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Carlos Esperança

7 de Junho, 2010 Carlos Esperança

Os negócios da fé e a exegese católica

Nunca percebi, nem me sabem explicar os que levam a sério o Vaticano, como é possível a uma alma caída no Inferno viajar para o Paraíso sem transportes negociados entre dois destinos turísticos que, em princípio, estão de relações cortadas.

Ao longo da história aconteceu a alguns excomungados morrerem com bilhete marcado para o Inferno e acabaram reintegrados no número dos bem-aventurados e conduzidos aos altares, para bem da fé e dos negócios respectivos.

Não sendo compreensível que um santo aprovado com um mínimo de dois milagres se alcandorasse aos altares e se mantivesse eternamente a frigir em azeite nas profundezas do Inferno, é difícil saber como pode ser resgatado das perpétuas penas para as delícias celestiais igualmente definitivas.

Bem sei que Joana d’Arc, depois de queimada viva, seria reabilitada e canonizada cinco séculos depois mas a infalibilidade dos papas só existe depois de Pio IX um desalmado cuja encíclica Syllabus ainda hoje arrepia o mais insensível dos trogloditas.

O que agora perturba alguns créus é a excomunhão com que João Paulo II condenou às eternas tormentas Monsenhor Lefebvre e os seus sequazes para agora ser discretamente recuperado pelo actual pontífice.

O bando de Lefebvre é declaradamente partidário do Concílio de Trento, de posições fascistas e do mais primário e execrável anti-semitismo, o que faz da Fraternidade Sacerdotal São Pio X a comunidade menos recomendável para servir de modelo ético.

Não se percebe como pode agora o bispo Lefebvre, depois de amaldiçoar em latim a temperatura do Inferno viajar para o Céu pela mão da actual santidade de turno no Vaticano – Bento XVI.

São insondáveis os mistérios daquele bairro de 44 hectares!

5 de Junho, 2010 Carlos Esperança

O esgoto do Universo

É assim que o primata, que parece saído do título com que pretendeu definir o ateísmo, intitulou este texto no Jornal da Madeira.

Quando um cruzado sai da Idade Média para bolçar inanidades, não há argumentação que valha, nem paciência que justifique uma resposta.

Faz mais pelo ateísmo este naco de ódio em português medíocre do que a lúcida, serena e inteligente pedagogia dos pensadores ateus.

5 de Junho, 2010 Carlos Esperança

Cavaco e a alegada candidatura de direita

Só o rancor político de Santana, o desabafo beato do patriarca Policarpo e um golpe de mestre dos cavaquistas se podiam ter conjugado para inventarem a possibilidade de uma candidatura à direita de Cavaco.

Ninguém imagina à direita do candidato de Boliqueime espaço para uma agulha. Não está só encostado, está colado. Já coleccionou dois Papas, muitas missas e a presidência da comissão de honra da canonização de Nuno Álvares Pereira, comissão que aprovou simbolicamente o milagre da cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus queimado com salpicos ferventes de óleo de fritar peixe.

O candidato Cavaco gravou para a posteridade o eco pontifício da repetição dos nomes dos netos, o espectáculo de toda a família a beijar o anel do regedor do Vaticano e a sua presença nos actos litúrgicos do peregrino Ratzinger.

Cavaco não é apenas um homem de direita, é um reaccionário que reage mal às decisões dos outros órgãos de soberania e que encontra sempre as palavras mais adequadas para dizer as coisas da forma mais errada, seja a pretensa justificação da infeliz golpada das escutas ou o álibi para promulgar a lei do casamento de pessoas do mesmo sexo.

À direita de Cavaco não existe nada. Nem um desejo mais veemente de substituir o PS pelo PSD ainda que com o enfado de não ser por quem preferia.

Depois de a esquerda, certa esquerda, ter ajudado a empurrar o eleitorado para a direita do PS só lhe interessa gerir os passos para continuar a ocupar o palácio de Belém donde sonha exercer o poder executivo por interposta pessoa do PSD.

Com este golpe, onde aproveitaram para enaltecer figuras tão medíocres como Bagão Félix ou Pires de Lima, os estrategos da direita fingiram que Cavaco seria um homem do centro. Bem jogado.