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Carlos Esperança

21 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

Islão e democracia

Em sociedades em que a religião é obrigatória o condicionamento da opinião pública começa na infância pela manipulação das crianças e pela fanatização que conduz ao martírio e ao crime.

O Islão de hoje não é diferente do catolicismo medieval mas este, graças à descoberta da cultura helénica e do direito romano, encontrou forças para usar a razão e contestar a fé, para fazer a Reforma e retirar ao Papa o poder temporal.

O direito divino, como origem do poder, foi substituído pela legitimidade democrática e a secularização tornou as sociedades abertas, tolerantes e plurais. A fé foi remetida para esfera privada e as convulsões surgem quando os crentes pretendem fazer proselitismo através do aparelho de Estado.

Hoje, é o protestantismo evangélico que lidera o fundamentalismo cristão nos EUA, em clara violação da Constituição e da vontade dos seus fundadores. A Igreja Ortodoxa tem dificuldade em aceitar a separação do Estado e tem uma exegese de pendor francamente reaccionário.

Mas é no Islão que os constrangimentos sociais e a violência clerical empurra os crentes para a irracionalidade da fé e a aceitação acrítica do Corão. Como há muito desistiram de questionar o que o clero diz que o Profeta disse e quer, há um permanente conflito com a modernidade e uma violência incompatível com a civilização.

A laicidade que libertou o Ocidente da tutela clerical é impensável onde o clero islâmico tem o poder absoluto no campo económico, político, militar, assistencial e ideológico.

Tal como durante a inquisição era impossível contestar a autoridade do Papa e o seu poder, também nas teocracias islâmicas é impossível discutir a desigualdade da mulher, o adultério, a poligamia, o repúdio, a guerra santa e o pluralismo.

As religiões são, por natureza, totalitárias e avessas à modernidade. Ao atribuírem aos livros sagrados a vontade literal de Deus ditada a um eleito como versão definitiva, acaba com a discussão e com a vida do réprobo enquanto a separação entre a Igreja e o estado se não afirmar.

É esse passo que parece estar cada vez mais longe nas teocracias islâmicas e que propicia o confronto entre a fé e a modernidade.

Contrariamente ao que têm afirmado os bispos católicos os árabes não temem a liberdade religiosa que, segundo sondagens, é o que mais apreciam no Ocidente. São os clérigos que se assustam com a possibilidade de verem os seus crentes a renunciar à fé.

A liberdade, a democracia e, sobretudo, a perda de direitos sobre a mulher, assusta-os. É por isso que não renunciam à sharia, que não dispensam uma boa decapitação a quem renuncie à fé, uma alegre lapidação à mulher adúltera e uma divertida amputação para quem roube.

O que está em curso é uma luta desesperada contra a modernidade por uma civilização falhada.

Publicado também no Ponte Europa.

19 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

Bento XVI e o Imperador Hirohito

O imperador Hirohito, em 1945, coagido pelo general Mc Arthur, teve de dizer aos japoneses que não era Deus, o que levou ao suicídio de muitos que ficaram desolados.

Também Bento XVI, a reboque dos acontecimentos, acabou a negar a infalibilidade papal em que os mais devotos acreditavam.

19 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

O Papa e o Islão

O Papa Rätzinger, mentor ideológico do seu antecessor, é ainda mais conservador, com um pensamento mais estruturado e uma agenda mais apressada.

Frio, inteligente e calculista não podia ignorar o imenso alarido que provocariam as suas palavras, descontadas as proporções, impossíveis de quantificar previamente.

Bento XVI é a réplica católica do protestantismo evangélico neoconservador dos EUA e, salvas as devidas proporções, o expoente máximo da postura homóloga dos próceres do Islão. Não foi por acaso que chamou Constantinopla à actual cidade de Istambul.

Condena o relativismo, não se conformando com o pluralismo. Combate a laicidade e interfere de forma vigorosa nos países de tradição católica para obstar às leis que regulam o aborto, o divórcio, a eutanásia, a contracepção ou o planeamento familiar.

O Papa não é apenas o ideólogo do teoconservadorismo, é agente do combate obstinado à modernidade e arauto do regresso ao concílio de Trento. Críticas acerbas ao budismo e ao hinduísmo, a cruzada contra o laicismo e o combate ao evolucionismo, que considera uma ideologia, fazem de B16 o mais obsoleto hierarca do cristianismo. Da teologia à política, da moral à economia e da ciência à religião, Bento XVI situa-se sempre no campo conservador mais duro, aliando um proselitismo exacerbado e uma inflexibilidade teológica.

A expansão do islamismo na sua forma mais arcaica, com laivos de demência fascista, assusta este Papa que vê os feudos tradicionais em rápida secularização numa Europa que deixou de acreditar em verdades únicas e que mais facilmente se envolve na luta de classes do que em querelas da fé.

Foi a inquietação que, na minha opinião, o precipitou para o confronto. Do outro lado disseram-lhe que o Islão era pacífico, assassinando uma freira, perseguindo cristãos e incendiando igrejas. A intolerância não é monopólio de uma religião, é a tradição ancestral das três irmãs abraâmicas.

O seu grande objectivo foi colocar-se na vanguarda do combate ao terrorismo, urgente e necessário, para reivindicar para o Vaticano os louros de uma vitória sabendo que, em caso de derrota, a democracia e a liberdade morreriam e o cristianismo não sobreviveria.

O conflito entre o Papa e o Islão não nasceu das divergências, surgiu das afinidades.

Publicado também no Ponte Europa.

18 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

Bento XVI – terrorista tímido

O Papa Rätzinger, que teve o apoio do Espírito Santo no conclave que o fez papa, o entusiasmo do Opus Dei que temia a despromoção da prelatura e as orações dos beatos para quem um papa qualquer é sempre santo, não teve quem lhe revisse o discurso, o avisasse das consequências e o prevenisse dos seus próprios demónios.

Todos os que não estão toldados pela hóstia ou em estado cataléptico com incenso e orações, sabem que os livros sagrados são manuais de ódio ao serviço das rivalidades étnicas e velhas convulsões tribais, guardados e aproveitados pela clericanalha para uma vida de fausto e ociosidade.

Não há fanatismo maior nem violência mais truculenta do que a que brota dos livros sagrados e dos santos doutores que os interpretam e promovem como bons.

A Irmã Lúcia, tão chegada a JP2, abandonou B16. Surpreende que quem previu o fim da guerra e o tiro na batina do papa polaco, não tenha reparado, nas suas premonições, no tiro no pé do pastor alemão.

Santo Escrivá a quem a ICAR esqueceu o mau feitio, o apoio a Franco e a irascibilidade a troco dos fartos cabedais que o taumaturgo canalizou em vida para o Vaticano, não fez o milagre de desligar o microfone da universidade onde o Papa bolçou o ódio de um imperador cristão à mourama como os mullahs soem fazer com o rancor do pastor de camelos.

Em vez da laicidade que nos salve do belicismo religioso, é o proselitismo que renasce numa espiral de ódio de um tira-teimas sobre qual é o Deus melhor.

Sob o cadáver de um mito, milhões de seres humanos estão em risco de se transformarem precocemente em cadáveres.

16 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

Em defesa do Papa B16

A revolta muçulmana contra Bento XVI apossou-se dos países islâmicos tendo como pretexto um discurso papal na Universidade de Ratisbona no sul da Alemanha.

O Papa, que conhece bem a intolerância da sua própria Igreja, citou um diálogo entre o Imperador bizantino Manuel II Paleólogo (1391) e um erudito persa em que o primeiro pedia ao segundo que lhe desse um exemplo de algo de novo que o mundo devesse a Maomé e que só encontraria coisas «más e desumanas» como a «ordem de expandir com a espada a fé que ele pregava».

O Papa acrescentou ainda que a jihad contraria Deus e considerou irracional defender a fé com violência, como se essa não fosse prática habitual das religiões, incluindo a sua.

Logo uma legião de clérigos ululou no Egipto, Irão, Paquistão e Iraque. Que as palavras do Papa «incitam ao terrorismo» – dizem os líderes sunitas, que desconhece a «tolerante religião islâmica» verberam os Ayatollahs do Irão.

E a verdade é que o Papa tem razão. Por mais que agora levante o vestidinho e mostre os sapatinhos vermelhos e as meias a condizer, disse o óbvio ululante. Aliás, os Papas seus antecessores, igualmente santos, pregaram a guerra, «numa das mãos a espada e na outra a cruz», como ora fazem os terroristas dos vários credos, com particular regozijo do Islão, e, de forma mais subtil, os bispos na luta contra a laicidade e o ateísmo.

É uma evidência que o proselitismo anima a clericanalha de um lado e outro. O sangue é o alimento predilecto do Deus de qualquer deles. O martírio é a demência com melhor cotação na bolsa de valores do Paraíso. «Crês ou morres» é a divisa criada pela ambição demencial dos beatos das religiões do livro.

Não se percebe a onda de indignação. É mais um número equivalente ao das caricaturas do boçal pastor de camelos. Da parte do Papa apenas os métodos são mais suaves após a desconfiança e desprezo a que o votaram as sociedades secularizadas.

Mas não se pense que a violência é exclusiva de uma religião particular, é o ópio que anima as multidões de crentes fanatizados na infância pela clericanalha ao serviço de um Deus qualquer para que os homens vivam de rastos e morram de joelhos.

O que está em causa é a liberdade de expressão, independentemente da luta que a clericanalha cristã e islâmica travam pela hegemonia no mercado da fé.

É essa liberdade que o laicismo assegura e que tem de ser defendida.

14 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

REPÚBLICA e LAICIDADE – associação cívica

COMUNICADO

É com a maior preocupação que a associação cívica República e Laicidade (R&L) regista aqui o facto grave de, uma vez mais, o princípio da não confessionalidade das cerimónias oficiais do Estado ter sido violado.

Desta vez, a situação ocorreu, no passado dia12, numa freguesia rural do Concelho de Faro, durante o acto oficial de inauguração de uma nova escola pública: a cerimónia, presidida pelo Primeiro Ministro da República e onde, entre outras individualidades oficiais, também participou a Ministra da Educação, envolveu a bênção católica das instalações (cf. reportagem nos noticiários da SIC).

Este facto é tanto mais grave quanto é recente a criação da legislação que esclarece os termos, assumidamente não confessionais, por que se deve reger o protocolo do Estado ? uma legislação que surgiu, aliás, na sequência de um reparo da associação R&L ? e ainda pelo facto de ser o próprio Governo da República, ao seu mais alto nível, a vir dar ao país um péssimo exemplo da sua não aplicação.

14/set/2006 Luis Mateus (presidente) Ricardo Alves (secretário)

14 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

O Papa e o Deus católico

O Papa B16 farta-se de dizer que as pessoas, particularmente na Europa, andam surdas à voz de Deus. Para além de ele falar demasiado baixo e se ter remetido à clandestinidade, não falta ao Papa a vontade de castigar os ímpios, punir a blasfémia e extinguir os que defendem a laicidade.

De forma velada condena o Islão mas enaltece-lhe o ódio ao laicismo. Quer disputar-lhe o mercado mas aproveita para ameaçar os países democráticos com o islão que – diz o Sapatinhos Vermelhos -, teme a indiferença religiosa do Ocidente. E acrescenta que «há muitos povos de religião islâmica que podem viver estes sentimentos perante o laicismo e a secularização do Ocidente», virtudes que B16 igualmente abomina.

Enquanto, às claras, usa a linguagem dúbia e hipócrita, de forma discreta influencia os políticos que se ajoelham e põem de rastos perante o último ditador vitalício europeu.

Durão Barroso, católico assumido (certamente iniciado durante a fase maoista) nomeou – segundo um pio escriba do Diário as Beiras, de 12/09 -, uma enorme porção de beatos para os grupos de trabalho de Biologia e Genética, Direito e Ciências Sociais, Filosofia e Teologia, Ética e novas Tecnologias.

Não se percebe para que quer a União Europeia um grupo de trabalho para a Teologia, a menos que esteja a decorrer um ensaio duplo-cego para saber qual é o Deus verdadeiro.

O que assusta, depois da insistência em Rocco Buttiglione para comissário europeu, é a quantidade de católicos fundamentalistas que D. Barroso nomeou para estas comissões.

Os mais tenebrosos e devotados saprófitas do Vaticano são: Carlos Casini, presidente do Movimento Pró Vida italiano e membro da Academia Pontifícia «Provita», um polaco, chefe do departamento de ética da Faculdade de Medicina da Universidade de Dublin, o eslovaco Josef Glasa da Universidade de Bratislava e a teóloga alemã Hill Haker professora de filosofia moral da Faculdade de Frankfurt.

Deus dorme mas o Papa existe. Para desgraça dos homens e mulheres livres.

13 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

Timor – Igreja católica abriu Caixa de Pandora

Timor-Leste: PM Ramos Horta ameaça com demissão se persistir a instabilidade

Díli, 13 Set (Lusa) – O primeiro-ministro timorense, José Ramos Horta ameaçou hoje que se demitiria do cargo, para que foi empossado no passado dia 10 de Julho, caso persista a instabilidade no país.

O padre Domingos Soares, defendeu a intromissão da Igreja católica na política, numa missa celebrada em Gleno, ontem, «pelas almas dos que já tombaram e também por aqueles que estão agora a lutar pela verdade e pela justiça», de entre os quais destacou o major Alfredo Reinaldo – lê-se no Diário as Beiras, de hoje (sítio disponível).

De destacar que o referido militar anda foragido e é acusado de assassínio, sedição e outros crimes.

A iniciativa da realização da missa partiu da Frente Nacional para a Justiça e Paz (FNJP), a organização responsável pelas manifestações em Díli que contribuíram para derrubar Mari Alkatiri.