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4 de Setembro, 2009 Carlos Esperança

O Papa, o PR e o «testamento vital»

Que o Papa Bento XVI tenha reagido mal a uma carta subscrita por 41 párocos italianos, a apoiar o direito dos doentes terminais a recusarem o tratamento, é a prepotência que se compreende no líder vitalício e autoritário de uma teocracia. Não lhe falta a experiência iniciada nas juventudes nazis e consolidada à frente da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício), nem a firmeza, para impor a verdade única e o castigo adequado à heterodoxia dos referidos sacerdotes.

Já se compreende mal que o Presidente da República de Portugal, que nunca pertenceu à Legião Portuguesa, à PIDE ou à União Nacional, advirta o poder legislativo contra uma lei que peca por tardia e a que sobra humanidade.

O direito de decisão dos doentes não é um favor do Estado nem uma decisão que o PR ou o Papa devam impedir, é um sinal de respeito pelos cidadãos que cabe ao Parlamento expressar pela via legislativa.

Há na cultura judaico-cristã uma tradição que obriga ao sofrimento com base na alegada vontade divina, interpretada por gerações de clérigos e assimilada por beatos capazes de negar o direito à autodeterminação individual, mas os avanços da medicina possibilitam hoje evitar o tormento e desespero dos últimos momentos de vida.

O testamento vital não é uma obrigação mas, tão somente, uma decisão do foro íntimo que cabe ao Estado respeitar. É tão anacrónico impedir o exercício deste direito como seria intolerável impô-lo.

Os cidadãos não podem estar sujeitos às idiossincrasias de líderes que prezam mais as indicações do chefe da sua religião do que a vontade individual dos seus compatriotas. Ninguém tem o direito de se servir do aparelho de Estado para exercer o proselitismo a que se julga obrigado. Os titulares dos órgãos da soberania não têm de ser ateus, crentes ou agnósticos, devem ser neutros, em matéria religiosa, no exercício das suas funções.

O lei do testamento vital que o PS adiou para a próxima legislatura depois da manifesta ameaça do PR é uma exigência ética que não pode estar dependente das concepções beatas de um PR mais interessado na remissão dos pecados e na salvação da alma do que na defesa dos direitos individuais dos portugueses.

É urgente que a próxima Assembleia da República legisle sobre este assunto ainda que os bispos se enraiveçam e o Prof. Cavaco termine o mandato a rezar ave-marias.

3 de Setembro, 2009 Carlos Esperança

Desafios da modernidade

Há tempos, durante uma entrevista, um jornalista perguntou-me por que razão, face ao alegado respeito pela diversidade cultural, mantinha a oposição à poligamia e defendia a sua criminalização.

Objectei que admitiria a legalidade da poligamia se a lei consagrasse igualmente a da poliandria. O que está em causa não é uma questão cultural, com a qual me conformaria, mas uma desigualdade no tratamento de géneros que é uma questão civilizacional.
Este é um dos fundamentos para defender que não há guerra de civilizações mas apenas o combate, descurado, aliás, entre civilização e barbárie.

Quando a palavra da mulher vale menos do que a de um homem, quando a liberdade se restringe a um dos sexos ou o acesso ao emprego, à cultura e aos meios de subsistência privilegia um sexo, não se trata de manter a tradição mas de defender a barbárie.

A tortura, o esclavagismo e a pena de morte, para citar apenas algumas iniquidades, são uma tradição que remonta aos primórdios da humanidade, mas não adianta reivindicar a tradição quando colide com os direitos humanos porque, neste caso, deve ser erradicada.
As religiões abraâmicas, judaísmo, cristianismo e islamismo, são altamente misóginas e não é preciso ser particularmente erudito para descobrir a sua origem tribal e patriarcal.

Se a emancipação da mulher se tornou possível e numerosos Estados subscreveram a Declaração Universal dos Direitos do Homem, tal não se deve à bondade de Deus mas à dos homens. Não foram os clérigos que denunciaram as injustiças que pregavam, foram os homens e mulheres que, combatendo o poder eclesiástico, impuseram a separação da Igreja e do Estado. A democracia não nasceu em Jerusalém, Roma ou Meca, é herdeira da separação dos poderes de origem anglo-saxónica e do Iluminismo que conduziu à Revolução Francesa.

O Irão, a Arábia Saudita e o Iémen mantêm a tradição de açoitar e lapidar mulheres em público, mas não é uma tradição que deva ser integrada no âmbito multicultural ou que possa respeitar-se sem vergonha de tamanha tolerância. Imaginamos o que é ser mulher nos países onde vigora a sharia, uma boa razão para não deixarmos que a barbárie entre na Europa sob a capa do multiculturalismo.
As guerras religiosas custaram milhões de vidas aos europeus mas foi possível acabar com a Inquisição, com as monarquias absolutas e com o poder temporal dos papas. Não há xenofobia na proibição da Burka [símbolo da humilhação feminina] com a qual a mulher perde completamente o sentido de orientação.

Uma sociedade democrática não pode permitir que existam no seu seio, a pretexto da fé ou da tradição, ou de ambas, mulheres sujeitas de forma permanente e definitiva à tutela de um homem, que lhes seja interdita a condução de um automóvel ou o direito de se  autodeterminarem. Não vamos criar lugares para homens e mulheres nos transportes públicos nem permitir que as sevícias que extasiam o Profeta e os mullahs islâmicos se exerçam no espaço onde há muito se respeitam os direitos humanos.

Não se trata de xenofobia mas, tão-somente, de tratar o Islão da mesma forma com que é preciso responder ao Vaticano, um bairro de 44 hectares que, graças a Mussolini, goza do estatuto de Estado e obedece a um autocrata celibatário com tiques medievais.

A laicidade é uma exigência ética e necessidade sine qua non para a sobrevivência da civilização. Não pode ser sujeita ao escrutínio eclesiástico.

1 de Setembro, 2009 Fernandes

Bem de primeira necessidade

Em Paraná, Entre Rios, está prevista a construção de uma estátua de João Paulo II com 100 metros de altura, e com um custo de 1,5 milhões de dólares. O empreendimento conta com o apoio do deputado Jorge Cáceres, do governador e do Cardeal Estanislao Karlic (arcebispo emérito de Paraná). A Igreja reconhece que 40% da população vive na pobreza.

A Igreja sabe  o que é melhor para os pobres.

31 de Agosto, 2009 Fernandes

De Deus pode dizer-se tudo

De Deus pode dizer-se tudo –ad libitum- pois d`Ele nada se sabe.
A hipótese de um deus seja ele qual for, é cada dia que passa menos plausível, à luz da ciência e suas descobertas acerca da natureza e origem da vida. As velhas crenças das religiões e as metafísicas que as sustentam entraram inevitavelmente em decadência. A ciência moderna já não se ocupa de essências, espécies ou formas, mas sim de factos, experiências e dados empíricos, contribuindo assim para modificar a auto-compreensão do homem.
Deus, esse ser exterior que ensina ao homem o “sentido da criação”, é desmascarado pela actividade científica que mostra o realismo do universo e desmantela a noção “Ser”, que sustém todo o edifício especulativo religioso, dissolvendo-o paulatinamente apesar de este ainda manter a sua inércia na mentalidade ocidental.
As coisas são o que são, nem mais. Na realidade, o ser humano é que confere sentido a tudo o que existe e atribui a importância relativa ao seu processo individual e colectivo, sem necessidade de recorrer a revelações divinas, apesar de reconhecer que ainda há homens de ciência que se deixam sucumbir pelo consolo da fé.
Falar do “sentido” da criação do universo, recorrendo a um ser transcendente exterior a todo o processo científico, no contexto da realidade empírica, é uma falácia. Mas é aqui que descansa toda a verborreia dos teólogos pois como é lógico, nenhuma forma experimental conseguirá alguma vez explicar ou provar a falsidade do discurso religioso, quando este se veste de uma roupagem acerca da qual não é possível imaginar uma situação empírica observável que o contradiga.
Dizer que Deus existe e que deu um sentido ao universo, é um discurso teológico vazio, sem qualquer valor cognitivo para a ciência. Uma proposição só tem pertinência científica se puder ser refutada por dados empíricos.
Assim sendo: – De Deus pode dizer-se tudo pois acerca d`Ele nada se sabe.

30 de Agosto, 2009 Carlos Esperança

Crenças e crentes

Discordo da doutrina que atribui aos cidadãos a «culpa da não formação conveniente da personalidade». Com todo o horror que foi o nazismo, não consigo ver nos alemães os algozes da humanidade. Hoje, são dos mais coerentes anti-nazis e convictos europeístas.

Também os polacos, croatas, austríacos, e muitos outros, se deixaram entusiasmar por essa orgia de sangue e ódio de que só as doutrinas totalitárias são capazes. Quem deu a Hitler os atestados de baptismo que facilitaram a triagem dos judeus foram os clérigos cristãos. O nazismo e o fascismo foram de natureza secular mas sem os preconceitos anti-semitas dos cristãos a loucura nunca teria atingido tais dimensões e sido tão cruel.

O mais hediondo que precedeu a guerra de 39/45 aconteceu em Espanha, sob a égide de Franco, com a participação da Igreja católica, incluindo a figura sinistra de Escrivá, nazi, franquista e futuro santo.

O Opus Dei nasceu à sombra do franquismo, cresceu com o assassínio dos republicanos e santificou-se graças ao dinheiro com que salvou da bancarrota o Vaticano, após os desfalques do arcebispo Marcinkus no banco Ambrosiano para subsidiar o sindicato Solidariedade na Polónia.

O Opus Dei é a Al-Qaeda do catolicismo com outra forma de actuar. Não condenemos os cristãos pelos crimes que cometeram ou pelos do Papa. Os crentes apenas são vítimas da intoxicação da catequese.

É o que sucede com os judeus ortodoxos, convictos de que são o povo eleito, sionistas, tão intolerantes como os mullás ou o papa católico.
O Islão entrou em roda livre numa demência fascista que põe em risco a civilização e a paz. Não podemos incriminar os muçulmanos pela fanatização a que os sujeitam nas madraças e mesquitas mas devemos vigiar os pregadores do ódio e desmascarar o livro sinistro que os intoxica – o Corão.

As religiões, tal como outras associações, não podem andar à solta, a espalhar o ódio, a xenofobia, o racismo e a violência. Os livros ditos sagrados devem passar pelo crivo da civilização e ser desmascarados. É neles que reside a maldade e a violência de que dão testemunho as vítimas intoxicadas pelos parasitas de deus.