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Mês: Janeiro 2009

21 de Janeiro, 2009 Ludwig Krippahl

Esclarecendo

O Alfredo Dinis pediu alguns esclarecimentos acerca do slogan da campanha ateísta inglesa, «There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life». O primeiro é «Não consigo entender por que razão a improbabilidade da existência de Deus deverá tornar as pessoas mais felizes [ou] a existência de Deus deverá torná-las infelizes. Alguém me quer explicar isto?» (1)

A existência de deuses não depende da nossa felicidade, tal como o estado do tempo não depende da minha vontade de ir à praia. São questões de facto e não de preferência. Se chover, chove. Se não houver deuses, não há. E tudo indica que não há. Durante milénios apontaram deuses nas doenças, no nascer do Sol, na criação da Terra e na origem da vida. Foi sempre falso alarme. Os deuses de hoje são tão ténues e distantes que nem se lhes distingue existência de inexistência. Seja para nossa felicidade ou tristeza, provavelmente não existem.

O Alfredo continua. «Sou cristão, acredito na existência de Deus e isso faz-me feliz. […] Porque deveria tornar-me ateu?» A mensagem não é “torne-se ateu”. É não se preocupem com a vossa religião e, sobretudo, com as dos outros. Não se preocupem se um homem quer casar com um homem ou se uma mulher quer ser sacerdote. Não se preocupem com aquilo que só vos preocupa por motivos religiosos.

«Se eu fosse ateu ou simplesmente agnóstico, ficaria preocupado com o slogan. É que não me dá a certeza de que Deus realmente não existe. Por que razão viver nesta incerteza me faria feliz?»

Se o meu objectivo fosse crer especificamente numa certa crença também queria sentir certeza. Mas não me interessa crenças falsas. O que quero é a crença que melhor corresponda à realidade, seja que crença for. Quero chegar à verdade ou o mais próximo que conseguir. Quero acreditar que está um dia de sol só quando estiver mesmo em vez de apanhar uma chuvada convencido que está bom tempo. Por isso não abdico da dúvida. É a dúvida que me faz procurar a verdade. A certeza só convida a ficar pelo caminho.

«O slogan pressupõe ainda que o mundo se divide em duas partes: a dos ateus, que são felizes e gozam a vida ao máximo, e a dos crentes que vivem infelizes e incapazes de tirarem o máximo partido da vida.»

Não é entre ateus e crentes. O slogan sugere uma divisão entre aqueles para quem a fé é uma opção pessoal, que cada um terá ou não conforme queira, e os outros que vêem a sua religião como um dever. Regras a cumprir. Os padres não podem casar, deve-se confessar os pecados, as mulheres não podem celebrar missa, nunca negar o Espírito Santo e assim por diante. A mensagem dos ateus é que a religião é opcional. Venerem o que quiserem, comam hóstia se gostarem, com ou sem manteiga, e casem-se com quem entenderem que ninguém, nem sequer Deus, tem nada a ver com isso.

Aprecio estas perguntas contundentes que o ateísmo estimula. É justo e gratificante que pessoas como o Alfredo confrontem os ateus com as suas dúvidas. Porque este diálogo crítico com os ateus contrasta com o ecumenismo melindroso e hipócrita que aconchega religiões. Os líderes de cada religião apregoam às outras o respeito mútuo, a compreensão e a coexistência de “diferentes verdades”. Mas dentro da sua congregação sabem que quando há duas versões da mesma verdade pelo menos uma tem que ser treta. José Policarpo gerou polémica afirmando o óbvio porque aquelas palavras eram para consumo interno mas foram publicitadas como produto de exportação. Isto violou o acordo sagrado das religiões nos países democráticos. Não criticar para não ser criticado.

Com os ateus não há melindres. Se o José Policarpo tivesse aconselhado as raparigas católicas a não casar com ateus ninguém ligava. E se o Alfredo Dinis confrontasse evangélicos ou muçulmanos com este empenho já se tinha metido num monte de sarilhos que nem Jahve sabia onde acabavam. Mas nós não temos telhados de vidro. De todos os que rejeitam Jesus como deus, Maomé como profeta ou o Papa como infalível os ateus são os únicos sem uma crença a jeito para apedrejar em retaliação. Não é possível dissuasão ou détente. É por isso que consideram o ateísmo o maior drama da humanidade. Mas o diálogo assim é mais interessante.

1- Alfredo Dinis, 19-1-09, autocarros cheios de equívocos.

Em simultâneo no Que Treta!

20 de Janeiro, 2009 Carlos Esperança

Reflexões sobre o multiculturalismo

Sempre defendi que o encontro de culturas é um factor de enriquecimento. A cultura de que me reclamo é a síntese do encontro de numerosas etnias e dos conhecimentos diversos que fizeram a Europa das Luzes e a Revolução Francesa. A cultura de que me reclamo é a da tolerância para com todos, mas sem a transigência para com tudo.

Sei que a antropofagia era um hábito cultural de certas tribos mas não estou certo de que devêssemos perpetuar o costume que, ainda há dois séculos, resistia na Polinésia, onde se engordavam mulheres para consumo humano.

Reconheço que não sou entusiasta do hábito de oferecer sacrifícios aos deuses nem condescendente com os católicos que, pela Páscoa, se fazerem crucificar nas Filipinas.

Não transijo com a diversidade das crenças sobre a epidemiologia ou a higiene básica e consideraria criminoso um conselho para a aplicação de excrementos de cavalo sobre as feridas, ainda que os pacientes tivessem a vacina do tétano.

O multiculturalismo é enriquecedor mas não me peçam para respeitar a cultura que discrimina os sexos, preconiza a pena de morte, defende a lapidação de mulheres ou a decapitação de infiéis.

Entre a cultura, que informa a Declaração Universal dos Direitos do Homem, e a cultura que exige a renúncia aos valores humanistas e obriga à submissão à  vontade divina, defenderei a primeira contra a segunda, para evitar o regresso à barbárie.

Não me importo que à  minha volta se façam jejuns, orações pias ou fumigações rituais, mas não admitirei que me imponham a Quaresma ou o Ramadão. Desprezo qualquer cultura, religião, dogma ou ideologia que confira aos homens o direito de bater nas mulheres, ou vice-versa.

Definitivamente, sou contra qualquer totalitarismo.

19 de Janeiro, 2009 Carlos Esperança

Comunicado da Associação Ateísta Portuguesa

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP), sem se rever nos conselhos do Sr. Patriarca, José Policarpo, às católicas jovens que eventualmente queiram casar com muçulmanos, manifesta-lhe pública solidariedade perante a onda de falsa indignação com que pretendem impedir-lhe o direito à livre expressão e aos conselhos que entende dar.

Carecem de legitimidade moral para condenar o patriarca, por sinal bastante tolerante, para um bispo, os que defendem a poligamia, a discriminação das mulheres, a decapitação dos apóstatas e a lapidação das mulheres adúlteras e pretendem que o Corão substitua o Código Penal.

Antes de se manifestarem ofendidos com o cardeal, os líderes islâmicos em Portugal devem penitenciar-se do seu silêncio perante as ditaduras teocráticas do Médio Oriente e o carácter implacavelmente misógino do Islão. Face a qualquer mullah até Bento XVI parece um defensor dos Direitos do Homem.

Quem pretende que compreendam os seus preconceitos tem de os explicar com clareza. E quem quiser que respeitem as suas crenças tem de demonstrar que estas merecem algum respeito. Falta aos muçulmanos europeus explicar a que tipo de regime submeteriam os não muçulmanos se deixássemos que Alá se tornasse grande e Maomé fosse o único profeta. Falta-lhes justificar porque havemos de respeitar as suas crenças acerca das mulheres, dos apóstatas, dos outros crentes, dos ateus e de todos que critiquem a sua religião.

Mas compete também aos bispos católicos fazer o mesmo. Explicar o que fez a sua religião pela democracia e pelo livre-pensamento, sabendo-se que a derrota política da Igreja está na origem das liberdades individuais de que gozamos. E justificar porque hão de merecer respeito as crenças católicas acerca das mulheres, do divórcio, do sacerdócio, da homossexualidade e do que é ou não é pecado.

Não são só os muçulmanos que criam um “monte de sarilhos” sem necessidade. A AAP recorda que as três religiões do livro – judaísmo, cristianismo e islamismo – são anti-humanas e patriarcais. A misoginia não é uma tara exclusiva do Islão mas apanágio do texto bárbaro da Idade do Bronze – o Antigo Testamento –, herdada pelas referidas religiões. O racismo, a xenofobia, a misoginia e a homofobia são valores do Antigo Testamento.

As três religiões não têm feito mais do que reproduzir esses valores cruéis e obsoletos sendo o Islão, actualmente, a religião que mais implacavelmente se bate pela manutenção do obscurantismo.

A AAP reitera o seu firme propósito de defender as liberdades, nomeadamente a religiosa, do mesmo modo que defende o direito à descrença e à anti-crença.

Odivelas, 18 de Janeiro de 2009

19 de Janeiro, 2009 Carlos Esperança

Fábrica dos milagres não pára…

Cidade do Vaticano, 18 jan (RV)Don Carlo Gnocchi, conhecido como o “pai dos mutiladinhos” e considerado também como benemérito dos transplantes, pois foi um dos primeiros a oferecer as próprias córneas, no leito de morte, será beatificado.

Bento XVI assinou ontem o decreto que aprova o milagre a ele atribuído, decisão que completa a precedente, que o declarava ‘venerável’ e aprovava as virtudes heróicas.