17 de Abril, 2017 Carlos Esperança
A Senhora Lúcia e a santidade

“O professor não era grande coisa… era republicano. E só ensinava a ler, não ensinava a escrever.”
– irmã Lúcia
E o mais certo era também ser maçónico, que horror!

“O professor não era grande coisa… era republicano. E só ensinava a ler, não ensinava a escrever.”
– irmã Lúcia
E o mais certo era também ser maçónico, que horror!
A insuspeita revista “Sábado” publica, no seu último número, um artigo acerca da próxima vinda do papa de serviço a Fátima. Adianta que não se trata de uma visita de estado, mas de uma peregrinação, pelo que não se percebe muito bem por que raios vai ter um encontro com o presidente da República e com o primeiro-ministro. Ou será, apenas, com os cidadãos Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa? Bom, adiante.
A folhas tantas, aparece uma entrevista com a freira-médica (ou será médica-freira? De qualquer modo, cheira-me a oxímoro) Ângela Coelho que acumula, também o cargo de “postuladora da causa dos pastorinhos”. Bom, deixemos de lado o blá-blá, e situemo-nos naquilo que, no fim de contas, acaba por se verificar serem, os milagres: a mais monumental fraude religiosa. Digamos, também, que a freira não aprendeu nada com a ciência. A certa altura,o entrevistador pergunta: “Como se define um milagre? É um acontecimento não explicável pela ciência?” ao que a freira responde: “Sim, ou pelas leis da natureza. 90% são casos médicos. Uma cura rápida e duradoura não explicável pela arte médica actual”. O jornalista volta à carga, e a ingénua feira cai na esparrela. Jornalista: “Então um milagre no século XVI hoje não seria?” E a freira: “Poderia não ser.” Mas vale a pena continuar a ler, pois a nova pergunta, a médica acaba por referir que não levou um caso à Congregação da Causa dos Santos. Tratava-se de uma criança com diabetes tipo I com uma bomba difusora de insulina. “No fim da missa da beatificação a mãe pede aos pastorinhos que curem o seu menino e logo naquele dia começa a achar que a bomba não está a funcionar. Foi ao hospital e a criança não tinha nada. Mas foi chumbado: há um tipo de diabetes na infância que tem uma cura assim”. Ou seja: a freiramédica acabou por, sem querer, prestar um mau serviço à causa religiosa. Disse, claramente, que não há milagres; apenas factos que a ciência não sabe explicar. Porque a ciência, ao contrário da religião, não é arrogante. E eu pergunto: os “milagres” que ocorreram tempos passados e que, agora, já são explicados pela ciência, continuam “milagres”? E os “santos” respectivos, continuam “santos”?
– Eu gosto muito do menino Jesus.
– E por que? perguntou a professora.
-É que quando ele nasce eu ganho prendas. Quando ele morre eu ganho chocolates.
É difícil a defesa da laicidade, a exigência da neutralidade do Estado, a reivindicação de conduta igual para todas as religiões. Os cálculos eleitorais superam a salubridade cívica e um módico de pudor republicano.
Os hospitais portugueses enchem-se de imagens de Senhoras de Fátima e crucifixos que os doentes oferecem, alheios aos médicos, enfermeiros e medicamentos que os curaram, para imporem os símbolos da sua religião particular, que o laxismo e a cumplicidade de direções pusilânimes favorecem.
As escolas são já, através da autonomia que o ministério lhes confere, um instrumento de proselitismo religioso, com missas, terços e excursões pias, onde a laicidade a que a Constituição obriga é profundamente desprezada e espezinhada.
Nas autarquias, onde o fervor pio medra em anos eleitorais, organizam-se peregrinações a santuários, com transporte, seguro e farnel, para angariar os votos em lares de idosos sensíveis à salvação da alma e, sobretudo, à atenção aceite por quem enfrenta a solidão.
A Europa, cuja democracia se estabeleceu com a repressão política sobre o clero, cedeu a tradição laica aos interesses partidários e às negociações com minorias religiosas que a ameaçam. A cobarde cedência ao clero de que se libertou obriga-a a proteger ideologias que sob a capa de religião têm a obsessão de sujeitar o mundo às exigências tribais que as crenças perpetuam.
No entanto, a Espanha franquista cuja transição impediu a votação sobre a natureza do regime (as sondagens apontavam regularmente a vitória da República), manteve-se fiel à vontade do genocida Franco e ao paradigma da velha aliança do trono e do altar.
A apoteose do ridículo é a aplicação de um Decreto Real que manda colocar a bandeira a meia haste pela morte de “militares em serviço, rei, herdeiro, consorte ou em dias de luto nacional”, ter sido estendida à morte de Jesus Cristo. Assim, o atual ministério da Defesa ordenou içar a bandeira a meia haste em todos os quartéis, pela morte de Cristo.
Uma ordem interna estabelece que “desde as 14:00 horas de Quinta-feira Santa até às 00:01 horas de Domingo de Ressurreição, a insígnia nacional ondeará a meia haste em todas las unidades, bases, centros e aquartelamentos”. E, assim, segundo o Ministério, “respeita-se o exercício da liberdade religiosa”, convertendo os quartéis em sacristias.
O imperecível defunto voltará a morrer nos anos que vierem e ressuscitará de novo para arejar a bandeira.
A 30 dias do vendaval da fé, previsto para a Cova da Iria, com o bispo autóctone a pedir tolerância de ponto ao estado Laico, a prevenção de riscos pulmonares faz-se com doses homeopáticas do ar local, enlatado entre azinheiras circunvizinhas, e já à venda em lojas da especialidade.
Por iniciativa da Associação Internacional do Livre Pensamento
Os dinheiros públicos não devem financiar as Igrejas e as religiões !
Somos Associações de todos os continentes agindo pela Separação das Igrejas e Religiões, dos Estados, pela laicização das instituições em linha com a secularização crescente das sociedades.
O lema das nossas acções é trabalhar no sentido do respeito da liberdade de consciência de cada uma e de cada um, de todos os seres humanos que vivem no nosso planeta. Quer dizer: a liberdade de ser crente ou de o não ser. Não opomos a liberdade de consciência à liberdade de religião, porque a última é somente uma componente da primeira e não sua equivalente.
Rejeitamos a ideia de que a religião seria uma categoria separada da gama de convicções da Humanidade. E que seria necessário conferir-lhe um estatuto particular que a impediria de ser submetida à crítica racional e humana. E que seria necessário, além disso, que fosse financiada pelo Erário público, produzido pelo conjunto das contribuições dos cidadãos sujeitos aos impostos.
É por isso que nos opomos a todas as formas de repressão civil e penal daquilo que é designado como “delito de blasfémia”. O direito à livre crítica é um direito democrático fundamental. O seu corolário obrigatório é a liberdade total de expressão. Só serão visados então os factos e as opiniões, nunca os indivíduos enquanto tais.
É por isso que também rejeitamos e condenamos o privilégio das Igrejas e das religiões – que são somente a expressão de alguns homens – a serem financiadas por Fundos públicos, que são o produto das contribuições de todos.
Depois dos EUA (1791), do México (1857), da França (1905), de Portugal (1911), da Rússia (1918), do Uruguai (1918), da Espanha (1931) e da Turquia (1937), a reivindicação democrática da necessária Separação das Igrejas e das religiões em relação aos Estados não parou de mobilizar a Humanidade consciente. Desde então, muitos outros países, todos los continentes, a estabeleceram. Essa Separação está em marcha desde há muito tempo.
Desde James Madison, Pai da Constituição norte-americana e 4° Presidente dos EUA – constatando que, em 1819, “a quantidade, as competências e a moralidade do clero, assim como a devoção dos cidadãos, aumentaram manifestamente com a Separação total entre as Igrejas e o Estado”, a História da emancipação humana tem mostrado que, quaisquer que sejam as culturas religiosas dominantes nas sociedades, o princípio da Separação entre a esfera das Instituições públicas e a esfera religiosa não somente é possível e realizável, como é muito desejável para estabelecer e aumentar a Democracia.
Em todos os países, em todos os continentes, em todas as instituições nacionais e internacionais, há que actuar para fazer avançar a Separação das Igrejas e das religiões em relação aos Estados.
Actuemos juntos pela laicidade !
Apelo lançado por iniciativa da Associação Internacional do Livre Pensamento no Congresso Internacional de Montevideu (Uruguai), de 19 e 20 Setembro de 2015.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.