28 de Maio, 2007 Carlos Esperança
Em desespero há quem vá à bruxa
Chamem-me anticlerical, jacobino e carbonáro; acusem-me de mal-formado, herege e ateu; apelidem-me de mata-frades, frustrado e blasfemo. Não, não posso consentir que, em nome da tradição e da vontade divina metade da humanidade possa subjugar a outra metade.
A violência contra as mulheres é a cobarde perversidade de quem se habituou a dominar os meios de produção, a soberba de quem pretende usar a força contra a razão, a crueza de quem julga que a tradição lhe dá direitos e lhe confere poderes em função do género.
É preciso que a demência e a brutalidade do homem primitivo permaneçam na caverna dos hábitos e nas páginas misóginas dos livros sagrados para que o filho julgue inferior a mãe, o irmão se sinta superior à irmã e o homem com primazia sobre a mulher.
Deixem os clérigos reivindicar a ordem natural e outras estultícias, os cavernícolas uivarem de raiva e os conservadores rangerem os dentes em desespero. Não há justiça sem igualdade entre homens e mulheres, não há liberdade à custa da servidão de outrem nem felicidade que se construa na humilhação e sofrimento alheios.
A violência doméstica, quase sempre do homem sobre a mulher, é a tragédia silenciosa que se oculta dos filhos e dos vizinhos, que a lei até há pouco ignorava, a condenação à morte e impunidade com a desculpa dos costumes, dos exemplos e da vontade divina.
Ninguém é digno de respeito se o não souber merecer. A violência vertida nas páginas dos livros santos e na exegese dos teólogos que ensinam a agredir mulheres sem deixar marcas, ou que torturam, esfacelam e matam porque é um direito que lhes assiste, é uma nódoa incompatível com a civilização e a democracia, intolerável nos herdeiros do iluminismo e da Revolução Francesa.
As Igrejas não são associações éticas e de solidariedade social, são bandos organizados para a conquista do poder. Actuam junto dos incautos para os convencer da bondade do seu Deus e, no interior do aparelho de Estado, para convencerem os que o dominam das vantagens da colaboração recíproca.
O clero duvida do dogma mas crê na eficácia de o fazer aceitar. As religiões lembraram-se de embirrar com a carne de porco como podiam ter antipatizado com as coxas de rã. Inventaram a hóstia de pão ázimo porque ignoravam o chocolate e as bolachas e porque eram mais baratas. Os sacramentos são a arreata da fé e a confissão a arma de domínio das consciências e da espionagem.
A fragilidade dos crentes é explorada até à exaustão. A morte, a doença e a angústia são o terreno fértil para a sementeira de Deus.
Vejamos o caso da família inglesa McCann e do desaparecimento da filha Madeleine, de quatro anos. A tragédia da criança, o sofrimento dos pais e a ansiedade colectiva, que a comunicação social se encarrega de estimular, deu origem à mais vasta operação de manipulação religiosa dos últimos tempos.
Hoje são as crianças da praia da Luz que se mobilizam para o terço, ontem foram os pais que se deslocaram a Fátima em oração privada, acompanhados de um batalhão de fotógrafos, operadores de câmara e jornalistas. Já lá vão 21 dias de orações, missas e novenas numa operação de proselitismo e encenação religiosa a raiar o obsceno.
Se em vez de uma criança loira, de pais da classe alta, estivessem em causa as crianças da América Latina, onde – segundo B16 – o cristianismo entrou de forma pacífica, nem uma só ave-maria tinha sido gasta. E todos os dias são aí raptadas e vendidas crianças.
Eis a hipocrisia e o oportunismo da ICAR.
A dimensão das asneiras prova a infalibilidade. O ridículo dos milagres atesta a origem divina. O autoritarismo do Sapatinhos Vermelhos prova que o Espírito Santo disse aos cardeais em quem deviam votar.
Na ICAR o Espírito Santo tem sido abandonado nas orações e no respeito. Deixaram de lhe fazer festas, endossar pedidos e dirigir orações. Até a iconografia sacra o ignora.
A pomba caiu em desgraça. Foi ela que avisou Maria da gravidez indesejada. A Virgem, na sua divina ignorância, acreditava no método das temperaturas e, para preservar a fé, que é um dom do Espírito Santo, este voou até à Terra para a avisar da prenhez.
Mas a Igreja é como as mercearias. Desfazem-se dos monos e lançam no contentor do lixo os géneros avariados. Foi o que aconteceu ao Espírito Santo, sem devotos, preces, aparições ou festas litúrgicas.
Hoje, vale mais uma santinha de Balazar que passa anos sem comer, nem beber e em anúria, factos que o Papa JP2 confirmou, do que o Espírito Santo, apesar da linhagem aristocrática das velhas religiões donde o importaram e dos recados que fazia a Jeová.
Com o andar dos tempos restam os santos autóctones de que a ICAR já fez stock e umas Virgens de origem duvidosa e pouco dadas a milagres, para entreter os crentes e nutrir o clero.
Deus é cada vez mais uma referência exótica com reles cotação na bolsa de valores da superstição. O latim ainda vai alimentar o Vaticano e restituir o brilho às missas.
Quando o Papa Rätzinger condenou a publicação das caricaturas de Maomé não foi por respeito ao rude pastor de camelos, foi por genuína aversão à liberdade de expressão.
O Index Librorum Prohibitorum do Vaticano foi abolido em 1966 mas persistem a vocação censória, os tiques autoritários e o horror à liberdade. Foi o desprezo da sociedade que fez a ICAR desistir da censura, não foi a conversão à democracia.
O documentário da BBC, «Crimes sexuais e o Vaticano», com o prestígio e rigor de que goza a estação inglesa, está em vias de ser censurado em Itália.
Mario Landolfi, presidente da comissão parlamentar que supervisiona a RAI, pediu ao diretor-geral da emissora, Cláudio Cappon, que não autorize a transmissão.
A liberdade, a apostasia, a blasfémia e a carne de porco são obsessões das religiões do livro. Merecem-lhe um ódio profundo.
Lê-se a homilia de João César das Neves (JCN) às segundas-feiras no Diário de Notícias e fica a dúvida se é penitência do confessor, pela gravidade dos pecados, ou a deriva prosélita de um talibã apostólico romano.
JCN, na homilia de hoje, afirma que «o Iluminismo foi o único movimento cultural mundial que tentou fundar uma seita ateia e anti-religiosa». Esta afirmação não reflecte apenas miopia, revela ignorância e maldade. No fundo, é a nostalgia da Idade Média, das monarquias absolutas e do poder clerical.
JCN, na sua beata alienação começa por atribuir ao Iluminismo a responsabilidade pela Guilhotina e o Goulag – o que é uma mentira grosseira -, mantendo um silêncio pio sobre as fogueiras do Santo Ofício que foram um facto incontroverso.
Perturbado com a investigação histórica e com os novos avanços da arqueologia, JCN debita algumas inanidades e acaba por execrar os livros adversos fazendo uma boa selecção das publicações recentes: «The God Delusion do cientista britânico Richard Dawkins (Bantam Books, Setembro 2006); God Is Not Great: How Religion Poisons Everything, de Christopher Hitchens (Twelve, Maio de 2007) e a recente tradução portuguesa de The End of Faith: Religion, Terror, and the Future of Reason, de Sam Harris (W.W. Norton, 2004; Tinta da China, 2007).
E acaba, naturalmente, a considerar que «No meio da confusão, um livro marca a época: Jesus de Nazaré (Esfera dos Livros, Maio 2007), do Papa Bento XVI».
Nem outra coisa era de esperar.
Vale a pena ler a homilia completa. Faz pior à fé o fundamentalismo de um crente exaltado do que o livre-pensamento.
O Vaticano não é apenas um Estado pária, é uma teocracia que se julga depositária da vontade divina e exibe a arrogância de quem nunca tem dúvidas e não se engana.
O Vaticano lamenta a não adopção de Declaração de direitos indígenas quando os seus padres foram os mais ferozes devastadores da sua cultura, e dos próprios indígenas, cuja evangelização era forçada para os que resistiram à varíola, à fome e à escravatura.
A intolerância, o ódio à diferença e o proselitismo são apanágio das religiões, em geral, e do catolicismo, em particular. Como pode a ICAR arrogar-se a defesa da liberdade e dos direitos de quem quer que seja?
Evo Morales vai pedir explicações ao Vaticano sobre afirmações do Papa, no Brasil, a respeito de Governos autoritários. A Bolívia não é um exemplo de tolerância mas, em comparação com o Vaticano, é uma democracia avançada.
Quando B16 afirmou, no Brasil, que a evangelização da América Latina foi pacífica referia-se certamente à paz dos cemitérios e provocou uma onda de indignação pelo desplante de não reconhecer o processo sangrento que marcou a evangelização na América Latina.
Hoje, o conhecimento da história está ao alcance de muitos e a mentira sobre factos é mais fácil de rebater do que o embuste sobre Deus. No tribunal da História B16 será julgado pela sua obsessão em rever a história e absolver dos crimes o passado da sua Igreja.
Naquele tempo, Adão e Eva, fartos de castidade e do Paraíso, emigraram para longe de Deus e dos preconceitos, dos anjos e dos seus ridículos ademanes, da fauna celeste e da subserviência ao patrão.
Calculo o que Adão terá dito a Eva quando, em êxtase, lhe confessava: «Aquela besta disse que éramos feitos de barro para não darmos largas à paixão, para não termos em vista outros fins além da procriação e não nos mexermos com medo de nos quebrarmos.
E, no intervalo da recreação, enquanto comiam amoras silvestres, diziam mal daquele celibatário que recalcava os impulsos e começou a fazer o catálogo dos pecados.
Adão e Eva folgaram e foram fiéis até crescerem os rebentos e a promiscuidade tomar o lugar da moral. Como viveram centenas de anos e sempre férteis, foram muitos os filhos que fizeram em união de facto, por falta de padre que os casasse e de água benta que os aspergisse.
Há quem garanta que Adão e Eva eram ateus: não rezavam nem iam em peregrinação a Fátima. Eram nudistas e não rezavam o terço. Não iam às procissões e nunca pagaram o dízimo.
Como não foram baptizados deviam estar no Limbo mas agora, como foi encerrado, vai ser uma dificuldade dos diabos transportar os utentes para o Paraíso com a comunicação social à espera de entrevistar Deus.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.