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Carlos Esperança

25 de Fevereiro, 2014 Carlos Esperança

A Ucrânia, a anarquia e o futuro

Não me sinto capaz de tomar partido na rebelião popular, atiçada do exterior, num país em ruínas. A pobreza extrema, uma agricultura destruída no que foi o celeiro da Europa, a divisão étnica e a tradição autoritária e antidemocrática estão na origem de confrontos, que ameaçam continuar, para vingar o sangue já derramado.

Não vale a pena, agora, recordar as matanças e as migrações forçadas por Estaline que alteraram a matriz étnica e cultural do segundo maior país da Europa.

O que não entendo é a explosão do nazismo em apoio aos partidos que anseiam a união à Europa, como se a Rússia fosse um país africano e os nazis indefetíveis partidários da União Europeia. Também não entendo o apoio de alguma esquerda às forças pró-russas como se Moscovo fosse um soviete dirigido pelo comunista Ieltsin.

A disputa entre potências capitalistas, com a Rússia a ser alvo do apetite da Nato, pode provocar uma hecatombe e debilitar o poder russo. De certeza, altera-se a correlação de forças, com a NATO contida nos limites atuais, uma derrota para a Europa que serve de ponta de lança aos EUA, ou expandida até à fronteira russa, com a derrota de Moscovo.

É curioso ver comunistas a defenderem o poder sufragado em eleições e os reacionários a apoiarem histericamente a insurreição e atos de justiça popular, posições corajosas de quem está longe do conflito.

Debilitar a Rússia é acender o rastilho das antigas repúblicas soviéticas onde o fascismo islâmico pretende a desforra e a sharia, enquanto a Turquia se orienta, a recitar o Corão, em direção a Meca e as primaveras árabes mergulham na anarquia e nas cinco orações.

Com os erros da meteorologia euro/americana a anunciar primaveras árabes, temo que a Rússia fique à mercê de irrefreáveis hordas islâmicas que, no ocaso da civilização árabe, exacerbam a devoção e a demência.

E não haverá inocentes.

24 de Fevereiro, 2014 Carlos Esperança

Momento zen de segunda_24-02-2014

João César das Neves (JCN) intitula a homilia de hoje, no DN, “Liberdade, igualdade e amor” numa síntese constrangida entre a Revolução Francesa e a sacristia. Depois de debitar umas trivialidades sobre as revoluções “ britânica de 1688, americana de 1776, francesa de 1789 e seguintes”, sem dizer, talvez por pudor pio, quais foram as seguintes, demorou a chegar à sua obsessão, antes de afirmar que “a luta cultural deslocou-se para questões de sexo e limites da vida”.

Este homem é um escravo do sexo obcecado com a castidade e um defensor da vida que começa nos óvulos ou nos espermatozoides, julgando que a ejaculação, durante o sono, é um genocídio involuntário. Acordado, é um pecado.

A êxtase religioso atinge-o quando afirma que “Vêem-se os conceitos, as lógicas e os métodos que os antigos aplicavam à nobreza, escravatura, pena de morte, proletariado ou racismo, utilizados em assuntos eróticos e hospitalares».

Só quem esteja acostumado ao devoto percebe a linguagem exotérica e a piedade que o devora antes de continuar a leitura: “ O direito ao aborto e à eutanásia tomam o lugar do direito ao voto; a emancipação de mulheres ou jovens vem na vez dos escravos; o doente terminal ou o homossexual surge na posição do operário ou negro. Casamento é contrato; adopção, sociedade”.

JCN lamenta que ao direito ao voto seja acrescentado o direito ao aborto e à eutanásia; que após a abolição da escravatura se emancipem as mulheres; que o casamento seja um contrato e não um sacramento; enfim, é um fóssil do Concílio de Trento.

Há pérolas de que não quero privar os leitores. Ei-las: “Dentro da fraternidade familiar, liberdade e igualdade tomam sentidos estranhos. Por isso, divórcio, aborto ou eutanásia só retoricamente libertam; de facto, matam. Fora da metáfora não existe igualdade entre jovem e velho, homem e mulher, casamento e união de facto, pais e filhos, amor conjugal e promiscuidade, sexo e perversão».

A obsessão do sexo é, em JCN, síndrome de privação. E termina com uma frase banal: “A família é o que sempre foi e será. Ela constitui o verdadeiro mundo sempre novo.”

«Bem aventurados os pobres de espírito…», como diz a Igreja de JCN.

23 de Fevereiro, 2014 Carlos Esperança

Córdova

A ancestral mesquita de Córdova (actualmente designada sob um nome híbrido de ‘mesquita-catedral’) volta a merecer a atenção pública tendo-se transformado num problema regional (para a Andaluzia) mas, na verdade, a sua dimensão é maior  [mundial] já que diz respeito à propriedade e usufruto de bens culturais sejam civis, militares, religiosos, profanos, artísticos, arquitectónicos, museológicos ou até mesmo naturais.
Está em curso uma petição link para transformar esse riquíssimo e único património histórico-religioso (há quase 30 anos Património da Humanidade link) num templo ecuménico, onde ficasse assegurada a prática de uma ampla liberdade religiosa. Esta é mais uma ‘acção popular’ no sentido de devolver aos cidadãos a capacidade de disfrutar em pleno as suas liberdades, pública e constitucionalmente, consagradas.
Indo mais além do solicitado na petição julgo que este conjunto histórico-religioso e cultural deveria ser um ‘espaço aberto’, um ‘museu-vivo’, que os cidadãos pudessem usufruir conforme desejassem. Uns oravam (e não só os crentes das ‘religiões do livro’ como se pretende) outros pura e simplesmente tinham oportunidade de disfrutar aquela extraordinária beleza, arquitectónica e patrimonial.
Travar a possessão redutora da Igreja (no caso vertente será por usucapião?) é uma missão a que os cidadãos livres não podem ficar indiferentes, mesmo para as mentes povoadas por fantasmas acerca de uma ‘islamização ocidental’ nascente e subsidiária das passadas glórias de um histórico Al-Andalus (Ocidente). As nossas liberdades (é disso que se trata) devem estar acima de tacticismos imediatos (ditos ‘anti-terroristas’) que pretendem responder às ameaças do momento, mas são eminentemente castradoras (derrogadoras) de direitos individuais.
Finalmente, a notícia sobre a petição reavivou-me memórias de uma passagem por Córdova ocorrida há uma dezena de anos.
Encontrando-me a visitar a mesquita em plena canícula estival (na Andaluzia severa) trajava vestuário adequado à elevada temperatura (T-shirt e calções). Inebriado no meio das centenas de colunas rematadas por arcos em ferradura, brancos e vermelhos, foi abordado por um clérigo que me confrontou com a discrepância entre a exiguidade do meu vestuário e a dignidade do local.
Respondi-lhe, ironicamente, que a minha família há dezenas de gerações tinha deixado de usar ‘djellaba’… e virei-lhe as costas!

23 de Fevereiro, 2014 Carlos Esperança

João Paulo II (JP2) – o santo encomendado

A devota adulação e o indulgente esquecimento dos defeitos de JP2 facilitaram a Bento XVI a reabilitação que a Comunhão e Libertação, os Legionários de Cristo e o Opus Dei desejavam. Estas seitas pouco estimáveis lembram – não sei porquê –, a PIDE, a Legião e a Mocidade Portuguesa, na defesa do salazarismo e da sinistra figura inspiradora.

O funeral de JP2, a instigar a rápida canonização, “santo súbito”, foi encenado por um padre polaco e outros membros da igreja do seu país natal, que distribuíram os cartazes e orquestraram os slogans.

JP2 viu em Pinochet e na dedicada esposa um «casal cristão exemplar», ministrou-lhes, embevecido, a eucaristia e apresentou-se à varanda do Palácio La Moneda com o frio torcionário, para ser ovacionado pelos devotos, sem se lembrar de que, naquele palácio, se tinha suicidado Salvador Allende, presidente eleito, deposto pelo seu amigo golpista.

JP2 intercedeu pela libertação de Pinochet quando foi detido em Londres, por crimes contra a humanidade, por ordem do juiz Baltasar Garzon, usando argumentos jurídicos. Pediu a sua libertação, alegando que os crimes foram cometidos quando gozava da imunidade de Chefe de Estado, mas nunca censurou a sentença islâmica que condenou à morte Salmon Rushdie ou intercedeu por este.

JP2 não se limitou a proteger as ditaduras fascistas sul-americanas, apoiou o derrube de governos democráticos de esquerda numa cegueira insana de quem confundiu ditaduras estalinistas com o socialismo resultante de eleições e sujeito à alternância democrática.

Em 23 de Fevereiro de 1981, quando o grotesco tenente-coronel Tejero Molina tentou restabelecer a ditadura, deu-se a coincidência de estar reunida a Conferência Episcopal Espanhola. Nem o Papa, nem os bispos, nem o seu núncio apostólico, condenaram a tentativa de golpe de Estado, limitando-se a recomendar piedosamente, aos espanhóis, a oração, irrelevante para o fracasso do golpe.

Em relação à SIDA o defunto Papa portou-se como troglodita. Não se limitou a alvitrar a castidade, foi cúmplice da mentira que atribuía ao preservativo «minúsculos orifícios» permeáveis ao vírus e promoveu a difamação sobre a eficácia em países africanos onde o flagelo estava descontrolado. O arcebispo de Nairobi foi mais longe, atribuindo aos preservativos responsabilidade pela SIDA, sem ter sido desautorizado pelo Papa, apesar do ruído mediático feito à volta da estulta declaração.

Muitas violações de crianças se teriam evitado se em vez do silêncio cúmplice, exigindo discrição à ICAR sobre os casos de pedofilia de padres americanos, apesar das repetidas denúncias que lhe foram feitas, tivesse mandado comunicar os casos às autoridades dos EUA, evitando a recente censura, dura e inédita, feita pela ONU ao Vaticano.

João Paulo II era fã de Josemaria Escrivá, admirador do genocida Francisco Franco, que mandou fuzilar centenas de milhares de adversários, sem nunca ter faltado à missa ou à eucaristia. Não admira a pressa com que JP2 elevou a santo o indefetível franquista. É justo lembrar os factos no dia de hoje, 23 de fevereiro, 33 anos após a tentativa de golpe fascista em Espanha.

Papa-pomba

22 de Fevereiro, 2014 Carlos Esperança

A fé precisa de reforço

Hóstias alucinogénias levam idosas a agredir padre

Visões de santos, abraços ao crucifixo da igreja e duas idosas a perseguir o padre, que foi agredido sob os gritos: “Você é o demónio!” Parece cena de um filme mas terá acontecido na região centro de Itália, depois dos fiéis ingerirem hóstias alucinogénias.

22 de Fevereiro, 2014 Carlos Esperança

O reverendo Luís e a procissão (Crónica)

 

Ao Luís não eram conhecidas virtudes públicas quando terminou o curso de engenharia e anunciou que tinha ouvido um chamamento. Julgaram que mencionava alguma oferta de emprego que um recém-licenciado sempre almeja. Nada disso. Rumou ao seminário e era vê-lo, quando regressava, nas férias, embevecido, a acolitar o padre nas cerimónias pias.

Não tardou, o tempo passa depressa, que o fizessem diácono e, a seguir, padre. Com que orgulho passou a substituir nos serviços litúrgicos o padre Manuel que, em Agosto, se deslocava ao Brasil impelido pelo gosto da viagem ou pelo desvelo paternal, segundo murmuravam os paroquianos desconfiados de uma filha naquelas paragens.

Um dia o João Nunes, antigo colega e também engenheiro, encontrou o reverendo Luís e disparou-lhe:
– Então como vai o engenheiro?
– Engenheiro, não, padre se faz favor, porque engenheiros há muitos e padres poucos.
– E o que é preciso para ser padre, retorquiu o primeiro, com visível boa disposição.
– É preciso ter juízo.
– Que grande cunha !…

E o diálogo terminou abruptamente, com o jovem clérigo amuado.

Começou aí o azedume do reverendo, emproado com as vestes talares e o colar romano que lhe cingia o pescoço, indiferente à canícula, persuadido de que a batina encobria os pecados e o engrandecia aos olhos dos profanos.

Alguns dias depois, na procissão da Senhora da Barca, o reverendo Luís comandava, no trajeto do costume, o cortejo, as orações e os cânticos quando, junto da esplanada do Café da Candidinha, se tresmalhou do pálio e se aproximou dos fregueses, crucifixo em riste, colérico, para os desancar evangelicamente, enquanto os devotos desfrutaram a pausa na fé e no percurso assistindo ao espetáculo profano.

Os alvos foram antigos colegas de colégio quando este era o único estabelecimento de ensino secundário no concelho. O João Nunes, o Aristides e o Zé Vaz aguentaram em silêncio a descompostura de quem não lhes tolerou a troca da devoção pela cerveja de barril. Foram admoestados furiosamente, seus hereges, não respeitam o padre, não se ajoelham à passagem da procissão, ofendem Deus Nosso Senhor, não têm consideração pela Senhora da Barca, indignos, pagãos… e, só depois de serenado com o espectáculo pio, o presbítero se recolheu ao pálio e à procissão que prosseguiu perante a assombro de alguns paroquianos e o gáudio de muitos outros.

Os hereges ficaram algum tempo mudos, mal refeitos da censura e do medo de levarem com a cruz, brandida pelo irado reverendo que, no delírio, parecia querer usá-la à vista dos devotos. Só quando a cauda da procissão se sumiu, as pernas deixaram de tremer e a calma voltou, soltaram os desabafos reprimidos que incluíram a mãe do padre.

A ligação entre os antigos colegas de colégio excluiu do convívio o presbítero e foram parcas as relações que ficaram. As férias terminaram e cada um foi à vida, enquanto o reverendo Luís regressou à paróquia da diocese de Lisboa onde exercia as funções a que o alegado juízo o predestinou.

No ano seguinte, no dia canónico, a procissão da Senhora das Neves repetir-se-ia com o padre Manuel no Brasil e o reverendo Luís a substituí-lo. Apenas os réprobos do ano anterior evitaram o café, não fosse o diabo tecê-las, e repetir-se a cena insólita.

A procissão teve a precedê-la a missa, como era uso, onde o reverendo Luís enalteceu as virtudes da santa e verberou o comportamento de paroquianos ausentes, indiferentes à procissão, capazes de se manterem sentados enquanto o andor, o pálio e a cruz viajavam pelas ruas. Soube-se que foi pobre a homilia e grande o acinte que moveu o oficiante, capaz de desancar os réprobos se, acaso, os visse perto do cortejo pio, sem se rojarem de joelhos à passagem. Não consta que os devotos se tivessem deixado encolerizar, apesar de acirrados, pelo jovem e piedoso presbítero que, a seguir, presidiu à procissão.

Pelas ruas ainda se viam colchas garridas às janelas quando o andor, o pálio e outros adereços desfilavam pelas ruas da vila. A procissão progredia vagarosamente com as orações e os gestos da coreografia de sempre. O Valdemar lançava foguetes em honra da santa, longe do cortejo, para evitar que as canas atingissem os devotos, indiferente aos incêndios que podia atear e a que, como bombeiro, teria de acudir.

Na esplanada do café da Candidinha o reverendo Luís viu, de longe, ocupada a mesa onde a experiência lhe dizia não morar a devoção. Ao chegar próximo do local, saiu do pálio e correu de cruz erguida a admoestar os incréus, seus hereges, seus malcriados, não respeitam Deus, não estimam a santa, não veneram a cruz, não temem o Inferno, não conhecem a cólera divina e…, esgotada a pia admoestação, cego de raiva e fervor, regressou ao pálio e aos cânticos para glória da Senhora das Neves.

Na mesa onde um ano antes estiveram ímpios, um casal estrangeiro, surpreendido, sem nada ter percebido, hesitava em dar o iogurte ao filho.

21 de Fevereiro, 2014 Carlos Esperança

As Igrejas são insasiáveis

Andaluzia quer tirar à Igreja católica a titularidade da Mesquita de Córdova.