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Carlos Esperança

4 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

Uns vão ao Zoo, outros ao Vaticano

Milhares de acólitos europeus com o Papa

Bento XVI sublinha ambiente de festa no Vaticano com a presença de 60 mil participantes em peregrinação internacional

Bento XVI manifestou esta Quarta-feira a sua “alegria” com a presença no Vaticano dos cerca de 60 mil participantes na peregrinação internacional de acólitos promovida pela associação Coetus Internationalis Ministrantium (CIM).

4 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

A Efigénia ficou doente_1 (Crónica)

A minha vizinha Efigénia (pseudónimo que uso para evitar agravar-lhe o mal), amiga da missa e da hóstia, ficou doente em 2007 e nunca mais se recompôs.

No período que precedeu o Referendo da IVG papou a missa diária, deixou queimar o arroz e a massa três vezes, vazou-lhe a sopa outras tantas e pegou fogo o fogão quando se distraiu a rezar a salve-rainha. Até o bolo de chocolate que fizera para o filho, que vinha de fim-de-semana, se lhe reduziu a carvão quando debitava o terço no oratório do quarto.

A D. Efigénia já me disse que era uma pena eu não ir à missa, tão boa pessoa, até reza pela minha conversão e não desanima de ver-me subir as escadas da igreja da paróquia, entregue a uns frades depois de começarem a escassear os padres seculares.

A D. Efigénia nunca pensou perder o Referendo, era pela vida, sabia que a Senhora de Fátima andava a desfazer-se em lágrimas de sangue, espécie de menstruação ocular, e que não permitiria que as forças do mal vencessem.

Aliás, ela bem sabe como os portugueses são atreitos ao medo do Inferno, embora este tenha sido abolido, e como sentem a falta das cantorias e do padre no funeral. Sorria feliz com o Cânone 1331 que excomungaria os que votassem SIM no Referendo: «não poderiam casar, baptizar-se nem ter um funeral religioso».

Julgava a boa da D. Efigénia que o medo era suficiente para dar a vitória à Senhora de Fátima, ao seu amado filho, ao pai do Céu e a todos os que se preocupam com pecados.

Quando viu que 2.338.053 desprezaram as suas orações, missas, novenas, terços e outros pios demonífugos começou a cismar que Deus não existe, a senhora de Fátima é uma burla, os anjos não voam, rastejam, e os padres são funcionários de uma empresa cujos produtos não têm certificado de garantia nem prazo de validade.

A D. Efigénia, continua a benzer-se, mas até julga que alguns defensores do Não são proprietários de clínicas clandestinas e que a despenalização do aborto lhes vai acabar com o negócio.

Entre a salvação da alma e a reflexão, a D. Efigénia hesita e aflige-se, adoece e cisma, mas nunca mais rezou um pai-nosso. Diz que tem muitos na conta e não resultaram. Finalmente, convenceu-se de que o aborto não é um sacramento e pode ser feito sem a ajuda do padre.

3 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

AAP – Carta ao bispo Carlos Azevedo

Senhor bispo Carlos Azevedo

A sua preocupação com o ateísmo em geral, e com a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) em particular, já o levou a proferir afirmações incorrectas a respeito desta Associação, quer no matutino onde regularmente escreve, quer em entrevistas:

1 – «Afirmar que Nuno Álvares Pereira foi canonizado graças a um milagre, que ridicularizam, é desonesto» – disse o Sr. Bispo num artigo, visando claramente um comunicado da AAP.

A AAP compreende o embaraço com o milagre obrado no olho esquerdo de D. Guilhermina, queimado com óleo de fritar peixe, à custa de duas novenas e de um ósculo numa imagem do Condestável, mas é difícil compreender a recusa de publicação da resposta ao referido artigo, como se tivesse sido a Associação Ateísta a inventar o milagre, e não a Igreja católica, e como se o milagre não fosse condição sine qua non para a canonização.

2 – Tendo o presidente da AAP, a título pessoal, considerado “inoportuna” a vinda do Papa Bento XVI a Portugal, no passado mês de Maio, o Sr. bispo Carlos Azevedo declarou à Agência Lusa que “São 70 pessoas. Acho que têm o direito de ter a sua opinião, mas é uma opinião muito reduzida do conjunto da população portuguesa, que está a vibrar e a preparar-se para a visita do Santo Padre “, afirmações reproduzidas pela Rádio Renascença e por alguns canais televisivos. Desta vez, a resposta da AAP informando o Sr. Bispo do erro na estimativa, pois só os sócios fundadores ultrapassaram largamente a centena, mereceu-lhe apenas o silêncio.

3 – Neste último Sábado, a terminar a entrevista concedida à jornalista Patrícia Jesus, no Diário de Notícias, lê-se:

Outro dos seu traços marcantes é a frontalidade. Que às vezes lhe vale a colagem a uma ala mais fundamentalista da Igreja. Recusa o rótulo. “Da primeira vez que a Associação Ateísta se meteu comigo, escrevi-lhes uma carta. Acho que ficaram surpreendidos. Sou frontal mas com uma abertura enorme. Gosto do diálogo, fruto de ter crescido com nove irmãos. E admiro todas as pessoas que são verdadeiras na sua busca.”

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) lamenta nunca ter recebido a referida carta, não considera que se tenha “metido” alguma vez com o Sr. Bispo Carlos Azevedo e, infelizmente, todas as tentativas de responder às suas alegações, ou de corrigir afirmações falsas, esbarraram num silêncio e desinteresse muito diferentes do diálogo do qual o Sr. Bispo diz gostar.

Esperando que o Sr. Bispo tenha realmente a abertura e admiração pela verdade que indica ter, a AAP aguarda os seus esclarecimentos ou as correcções que reconhecer necessárias. E, igualmente apreciadora do diálogo e da frontalidade, a AAP agradece desde já ao Sr. Bispo a sua amável carta, ainda por receber.

Apresentamos-lhe os nossos cumprimentos.

AAP – Associação Ateísta Portuguesa, Odivelas, 02 de Agosto de 2010.

2 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

A feira dos milagres

Na ânsia de fabricar milagres, JP2 convocou centenas de defuntos, sepultados em zonas de confiança ideológica da ICAR, para curarem uma criança aqui, uma freira acolá, um médico noutro sítio, enfim, uma quantidade enorme de doentes que Deus sadicamente tinha estropiado. A boa vontade dos defuntos, em péssimo estado de conservação, aliviou alguns cristãos das moléstias enviadas pela divina providência, na sua infinita bondade.

O exercício da medicina foi o passatempo desses bem-aventurados, há muito desaparecidos, cristãos com pecados apagados pelo tempo e virtudes avivadas pelo Papa. No laboratório do Vaticano autenticaram-se certificados de garantia para os milagres e criaram-se novos beatos e santos que povoaram a folha oficial do bairro de 44 hectares.

Antigamente era o próprio Cristo que se deslocava à Terra para ajudar a ganhar batalhas aos seus eleitos ou que aconselhava os cristãos sobre a forma de matarem infiéis com mais eficácia. Depois de numerosos desaires, ou porque a idade e o reumático lhe limitaram as deslocações, Deus deixou ao Papa a tarefa de engendrar os milagres mais adequados à promoção da fé e estupefacção dos crentes. O pontificado de João Paulo 2 abandonou o método artesanal de fazer um santo aqui outro acolá, de acordo com os interesses políticos do Vaticano e as oferendas dos países beneficiários, para se dedicar à industrialização. Nasceu com JP2 a indústria dos milagres em série.

As curas de cancros foram, durante muito tempo, as preferidas da Cúria romana. Problemas de ossos, moléstias da pele, diabetes, paralisias e outras doenças fazem parte do cardápio da santidade. Mas, com tanta clientela para elevar aos altares, o Vaticano já chegou ao ponto de deixar para um imperador (Carlos I da  Áustria) a cura de varizes numa freira. Foi uma ofensa aos quatro filhos vivos que assistiram à beatificação. Se para um imperador sobra como milagre a cura de varizes, o Papa, quando for um sólido defunto, arrisca-se a não ter disponíveis mais do que dois furúnculos para curar, numa catequista da Polónia, se quiser chegar a beato.

Os medicamentos estragaram milagres de grande efeito, como a cura da lepra, por exemplo. Há milagres que o Vaticano não arrisca – hemorróidas, por causa do sítio, e a sífilis, a blenorragia, a SIDA e outras moléstias que associa ao pecado.

Mas há enganos que há muito deixou de cometer, canonizar por engano um cão que julgava mártir, ou uma parelha de mulas que morreram de exaustão e que a ICAR pensou tratar-se de santas mulheres que sacrificaram a vida pelo divino mestre.

Os milagres são cada vez mais rascas mas os dados biográficos dos que os obram são cada vez melhor escrutinados. B16 tem milagres parados por causa dos bem-aventurados esperados nos altares e que viram devassados os pecados na praça pública.

1 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

O passado da ICAR

Há santos gays? Para a história oficial da igreja, a pergunta soa como uma blasfêmia, uma vez que a religião condena a homossexualidade. Mas há teses de que a igreja teve, sim, santos que, no seu passado, tiveram relações com pessoas do mesmo sexo. O caso mais famoso é de São Sérgio e São Baco, que foram mártires no início do século 4.

31 de Julho, 2010 Carlos Esperança

Vaticano, pudor e ridículo

O Papa, santo por profissão e estado civil, infalível por conveniência e tradição, pudico por questão de imagem e interesse comercial, decidiu que as pessoas fossem impedidas de circular com ombros e pernas à mostra no Vaticano.

Certamente alguma catequista balzaquiana deixou escorregar a mantilha que lhe cobria os ombros e algum soldado americano, de férias do Iraque, mostrou os joelhos quando apreciavam, através do vidro à prova de bala, a Pietá que Miguel Ângelo esculpiu.

Terá assustado o Papa o desassossego das numerosas virgens que decoram a Basílica de S. Pedro, pintadas ou esculpidas, o sobressalto hormonal ou no rubor das faces, perante os joelhos tisnados de um mancebo em pausa na guerra contra os infiéis? Que pesadelos terá sentido com os ombros desnudos de mulheres capazes de excitarem os santos ou de fazerem estalar o mármore que esconde as partes pudendas de Cristos admiravelmente crucificados e escassamente vestidos?

Que fariam os monsenhores a espiarem os ombros nédios de uma catequista em busca de uma aspirina na farmácia, de um selo postal ou de vitualhas no supermercado papal? E se, em vez dos ombros de uma devota, os clérigos que povoam o bairro de sotainas desviassem o olhar lúbrico para os joelhos de um mancebo, a imaginar abominações e a esquecerem o breviário?

Que pensaria o Deus do Papa, no bairro que dele se reclama, perante a lascívia dos seus ministros e os pensamentos pecaminosos que os ombros e as pernas podem provocar em quem não conhece da anatomia outros pedaços mais suculentos e interessantes?

Para evitar tentações do demo, que o especialista em exorcismos descobriu no Vaticano, o Papa, ajudado na decisão pelo Espírito Santo, uma pomba que se julgava extraviada, estendeu as regras que impedem os turistas de entrarem na Basílica de S. Pedro com os ombros e as pernas ao léu aos outros locais da Cidade do Vaticano, como a farmácia, o supermercado e a agência dos correios.

29 de Julho, 2010 Carlos Esperança

A ICAR e a política

A lei sobre o aborto introduzida há pouco na Espanha é tão “insensata” quanto o primeiro-ministro do país, José Luis Rodríguez Zapatero, afirmou o presidente da Academia Pontifícia para a Vida, Ignacio Carrasco de Paula.

Comentário: O Vaticano é tão insensato como o Papa. Zapatero foi eleito pelo povo espanhol e não representa uma ditadura como o Sr. Ignacio de Paula. Todos sabemos que o sufrágio universal não é uma criação da única teocracia europeia, é um direito dos povos, que devem exigir respeito aos primatas tonsurados.

28 de Julho, 2010 Carlos Esperança

Carta a Salazar nos 40 anos do seu passamento

Meu velho ditador:

Se pudesses ouvir, claro que não podes, e tu sabias que não havia vida para além da que tiveste, ouvirias o clamor das famílias dos que sofreram em Caxias, Aljube, Peniche, Tarrafal, S. Nicolau ou Timor.

Fez ontem 40 anos que morreste com 40 anos de atraso. Alguns fascistas ainda te evocam com nostalgia. Há sempre alguém que recorda um crápula, os que não têm memória ou os que odeiam a liberdade. Acontece o mesmo com Estaline, Mao, Franco e Mussolini, este mesmo, de quem tinhas uma foto na tua secretária de trabalho.

Tu não tinhas coração, eras um hipócrita abrigado à sombra de uma Igreja que protegeu todos os fascismos, um facínora que se escondia atrás da polícia política que aprendeu a torturar na Alemanha nazi, um demente com horror a eleições, pavor ao progresso e aversão ao povo. A censura era o teu colete anti-bala, as polícias a guarda pretoriana e os padres os agentes de propaganda.

Viveste a obsessão dos medíocres e conseguiste tornar-te ainda mais vil com a mania do poder que exerceste com violência, enquanto a PIDE assassinava e os esbirros aturdiam um povo que amordaçaste com a censura, o analfabetismo, os tribunais Plenários e uma multidão de cúmplices de todas as idades e condições. A Irmã Lúcia não deixou de dizer a Cerejeira que foste o homem escolhido pelo deus do cardeal para seres algoz da pátria.

A guerra colonial foi uma paranóia pessoal que levou a morte a centenas de milhares de pessoas. Ainda hoje não se fala dela, por remorso uns, por vergonha outros, quase todos por um trauma que ficou de 13 anos da guerra injusta, inútil e criminosa que o cardeal Cerejeira dizia ser em defesa da pátria e da civilização cristã..

Há quem deseje minimizar os crimes, dizendo que ignoravas que a PIDE assassinou Humberto Delgado quanto atribuíste o crime ao Partido Comunista, ou José Dias Coelho, abatido na Rua dos Lusíadas, quando puseste a circular que se tratava de ajuste de contas entre membros do seu partido.

Eras um farsante, o tirano que nunca saiu do país, o carrasco do povo a quem negaste o acesso ao ensino e à liberdade. Evocar o 40.º aniversário da tua morte é lamentar que tenhas morrido impune, que tivesses à tua volta a corja de imbecis e cúmplices que iam ao hospital da Cruz Vermelha encenar reuniões do Conselho de Ministros para que pudesses crer que ainda eras o algoz vitalício da pátria que desonraste.

Da tua herança resta o medo e a cobardia, o atraso e o servilismo, o gosto pela delação e a memória dos crimes que cometeste. E a eterna gratidão a uma cadeira. E o desprezo pela Igreja que foi tua cúmplice.