Todos os anos, por esta altura, o boato repete-se, divulgado nas caixas do correio.
Tudo leva a crer que os autores reincidam nos próximos anos, mas o ressuscitado não foi visto na área da paróquia nem há a menor suspeita de que se encontre na cidade.
A origem da prostituição confunde-se com a história da própria humanidade e não deixa de ser humilhante a venda do corpo, mas há infâmias maiores e crimes mais hediondos, a começar pelo rapto de pessoas e o exercício de cárcere privado.
O constrangimento social e o estímulo do clero levaram as tresloucadas alunas de uma madrassa, em puro zelo beato, à prática de vários crimes: invasão do domicílio, rapto, encarceramento e coacção física e psíquica da dona de um bordel e de duas familiares, estribadas na legitimidade do Corão e no incentivo dos próceres islâmicos.
A prisão das devotas provocou manifestações das colegas, encorajadas pelo director da escola corânica, enquanto os vizinhos, com maior terror dos talibãs do que de Maomé, ficaram «felizes e cantaram em glória de Alá».
Regressa o fundamentalismo que, como sempre, não se limita a condicionar a vida dos crentes mas a exigir, a todos, o comportamento que julgam inspirado por Deus.
No Paquistão, os talibãs estão na origem de incêndios em clubes de vídeo e na proibição de música e televisão. Os barbeiros foram proibidos de cortar barbas e as mulheres são obrigadas a usar burka, sob a ameaça de morte.
No Ocidente, que julgávamos civilizado, uma onda fundamentalista procura reconduzir a sociedade à Idade Média. O criacionismo é a arma com que, dos EUA à Europa, os prosélitos pretendem opor-se ao progresso e à investigação científica.
Há muito dinheiro investido na estratégia beata. A distribuição de um Atlas criacionista é a prova disso. É preciso estar atento.
A laicidade é um factor apaziguador das diferenças culturais que o clero se esforça por converter em divergências.
Não é legítimo agredir crentes. Devem, sim, ser protegidos deles próprios e defendidos em nome da liberdade religiosa, mas a defesa e a protecção exigem que o proselitismo seja contido em margens que não degenere em conflito.
A ICAR, como religião monoteísta, não deseja a liberdade religiosa mas a imposição da catequese obrigatória. Já não é apenas a demência islâmica que põe em risco os direitos, liberdades e garantias que as democracias defendem. As Igrejas cristãs estão a assimilar o desvario islâmico e querem regressar às origens perdidas com a Revolução Francesa.
Não é a moral religiosa que perturba, o que não se tolera é a imposição clerical aos que rejeitam a fé.
A apostasia é um dos mais sagrados direitos humanos. É preciso proclamar o direito de defender hoje o contrário daquilo em que se acreditava ontem e, eventualmente, voltar a acreditar amanhã, sob pena de destruir a liberdade religiosa.
Os padres querem que o pecado seja crime e a apostasia punível com pena máxima, mas desiludam-se os parasitas da fé. Enquanto houver cidadãos que renunciem à humilhação de andar de joelhos, Deus é a nódoa que não mancha todas as consciências, um estorvo que não elimina a liberdade, a excrescência que não corrompe toda a humanidade.
Basta que a semente da descrença alimente a independência do pensamento e a coragem da resistência se sobreponha à violência da repressão, para que os homens permaneçam livres e dignos.
A opressão precisa de carrascos. Quando a democracia avança, a fé recua e os algozes ficam frágeis. Também por isso a defesa da civilização exige o combate pela liberdade.
SANTIDADE:
O Diário Ateísta vem expor e pedir a Vossa Santidade* o seguinte:
Sabendo que Vossa Santidade (V/S) ficou muito envergonhado com a revelação do 3.º segredo de Fátima que o seu supersticioso antecessor levou a sério e julgou ser para ele;
Sabendo que, por isso, V/S relativizou a importância dada por JP2, disfarçou a vergonha e considerou as aparições de Fátima como revelação privada;
Sabendo que no final de 2006 não aceitou o convite do bispo de Leiria, que foi seu aluno, para se deslocar ao Santuário e inaugurar a Igreja da Santíssima Trindade (um excelente e lucrativo estabelecimento comercial) e beatificar os outros dois videntes (que nada viram);
Sabendo que não foi uma questão de seriedade, virtude a que os Papas são alheios, mas o medo do ridículo e a vergonha de que o considerassem estúpido, sentimentos a que os homens são sensíveis;
Sabendo tudo isso, sabemos também que os negócios religiosos não se compadecem com essas idiossincrasias de um Papa inteligente e sem fé, autoritário e frio.
Em Fátima jazem já 55 quilos de milagres enviados por infelizes a quem se salvaram da moléstia as galinhas, o filho arribou do sarampo ou o marido perdeu uma única perna no acidente (teria perdido as duas se a Ir. Lúcia não pedisse à Senhora de Fátima que pediu ao filho para pedir ao pai, graças a duas novenas) e muitos outros prodígios de grande sabor rústico e elevado efeito supersticioso.
Assim, sendo as coisas o que são, sabe-se que Lúcia vai ser canonizada e render grossos cabedais ao Vaticano e à ICAR portuguesa.
Atrasar a canonização só prejudica a fé e os negócios.
Em face do exposto, o Diário Ateísta vem pedir-lhe que dispense a bem-aventurada, no dia do centenário do seu nascimento, do interstício de beata e a eleve logo a santa.
Ficam felizes os beatos, ganha a fé e, depois de dois milénios de grandes mentiras, esta é uma pequena nódoa no lodaçal da História da ICAR.
Sr. Bento 16, o Diário Ateísta, espécie de Osservatore Romano dos ateus portugueses, pede deferimento,
Aos 28 dias do mês de Março do Ano da Graça de 2007, centenário da Ir. Lúcia
a) Diário Ateísta
* Santidade = profissão e estado civil.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.