«A Santa Sé revelou ontem, dia 14, que a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) propôs à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), fundada por D. Marcel Lefèbvre (1905-1991), a criação de uma prelatura pessoal.»
Desde sempre que a Santam Unam Catolicam Apostolicam Igrejam (SUCAI – seja-me perdoado o sotaque – se tem batido incansavelmente pela conquista da paz e, principalmente, pelas boas relações inter-religiosas. O seu esforço levou-a, inclusivamente, a pegar em armas para atingir o desiderato. Só que, ultimamente, a SUCAI tem andado assim a modos que nem lá vou nem faço minga, palmilhando os ínvios caminhos do “nim”. Principalmente desde que a Santa Inquisição entrou em “lock-out”. Ou hibernação, quem sabe…?
Pois bem, parece que a SUCAI voltou a desenterrar os seus pergaminhos, e regressou ao caminho da conquista da paz e da concórdia. Desta vez sem armas, mas com um toque de modernidade: através do franchising. Para já, começou com a FSSPX, o que se louva e aplaude com ambas as mãos, mas seria boa ideia alargar os seus horizontes. Ou seja, a SUCAI (ICAR, para os amigos) poderia estender a sua mão abençoada a religiões que adoram outros deuses. Por exemplo, um islâmico quer fazer uma das cinco orações diárias e não tem nenhuma mesquita ali à mão de semear; pois bem, a igreja mais próxima disponibilizar-lhe-ia não só uma esteira, mas também uma bússola devidamente orientada para Meca. Por uma questão de economia, a bússola poderia ser substituída por uma seta pintada no chão. Claro que o islâmico teria de ignorar a bonecada que enfeita os altares, mas isso só demonstraria a sua boa-vontade e tolerância. Desde logo, o pessoal começava a pensar duas vezes antes se fazer rebentar e fazer rebentar os outros, porque começava a pensar que, se calhar, os outros até não eram tão maus como isso. Depois, até podia ser – quem sabe? – que eles começassem a deixar os cristãos – católicos ou nem por isso – fazer as suas orações nas mesquitas, que até não são utilizadas ao domingo. Não viria grande mal ao mundo se realizassem umas missas na mesquita de Al-Acsa, por exemplo… Desde que não fosse à 6ª feira, claro.
Mas a ICAR (a.k.a SUCAI) até podia ir mais longe: como grande parte da comunidade muçulmana tem dificuldades em fazer a peregrinação obrigatória a Meca, a ICAR podia estabelecer protocolos de modo a considerar Fátima como local de peregrinação opcional e com a mesma força jurídico-religiosa. Isto, claro, para os islâmicos que residam em Portugal e no norte de África. Seria uma questão de fazer as pesquisas necessárias para para ver qual a melhor opção, em termos financeiros, isto é, a melhor relação distância-qualidade-preço. A gerência do santuário se Fátima, numa demonstração de boa-vontade, até podia mandar construir uma Ka’bah, com o dinheiro que sobejou da nova basílica. A Hajar el Aswad poderia, perfeitamente, ser dispensada, porque o importante é o simbolismo.
Finalmente, e uma vez por ano, muçulmanos e cristãos – fossem católicos ou nem por isso – reunir-se-iam num mega pic-nic, mas sem porcos, que era para não ofender os nossos irmãos mouros, e sem o Toni Carreira, para não ofender os nossos irmãos inteligentes e cultos.
Numa segunda fase, alargar-se-iam estas medidas aos judeus, hindus, etc.
Enfim, uma ideia a considerar pela ICAR, e pela qual não levo um tusto..
Segundo a comunicação social, o “mega pic-nic“, que contou com o inefável Tony Carreira, agregou cerca de 500.000 (quinhentas mil) pessoas.
Não sei quantos peregrinos estiveram em Fátima, no 13 de Maio de 2012, mas eram esperados 300.000 (trezentos mil) um número superior ao verificado nos últimos anos.
Será que o Tony Carreira vende mais que a senhora de Fátima? Ou será o Continente (passe a publicidade) que tem melhor estratégia de marketing?
Em Espanha foram traficados 300.000 bebés no último meio século.
Num post intitulado “Ódio Ateísta”, o Ricardo Pinho escreve que «O Diário Ateísta é poluição intelectual; um desperdício de energia eléctrica; uma tasca de asco e cuspo.»(1) E assim por diante. Apesar de me parecer uma generalização precipitada, concordo parcialmente com esta avaliação. Há coisas no Diário Ateísta que também me desagradam, que não publicaria em meu nome ou que não me interessa ler. No entanto, parece-me que o Ricardo erra, muito, na extrapolação que faz a partir deste juízo subjectivo.
Escreve o Ricardo que quando fundou o site ateismo.net, «O objectivo principal era […] «a despreconceitualização do ateísmo» mas que «Passados estes anos todos, é ele próprio um antro de preconceito.» Dá a ideia de que as coisas corriam bem quando o Diário Ateísta tinha uma política editorial rígida e agora, que cada um escreve como entende, ficou muito pior. Não é verdade. Eu também participei no DA há uns anos e o problema era, fundamentalmente, o mesmo. Também nessa altura havia muita coisa no DA que não me agradava. O que era de esperar. Afinal, a única coisa que os ateus têm garantidamente em comum é não acreditar que existam deuses. No resto, do sentido de humor à orientação política, discordam tanto quanto quaisquer outros. Além disso, o sistema antigo tinha a agravante de impor a todos os preconceitos de alguns. Por exemplo, havia uma regra que proibia posts em resposta a textos de outros blogs, o que sempre achei um disparate. E acabei por sair daquela encarnação do DA quando me rejeitaram um post sobre o aborto por o considerarem ofensivo, voltando só depois de decidirem deixar cada texto a cargo do seu autor. Agora, pelo menos, os preconceitos de cada um determinam apenas a sua escrita e não obrigam os outros.
O Ricardo pergunta «Qual é a estratégia, qual é o objectivo disto tudo?», referindo-se aos insultos aos crentes religiosos. A resposta está no próprio texto do Ricardo. Quando escreve que o DA é «uma tasca de asco e cuspo» e «voz histérica da parolice ateísta» também não parece ter estratégia ou objectivo além de dizer o que pensa. Mas isso, afinal, é o mais importante. O maior valor da liberdade de expressão não é instrumental. É intrínseco. Vale por si. Seja disparate ou revelação profunda, o mais importante é poder dizê-lo. Se quiséssemos garantir que todos os textos tivessem “estratégia e objectivo” teria de haver alguém a impor estratégia e objectivo aos outros, e esse seria um problema muito maior.
Mas o pior erro é esta coisa do “ódio”: «Ainda pensei que se poderia salvar esta página mudando-lhe o nome para Tasca Ateísta, mas até numa tasca há coisas boas. Mais acertado seria chamar-lhe Ódio Ateísta. [… houve] uma densificação da massa vil: e os odiosos acabaram por gravitar para onde há outros odiosos.» O ódio é um sentimento forte que implica querer mal ao outro. Pode-se inferir que sente algum ódio quem acredita que os ateus merecem uma eternidade no inferno ou que os terremotos são um castigo pela homossexualidade. Mas não se pode concluir que alguém odeia só porque goza ou escarnece de algo. Nem mesmo que diga dos outros que o que escrevem é «é poluição intelectual; um desperdício de energia eléctrica; uma tasca de asco e cuspo.» Quando leio o texto do Ricardo percebo que quer ser duro na crítica mas não concluo que odeia as pessoas de quem fala. Seria uma conclusão injusta e injustificada.
O Ricardo confunde duas coisas muito diferentes. A liberdade de expressão, que tem valor mesmo quando ofende, e o ódio de quem deseja mal aos outros pelo que pensam ou são. É uma confusão infeliz, especialmente neste contexto, porque aquilo que o Ricardo chama “ódio ateísta” são manifestações contra o ódio. O ódio religioso. Algumas podem expressar desprezo, outras podem ser de mau gosto, escárnio ou insulto, mas nenhuma defende que os crentes merecem o tormento eterno por acreditar no que acreditam. No ateísmo que o Ricardo rotula de odioso não há nada equivalente ao ódio que tantos religiosos manifestam contra os homossexuais, contra as mulheres, contra os apóstatas e ateus. Esta é uma diferença fundamental entre o ateísmo e as religiões. Os ateus não o são por obrigação, recompensa ou medo de castigo. Como tal, não consideram que os outros tenham obrigação de ser ateus ou que mereçam castigo se não forem. Mas a ideia da crença religiosa como uma virtude e obrigação moral trespassa praticamente todas as religiões. Isto leva as instituições religiosas a defender o ódio, no sentido muito específico de desejar o mal a quem não partilhar a crença certa. Segundo a doutrina cristã, por exemplo, eu mereço o inferno por achar que Jesus não tinha nada de divino e que o Espírito Santo é tão fictício como a Carochinha. É isto que sugere ódio.
Para concluir, queria apontar duas coisas ao Ricardo. Primeiro, a diferença entre as sociedades que toleram a «poluição intelectual», o «asco e cuspo» e a «parolice ateísta» e as outras sociedades onde as religiões têm mais poder. Dizer mal de Maomé é muito menos odioso do que apanhar dez anos de cadeia por isso (2). E, em segundo lugar, que temos de defender constantemente os nossos direitos para evitar perdê-los. Confundir a liberdade de expressão com o ódio é meio caminho andado para a censura religiosa, leis anti-blasfémia e outras expressões do ódio que motiva as religiões a condenar todos os que rejeitem a doutrina.
1- Ricardo Pinho, Ódio ateísta.
2- The Blaze, Man Gets 10 Years in Kuwaiti Prison for Allegedly Sending Anti-Prophet Mohammad Tweets
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