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A tradição católica do Purgatório decorre do judaísmo, do rezar pelos mortos.
A existência do Purgatório foi concebida em 593 durante o pontificado do papa Gregório I e proclamada pelo Segundo Concílio de Lyon (1274), pelo Concílio de Florença (1438 1445), e pelo Concílio de Trento (1545 1563).
Em 2005 a Igreja Católica ainda defende o Purgatório, tal como consta nas secções 1020-1032, 1054, 1472 e 1473 do Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992.
Segundo a actual doutrina católica, imediatamente após a morte, uma pessoa sofre o julgamento particular em que o destino da alma é especificado. Alguns unem-se com Deus no Paraíso e outros são destinados ao Inferno. O pecado mortal é uma “grave violação da lei de Deus”, um estado de punição e separação eterna de Deus. Algumas almas não estão suficientemente livres dos pecados veniais (que significa “pecados perdoáveis”) e as suas consequências para entrar imediatamente no Paraíso, as quais, estão destinadas a unirem-se com Deus no Céu, e para isso devem passar pelo estado de purificação do Purgatório. “não nos coloca em oposição directa com a vontade e amizade de Deus”. Embora “constitua uma desordem moral”, não priva o pecador da amizade com Deus e, consequentemente, da felicidade eterna do Céu. O perdão dos pecados e a purificação podem ocorrer durante a vida, por exemplo, no Sacramento do Baptismo e no Sacramento da Penitência. No entanto, se esta purificação não é atingida totalmente em vida, os pecados veniais podem ser purificados após a morte. No Purgatório, as almas “obtém a santidade necessária para entrar no Céu”. O Purgatório é uma purificação que envolve um castigo temporário doloroso, associada à ideia de fogo, semelhante ao Inferno. O Papa Gregório I escreveu que deve haver um fogo de purificação para algumas pequenas falhas. Orações para os mortos, esmolas, indulgências e obras de penitência na crença católica diminuem a duração do tempo que os mortos passam no Purgatório.
O Papa Paulo VI escreveu: a indulgência é “(…) uma remissão da pena (…) através da intervenção da Igreja”.
A Igreja Católica ensina que o destino dos que estão no Purgatório pode ser afectado pelas acções e intercessão dos vivos. Por causa da comunhão dos santos, os fiéis que ainda são peregrinos na terra são capazes de ajudar as almas do Purgatório, oferecendo orações em sufrágio por eles, em especial a missa.
Para inventar o Purgatório o clero católico recorreu a novas concepções de espaço e tempo; relacionar Terra e Além implicava numa espacialização do pensamento que, lidando com estruturas matemáticas, deixasse de lado as antigas concepções dualistas e criasse esquemas lógicos ternários nos quais a noção de intermediário passasse a ter papel fundamental. Foi assim que, entre guerreiros e sacerdotes, a nova concepção da sociedade de ordens introduziu os trabalhadores; entre o Céu e o Inferno, o sistema de Além completou-se com o espaço Purgatório.
Podemos dizer hoje, grosso modo, que o Purgatório corresponde à burguesia, tal como o Céu pertence à nobreza e ao clero e o Inferno pertence aos trabalhadores manuais: lavradores e artífices.
Fica assim patente que a criação do Purgatório serve a necessidade de criar um lugar ideológico para a burguesia, ou seja, para aqueles que não estavam livres do “pecado” de ter trabalhado mas que por outro lado tinham riquezas e eventualmente títulos.
Para percebermos melhor a finalidade do Purgatório é útil conhecer as ideias de Jacques Le Goff.
Ele separou o «Tempo de Deus» e o «Tempo dos Mercadores» (Le Goff, 1980: 43).
A Idade Média rege-se pelo tempo de Deus, ou seja, neste período o tempo é entendido como uma dádiva de Deus e como tal não podia ser alvo de moeda de troca (Deus dispunha o tempo dos seres humanos como bem entendia, gerido em seu nome pelas autoridades eclesiásticas); a sociedade era regida pela religiosidade (os sinos das igrejas ou dos mosteiros marcavam momentos para a fé – convocação para a missa, celebração de festas religiosas, etc.) e assim encontramo-nos perante uma forma de gerir o tempo, comunitária e centralizada na Igreja.
Apesar da sua existência ter sido inventada em 593, o Purgatório só foi utilizado em pleno Tempo dos Mercadores.
O tempo dos Mercadores rege-se pelo comércio e pela capacidade do indivíduo em fazer dinheiro – dispondo para tal do tempo que ele acha necessário (correndo o risco de criar um certo distanciamento ou falta de assiduidade nas suas obrigações religiosas); encontramo-nos, nesta situação, perante uma forma descentralizada e individualista de gerir o tempo e as obrigações na comunidade.
Para lidar com o embaraço provocado por esse egocentrismo monetarista que em tudo contraria a passagem bíblica de Mateus 19:24 (“Repito-vos: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino do Céu”), tanto por interesse próprio das novas classes burguesas fazedoras de dinheiro como da tradicional classe clerical que dele tanto precisava, houve necessidade de reorganizar o sistema divino para permitir o ingresso dos endinheirados no Paraíso e/ou a sua aceitação social na comunidade: criou-se para isso, o Purgatório.
Com este artifício, o dinheiro do pecador (o qual sabia estar vedada uma ida directa para o Paraíso) podia ser utilizado para transaccionar o período de estadia nessa antecâmara intermédia chamada Purgatório, compatibilizando-se assim todos os interesses: os pecadores endinheirados sabiam que teriam de pagar pelas suas faltas de alguma maneira, num lugar (sem com isso hipotecar a sua salvação depois da morte ou a sua ostracização no mundo terreno), e o clero continuaria a ser coerente em relação às Escrituras: o seu papel como «gestor financeiro» do Purgatório juntava assim o ingresso no Paraíso de ser objecto de qualquer sanção ou comércio mundano.
A compra de tempo de penitência e redenção fora da ordem natural das coisas, ou seja, no Purgatório, terá implicações na fragmentação da dualidade moral (bom/mau) e na concepção e organização do império celeste: aquilo a que actualmente podemos chamar uma parlamentarização do mundo divino, perene, Iatico, eterno, começava a operar-se; e, com esse feito, começava também a desmoronar-se as estruturas religiosas que permitem uma tão radical mudança nesse organigrama supostamente imutável (pois se as organizações precisam de reestruturações nos seus departamentos é porque estas não funcionam tão bem nem são tão eficientes quanto seria desejável sejam elas terrestres ou celestes. Controlada que estava a gestão do tempo espiritual, devem ser verificadas as Implicações da gestão eclesiástica no tempo natural.
Céu/Purgatório/Inferno = Clero/Trabalhadores/Guerreiros
ou
Céu/Purgatório/Inferno = Nobres+Clero/Burgueses/Trabalhadores
(TEXTO BASEADO EM VÁRIAS OBRAS, ENTRE ELAS A HISTÓRIA DO ATEÍSMO EM PORTUGAL DO ARQUITECTO LUÍS FERREIRA RODRIGUES)
Demitiu-se agora o bispo belga Roger Vangheluwe, que assume os seus crimes: «Quando ainda não era bispo e também durante algum tempo depois de ser, abusei sexualmente de um jovem da minha entourage próxima. A vítima ainda está marcada».
Depois das duas demissões noticiadas anteontem, parece indesmentível que a ICAR optou por queimar o que houver para queimar, o mais depressa possível. Esperando que a crise dure o menos possível e que não sobre nada para denunciar. É uma fuga para a frente. Para ser credível, deveria ser acompanhada das denúncias dos casos que ainda não prescreveram.
O jornal «Público» tem um sub-site especial sobre a visita do Papa-Ratz. Encontram-se ali artigos pró e contra, de católicos e de ateus, testemunhos de pedófilos e das suas vítimas, e textos do Papa e dos seus críticos, num fantástico exercício de contraditório e pluralismo como só um jornalista tão «isento» como António Marujo – que recebeu duas vezes o Prémio Templeton – seria capaz.
A ler até cair de sono. O que deve demorar. Muito.
O Papa Bento XVI foi esta quinta-feira formalmente processado judicialmente nos Estados Unidos por alegado encobrimento de abusos sexuais por um padre de Wisconsin acusado de molestar pelo menos 200 crianças surdas entre 1950 e 1975, informa a Associated Press.
Demitiu-se mais um bispo irlandês, implicado no encobrimento de crimes de abuso sexual de menores. Demitiu-se um bispo alemão acusado de violência física sobre crianças e desvio de dinheiro.
Xeque ao rei?
A António Marto, bispo de Leiria-Fátima da ICAR, pertencem as declarações mais chocantes produzidas por um católico português sobre o escândalo do encobrimento eclesiástico de crimes de abuso sexual de menores. Disse António Marto: «A nossa lei, tanto quanto me consta, não obriga, como a francesa ou a inglesa, a denunciar os casos à Justiça civil, mas, se tal se colocar, fá-lo-emos». O som das declarações é particularmente impressionante pela frieza e indiferença de António Marto (e pode ser ouvido aqui).
Não vou entrar na discussão do que a lei obriga ou não a fazer. Desejo que a lei seja igual para todos, e dificilmente concebo que alguém possa saber de um crime grave (abuso sexual de menor ou homicídio, por exemplo), sem sentir a obrigação ética de o denunciar. O «remorso e a vergonha» não chegam.
Todavia, grande parte dos portugueses consideram a ICAR uma «autoridade moral». Mas como se pode considerar uma autoridade ética quem não afirma claramente a obrigação de denunciar um crime de sangue, em particular quando as vítimas, por serem crianças, podem não compreender os seus direitos?
Era a esta questão que eu gostaria que os católicos honestos respondessem.
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]
Nenhum democrata contesta o direito de o Papa visitar Portugal, por mais discutível que seja a intenção de manter vivo um embuste que transformou uns inóspitos campos de pastorícia num centro de combate à República e ao comunismo, primeiro, e num destino vitalício de superstição popular, depois.
O respeito pelos crentes que viajam de joelhos e se arrastam em sofrimento, cumprindo promessas, solicitando milagres, maravilhados com as vestes talares dos clérigos e com a multidão de crentes em êxtase, não permite ridicularizar as encenações sazonais que a máquina eclesiástica põe em palco com especial entusiasmo nos dias 13.
Bento XVI tem-se esforçado por ser ainda mais impopular do que os seus antecessores para todos aqueles que não comungam da fé de que vive e não partilham as ideias que o tornaram a personalidade mais reaccionária entre os dirigentes da Europa democrática.
B16 é um arauto do retrocesso civilizacional, regedor do minúsculo Estado teocrático e patriarcal cuja representação na ONU lhe serve para tentar boicotar todos os programas a favor do planeamento familiar, dos direitos das mulheres, da luta contra a Sida ou das minorias sexuais, numa deriva fundamentalista que o leva a aliar-se às piores ditaduras
da Organização da Conferência Islâmica.
B16 é ultraconservador e reaccionário, mesmo para um líder religioso, difundindo uma visão retrógrada do cristianismo, dogmática e misógina, na linha dos movimentos mais hostis ao concílio Vaticano II – o Opus Dei e a Legião de Cristo –, não havendo razão para regozijo pela sua presença em Portugal. Mas isso é assunto dos crentes.
Para os cidadãos laicos, mesmo crentes, há razões particularmente intoleráveis para a forma como o Estado e algumas autarquias se comportam com a visita deste Papa. A tolerância de ponto é um acto de subserviência inaceitável mesmo que o dignitário em causa fosse mais recomendável.
Não acredito, como afirmam os avençados do divino, que «Deus está no pensamento e no coração de cada homem» e estou certo de que a questão espiritual, por mais relevante que seja, não é apanágio das funções do Estado cujo papel é antes o de se ocupar das questões sociais.
Se o catolicismo faz parte do património cultural de Portugal, o País não é já a nação consagrada ao Imaculado Coração de Maria, depois de várias décadas de democracia, mas uma República separada das Igrejas como estabelece a CRP. O seu objectivo não é procurar que muitos portugueses creiam, mas que vivam melhor, cada vez mais livres e mais iguais. É essa a missão que incumbe ao Estado e não a de se ajoelhar.
Podem encontrar aqui uma série fabulosa de fotografias do Papa Ratzinger, que provam como ele é imensamente fotogénico. Guardem-nas que podem vir a ser úteis…
Há crentes cujo fanatismo atinge as raias da incivilidade. Mostram bem do que eram capazes se tivessem o poder de queimar, torturar e silenciar os adversários. É a velha intolerância assimilada, a matriz genética do cristianismo do Antigo Testamento, as pulsões violentas dos Torquemadas.
No Diário Ateísta, a tolerância ateia tem permitido os desequilíbrios da linguagem, da gramática e do pensamento, numa manifestação pedagógica para quem se envenenou com tolices pias e empanturra com novenas e salve-rainhas.
Não podendo o Diário Ateísta dar educação a quem não a recebeu, nem tolerância a quem os livros pios e a acção deletéria da catequese envenenaram, só tem a faculdade de os ignorar ou de lhes impedir o acesso.
Os ignorantes e arruaceiros são violentos por tacanhez intelectual e por crerem que têm um deus com o olho neles capaz de lhes dar no outro mundo o torrão de açúcar com que se adoça a boca aos solípedes depois de uma corrida a galope.
A tolerância é uma virtude que não se aprende com jejuns ou água benta, é apanágio de quem pensa em vez de rezar, de quem anda de pé e não de joelhos, de quem não rasteja aos pés do clero nem da parafernália de santos que o Vaticano cria para maravilhar os pobres de espírito.
Há primatas a espumar de raiva contra o pluralismo, produtores de lama que circulam pela Internet à espera da caixa de comentários onde possam bolçar o ódio que os alimenta e a matéria de que são feitos.
Eles não procuram conhecer opiniões diferentes, encontram nas ameaças que proferem sob anonimato a coragem que lhes mingua para darem a cara. São assim os crentes deste povo onde D. Nuno vem curar o olho esquerdo de uma devota e os pastorinhos ajudam uma coxa a dar uns passos.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.