3 de Setembro, 2005 Carlos Esperança
Santo Ofício
O que as santos inquisidores faziam para castigar um réprobo e defender a pureza da fé.
O que as santos inquisidores faziam para castigar um réprobo e defender a pureza da fé.
No dia 30 de Agosto foi colocada uma estátua de S. Josemaria Escrivá de Balaguer, com 5 metros de altura, em mármore, no exterior da Basílica de S. Pedro.
Algumas reflexões:
O crime compensa. O fundador do Opus Dei apoiou um dos mais frios ditadores católicos, Francisco Franco, carrasco do povo espanhol e responsável por centenas de milhares de mortes.
O Opus Dei, que domina o Vaticano, desde a morte nunca esclarecida de João Paulo I, é o banqueiro privado dos Papas e responsável pela orientação política da ICAR.
O pio Escrivá de Balaguer que se fazia ciliciar – tinha grossos pecados que o afligiam e necessitava de expiá-los -, preparou em vida o seu processo de canonização.
O escândalo do Banco Ambrosiano tem sido abafado e o Vaticano opôs-se à extradição dos clérigos arguidos no processo italiano relativo ao crime.
Mal arrefeceu o cadáver, já fazia milagres. Logo lhe foram adjudicados três, um deles a cura do cancro de uma freira cuja madre superiora não sabia que estava doente.
O Opus Dei é o cão de guarda da ortodoxia católica e da moral conservadora. A sua influência tem sido altamente nefasta nos países da América latina.
Depois do tele-evangélico Pat Robertson ter apelado ao assassínio do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em directo para milhões de teleespectadores e da sua meia «desculpa» que o não foi, dos apelos dos democratas para uma condenação vigorosa do pastor e da intenção anunciada pelo governo venezuelano de pedir uma acção legal e a sua eventual extradição, esperar-se-ia do governo de G. W. Bush uma reacção para além da imediata que considerou «desadequadas» as palavras de Robertson.
E ontem essa reacção surgiu! Mas de sinal contrário ao que todos esperariam! Ou seja, a administração Bush manifestou o seu apoio a Robertson quando colocou em segundo lugar (agora em terceiro) a organização presidida pelo «piedoso» pastor na lista da Federal Emergency Management Agency (FEMA), publicada online e nos jornais americanos, que indica as organizações recomendadas para recolha de donativos às vítimas do furacão Katrina.
«Como é que isto aconteceu? Isto dará milhões de dólares extra a Pat Robertson» já que «Estar na lista a partir do dia 1 ou 2 significa a diferença entre ter uma quantidade significativa de recursos financeiros para fazer o trabalho ou não o ter» afirmou Richard Walden, presidente da Operation USA, um grupo (secular) que tem desenvolvido trabalho de auxílio em situações destas desde 1979 e que não consta da lista. Aliás a lista de organizações para onde, segundo o FEMA, os americanos devem dirigir os seus donativos só apresenta mais uma instituição não ligada a grupos religiosos para além da Cruz Vermelha!
Considerando que apenas uma parte dos donativos recolhidos por este tipo de instituições de auxílio (religiosas) chega de facto às vítimas, nalguns casos apenas uma ínfima parte, Pat Robertson prepara-se para lucrar com a catástrofe que se abateu sobre a Louisina e Mississipi! Com o auxílio do seu velho amigo Bush!
Mustafá Kemal Ataturk é uma personagem central na história da Turquia. Aluno brilhante e fora de série, acabou por seguir a carreira militar onde registou um historial de vitórias épicas (durante a primeira guerra mundial) que lhe valeu uma rápida ascensão aos postos mais avançados de comando. Depois da Turquia saír da primeira guerra mundial ocupada por tropas britânicas, francesas, russas, italianas e gregas, Ataturk liderou uma revolta que triunfou sobre as tropas ocupantes e sobre a oposição interna fiel ao Sultão do império Otomano.

Ao acabar com o império Otomano, Ataturk fundou a República da Turquia, concorrendo e ganhando nas primeiras eleições que foram realizadas. Ataturk implementou então uma série de reformas com o objectivo de modernizar e laicizar o país. Foi implementado o alfabeto latino (anteriormente era usado o alfabeto árabe) e o calendário gregoriano, e foi dada uma grande prioridade à separação entre a igreja e o estado: a poligamia foi ilegalizada; procurou dar-se iguais oportunidades às mulheres no acesso ao emprego e educação; considerou-se vital que a lei civíl não fosse determinada pela religião islâmica. Como resultado destas reformas, o analfabetismo caiu drasticamente.
Ataturk acreditava firmente na liberdade religiosa, mas isso não o impediu de declarar: «Não tenho religião, e às vezes até desejava que fossem todas parar ao fundo do mar. […]. Os Turcos aprenderão os princípios da democracia, os ditames da verdade e os ensinamentos da ciência. A superstição tem de morrer. Deixem-os adorar e rezar à vontade: cada homem pode seguir a sua consciência, desde que tal não atente contra a liberdade de outros».
Hoje, tal como então, a herança de Ataturk está sob ataque. A Turquia é o mais laico dos países islâmicos, mas ainda há muito a fazer para que o estado seja realmente laico. Na Turquia, o astear de uma bandeira ou o uso de símbolos e fotografias que relembrem Ataturk não corresponde necessariamente a nacionalismo ou culto da personalidade: estes símbolos significam a crença nos princípios da separação entre a igreja e o estado, e a esperança de que a Turquia constitua um exemplo para outros países de maioria islâmica.
Enquanto o reino animal, ao longo da história, sofreu alterações genéticas que melhoraram as espécies e transformaram o género humano em seres cada vez mais evoluídos, Deus sofreu mutações que o fizeram regredir e o tornaram pior.
As mutações divinas que empobreceram o produto original foram introduzidas pelos charlatães que fabricam Deus, sem terem em conta os benefícios dos clientes, olhando aos seus interesses exclusivos.
O Islão clonou o Deus judaico-cristão, sem conhecer a cultura helénica nem o direito romano. Produziu um aborto que o profeta Maomé, analfabeto e rude, converteu num perigoso inimigo da humanidade e em violento factor de retrocesso civilizacional.
Para piorar as coisas, Deus, per se um produto defeituoso, ficou nas mãos dos clérigos cujo poder e importância dependem da subserviência dos fiéis, da autoridade que conseguem impor e do terror que infundem.
É este o dilema da civilização: ou afasta o clero do poder ou perde a modernidade, a democracia e o progresso. Deus está a mais no processo de transformação social. É um elemento perturbador da felicidade humana.

O desenho inteligente ou IDiotia (Intelligent Design, ID) é simplesmente uma nova forma, menos acéfala, de introduzir o criacionismo bíblico nas salas de aulas de ciência. Não obstante o cuidado que os IDiotas têm em não referir Deus, apenas um misterioso «designer», e em expurgar qualquer citação bíblica dos seus textos, é óbvia a «guerra» em que estão envolvidos. E são de facto neo-criacionistas como é evidente se considerarmos que o único livro de texto da IDiotia recomendado como «leitura suplementar» nas escolas americanas, «Of Pandas and People», é apenas uma versão revista do criacionismo puro e duro, em que Deus foi substituído pelo tal misterioso «designer» e foram cortadas as passagens bíblicas originais. E embora o livro seja supostamente publicado por uma obscura editora, a «Haughton Publishing Company», na realidade a «Horticultural Printers, Inc.» que imprime rótulos e catálogos de produtos para horticultura e livros de instruções em como operar maquinaria para a indústria do algodão, na realidade, os Pandas são um livro da «Foundation for Thought and Ethics», uma organização devotada a promover o criacionismo.
O templo dos neo-criacionistas disfarçados de IDiotas é o Discovery Institute, uma instituição sem problemas de financiamento que exibe como grande trunfo uma lista de 400 cientistas, na sua maioria ligados ao próprio Instituto, que segundo o DI apresentam grandes dúvidas em relação ao evolucionismo. Bem, desde há uma semana apenas 399, já que um dos mais proeminentes listados, Bob Davidson, professor de Medicina na Universidade de Washington, fez uma retractação pública da sua ligação ao DI. Afirmando estar embaraçado por alguma vez se ter ligado ao DI e ter ficado chocado quando viu que o DI afirma que a evolução é «uma teoria em crise». Afirmação que Davidson considera «Hilariante: foram relizadas milhões de experiências ao longo de mais de um século que suportam a evolução».
Outro dos nomes sonantes dos IDiotas é Michael Behe, autor do livro «A caixa preta de Darwin», professor de Bioquímica no Departmento de Ciências Biológicas da Universidade de Lehigh. Posição IDiota não subscrita por qualquer colega e reiterado numa página institucional devotada a explicar que a posição de Behe não é seguida por mais algum membro do corpo docente da instituição. A posição colectiva do Departamento em relação ao desenho inteligente é a habitual para qualquer cientista digno do nome: não tem qualquer base em ciência e não deve ser considerado algo científico.
Com as guerras da evolução acesas nos Estados Unidos e talvez para acentuar essa posição, no próximo mês de Outubro Ken Miller, da Universidade Brown, um cientistas muito vocal contra as IDiotias, dará uma conferência em Lehigh com o tema «Darwin’s Genome: Answering the Challenge of ‘Intelligent Design’» (O genoma de Darwin: respondendo ao desafio do ‘Desenho Inteligente’).
Considerando que a comunidade científica americana em peso considera a IDiotia apenas uma forma disfarçada de intoduzir religião nas aulas de ciência, sem qualquer resquício de ciência a contaminar o que é demagogia religiosa pura e dura, que a maioria das sociedades e instituições científicas americanas o afirmam nas respectivas páginas (por exemplo a Sociedade Botânica, a Sociedade Geológica, a Sociedade Paleontológica e a American Association for the Advancement of Science, que publica a revista Science) não consigo perceber os méritos do pseudo-debate sobre o ensino paralelo do evolucionismo e da IDiotia em aulas de ciência. A IDiotia simplesmente não é ciência! Pseudo-debates que ameaçam extravasar dos Estados Unidos para a Europa e para a Austrália!
As religiões não se conformam em tornar-se uma prática facultativa nem sequer um complemento do quotidiano dos cidadãos, querem ser um modo de vida, o objectivo primordial dos crentes, em suma, um fim a que se hipotequem os clientes.
O clero é composto por propagandistas da fé, hierarquizados, com objectivos traçados e avaliações de resultados. Os parasitas de Deus organizam uma máquina que os tritura a si próprios e esmaga os conversos.
A luta pelo mercado da fé começa nas crianças, fáceis de influenciar, permeáveis ao fanatismo, vítimas do imaginário delirante dos vendedores do Paraíso e das virtudes do seu Deus. Logo nos primeiros dias de vida, levam com um sacramento. As doses de reforço vêm, ao longo da vida, com nomes diferentes, para fidelização dos clientes e consolidação do mercado.
Os ritos assumem enorme importância na estratégia de marketing. São determinantes os usos e costumes sociais, cuja violência inicial se esquece, consolidados pelo argumento da tradição. A censura social, em meios rurais ou suburbanos, é um precioso auxiliar na perpetuação dos ritos religiosos.
As festas e os ritos de momentos especiais contribuem para que a religião e os reféns se mantenham. O baptismo, o crisma, o casamento e o funeral são eventos promocionais, de forte festança os três primeiros e de dorida perda o último. A Igreja aparece sempre, se a deixarem, nos momentos decisivos, para conduzir as cerimónias e afirmar o poder.
A secularização em curso nos países civilizados anda a par com o ostracismo, discriminações e intolerância dos fanáticos contra os que se vão libertando do poder do clero.
Na Beira Alta havia pais que só recebiam em casa os filhos depois de provarem que era canónico o casamento entretanto celebrado e baptizados os filhos dele resultantes. Um casal meu conhecido resistiu vários anos mas as saudades da velha e intransigente mãe levou-o a casar pela igreja e a baptizar a filha entretanto nascida.
A chantagem dos afectos, a mando do padre, e os preconceitos estão na origem das cedências que perpetuam o poder da ICAR e influenciam as estatísticas com que os bispos ameaçam o Estado.
A revista Nature de amanhã é dedicada ao chimpanzé, nomeadamente às excitantes descobertas que o sequenciamento do genoma do Pan troglodytes, apresentado neste número, permitiu. Nomeadamente mais uns pregos para o caixão dos criacionismos, mesmo os neo-criacionismos disfarçados de IDiotias. O Chimpanzee Sequencing and Analysis Consortium, (Consórcio para a sequenciação e análise do genoma do chimpanzé) comparou a sequência genética do Pan troglodytes com o genoma humano e descobriu seis áreas do nosso ADN que foram rigorosamente «esculpidas» por selecção natural. Uma das áreas contém o gene associado àquela que é talvez a mais humana das características, a fala.
Por uma extraordinária coincidência foi recentemente descoberto o primeiro fóssil de um chimpanzé, com cerca de 500 mil anos, que em conjunto com o genoma agora publicado vai certamente dar uma ajuda preciosa a elucidar a árvore filogenética dos primatas!
Cerca de um milhão de shiitas participavam na sua peregrinação anual em honra de Musa al-Kadhim, o 7º Imam da tradição shiita, que morreu em Bagdad em 799 e se encontra enterrado na mesquita de Kadhimia, quando morteiros disparados sobre a multidão mataram 16 pessoas. Mais morteiros disparados nas imediações da mesquita feriram dezenas de peregrinos. O pânico instalou-se na multidão que atravessava um das pontes sobre o rio Tigre em direcção à mesquita quando correu o rumor que entre eles se encontravam bombistas suicidas. Na debandada que se seguiu um número indeterminado de peregrinos foi esmagado e outros cairam ao rio.
Ainda nenhum grupo reinvidicou o atentado, destinado, segundo o repórter da BBC em Bagdad, John Brain, a fomentar tensões entre shiitas e sunitas, numa altura em que estes últimos rejeitam a proposta de Constituição, que será referendada dia 15 de Outubro.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.