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Carlos Esperança

27 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Momento zen de segunda_ 26_04_2010

Na sua homilia de hoje, no DN, João César das Neves (JCN) parece apavorado com a legalização do casamento gay, convencido definitivamente da sua obrigatoriedade ou servindo-se do pretexto para não falar dos escândalos que inundam a sua Igreja.

Qual profeta, ungido na sacristia de uma paróquia rural, JCN afirma que «Aquilo que chocará o futuro são sem dúvida as tentativas radicais e atabalhoadas na legislação da família», motivo que o levou a intitular o sermão «A construção de um monstro».

Considera a lei do aborto de 2007, responsável pelo morticínio de milhares e insurge-se contra o que chama «enorme fraude política de usar um referendo não vinculativo sobre a despenalização do aborto” para o legalizar, omitindo que o anterior, igualmente não vinculativo e menos participado, suspendeu a legislação legalmente votada na A.R..

Depois de uma frase pia, de ressonância apocalíptica, « O aborto é apenas um aspecto, de longe o mais sangrento, da vasta investida recente contra a vida», atira-se à “lei da procriação medicamente assistida” de 2006 exibindo um desvelo pelo embrião humano superior ao que alguma vez lhe mereceram as crianças que morrem vítimas da fome, da guerra e das doenças que o seu omnipotente deus consente.

«As leis do divórcio de 2008 e uniões de facto de 2009 constituem enormes atentados à instituição familiar, só comparáveis à campanha de 2010 pelo casamento do mesmo sexo», – diz o microfone da Igreja católica ligado às segundas-feiras no DN.

JCN encara a educação sexual como uma imposição de «ideologia frouxa e lasciva» às crianças e jovens e ruge contra as praias de nudistas. Depois mistura coisas diferentes: divórcio (quererá proibi-lo?), uniões de facto e filhos fora do casamento, a que atribui a baixa natalidade, esquecendo que pior, para a reprodução, é a castidade.

JCN considera a legislação familiar portuguesa, em linha com o que se passa na Europa, um plano malévolo digno de Nero, Napoleão e Hitler, esquecendo as paixões que os dois últimos despertaram em altos dignitários da sua Igreja.

Enfim, JCN é uma poderosa vacina contra a Igreja de que é prosélito.

24 de Abril, 2010 Carlos Esperança

CÉU, INFERNO, PURGATÓRIO E LIMBO

Por

CSF

A tradição católica do Purgatório decorre do judaísmo, do rezar pelos mortos.

A existência do Purgatório foi concebida em 593 durante o pontificado do papa Gregório I e proclamada pelo Segundo Concílio de Lyon (1274), pelo Concílio de Florença (1438 1445), e pelo Concílio de Trento (1545 1563).

Em 2005 a Igreja Católica ainda defende o Purgatório, tal como consta nas secções 1020-1032, 1054, 1472 e 1473 do Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992.

Segundo a actual doutrina católica, imediatamente após a morte, uma pessoa sofre o julgamento particular em que o destino da alma é especificado. Alguns unem-se com Deus no Paraíso e outros são destinados ao Inferno. O pecado mortal é uma “grave violação da lei de Deus”, um estado de punição e separação eterna de Deus. Algumas almas não estão suficientemente livres dos pecados veniais (que significa “pecados perdoáveis”) e as suas consequências para entrar imediatamente no Paraíso, as quais, estão destinadas a unirem-se com Deus no Céu, e para isso devem passar pelo estado de purificação do Purgatório. “não nos coloca em oposição directa com a vontade e amizade de Deus”. Embora “constitua uma desordem moral”, não priva o pecador da amizade com Deus e, consequentemente, da felicidade eterna do Céu. O perdão dos pecados e a purificação podem ocorrer durante a vida, por exemplo, no Sacramento do Baptismo e no Sacramento da Penitência. No entanto, se esta purificação não é atingida totalmente em vida, os pecados veniais podem ser purificados após a morte. No Purgatório, as almas “obtém a santidade necessária para entrar no Céu”. O Purgatório é uma purificação que envolve um castigo temporário doloroso, associada à ideia de fogo, semelhante ao Inferno. O Papa Gregório I escreveu que deve haver um fogo de purificação para algumas pequenas falhas. Orações para os mortos, esmolas, indulgências e obras de penitência na crença católica diminuem a duração do tempo que os mortos passam no Purgatório.

O Papa Paulo VI escreveu: a indulgência é “(…) uma remissão da pena (…) através da intervenção da Igreja”.

A Igreja Católica ensina que o destino dos que estão no Purgatório pode ser afectado pelas acções e intercessão dos vivos. Por causa da comunhão dos santos, os fiéis que ainda são peregrinos na terra são capazes de ajudar as almas do Purgatório, oferecendo orações em sufrágio por eles, em especial a missa.

Para inventar o Purgatório o clero católico recorreu a novas concepções de espaço e tempo; relacionar Terra e Além implicava numa espacialização do pensamento que, lidando com estruturas matemáticas, deixasse de lado as antigas concepções dualistas e criasse esquemas lógicos ternários nos quais a noção de intermediário passasse a ter papel fundamental. Foi assim que, entre guerreiros e sacerdotes, a nova concepção da sociedade de ordens introduziu os trabalhadores; entre o Céu e o Inferno, o sistema de Além completou-se com o espaço Purgatório.

Podemos dizer hoje, grosso modo, que o Purgatório corresponde à burguesia, tal como o Céu pertence à nobreza e ao clero e o Inferno pertence aos trabalhadores manuais: lavradores e artífices.

Fica assim patente que a criação do Purgatório serve a necessidade de criar um lugar ideológico para a burguesia, ou seja, para aqueles que não estavam livres do “pecado” de ter trabalhado mas que por outro lado tinham riquezas e eventualmente títulos.

Para percebermos melhor a finalidade do Purgatório é útil conhecer as ideias de Jacques Le Goff.

Ele separou o «Tempo de Deus» e o «Tempo dos Mercadores» (Le Goff, 1980: 43).

A Idade Média rege-se pelo tempo de Deus, ou seja, neste período o tempo é entendido como uma dádiva de Deus e como tal não podia ser alvo de moeda de troca (Deus dispunha o tempo dos seres humanos como bem entendia, gerido em seu nome pelas autoridades eclesiásticas); a sociedade era regida pela religiosidade (os sinos das igrejas ou dos mosteiros marcavam momentos para a fé – convocação para a missa, celebração de festas religiosas, etc.) e assim encontramo-nos perante uma forma de gerir o tempo, comunitária e centralizada na Igreja.

Apesar da sua existência ter sido inventada em 593, o Purgatório só foi utilizado em pleno Tempo dos Mercadores.

O tempo dos Mercadores rege-se pelo comércio e pela capacidade do indivíduo em fazer dinheiro – dispondo para tal do tempo que ele acha necessário (correndo o risco de criar um certo distanciamento ou falta de assiduidade nas suas obrigações religiosas); encontramo-nos, nesta situação, perante uma forma descentralizada e individualista de gerir o tempo e as obrigações na comunidade.

Para lidar com o embaraço provocado por esse egocentrismo monetarista que em tudo contraria a passagem bíblica de Mateus 19:24 (“Repito-vos: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino do Céu”), tanto por interesse próprio das novas classes burguesas fazedoras de dinheiro como da tradicional classe clerical que dele tanto precisava, houve necessidade de reorganizar o sistema divino para permitir o ingresso dos endinheirados no Paraíso e/ou a sua aceitação social na comunidade: criou-se para isso, o Purgatório.

Com este artifício, o dinheiro do pecador (o qual sabia estar vedada uma ida directa para o Paraíso) podia ser utilizado para transaccionar o período de estadia nessa antecâmara intermédia chamada Purgatório, compatibilizando-se assim todos os interesses: os pecadores endinheirados sabiam que teriam de pagar pelas suas faltas de alguma maneira, num lugar (sem com isso hipotecar a sua salvação depois da morte ou a sua ostracização no mundo terreno), e o clero continuaria a ser coerente em relação às Escrituras: o seu papel como «gestor financeiro» do Purgatório juntava assim o ingresso no Paraíso de ser objecto de qualquer sanção ou comércio mundano.

A compra de tempo de penitência e redenção fora da ordem natural das coisas, ou seja, no Purgatório, terá implicações na fragmentação da dualidade moral (bom/mau) e na concepção e organização do império celeste: aquilo a que actualmente podemos chamar uma parlamentarização do mundo divino, perene, Iatico, eterno, começava a operar-se; e, com esse feito, começava também a desmoronar-se as estruturas religiosas que permitem uma tão radical mudança nesse organigrama supostamente imutável (pois se as organizações precisam de reestruturações nos seus departamentos é porque estas não funcionam tão bem nem são tão eficientes quanto seria desejável sejam elas terrestres ou celestes. Controlada que estava a gestão do tempo espiritual, devem ser verificadas as Implicações da gestão eclesiástica no tempo natural.

Céu/Purgatório/Inferno = Clero/Trabalhadores/Guerreiros

ou

Céu/Purgatório/Inferno = Nobres+Clero/Burgueses/Trabalhadores

(TEXTO BASEADO EM VÁRIAS OBRAS, ENTRE ELAS A HISTÓRIA DO ATEÍSMO EM PORTUGAL DO ARQUITECTO LUÍS  FERREIRA RODRIGUES)

22 de Abril, 2010 Carlos Esperança

O Papa e a tolerância de ponto

Nenhum democrata contesta o direito de o Papa visitar Portugal, por mais discutível que seja a intenção de manter vivo um embuste que transformou uns inóspitos campos de pastorícia num centro de combate à República e ao comunismo, primeiro, e num destino vitalício de superstição popular, depois.

O respeito pelos crentes que viajam de joelhos e se arrastam em sofrimento, cumprindo promessas, solicitando milagres, maravilhados com as vestes talares dos clérigos e com a multidão de crentes em êxtase, não permite ridicularizar as encenações sazonais que a máquina eclesiástica põe em palco com especial entusiasmo nos dias 13.

Bento XVI tem-se esforçado por ser ainda mais impopular do que os seus antecessores para todos aqueles que não comungam da fé de que vive e não partilham as ideias que o tornaram a personalidade mais reaccionária entre os dirigentes da Europa democrática.

B16 é um arauto do retrocesso civilizacional, regedor do minúsculo Estado teocrático e patriarcal cuja representação na ONU lhe serve para tentar boicotar todos os programas a favor do planeamento familiar, dos direitos das mulheres, da luta contra a Sida ou das minorias sexuais, numa deriva fundamentalista que o leva a aliar-se às piores ditaduras
da Organização da Conferência Islâmica.

B16 é ultraconservador e reaccionário, mesmo para um líder religioso, difundindo uma visão retrógrada do cristianismo, dogmática e misógina, na linha dos movimentos mais hostis ao concílio Vaticano II – o Opus Dei e a Legião de Cristo –, não havendo razão para regozijo pela sua presença em Portugal. Mas isso é assunto dos crentes.

Para os cidadãos laicos, mesmo crentes, há razões particularmente intoleráveis para a forma como o Estado e algumas autarquias se comportam com a visita deste Papa. A tolerância de ponto é um acto de subserviência inaceitável mesmo que o dignitário em causa fosse mais recomendável.

Não acredito, como afirmam os avençados do divino, que «Deus está no pensamento e no coração de cada homem» e estou certo de que a questão espiritual, por mais relevante que seja, não é apanágio das funções do Estado cujo papel é antes o de se ocupar das questões sociais.

Se o catolicismo faz parte do património cultural de Portugal, o País não é já a nação consagrada ao Imaculado Coração de Maria, depois de várias décadas de democracia, mas uma República separada das Igrejas como estabelece a CRP. O seu objectivo não é procurar que muitos portugueses creiam, mas que vivam melhor, cada vez mais livres e mais iguais. É essa a missão que incumbe ao Estado e não a de se ajoelhar.

21 de Abril, 2010 Carlos Esperança

O Diário Ateísta e os avençados do divino

Há crentes cujo fanatismo atinge as raias da incivilidade. Mostram bem do que eram capazes se tivessem o poder de queimar, torturar e silenciar os adversários. É a velha intolerância assimilada, a matriz genética do cristianismo do Antigo Testamento, as pulsões violentas dos Torquemadas.

No Diário Ateísta, a tolerância ateia tem permitido os desequilíbrios da linguagem, da gramática e do pensamento, numa manifestação pedagógica para quem se envenenou com tolices pias e empanturra com novenas e salve-rainhas.

Não podendo o Diário Ateísta dar educação a quem não a recebeu, nem tolerância a quem os livros pios e a acção deletéria da catequese envenenaram, só tem a faculdade de os ignorar ou de lhes impedir o acesso.

Os ignorantes e arruaceiros são violentos por tacanhez intelectual e por crerem que têm um deus com o olho neles capaz de lhes dar no outro mundo o torrão de açúcar com que se adoça a boca aos solípedes depois de uma corrida a galope.

A tolerância é uma virtude que não se aprende com jejuns ou água benta, é apanágio de quem pensa em vez de rezar, de quem anda de pé e não de joelhos, de quem não rasteja aos pés do clero nem da parafernália de santos que o Vaticano cria para maravilhar os pobres de espírito.

Há primatas a espumar de raiva contra o pluralismo, produtores de lama que circulam pela Internet à espera da caixa de comentários onde possam bolçar o ódio que os alimenta e a matéria de que são feitos.

Eles não procuram conhecer opiniões diferentes, encontram nas ameaças que proferem sob anonimato a coragem que lhes mingua para darem a cara. São assim os crentes deste povo onde D. Nuno vem curar o olho esquerdo de uma devota e os pastorinhos ajudam uma coxa a dar uns passos.

21 de Abril, 2010 Carlos Esperança

O niqab, a burqa e a sociedade laica

A defesa da liberdade e da democracia, tal como as entendemos na Europa, torna difícil contrariar o uso da burqa ou do niqab , enredando-nos no aparente paradoxo de proibir a liberdade.

É possível invocar razões de segurança para impedir a ocultação do rosto mas afigura-se difícil interferir nos costumes sem roçarmos a xenofobia e a arrogância civilizacional.

O Estado tem de usar a mesma bitola para os hábitos de freiras e frades católicos e para os adereços femininos islâmicos que são o símbolo de subordinação ao homem como os primeiros o são da entrega a deus.

Os Estados, que deviam ser cada vez mais laicos, vão cedendo no multiculturalismo que não passa de uma provocação religiosa orquestrada no seio das famílias, instigada por mulás e teleguiada das madraças e mesquitas de todo o mundo.

O controlo psicológico da sensibilidade no seio da família e nos guetos tribais de pendor patriarcal exercem uma intolerável coacção psicológica sobre mulheres a quem o Corão, a família e a tradição negam a modernidade e o acesso à autodeterminação.

Não espanta que as jovens que são pela primeira vez alvo de atenção, que deixam de ser por momentos mero objecto, afirmem sentir-se bem com as peças que são o símbolo da opressão feminina, sem pensarem que o mal não está no uso mas na obrigatoriedade de milhões de mulheres condenadas a fazê-lo, com risco de serem açoitadas e humilhadas.

Tal como não aceitamos discutir hábitos de higiene, vacinas ou obrigatoriedade escolar, não devíamos discutir símbolos que remetem para a humilhação e a discriminação de género. É de uma sociedade inclusiva e de cidadãos que precisamos não de provocações tribais onde a mulher é um objecto e a liberdade uma heresia.

A Europa não pode ser o alfobre de novas aventuras totalitárias de cariz religioso depois de liberta graças à repressão política exercida sobre o clero que a envolvia em guerras cruéis e intermináveis.

Enquanto a fé não for um direito inalienável, mas remetido para a esfera privada, não vão terminar as provocações do fascismo islâmico cujo proselitismo tem de ser parado como aconteceu ao nazismo, ao estalinismo e a outras derivas totalitárias.