionismo sejam reconhecidos como é a razão de os seus delírios religiosos não serem publicados em revistas científicas, isto é, carpem supostas teorias da conspiração urdidas pelos «satânicos» darwinistas para impedir o progresso científico(?) da «teoria».

O Case Study de John Pellembell – professor associado de Biologia na Euphoric State University (Universidade do Estado Eufórico) correntemente a lítio – é absolutamente… divinal!

30 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

Vaticano, S. A.

O Vaticano é uma imobiliária com alvará, que vende apartamentos no Céu. O seu negócio não é só a religião. Vende pedaços de Paraíso, a pronto e a prestações, para uso pessoal ou com direito a albergar os descendentes.

Os preços variam de acordo com as necessidades de tesouraria do bairro das sotainas e a ansiedade dos crentes em fecharem o negócio da vida eterna.

Um marketing agressivo, feito pela negativa, conduz os mediadores, espalhados pelo mundo – bispos, padres, diáconos e clero regular -, a dizer mal da concorrência.

Os condomínios de Deus têm ar condicionado, vistas paradisíacas, música celestial com orquestra privativa de anjos, e felicidade perpétua garantida na apólice.

As habitações do Inferno estão degradadas e sujas, têm o Diabo por senhorio, cheiram a enxofre e não têm privacidade. Enquanto no Céu há piscinas de água benta, no Inferno há caldeirões, com azeite fervente, onde fazem sauna pedófilos e hereges, prostitutas e violadores, padres que partiram sem a santa unção e bispos dados à licenciosidade, sem tempo para remirem os pecados.

Quem quiser pagar missas, indulgências e outros géneros pios, compra a eternidade em nacos de felicidade com cheiro a incenso e banhos tépidos de água benta.

O Céu é uma delícia. Cara.

30 de Novembro, 2006 Ricardo Alves

Pior, é sempre possível

No actual debate sobre a despenalização do aborto, sabendo que há muito quem defenda que abortar até às 10 semanas deve dar pena de prisão, todavia aguardo ainda o momento em que alguém defenda que o uso da pílula do dia seguinte é homicídio.

Em Portugal, ainda não aconteceu. Mas, na Argentina, os bispos da ICAR local já defendem abertamente que «[se trata] (…) de um fármaco que atenta contra a vida humana, que a Constituição Nacional considera inviolável desde o momento da concepção». Já existindo portanto na galáxia católica quem defenda que usar a pílula do dia seguinte é assassínio, podemos confiar que algum católico português defenderá que existiram em Portugal, em 2005, 230 mil homicídios por ingestão de um comprimido. Este autêntico genocídio não resultou num único caso em tribunal…

(César das Neves, aceita a sugestão? Ou delega no Nuno Serras Pereira?)
29 de Novembro, 2006 jvasco

Mas porque é que eu faço isto!?

Num comentário a um post recente, o António Parente fez uma pergunta que merece mais que a breve resposta que dei:

«Se o Ludwig não exige que eu acredite em si porque tenta através de posts, da sátira e do humor corrosivo, da lógica aristotélica primária tentar provar que eu estou errado?»

Vejam o que esta pergunta faz: pede razões. Isto é fundamental no diálogo, e a única coisa que justifica chamarmo-nos «animal racional». Exigimos razões. Damos razões. Temos razões. E não podem ser razões quaisquer. Porque sim, porque me dá na gana, ou porque Odin mandou não justificam o que faço. Quanto muito, são razões para achar que não sou racional.

É difícil dizer o que são ou não razões adequadas em geral, mas no caso do diálogo é relativamente simples. As razões adequadas são as que os intervenientes aceitam. O cerne do diálogo é a procura destas razões comuns que permitem partilhar um raciocínio e concordar numa conclusão. Em ciência, por exemplo, o diálogo racional (com razões) transforma uma infinidade de hipóteses, modelos, opiniões, e especulações em descrições consensuais da realidade. O Bernardo Motta diz que isto é positivismo (não é), e propõe outra definição para realidade:

«O Metafísico, em última análise, é o domínio do real absoluto. E o real, como bem explicou Guénon, é o possível metafísico. O que é possível metafisicamente, é real metafisicamente (mesmo que fisicamente isso não seja notório ou nítido).»

A isto chamo mafaguinhos (referência ao tal post anterior). Cada um de nós tem as suas ideias, a sua visão do mundo, e estamos isolados nesta subjectividade. Mas temos em comum um conjunto de observações que partilhamos, e aos quais muitos chamam realidade. E é aí que estão as tais provas científicas, e é ai que encontramos a base para o diálogo e a compreensão mutua. Qualquer um pode definir a palavra realidade como quiser. É como os mafaguinhos. Mas o problema de encontrar bases comuns para o diálogo mantém-se. As razões, em última análise, temos que as ir buscar ás observações que partilhamos.

E nisto a fé é irracional, pois não precisa de razões e não aceita razões que a demovam. Dizer que a fé é uma faceta da razão é como dizer que a careca é um penteado, ou que estar morto é uma maneira de viver a vida. Se exigimos razões e estamos abertos às razões dos outros nunca podemos ter certezas absolutas, pois fica sempre alguma dúvida pela possibilidade de haver razões que desconhecemos.

E eis que finalmente chego à razão que o António me pediu. Eu faço isto porque acho que é da responsabilidade de todos dar e exigir razões. Razões assentes naquilo que temos em comum entre nós: o que observamos da realidade que nos rodeia. Ter fé, ter a certeza absoluta que Jesus ressuscitou, fechar-se às razões dos outros é bom para quem quiser viver sozinho numa gruta no deserto. Quem vota, tem filhos, participa nesta sociedade, usufrui do direito de pensar e de se expressar, e age de forma que afecta todos os outros tem a obrigação cívica de se manter aberto às razões.

E, praticando o que apregoo, fundamento esta razão numa observação: a certeza absoluta e infundada é um perigo para todos. É o factor comum na inquisição, nos actos de Pizarro, Hitler, Stalin, ou Pol Pot, nas cruzadas, na escravatura, na discriminação de crianças e mulheres, nos massacres no Rwanda, e muitos outros exemplos. Por outro lado a dúvida e a procura de razões estão por trás dos maiores avanços morais, filosóficos e científicos. De Sócrates a Bentham, de Tales a Rawls, de Arquimedes a Heisenberg, é evidente o bem que trouxe a todos esta abordagem de testar e assentar ideias na realidade que partilhamos.

Todos fazemos coisas boas e coisas más. Mas para fazer coisas terríveis é preciso estar absolutamente convicto do que se faz, e para fazer coisas excelentes é preciso estar sempre preparado para mudar e melhorar.

——————————–[Ludwig Krippahl]