Loading
29 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Espanha – Um país e dois Varelas

O cardeal Antonio María Rouco Varela, bispo de Madrid, um dos mais reaccionários de Espanha e do mundo, abriu feridas insanáveis com a ajuda de Ratzinger, ao canonizar e beatificar, em doses industriais, defuntos admiradores de Franco.

Foi um acto deliberado contra a democracia e, na pressa, nem todos eram aconselháveis para os altares apesar da generosidade com que Bento XVI eleva fascistas à santidade. Podia ter-se ficado por Escrivà, a quem devia favores e dinheiro, apesar da conivência com a ditadura e o ditador, e poupado a Espanha ao reavivar de memórias dolorosas de quem viveu horrores praticados dos dois lados da guerra civil.

Agora apareceu outro Varela, a quem também não faltam vestes talares e a nostalgia do ditador cruel que, depois de ganhar a guerra, nunca mais perdeu o espírito sanguinário.

O juiz de instrução do Supremo Tribunal, Luciano Varela, levará a julgamento Baltasar Garzón, por ter decidido investigar os desaparecidos da guerra civil e do franquismo, violando a lei de amnistia geral de 1977. Faltava este Varela para evitar que os crimes de um dos mais sanguinários ditadores do século passado fossem conhecidos com rigor.

Rejubilam os franquistas, incluindo a maioria do clero, que assistiram à democratização de Espanha, convictos de que Franco era o enviado da providência divina. O fascismo está vivo nas Forças Armadas, nos Tribunais e nas Universidades que permaneceram intactas, tal como a Igreja católica, e se mantêm redutos sólidos do fascismo espanhol.

Quando o juiz Baltasar Garzón, ciente de que os crimes contra a humanidade não devem prescrever, resolveu exumar os crimes da Guerra Civil, com a mesma coragem com que perseguiu os da ETA, viraram-se agora contra si os carrascos que então rejubilavam.

O julgamento de Baltazar Garzón não é só um libelo contra a democracia e o direito dos descendentes das vítimas à verdade, é a vingança mesquinha contra um juiz que, se for suspenso, perde o direito à protecção policial e fica sujeito às balas dos inimigos.

É talvez isso que os seus algozes querem. Basta que o Varela de toga possa fazer o que o Varela de mitra não consegue. Nem o escândalo internacional, nem a indignação dos descendentes das vítimas, nem a estupefacção de magistrados democratas o demoveu. O ódio é velho e não cansa.

28 de Abril, 2010 Ricardo Alves

É um sacerdote católico quem o diz

O sacerdote católico Mário de Oliveira, padre sem paróquia mas livre e sem papas na língua, fala de Ratzinger e das «aparições» de Fátima.

  • «Enquanto teólogo ele sabe, como todo os teólogos – e nós não encontramos nenhum teólogo convicto que defenda Fátima – que do ponto de vista da teologia é absolutamente impossível haver aparições. Do ponto de vista da fé cristã é impossível poder falar-se alguma vez de aparições. Impossível. E ele como teólogo sabe isso e apesar disso vai lá. Contra a sua própria teologia, vai como que canonizar, por um véu de canonicidade, de autenticidade, sobre uma mentira que são as aparições de 1917, com uma agravante que não havia nos anos anteriores. (…) a visita de Bento XVI a Fátima ainda é uma agravante, que o devia levar a ter um pouco de pudor. Porque as três crianças de Fátima, em 1917, foram vítimas – não em termos de pedofilia, de sexo – também do clero de Ourém que organizadamente inventou aquela historieta toda. E a encenou e a representou, servindo-se das três crianças. Desse universo de crianças, duas acabaram por morrer e a que sobreviveu foi sempre sequestrada até à morte.»

E pede a demissão do Papa-Ratz.

  • «(…) como foi a instituição que os formou – mal – e tomou conhecimento quando eles cometeram esses actos e escondeu-os para bem do nome da Igreja, e não fez nada: em última instância quem tem de se demitir é o Papa. Tem obrigação moral de ser o primeiro a dizer: “Eu demito-me, e agora sigam o meu exemplo.” Enquanto o não fizer, não tem moral para demitir ninguém.»

Pode-se ler na íntegra aqui.

28 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Tradução e adaptação a Portugal do manifesto francês

O Papa tem o direito de vir a Portugal. Longe de nós a ideia de nos opormos, porque somos laicos. Mas a recepção oficial, de forma reverencial e com fundos públicos, não é desejável.

Enquanto chefe de Estado, Bento XVI não merece entusiasmo de uma democracia laica e igualitária. À frente de um pequeno Estado teocrático e patriarcal ele usa o seu lugar de observador permanente da ONU para dificultar todos os programas a favor do planeamento familiar, dos direitos das mulheres, da luta contra a Sida, ou das minorias sexuais. Frequentemente ao lado das piores ditaduras da Organização da Conferência Islâmica.

Enquanto líder religioso, Bento XVI é um papa ultraconservador e reaccionário. A sua visão do catolicismo, promovida através dos movimentos como o Opus Dei ou a Legião de Cristo, é dogmática, estreita, anti-feminista, discriminatória, hostil a um ecumenismo efectivo e ao espírito modernista do Vaticano II. Não há qualquer razão para reverência. Mas é assunto dos crentes.

Enquanto cidadãos laicos, a nossa vigilância está noutro lugar. Nós temos de aproveitar esta visita para recusar e voltar a recusar a «laicidade positiva», um termo utilizado por Bento XVI e repetido por todos os beatos ao serviço do papa e do Vaticano.

Fiéis à CRP, que separa o Estado das Igrejas, nós estamos amarrados à laicidade sem adjectivo. Quer dizer a uma laicidade que distingue bem a esfera do domínio público da sociedade civil e da esfera privada. Esta separação mantém prudentemente à distância a política da religião, no interesse de ambas.

Recusamos a evolução desta laicidade para uma religião civil à americana, a subvenção pública dos locais de culto, assim como a brandura da vigilância para com as seitas.

Apelamos, pelo contrário, a uma vigilância face a todos os integrismos. Esta vigilância passa pela revalorização dos laços sociais com um modelo laico, o apoio às associações de bairro lutando por viver em conjunto e à defesa da escola pública. Nós dizemo-lo sem rodeios: na transmissão dos princípios da República, o padre, o pastor, o rabino ou o imã não poderão jamais substituir o professor.

Nós não pensamos que o perigo das comunidades imigrantes seja tornarem-se «desertos espirituais», mas de se tornarem guetos sofrendo do bloqueamento da ascensão social, da subida dos preços imobiliários, do recuo dos serviços públicos e da falta de miscigenação social.

Nós não temos a pretensão de crer, como afirmam os avençados do divino, que «Deus está no pensamento e no coração de cada homem». Mas nós estamos certos de uma coisa, por mais importante que seja, a questão espiritual não nos parece ser apanágio das funções do Estado cujo papel é antes o de se ocupar da questão sicial.

Se o catolicismo faz incontestavelmente parte do património cultural de Portugal, o País não é já a nação consagrada ao Imaculado Coração de Maria, depois de várias décadas de democracia, mas uma República separada das Igrejas como estabelece a CRP. O seu objectivo não é procurar que um grande número de portugueses acreditem mas que vivam melhor, cada vez mais livres e mais iguais. Tal deverá ser a missão que incumbe aos órgãos do Estado. Tal é a nossa esperança.

Adaptação e tradução por CBE

27 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Momento zen de segunda_ 26_04_2010

Na sua homilia de hoje, no DN, João César das Neves (JCN) parece apavorado com a legalização do casamento gay, convencido definitivamente da sua obrigatoriedade ou servindo-se do pretexto para não falar dos escândalos que inundam a sua Igreja.

Qual profeta, ungido na sacristia de uma paróquia rural, JCN afirma que «Aquilo que chocará o futuro são sem dúvida as tentativas radicais e atabalhoadas na legislação da família», motivo que o levou a intitular o sermão «A construção de um monstro».

Considera a lei do aborto de 2007, responsável pelo morticínio de milhares e insurge-se contra o que chama «enorme fraude política de usar um referendo não vinculativo sobre a despenalização do aborto” para o legalizar, omitindo que o anterior, igualmente não vinculativo e menos participado, suspendeu a legislação legalmente votada na A.R..

Depois de uma frase pia, de ressonância apocalíptica, « O aborto é apenas um aspecto, de longe o mais sangrento, da vasta investida recente contra a vida», atira-se à “lei da procriação medicamente assistida” de 2006 exibindo um desvelo pelo embrião humano superior ao que alguma vez lhe mereceram as crianças que morrem vítimas da fome, da guerra e das doenças que o seu omnipotente deus consente.

«As leis do divórcio de 2008 e uniões de facto de 2009 constituem enormes atentados à instituição familiar, só comparáveis à campanha de 2010 pelo casamento do mesmo sexo», – diz o microfone da Igreja católica ligado às segundas-feiras no DN.

JCN encara a educação sexual como uma imposição de «ideologia frouxa e lasciva» às crianças e jovens e ruge contra as praias de nudistas. Depois mistura coisas diferentes: divórcio (quererá proibi-lo?), uniões de facto e filhos fora do casamento, a que atribui a baixa natalidade, esquecendo que pior, para a reprodução, é a castidade.

JCN considera a legislação familiar portuguesa, em linha com o que se passa na Europa, um plano malévolo digno de Nero, Napoleão e Hitler, esquecendo as paixões que os dois últimos despertaram em altos dignitários da sua Igreja.

Enfim, JCN é uma poderosa vacina contra a Igreja de que é prosélito.

26 de Abril, 2010 Eduardo Costa Dias

Nova versão da singular expressão brasileira “rouba mas faz”…. “é pedófilo mas ‘fez um bom trabalho na Igreja'”!

População apoia padre pedófilo
Numa reacção que surpreende quem acompanha o caso, o padre Luiz Marques Barbosa, de 83 anos, detido há uma semana sob a acusação de pedofilia, está a receber forte apoio da comunidade católica de Arapiraca, cidade do estado brasileiro de Alagoas onde foi pároco durante vinte anos e onde os supostos abusos terão ocorrido. A casa onde devido à idade foi autorizado pela Justiça a cumprir prisão domiciliária é cenário diário de uma verdadeira romaria de fiéis que querem confortar o sacerdote.

Desde o amanhecer, dezenas de pessoas, homens, mulheres e crianças, vão até à habitação, cercada por muros altos e por uma rede electrificada, para expressar solidariedade ao sacerdote. Rezam com ele e confortam-no. De acordo com testemunhos, o padre Luiz Barbosa está abatido mas recebe todos e não foge do delicado assunto que o colocou naquela constrangedora situação, assumindo que mantinha uma relação homossexual com o rapaz, ex-acólito, que o denunciou. Mas nega ter abusado de menores.
“Ele está a ser confortado pelos fiéis porque fez um bom trabalho na Igreja”, afirmou a um repórter o comerciante Robson de Paula, ao sair da casa do sacerdote, onde levou até a esposa e a filha, mostrando que o respeito e a quase devoção a Luiz Marques não acabaram.
Uma outra senhora, que não se quis identificar, afirmou que “não compete a nós julgar os pecados dele, quem tem d julgá-lo e, se for o caso, puni-lo, é Deus.”

Correio da Manhã, 26 de Abril 2010

26 de Abril, 2010 Ricardo Alves

ICAR em queda na Alemanha

O número de alemães que pagam o «imposto de igreja» está em queda acentuada. As notícias mais recentes indicam várias dioceses em que o número de renúncias a permitir que parte do imposto estatal seja captado pela ICAR triplicou ou quintuplicou.

Na Alemanha, é possível ao contribuinte indicar a comunidade religiosa à qual deseja que parte (8%-9%) do seu imposto seja afecto. As comunidades religiosas beneficiárias são a Igreja Luterana, a ICAR e a Comunidade Judaica. Este «imposto de igreja» permite saber quantos contribuintes pertencem a cada uma das principais comunidades religiosas.

Segundo uma sondagem, 26% dos católicos alemães poderão deixar de contribuir desta forma para a ICAR alemã, que retira 70% do seu financiamento do «imposto de igreja».

26 de Abril, 2010 Luís Grave Rodrigues

Será que ainda vamos a tempo de fazer uma coisa destas em Portugal?

 

Um brincalhão qualquer do “Foreign Office”, o ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, resolveu fazer circular um documento com aparência oficial em que se sugeria ao Papa Bento XVI que aproveitasse a sua visita ao Reino Unido em Setembro próximo para lançar a sua própria marca de preservativos «Benedict», para inaugurar uma clínica de abortos e para abençoar um casamento homossexual.

Descoberta a brincadeira, lá foi o brincalhão transferido sabe-se lá para onde, e lá teve o “Foreign Office” de andar a desmentir tudo e a pedir desculpas formais ao Papa e à Santa Sé.

Mas parece que a coisa é bem capaz de não ficar por aqui.

O cardeal Renato Martino, antigo presidente do Conselho Pontifício do Vaticano para a Paz e a Justiça declarou que se o Governo britânico convidou o Papa, deveria tratá-lo com respeito, porque fazer troça das crenças de milhões de católicos, não só no Reino Unido mas em todo o mundo, é de facto muito ofensivo.

E acrescentou que este incidente, de tal modo é ofensivo, poderá mesmo vir a causar o cancelamento da visita do Papa ao Reino Unido.

É pena que os responsáveis pelo Vaticano se ofendam tanto com uma brincadeira de um obscuro funcionário do ministério dos negócios estrangeiros britânico e não se incomodem sequer com a sua persistência em discriminar os seres humanos em razão da sua orientação sexual ou com os efeitos das mortíferas consequências da sua política sobre o preservativo, principalmente na África sub-Sariana.

Isto para não falar do tenebroso escândalo da pedofilia e do sofrimento causado a milhares e milhares de crianças por esse mundo fora, com a miserável complacência das mais altas estruturas da Igreja Católica, incluindo a do Cardeal Joseph Ratzinger.

Mas se uma brincadeira deste género é bem capaz de fazer cancelar a visita do Papa ao Reino Unido, será que em Portugal ainda vamos a tempo?…