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Carlos Esperança

13 de Março, 2009 Carlos Esperança

Beato Carlos Encarnação e a toponímia

Já bastava a Coimbra que o pio edil Carlos Encarnação, desnorteado pela fé, tivesse crismado a Ponte Europa com o nome de uma rainha milagreira e santa, sobrinha-neta de outra, também Isabel e santa, húngara e pioneira no mesmo milagre.

A dificuldade da administração autárquica virou-o para a gestão toponímica. Rua a rua, beco a beco, onde pensa que arranca um voto, atira um nome novo à placa toponímica. É uma forma de conquistar votos à custa das paredes das casas e das ruas de Coimbra.

Nem a Irmã Lúcia poupou à fúria com que crisma piamente as artérias da cidade. Não deu, sequer, tempo à freira para se afirmar no ramo dos milagres, para a deixar prestar provas de beata e santa, arriscando-se a tornar obsoleta a placa onde a bem-aventurada ostenta, provisoriamente, apenas a profissão, o nome e, entre parêntesis, o hobby: «Rua Irmã Lúcia (Vidente de Fátima)».

Talvez para fazer o desmame da água benta e uma curta trégua ao incenso, resolveu agora o bem-aventurado Carlos Encarnação optar por um nome profano e dar folga à onda de santidade a que tem o nome associado. É o caso da Rua Maria José Maurício, ontem prometida aos microfones do Rádio Clube português.

Para os leitores do Ponte Europa aqui fica a biografia da homenageada: Era estudante de engenharia, tinha 20 anos e foi assassinada, por motivos passionais, num acto de demência, pelo antigo namorado.

Segundo Carlos Encarnação «A atribuição do nome da rua é, no fundo, uma forma de repercutir a reprovação destes actos».

Se os nomes das ruas servem para reprovar actos, só por modéstia se compreende que o Dr. Carlos Encarnação não tenha entrado ainda no património toponímico da cidade de Coimbra.

12 de Março, 2009 Carlos Esperança

Brasil – Aborto e excomunhão

Não está provado que o mau olhado de uma mulher de virtude seja menos danoso para a alma do que o anátema de um virtuoso bispo católico, mas sabe-se do terror que infunde num país supersticioso a fúria de um prelado que tem alvará para excomunhões.

Quando um bispo defende que uma criança de nove anos, violada pelo padrasto, grávida de gémeos, deve prosseguir a gravidez, arriscando a vida, diz apenas uma tolice, danosa para a inteligência e benéfica para a alma. Mas se esse prelado, desvairado pela fé, tudo faz para arriscar a vida da menina e sujeitá-la à morte é um velhaco.

José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, não aceita que uma criança de 33 quilos e 1,36 metros de altura não tem condições físicas nem psicológicas para ser mãe e queria obrigá-la a expiar o crime de violação de que foi a vítima.

Este bispo, que a idade e o múnus tornaram intolerante, foi nomeado em 1985, por João Paulo II, para substituir D. Hélder Câmara cuja grandeza ética e coragem cívica o tornaram uma referência mundial. Foi o início do regresso da Igreja católica ao Concílio de Trento cujo último episódio foi o abraço fraterno de Bento XVI aos bispos fascistas e anti-semitas sagrados por monsenhor Lefebvre.

Mas o que está em causa é a desumanidade do prelado a quem não tremeu o báculo nem tombou a mitra para excomungar os médicos que procederam ao aborto, para pouparem a vida da criança, e excomungar também a mãe da menina, que o autorizou.

Como não bastava o desvario pio do arcebispo brasileiro, veio em sua defesa o Vaticano para dizer ao mundo que a cegueira não é do bispo inclemente mas da fé que o sustenta, do Papa, que só conhece a compaixão do Santo Ofício, e dos cardeais da Cúria romana, que sobreviveram ao Iluminismo e à Revolução francesa.

A excomunhão é uma arma obsoleta nos países europeus, em desuso até em Malta ou na Irlanda, mas, não nos iludamos, o regresso à superstição traz de novo o espírito prosélito das Cruzadas e a misericórdia do Santo Ofício. Sob o camauro deste pontífice perduram as ideias medievais que lhe enchem a agenda destinada a seduzir os extremistas.

O arcebispo de Olinda e Recife, o Papa e os cardeais da Cúria romana não envelhecem, envilecem.

11 de Março, 2009 Carlos Esperança

À TELEPAC

Dois dias sem Internet. Foi o regresso ao candeeiro a petróleo com os correios em greve. Não se pode dizer que não sobrevivi, a prova é este regresso, mas foi duro.

Não pude comunicar com amigos, editar prosa ou defender ideias. E o gosto pela escrita sumiu-se na arreliadora espera e na incompetência do servidor para resolver o problema.

Até descobri, com chamadas telefónicas pagas à minha custa, que há uma empresa fora da Telepac que resolve avarias… pagando, claro, 11 euros.

A tudo me sujeitava mas a avaria era na central, a empresa não podia resolver a avaria, eu era a única vítima e a demora podia durar três dias. Mas eu dependo da Internet, argumentei, e os funcionários, para ganharem tempo perguntavam-me o username e eu, descoroçoado, sei lá o que isso é ou onde pára, exasperava e repetia-lhes o número de contribuinte, obrigavam-me a repetir o número de telefone que antes uma gravação me tinha intimado a introduzir, antes de ouvir qualquer voz humana, enfim, um processo kafkiano que de tempos a tempos se repete e que, por incúria e medo não me atrevo a mandar a Telepac para onde o deputado do PSD, da escola do Prof. Charrua, mandou o deputado do PS.

Só falta dizer que a avaria não era na central. Era em casa. Bastou a chegada de um técnico para desligar uma ficha e voltar a ligar.

Assim pudesse desligar as superstições das pessoas. Sem voltar a ligá-las.

8 de Março, 2009 Carlos Esperança

O Parlamento e a canonização de D. Nuno

A Assembleia da República já foi o coração da democracia. Na  última sexta-feira foi a sucursal da Conferência Episcopal. Deixou de ser Parlamento e passou a ser um charco de água benta onde a maioria dos deputados rubricou de joelhos o milagre que o Papa adjudicou a Nuno Álvares Pereira.

O PCP absteve-se e só o Bloco de Esquerda votou contra e teve a decência de censurar o CDS por querer pôr – e pôs – o Parlamento «de uma república laica a reconhecer a cura milagrosa das lesões do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, sofridas pelos salpicos do óleo de fritar o peixe, para o qual invocou a intercepção do beato Álvares Pereira».

Portugal não é um País, é um pântano onde medra a fé e a superstição, um protectorado do Vaticano onde faltam cidadãos e sobram crédulos, um sítio beato onde se treme com medo dos báculos, se ajoelha quando aparecem mitras e se afocinha à vista do anelão com ametista que ornamenta os dedos dos senhores bispos.

Que o CDS, nostálgico do salazarismo e da cumplicidade com a Igreja, proponha um voto de congratulação pela canonização de D. Nuno, compreende-se. Paulo Portas gosta de rastejar nas igrejas para mostrar aos eleitores que crê nas cambalhotas que o Sol deu na Cova da Iria, nas visões da Lúcia e no anjo que aterrou no anjódromo de Fátima.

Do Presidente da República, da sua débil cultura e do passado como primeiro-ministro, em que sancionou a censura d’O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, feito pelo sub-ajudante de ministro, Sousa Lara, podia esperar-se o indecoroso regozijo, em nome de Portugal, mas do PSD é um ultraje à decência. Estariam os senhores deputados convencidos de que o olho da D. Guilhermina foi curado por um acto de corrupção divina feito pelo defunto D. Nuno?

Mas o mais indigno dos partidos foi o PS. Um partido republicano, laico e socialista que rasgou a sua tradição e se tornou cúmplice de uma burla pueril, perdeu a referência ética que o faz respeitável e ajoelhou-se com a D. Matilde Sousa Franco e a D. Maria do Rosário Carneiro, ornamentos pios, para colaborar numa farsa e fazer coro com os que garantem que D. Nuno passou de Condestável a curandeiro.

8 de Março, 2009 Carlos Esperança

Talibãs do vaticano

A cúpula do Vaticano sai em defesa da excomunhão dos médicos que realizaram um aborto de gémeos em uma menina de 9 anos, que havia sido estuprada por seu padrasto em Pernambuco. O argumento: “os gémeos eram inocentes”.

Neste Sábado (7), o jornal italiano La Stampa publicou declarações do presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, cardeal Giovanni Battista Re.

Para ele, a excomunhão dos médicos foi “justa”, mesmo que a interrupção da gravidez tenha sido um acto legal.