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25 de Janeiro, 2014 Carlos Esperança

24 de janeiro

1984 – O Governo português aprova a proposta de lei para a despenalização do aborto.

Foi há 30 anos, quase dez depois do 25 de Abril, que pela primeira vez foi legalmente permitida a I.V.G. nos casos de violação, malformação do feto e perigo de vida da mãe, perante as homilias raivosas da ICAR.

Ainda andam por aí os que votaram contra e as pessoas que exibiam autocolantes, com frases terroristas, contra o avanço civilizacional que a lei consagrava. Um ato de saúde materna era encarado como crime por partidos onde se distinguiram honrosas exceções que a memória guarda.

Antes, houve tentativas falhadas, graças aos que invocavam a vontade de um deus que não lhes passou procuração. Há uma estranha maldição que nos remete para o preconceito atávico e a hipocrisia pia.

24 de Janeiro, 2014 Carlos Esperança

Glória a S. Josemaria Escrivá de Balaguer

Em 2002, João Paulo II, emigrante polaco residente no Vaticano, solteiro, de 82 anos de idade, papa de profissão e estado civil, cumpria a tarefa de criar bispos e cardeais e tinha a obsessão de fabricar beatos e santos. Pelava-se por milagres e honrava os autores com a elevação à santidade, sem prejuízo da fixação em Maria e a adoração por virgens que a idade e o múnus avivaram.

Mas os santos da igreja católica sugerem empregados acomodados. Fazem um milagre para chegarem a beatos, outro para serem promovidos ao posto seguinte e abandonam o ramo.

Quando são candidatos, praticam a intercessão que lhes rogam mas desistem da vocação milagreira logo que alcançam a santidade. Quando se julgavam esgotadas as vagas, João Paulo II rubricou alvarás de santo a largas centenas, criados em nítida concorrência com os anteriores. Alguns destes fecharam a porta, que é como quem diz, foram apeados das peanhas onde enegreciam com o fumo das velas, se enchiam de fungos com a humidade ou se deixavam corroer pelo caruncho.

Com séculos de pequenos e honestos milagres, habituados à pedinchice autóctone e às lamúrias, quase sempre ao serviço de modestas comunidades que atendiam nos limites do razoável, perderam a aura e a devoção, submersos no tropel de novos e afidalgados ícones com vocação mediática. Migraram para as sacristias, acumulando pó a um canto, a delir a pintura e o préstimo, a desgastar as vestes e o respeito, em santa resignação.

Na religião há uma tendência para o sector terciário. Arrotear a fé e pescar almas, são tarefas pouco gratificantes. Transacionar bulas para engolir carne à sexta-feira, vender indulgências, trocar santinhos, comercializar bênçãos, era negócio do passado. Então o que passou a dar foi o lucrativo setor milagreiro em franca ascensão. João Paulo II promoveu também jubileus, um sucesso garantido para escoar imagens do promotor e providenciar a divulgação dos promovidos.

Quanto custará hoje um dente de S. Josemaria, com certificado de origem? Há de valer uma fortuna, a avaliar pelo êxtase que o primeiro a ser exibido provocou aos peregrinos durante as exéquias de canonização. O mercado já devia estar sortido de relíquias, nada restando do novel taumaturgo para exumar.

Pudessem os piedosos colecionadores ter adivinhado o destino promissor post mortem desse servo de Deus e ter-lhe-iam recolhido em vida duas dezenas de unhas e trinta e dois dentes. E a perda irreparável da primeira dentição?! Quem sabe se a premonição materna não terá acautelado o primeiro incisivo transformando um desvelo num tesouro, através deste estranho processo alquímico – a canonização –, segredo transmitido aos sucessores de Pedro e usado em doses industriais pelos últimos pontífices?!.

Pudesse Teodorico Raposo ter deposto no regaço de D. Patrocínio uma relíquia de S. Josemaria, que nem sobrinho, nem tia, nem Eça sabiam que viria a existir, e a devota senhora ter-lhe-ia perdoado as relaxações a que o sangue inflamado do tartufo o induzia, embevecida pelos eflúvios celestes que dimanam da raiz do canino de um santo assim!
Tivesse a premonição dos membros do Opus Dei adivinhado a santidade do fundador, que grossos cabedais e a longevidade papal lograram, e teriam armazenado farto recheio de numerosos têxteis tingidos por flagelações ou impregnados de outros fluidos.

A onda de devassidão do clero amargurou o papa – que fez do celibato dogma e da castidade virtude obrigatória – sem que a providência o tenha poupado à divulgação de pedófilos que exornam as dioceses da Igreja romana, apesar do cuidado em escondê-los.

E um padre que não respeita uma criança não pouparia um anjo.

É, pois, necessário que floresçam santos como S. Josemaria cujas relíquias hão de servir de benzina para desencardir a alma dos que sucumbem às tentações da carne.

Glória a S. Josemaria Escrivá de Balaguer nas Alturas e o poder na Terra ao Opus Dei.

Apostila – Depois de canonizado, em 6 de outubro de 2002, S. Josemaria abandonou o ramo dos milagres e até hoje, mais de onze anos decorridos, não obrou novo prodígio.

24 de Janeiro, 2014 Carlos Esperança

Melhoria de transportes celestes

Santuário da Penha acelera chegada ao céu

Indulgência plenária perpétua atribuída pelo Papa ao santuário de Guimarães ajuda a “diminuir o tempo de purgatório” dos católicos após a morte.

Idealizado em 1930, o Santuário da Penha ficou construído 17 anos depois e é hoje uma obra emblemática de Guimarães

O Papa Francisco concedeu a indulgência plenária perpétua ao Santuário da Penha, em Guimarães, o que, na prática, significa que os crentes que ali forem com devoção verão reduzido o “tempo de espera” para entrar no céu, anunciou hoje o reitor.

23 de Janeiro, 2014 Carlos Esperança

Um paga por todos

Justiça prende sacerdote por fraude no Banco do Vaticano

ROMA – Logo depois da prisão, a Justiça vaticana congelou fundos e contas correntes em nome acusado…

Papa Francisco tenta limpar a imagem da instituição financeira, investigando escândalos de fraude

ROMA – A Guarda de Finanças da Itália anunciou nesta terça-feira (21) possuir um novo mandado de prisão contra o sacerdote Nunzio Scarano, ex-contador na Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (Apsa), ligada ao Vaticano.

23 de Janeiro, 2014 Carlos Esperança

Associação Ateísta Portuguesa (AAP)

Aos ateus:

Na sequência do email enviado ao bispo da Guarda, em 25 de junho de 2013, reenviado depois de férias, sempre através do endereço da AAP, e publicada anteontem no Diário de uns Ateus, recebi a resposta no meu endereço privado e, contrariamente ao direito, à ética e ao que chamam direito canónico, foi-me negado o direito à anulação do batismo, que solicitei.

O desprezo que tenho pelas religiões, contrariamente ao que tenho pelos crentes, de nada me vale para evitar ser considerado um católico e, com isso, engrossar o número daqueles que o clero exibe para chantagear o Estado na obtenção de privilégios.

O bispo da Guarda, como se pode ver pela carta que reenvio e, a seguir, transcrevo, nega-me o direito à desbatização, direito que a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) tem ajudado a obter noutras dioceses. Oficialmente continuarei católico, apesar de não  acreditar no Deus do Sr. Bispo da Guarda, um deus em ele que não precisa de acreditar para exercer a sua profissão.

O bispo da Guarda foi célere a excomungar uma paróquia (Vermiosa) e é incapaz de o fazer a um ateu para não perder um cliente estatístico.

Para apreciação da exótica ilegalidade da diocese da Guarda, quando já vários sócios da AAP obtiveram o certificado de apostasia noutras dioceses, transcrevo a carta do bispo, enviada pelo padre Hugo Martins que, para salvar a alma, se escusou a referir o meu nome, o da AAP e a usar o endereço da nossa honrada Associação.

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Diocese da Guarda

Nota sobre arquivos, paroquiais e outros

1. A história é, no seu passado, uma realidade cumprida, que não se pode apagar nem modificar.

2. Todos os arquivos são, por natureza, registos de acontecimentos históricos passados e, como tal, não podem anulados nem modificados.

3. Podem ser acrescentados, com dados novos que eventualmente surjam relacionados com o mesmo acontecimento registado.

4. Por isso, quaisquer tentativas que se façam com a finalidade de modificar registos dos nossos arquivos devem ser reprovadas e consideradas inválidas e quaisquer pedidos para esse efeito não podem ser considerados.

5. Há lugar para complementos de registos, com anotação à margem ou a aceitação de novos documentos para guardar no mesmo arquivo.

Guarda e Cúria Diocesana, 24 de Setembro de 2013

+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda

22 de Janeiro, 2014 Carlos Esperança

A Lourinhã e o Carnaval trapalhão numa zona de tradições folionas (Crónica)

Quando cheguei à Lourinhã, no dia 1 de outubro de 1963, hospedei-me no Restaurante Moderno, uma pensão excelente onde a D. Elvira me acolheu com um desvelo que, a esta distância, ainda me enternece. Pagava 750$00 mensais pela pensão completa, dos 1753$00 líquidos que recebia, incluída a gratificação de 141$00, de delegado escolar.

Fui recebido com cordialidade e muitos queriam conhecer o jovem professor de 20 anos que acabava de chegar a um concelho onde, no ensino primário, só havia professoras.

O padre Escudeiro, diretor do Externato D. Lourenço, propriedade da diocese de Lisboa, rejubilou quando, a uma pergunta sua, lhe disse que era beirão, o que o levou a gabar os beirões, muito devotos. Tendo-lhe dito que eu não era, logo assumiu que, pelo menos, era boa pessoa. Tivemos uma boa relação que o azedume pelo meu anticlericalismo não quebrou.

A notária ofereceu logo a sua bicicleta para eu me deslocar à praia da Areia Branca, a três km de distância. A Manuela Leal que em miúda gozava férias na Guarda, com os tios e a prima, meus vizinhos, era minha amiga desde os dez anos. Apresentou-me à família e ao namorado, aluno do ISCEF, o Carlos Carvalhas, que viria a ser seu marido e pai dos dois filhos, governante e secretário-geral do PCP.

O barbeiro, o proprietário do café Belmar, os magistrados, conservadores, advogados e o dono da papelaria, além das colegas, passaram a fazer parte das minhas relações a que, em breve, não faltavam funcionários do tribunal, das finanças, do município e o próprio presidente da Câmara. O Café Belmar, único e asseado, era ponto de encontro de todos.

Para quem vinha da Guarda e da Covilhã era estranho ver mulheres a pedalar bicicletas, aventura que a orografia das faldas da serra da Estrela não permitia. Que jeito me deu a bicicleta da Dr.ª Filomena!

Os padres é que eram iguais aos da Guarda e Covilhã. Já não me recordo se exibiam a tonsura, aquele zero na cabeça, como lhe chamava Junqueiro, mas usavam ainda batina e o colar muito branco que parecia um cincho daqueles que extraíam o soro aos queijos artesanais. A pensar, eram iguais. O pe. Abílio, a quem eu elogiava João XXIII, porque o irritava, acabou a desabafar que era bom para os comunistas. Tinha um beiço rachado, atribuído a acidente. Eram todos reacionários para desgosto da Dr.ª Filomena, ex-dirigente da JUC, incomodada com o espírito troglodita dos párocos locais, incluindo o padre Escudeiro, o Sr. Vigário, responsável pela vigararia da Lourinhã e pelo Externato.

Não me parecia que fossem muitos os crentes ou muito crentes, antes da epidemia dos cursos de cristandade – cursilhos –, aposta do proselitismo extremista do Opus Dei, com lavagens rápidas e eficazes ao cérebro, feitas aos fins de semana na Foz do Arelho. Soube que a piedade exaltada com que soltavam os neófitos, se devia a confidências íntimas, feitas em descontrole emotivo estimulado, perante os “irmãos”, e que deixavam as vítimas dependentes dos padres e dos “irmãos” da fé e dos cursilhos.

O Dr. Pita, veterinário, apesar de salazarista fogoso e dirigente da União Nacional, era um anticlerical furioso que desabafava comigo, dizendo que a igreja paroquial dava uma bela garagem que pouparia os automóveis à corrosão e ao aquecimento do sol intenso.

O Carnaval era uma festa trapalhona em que máscaras e roupas velhas eram a diversão modesta entre os festejos delirantes de Peniche e Torres Vedras. Fiquei siderado quando vi, pela primeira vez, o Sr. Mariano Vicente, figura popular e honrado guarda-livros, o substituto do delegado do Ministério Público, porque a notária, sendo mulher, não podia assumir tão nobres funções, vestido de espanhola, com lábios pintados, cabeleira postiça e um vestido de balzaquiana decadente. Jovens e adultos espaireciam a atirar papelinhos e serpentinas por trás de máscaras que lhes ocultavam o rosto e com velhos fatos que os disfarçavam. Foliavam com desconhecidos e amigos que tentavam adivinhar quem eram o/as mascarado/as. Raramente se descobria quando a cara estava oculta.

Apenas uma pessoa desmascarava as embuçadas. E só “as” embuçadas. Era o sobrinho do Sr. Vigário, o jovem padre Manuel que chegara recentemente à paróquia para coadjuvar o tio no múnus e repartir os terços, missas e confissões, enquanto o tio se dedicava mais à administração do Externato D. Lourenço, propriedade do patriarcado.

O padre Manuel era excelente observador, caraterística que seria demonstrada no Carnaval. Conhecia todas as mascaradas que lhe virassem as costas. Numa altura em que a moda feminina era mais próxima dos desejos da Irmã Lúcia do que da criatividade sofisticada da estilista Mary Quant, as calças e saias não realçavam os glúteos, mas a anatomia não escapava ao escrutínio do jovem padre que, assim, descobria as mascaradas.

Havia de ter um acidente que o deixou tão politraumatizado que nem para dizer missa serviu, durante meses, fosse porque quaisquer glúteos o distraíram ou porque a curva da estrada não lhe mereceu tão desvelada atenção como as curvas dos corpos femininos.

21 de Janeiro, 2014 Carlos Esperança

Brasil

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21 de Janeiro, 2014 Carlos Esperança

Diocese da Guarda – Cartas sem resposta

Exmo. Senhor Bispo

Dr. Manuel da Rocha Felício

Cúria Diocesana
Rua do Encontro, nº 35
6300-586 GUARDA
Tel. 271212959; Fax. 271223769

E-mail: [email protected]

[email protected]

CARTA DE PEDIDO DE APOSTASIA / DESBAPTIZAÇÃO

Exmo. Senhor Bispo da Diocese da Guarda,

O signatário, vem, por este meio, informar e solicitar o seguinte:

Tendo sido batizado na Igreja de Escalhão, freguesia de Escalhão, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, no primeiro trimestre de 1943, sob o nome de F…, venho requerer que o meu nome seja removido do vosso registo de batismo (ou seja, segundo as normas canónicas que regulam o pedido de apostasia, cf. cânones 1086, §1, 1117 e 1124, que seja realizado um actus formalis defectionis ab Ecclesia catholicá).

Em particular, venho requerer que seja feito um aditamento ao referido registo com a seguinte menção:

“Renegou ao seu batismo e foi declarado apóstata por carta escrita, datada de 04/02/2013”, e que me seja enviada uma cópia desse aditamento.

Este pedido deve-se ao facto de as minhas convicções filosóficas e religiosas não condizerem com as das pessoas que, de boa fé, decidiram batizar-me.

Assim, por imperativo da minha consciência e por respeito à verdade, venho através deste ato contribuir para a reforma dos vossos registos, a fim de os isentar de qualquer ambiguidade.

Aguardando uma confirmação escrita da vossa parte,

Apresento antecipadamente os meus sinceros agradecimentos,

Associação Ateísta Portuguesa, 25 de Junho de 2013

P.S. – Agradeço que antecipadamente me mande informar sobre o custo total de emolumentos, se a tal houver lugar, e das despesas de correio.

Apostila – Esta carta, repetida posteriormente, continua sem resposta.