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2 de Abril, 2010 palmirafsilva

Nem sei que diga, cada tiro cada melro?

O pregador da Casa Pontifícia, o franciscano Raniero Cantalamessa, a única pessoa autorizada a pregar em nome do Papa, comparou hoje as críticas ao comportamento da Igreja católica relativamente aos escândalos de pedofilia envolvendo padres, à «violência colectiva» sofrida pelos Judeus. Na homilia que se seguiu à leitura da Paixão de Cristo na basílica de São Pedro, Cantalamessa referiu que as acusações de encobrimento dirigidas à Igreja «lembram-me os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo».

As reacções de grupos judeus e de vítimas de abuso sexual a semelhante tolice umbiguista oscilaram entre a incredulidade e a fúria.

2 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Homem armadilha de deus armadilha de Homem (Crónica)

Por
Sílvia Alves

– E tu quem és?
– Eu sou filho de deus.
– Mau!
– Sou! E estou cansado de ser. Cansado das dúvidas, das gargalhadas, de levar com a porta na cara!
– Meu filho, a fé é uma coisa extraordinária mas nem sempre funciona: uns têm, outros fingem, uns vêem caminho outros vão atrás. Enganam-se uns aos outros, sempre pude contar com esses. Só não contei que tu crescesses, que tu próprio duvidasses e que a tua mãe se fartasse destes dois mil anos de sombra. Ela era feliz com esta história de nasceres em cada Dezembro, ser virgem, mãe…
– A chorar a minha morte em cada Primavera. Feliz? Condenada. Felizmente, desde que lhe enviaste o Gabriel, sabe mais de anjos que tu próprio. E achas que a minha vocação é o teatro? Figurante nu, numas palhas? Ainda hoje tenho alergia. E o suplício de, tímido como sou, andar por aí a falar com toda a gente. E a farsa da morte, julgas que não dói? Sinto dores nas mãos e nos pés, ao ver-me pregado em cruzes por todo o lado. Estou farto!
– A morte são apenas três dias.
– Pai, estou farto das tuas alucinações! Com a idade podias ter juízo.
– Desistir, queres tu dizer? Depois de todo o trabalho que tive? Não foram apenas sete dias da estreia, foi uma eternidade a pensar a encenação! Meu filho, porque me abandonas?
– Porque posso. Vou tomar uma mulher, levá-la ao céu como se não houvesse deus neste mundo nem no outro, apenas homens e mulheres.
– Não podes levar pecado para o céu.
– Não há céu sem pecado. Tu sabes isso melhor que ninguém.
– Achas que eles estão a gostar da peça?
– Sei lá, estão tão calados…
– Estes assuntos da religião são muito delicados.
– Está muito escuro. Aqui deste lado não se vê nada.
– Não me convém acender mais luzes, resulta melhor na penumbra.
– Qual é a próxima peça?
– É a mesma, só mudam os actores.
– Devias fazer algo novo.
– Então, tu dizes ser filho de deus?
– Serei, mas já nem eu tenho fé!
– Eu acredito em ti.
– E tu quem és?
– Eu sou deus.
– Mau!
– Sou! E estou cansado de ser. Cansado das dúvidas…

1 de Abril, 2010 Carlos Esperança

De um sócio da AAP: Mais um livro sobre ateísmo

O autor pretende demonstrar e analisar as muito relevantes diferenças existentes entre a doutrina da Igreja de Roma quando do seu início e a actualidade, relacionando-as como consequência da necessidade da sua adaptação à permanente  evolução dos padrões culturais das sociedades,  provenientes da sua evolução técnico-científica, e da perca pela Igreja, ao longo dos tempos, do poder necessário a uma obrigatória aceitação dogmática das suas decisões.

Desta forma, aparecem importantes contradições no discurso dos seus representantes, descredibilizando a Instituição, pois são postas em discussão temas base da sua construção doutrinal, como o Pecado Original. Mais ainda, os planos do Criador são objecto de totais ‘fiascos’, como a actuação do Homem, a revolta dos Anjos, o aparecimento do Demónio e do Inferno, e, mesmo, os incompreensíveis desvios religiosos verificados com o Seu Povo Eleito. Sem esquecer a tardia introdução da Morte na vida do Homem, e a autorização de Deus para as criaturas se poderem comer reciprocamente. Ou seja, um Deus supremamente bondoso e justo, acaba por criar um mundo com um grau de extrema crueldade.

Curiosamente, o material utilizado é, predominantemente, de origem católica, como a Bíblia Sagrada, o Catecismo ou obras do Padre Manuel Bernardes e Padre António Maria Bonucci.

Continuando, um passo importante na vida de Deus, foi  a sua formação na actual versão trinitária, por obra e graça de um imperador romano, Constantino, por motivos políticos. Conclua-se, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, apareceram apenas no século IV, e este acontecimento foi objecto de cismas, excomunhões e mortes, que, é entendido, envergonhariam qualquer instituição de segunda ou terceira ordem. Esta actuação dos seus representantes na Terra tem o correspondente seguimento nos séculos seguintes, e até aos dias de hoje, e é sumariamente apreciada em variados aspectos , embora de forma a poderem tirar-se as devidas conclusões, nada edificantes para o Papado e seus acólitos.

É, no final, analisada a perspectiva do Futuro em duas alternativas, a ‘científica’ e a ‘religiosa’, dando ao leitor, como aliás noutros momentos do livro, a possibilidade de fazer a sua opção.

Em conclusão, é uma obra que pretende responder a questões frequentemente colocadas, como se pode ler na sua contra-capa :
“Deus existe? Deus tem de existir para a compreensão do Universo?
A Criação foi obra de um Deus justo e misericordioso?
O Homem é a obra-prima da criação de Deus?
É aceitável a existência do Inferno e do castigo eterno?
Quais as causas da revolta dos Anjos, criados pelo Senhor?
Os milagres ‘oficiais’ são credíveis?
A actuação da hierarquia da Igreja de Roma teve dignidade ao longo dos séculos?
As religiões foram benéficas para a Humanidade, ou constituíram um travão ao seu desenvolvimento?
As respostas a estas questões são matéria de Fé, ou devem basear-se na Razão?

Estas e outras importantes questões são abordadas nesta obra de uma forma que se pretendeu tão objectiva e lógica quanto possível, tentando fornecer ao leitor, por meio da apresentação de pontos de vista opostos, os elementos indispensáveis à formulação da sua própria opinião.”

1 de Abril, 2010 Carlos Esperança

A Igreja católica, os milagres e os escândalos

Enquanto sobram as dúvidas sobre a virtude dos seus padres, minguam as certezas sobre a intercessão divina nos milagres dos seus santos.

A pressa em canonizar João Paulo II, um papa que era crente, depara-se agora com a nódoa que atingiu em cheio João XXIII e que persegue Bento XVI – a ocultação dos casos de pedofilia que envolvem os seus padres.

Os milagres obrados para fabricar beatos e santos, cada vez mais medíocres, têm sido um factor de descrédito da Igreja católica e motivo de ridículo que embatuca os crentes e hilaria os incréus. Salva-se o milagre da Alexandrina de Balazar que, segundo afirmou o próprio Papa João Paulo II, passou mais de 13 anos sem ter comido, bebido, defecado ou urinado, alimentando-se apenas de hóstias consagradas e cuja beatificação ainda teve de passar por uma milagre obrado numa conterrânea emigrada em Estrasburgo.

A cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos ferventes de óleo de fritar peixe, foi um milagre que transformou Nuno Álvares Pereira, de herói que era, em colírio, desonra que não mereceria o vencedor de Aljubarrota.

Na semana em que o Vaticano comemora a morte de João Paulo II e já tinha um milagre confirmado para a sua beatificação, tudo correu mal, desde a contestação da posição assumida em vida quanto aos abusos sexuais dos seus padres até à validade do milagre obrado depois de morto. Depois de aprovado o milagre da cura da freira francesa, Marie Simon-Pierre, que sofria da doença de Parkinson, foi posto em causa por um prestigiado jornal que duvidou do diagnóstico e da cura.

Para além da dúvida de ter curado uma freira, depois de morto, de uma doença que não conseguiu evitar a si próprio, em vida, resta a incúria com que lidou com as inúmeras queixas de abusos sexuais que recebeu e de que se desinteressou, deixando a resolução às dioceses.

A quantidade avassaladora de milagres e a catadupa de escândalos vão transformando o Vaticano de referência ética que foi para alguns em espaço mal frequentado reconhecido por quase todos.

31 de Março, 2010 Carlos Esperança

Carta ao bispo Carlos Azevedo

Exmo. Senhor
Bispo Carlos A. P. M. Azevedo
A/C da Secretaria da CEP                                                          C. c. para Agência Lusa
[email protected]
Casa Patriarcal
Quinta do Cabeço – R. do Seminário
1885-076 – MOSCAVIDE

Senhor bispo Carlos Azevedo

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) compreende a preocupação da Igreja católica com o ateísmo, a ponto de ter realizado a peregrinação de 13 de Maio de 2008, a Fátima, «contra o ateísmo na Europa» e de, no mesmo ano, o Sr. Patriarca Policarpo ter considerado o ateísmo como o «maior drama da humanidade», maior ainda que a fome, as doenças, as guerras, as catástrofes naturais, a pedofilia e o terrorismo religioso. E a AAP reconhece, e defende, o direito de V. Ex.ª e da sua Igreja de não gostar de ateus e de manifestar o azedume que esta associação lhes tem causado nestes escassos dois anos que leva de existência.

Compreendemos também o nervosismo que a exposição mediática a que estão submetidos, pelas piores razões, perturbe a serenidade e suscite reacções menos ponderadas, como as que V. Ex.ª e os seus colegas João Alves e António Marcelino têm assinado em artigos de opinião respectivamente no Correio da Manhã, no Diário de Coimbra e no Soberania do Povo, de Águeda, contra a AAP e o seu presidente que, desde o dia 27 pp., entraram no segundo mandato.

Lamentamos no entanto que não nos seja reconhecido o direito ao contraditório. Talvez porque a liberdade de expressão não seja uma virtude teologal e a liberdade religiosa só tenha sido admitida pela Igreja católica no Concílio Vaticano II, na segunda metade do século XX, e mal digerida pelos dois últimos pontificados. Infelizmente, no século XXI, a opinião de quem diz falar em nome dos deuses é ainda tida em mais conta que a de quem admite pensar por si. É por isso que lhe dirigimos esta carta, mantendo no entanto a esperança de que o diálogo possa ser mais simétrico no futuro.

Tendo o presidente da AAP, a título pessoal, considerado “inoportuna” a vinda do Papa Bento XVI a Portugal no próximo mês de Maio, o Sr. bispo Carlos Azevedo declarou à Agência Lusa que “São 70 pessoas. Acho que têm o direito a ter a sua opinião, mas é uma opinião muito reduzida do conjunto da população portuguesa, que está a vibrar e a preparar-se para a visita do Santo Padre“, afirmações reproduzidas pela Rádio Renascença e pela SIC.

Embora a validade das posições não seja proporcional ao número de pessoas que as perfilham, aproveito para informar o Sr. Bispo Carlos Azevedo que a Associação Ateísta Portuguesa conta com 111 sócios fundadores, aos quais se têm juntado cada vez mais portugueses que, não professando qualquer religião, nem têm tempo de antena na TV pago a expensas do Estado nem a mesma facilidade de ter a sua opinião divulgada pela imprensa.

Além disso, relembramos que o Papa é o líder da Igreja Católica e de nenhuma das outras religiões. No número de portugueses que não vibra com as despesas causadas pela visita deste “Santo Padre” temos de contar não só todos os ateus e agnósticos como também todos os fieis de religiões que não a católica. Um total consideravelmente superior aos 70 que o Sr. Bispo tão precipitadamente estimou.

Assim, a AAP insiste na sua oposição a qualquer apoio do Estado português a uma visita de proselitismo, a qualquer acto de subserviência dos órgãos de soberania e a qualquer manifestação que ultra-passe o protocolo devido a um chefe de Estado, direito que os Papas usufruem depois do tratado de Latrão assinado com Benito Mussolini. E reiteramos que a visita deste Papa, nesta altura, é pouco apropriada pelas suspeitas graves que pairam sobre a Igreja Católica.

Ao contrário do que afirma o Sr. Bispo Carlos Azevedo, o problema não é “os falhanços de alguns membros do clero”, um termo especialmente infeliz por sugerir que terão falhado mas que visavam o alvo certo. O problema foi a Igreja Católica ter conspirado durante décadas para encobrir estes crimes, proteger os criminosos, não travar os abusos e negar sistematicamente a justiça que as vítimas exigiam. Isto não foram falhanços mas sim um sucesso estrondoso num acto hediondo. E estando a hierarquia católica implicada até ao mais alto nível, manda a prudência e o respeito pelas vítimas que se apurasse primeiro as responsabilidades antes de prestar honras aos suspeitos.

Aproveitamos para apresentar a V. Ex.ª  os nossos cumprimentos e para reiterar a defesa do direito à crença, descrença ou anti-crença de qualquer cidadão.

Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 31 de Março de 2010

30 de Março, 2010 Ludwig Krippahl

O pensamento ateu.

Apesar do outro post sobre o assunto (1), continuam a insistir que o pensamento ateu é pouco profundo, que o ateísmo só vive da crítica à religião, que é insensato definirmo-nos por sermos apenas contra uma ideia e assim por diante. Não sendo inteiramente erradas, estas alegações sugerem, no entanto, uma visão demasiado estreita do ateu e do ateísmo porque focam apenas um detalhe de uma atitude muito mais abrangente.

Os crentes chamam-me ateu porque não acredito no que me dizem acerca dos seus deuses. Mas, para mim, isto é como não acreditar quando me dizem que o Pai Natal traz as prendas, que há um monstro em Loch Ness ou que extraterrestres raptam pessoas. Não aceito como verdade aquilo que não for devidamente justificado. E com hipóteses tão extraordinárias o mais razoável é mesmo assumir que são falsas enquanto não haver indícios igualmente extraordinários.

Isto não é um ismo. É bom senso. Quando recebo um email de um general africano a pedir para lhe enviar 50€ para ele transferir cinquenta milhões para a minha conta não confio na promessa e nem sequer fico indeciso acerca da honestidade da proposta. A indecisão levaria a estimar 50% de probabilidade de ser verdade, um risco aceitável nesse caso. Mas o que eu concluo, como a maioria das pessoas, é que é treta. Nem com um ganho possível de um milhão para um arrisco, e quem for consistentemente crente ou agnóstico nestas coisas vai à falência num instante. Felizmente, a maioria rege-se pela regra de rejeitar alegações extraordinárias que não sejam suportadas por evidências extraordinárias.

Para perceber o tal “pensamento ateu” basta perceber que esta atitude não é excepcional. Não se discrimina um deus ou os deuses só para implicar. Por não haver termos equivalente a “ateu” para quem duvida de outras alegações duvidosas, como raptores extraterrestres ou monstros em lagos, parece que ser ateu é um caso à parte. Mas rejeitar como incorrectas as alegações de quem diz saber que deuses existem e como são deriva simplesmente da aplicação homogénea dos critérios para aceitar alegações extraordinárias.

Lamento desiludir quem procura um “pensamento ateu” único e original, mas isto é o mesmo que os crentes fazem. A diferença está só em não abrir excepções arbitrárias. Pensem no nível de evidência que exigiriam para aceitar afirmações como: Maomé é o maior e derradeiro profeta de Deus e o Corão é a palavra divina; “eu” é uma mera ilusão que devemos descartar, desprendendo-nos de tudo para quebrar o ciclo de reencarnações que nos prende a uma falsa identidade e existência; há 75 milhões de anos um maléfico imperador da galáxia trouxe milhares de milhões de extraterrestres para a Terra e chacinou-os aqui com bombas de hidrogénio; Deus encarnou como o filho de um carpinteiro para morrer por nós e agora transubstancia hóstias em pedaços do seu corpo. Qualquer crente razoável duvidará de pelo menos três destas, mesmo que seja muçulmano, budista, cientólogo ou católico. O ateísmo, enquanto rejeição de dogmas religiosos, consiste simplesmente em aplicar à que sobra os mesmos critérios que se aplica a todas as outras hipóteses religiosas, de OVNIs, de astrologia, monstros e emails suspeitos. Se exigirem da vossa religião o mesmo que exigem do resto facilmente perceberão que o “pensamento ateu” é apenas pensamento. É o mesmo de sempre e de todos.

No entanto, isto restringe a discussão ao juízo de afirmações sobre factos. Se bem que “ateu” normalmente refira aquele que rejeita explicitamente os dogmas religiosos, a distinção entre quem tem e quem não tem deuses vai além da mera avaliação de hipóteses. Um factor importante, e independente até dos deuses existirem ou não, é a disposição para a veneração, a participação numa comunidade religiosa, a oração e aquela coisa vaga a que chamam espiritualidade. Isto, talvez mais que o resto, determina se alguém se sente um crente.

Nisto já se pode apontar uma diferença radical entre crentes e ateus. Não é uma diferença de pensamento, no sentido de uma decisão racional e justificável a terceiros, mas sim uma diferença de personalidade. Há quem se sinta bem pensando que obedece a deus, que o ama e que é livre na servidão e obediência, ou coisas do género. E há quem não veja interesse nenhum nisso. Infelizmente, separar assim ateus e crentes cria o problema de classificar os que seguem os rituais da sua religião por hábito e tradição, e que professam os dogmas oficiais, mas que não sentem qualquer ligação a um deus. E suspeito que não sejam poucos.

Por isso proponho que se contorne estes problemas simplificando a discussão. Primeiro, dando menos importância ao termo e à definição de “ateu”. É mais confuso que relevante e não se define ninguém por não acreditar num deus, tal como ninguém se define por não acreditar noutra coisa qualquer. Em segundo lugar, aceitando que a religião não agrada a todos. Uns gostam e outros não. É um género de sauerkraut espiritual. E, finalmente, reconhecendo que qualquer hipótese que se proponha acerca dos deuses é como qualquer outra hipótese acerca da realidade, e deve ser encarada com tanto cepticismo quanto for excepcional.

Editado a 31-3 para corrigir umas gralhas apontadas pelo ricardodabo. Obrigado pela atenção.

1- O elefante

Também no Que Treta!

30 de Março, 2010 Carlos Esperança

SANTOS E PEDERASTAS, Javier Diez Canseco

Um escândalo de proporções envolve, há alguns meses, sacerdotes e primados da Igreja Católica dos Estados Unidos, Irlanda, Áustria, Alemanha, Holanda, entre outros países: abuso sexual de meninos que deviam estar sendo educados ou cuidados. Não são denúncias recentes, mas agora contam com evidências contundentes, resvalam em Roma e começam ventilar-se para o foro judicial, de que sempre se evadiram.

E deixam clara a dupla moral dos sectores conservadores da Igreja envolvidos.

30 de Março, 2010 Carlos Esperança

A pedofilia e a Igreja católica

Bispos sob suspeita

A ICAR não tem o monopólio dos crimes sexuais nem sequer está provado que o seu clero seja mais licencioso ou perverso do que o islâmico, por exemplo.

Há, no entanto, razões que não deixarão em paz as sotainas. A alegada superioridade moral da Igreja católica chega ao absurdo de impor a continuação da gravidez a uma criança violada e grávida, a uma mãe em risco de vida ou com um feto com deficiências graves, às vezes incompatíveis com a vida.

A sanha contra a homossexualidade que nos pios ensinamentos seriam, como tudo, vontade do seu omnipotente deus, torna-a vulnerável perante a opinião pública que, à medida que duvida da virtude dos padres descrê da autoridade do seu deus.

Acresce que os padres foram quase sempre enclausurados em seminários, separados das mulheres, que os três monoteísmos depreciam, e tiveram de lidar com as hormonas na adolescência e chegaram à idade adulta sem maturidade sexual. O vulcão de lama que ora atinge a Igreja não é surpresa, é fruto da tolerância de que gozou, da conivência dos Estados e da hipocrisia das dioceses e do Vaticano.

O padre Frederico Cunha, condenado a 13 anos de prisão por homicídio de um jovem de 15 anos e por pedofilia, devia ter servido de lição ao bispo do Funchal, D. Teodoro, que o trouxe do Vaticano para secretário pessoal. O que restou de pias buscas à casa do padre, feitas alegadamente por castas freiras, era um manancial de pornografia e de provas das tendências pedófilas do reverendo padre cuja prisão o virtuoso bispo do Funchal comparou ao martírio de Cristo.

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) não tomou qualquer providência para saber se havia bispos pedófilos, se algum era portador de Sida, se todos eram heterossexuais não praticantes e se cada um deles seria capaz de entregar à Justiça padres delinquentes.

Pelo contrário, numa saída precária do padre Frederico logo apareceu um táxi para o levar a Madrid, um passaporte falso e dinheiro verdadeiro que lhe permitiram a fuga para o Brasil onde certamente continua a transformar a água normal em benta e as rodelas de farinha em corpo e sangue de Cristo. Ninguém, que se saiba, foi investigado por ter sido conivente na fuga ou o obrigou a mudar de profissão.

Quando este Papa encobriu padres pedófilos, como provaram o NYT e outros jornais, quando João XXIII ameaçou de excomunhão quem denunciasse os crimes sexuais do clero, incluindo as vítimas, só podemos contar com o braço secular para tratar os funcionários de deus como qualquer outro cidadão.