O anti-semitismo é uma forma de racismo, intolerável como qualquer outra, mas mais execrável por juntar ao ódio étnico a perseguição religiosa.
A Europa que assistiu ao extermínio de 6 milhões de judeus não pode ser complacente para com os semeadores do ódio e da morte. Perante a profanação de cemitérios, é de mau gosto trazer à colação o problema do sionismo quando é exclusivamente o anti-semitismo que está em causa.
São velhas as raízes desse sentimento cobarde que se compreendem à luz do tempo e da história como fazendo parte do Novo Testamento e do Corão. Não se admitem, hoje, as manifestações de um ódio que manchou o cristianismo com as suas fogueiras e infecta o Islão com a obsessão de destruir o Estado de Israel.
Não falemos agora de sionismo – repito -, execremos o ódio que nasce no coração dos crentes de religiões concorrentes e se manifesta em actos sórdidos indignos do género humano.
É, aliás, tempo de deixar de ser frouxo na condenação do Estado Iraniano quando se é hostil na condenação de Israel. Entre um Estado confessional que respeita a democracia e um Estado teocrático que só respeita o Corão, na interpretação dos exegetas locais, é altura de ser intransigente para quem transporta o ódio até ao silêncio dos cemitérios.
DA/Ponte Europa
Ontem aconteceu um verdadeiro carnaval da fé no Vaticano. Bambolearam as sotainas, abanaram-se as mitras, arejaram-se os báculos e agitaram-se os hissopes que estavam de molho nas caldeirinhas da água benta. Apenas com 1 dia de atraso sobre o dia das mentiras.
Uma legião de calaceiros cantava hossanas e desforrava-se em latim das orações que JP2 precisava para ser beato. O cadáver, certamente indiferente, repousava no túmulo enquanto, à sua custa, uma freira exibia a cura da doença de Parkinson.
«Eu estava doente e agora estou curada» – dizia a freira em quem JP2 obrou o milagre que aprendeu em morto. Quem pode duvidar da santidade do rústico Papa polaco que acreditava em Deus e julgava que o 3.º segredo de Fátima lhe era destinado?
A ICAR dedica-se ao ramo dos milagres no campo da saúde quando a sua experiência é bem maior no domínio dos negócios, da política e da repressão. B16, um homem com experiência da vida, presidiu à missa – uma distracção obrigatória para os devotos – e refugiou-se nos aposentos com vergonha de tanta superstição e do histerismo de polacos que queriam levar já um certificado de canonização.
Os milagres são hoje o mais rendoso negócio da Igreja católica mas não tarda que venha pedir perdão pelas pessoas a quem enganou e pelo óbolo que extorquiu aos desgraçados crédulos que julgam que os milagres caem do céu e que uma freira é para levar a sério.
Todos os dias, milhões de pessoas dizem: «Eu estava doente e agora estou curada», sem necessidade de falcatruas, sem encenações obscenas, histerismos colectivos e cadáveres apodrecidos. Basta um antibiótico ou uma aspirina.
Se fosse verdadeiro o milagre, havia de perguntar-se por que razão os hospitais estão cheios e JP2 só se lembrou da freira. Já em vida, era mais conhecido pelos espectáculos que animava do que por razões de justiça. Os milagres deviam ser suspensos por uma providência cautelar para evitar que os simples fiquem mais tolos à espera do Céu.
Com a imagem enviada pelo leitor ECD, também vinha o respectivo prospecto que agora se publica.
Há dois anos faleceu um dos Papas mais obsoletos da era moderna. Mesmo para Papa católico era excessivamente reaccionário e dementemente supersticioso. Graças à morte oportuna de João Paulo I e à alegada luz dos cardeais cujo combustível é o Espírito Santo, um cardeal polaco com excelentes relações com o Opus Dei e os EUA, chegou a Papa.
Como é costume no bairro do Vaticano puseram o xerife a render e a fazer proselitismo ao domicílio. Parecia que ganhava a vida ao quilómetro, ou melhor, à milha. Percorreu o mundo em encenações litúrgicas, seguido de uma multidão de fotógrafos, operadores de imagem e jornalistas.
O boato sobre a sua bondade e a inegável imagem de quem acreditava em Deus fizeram do perseguidor de teólogos e de defensores do Vaticano II uma das maiores vedetas do planeta.
A doença de Parkinson atingiu-o e foi penoso ver a ICAR a explorar o sofrimento, a ostentar a decrepitude, a mostrar a baba, numa atitude desesperada de o exibir a morrer em directo, para provocar a comoção e arregimentar crentes. Falhou o truque e ficou a imagem de impiedade dos cardeais da Cúria, indiferentes ao sofrimento, interessados na exploração dos negócios da fé.
Hoje, dois anos depois, começa a comédia dos milagres e o processo de canonização do cadáver. Metem-se empenhos para dispensar os prazos canónicos, abolir o interstício de beato e fazer do falecido autocrata um santo que promova as missas e orações onde a devota Polónia passa o tempo.
JP2 não era pior do que Escrivá, não era menos amigo dos ditadores do que o fundador do Opus Dei, e, até, acreditava em Deus. Bastam estas características para fazer santo o defunto.
Depressa que o negócio está à espera.
Enorme cartaz que inunda a cidade de Aix-en-Provence. Imagem enviada pelo leitor ECD.
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