Loading

Carlos Esperança

25 de Outubro, 2007 Carlos Esperança

Como se cria um Papa

Quando o Papa de serviço se abeira do fim ou se torna merecedor de ajuda, o Opus Dei procura um cardeal obediente, sem passado sexual conhecido e com idade para ser casto. Tece a rede de intrigas e interesses enquanto espera que a Santidade de turno se esqueça de respirar ou o ajudem a deixar arrefecer o céu-da-boca.

Quando o consistório se reúne, só o grupo de conjurados, fortemente ligados entre si, conhece a cabeça a que se destina a tiara, embora corra o boato de que o Espírito Santo interfere na eleição, como se os cardeais apreciassem a luz e prescindissem do poder.

Às vezes os serviços secretos das grandes potências concertam com o grupo de cardeais decisores o nome do que melhor defende interesses comuns e mais facilmente se manipula. A fé é para os simples que, em todo o mundo católico, ficam radiantes com a escolha, seja ela qual for. O Papa apenas precisa de uma boa dose de prudência para viver muito tempo e de suficiente astúcia para neutralizar os inimigos.

Tanto dá que o novo Papa acredite em Deus, como aconteceu com JP2 ou seja apenas um hábil gestor da Cúria e dos interesses do Opus Dei, como aconteceu com Rätzinger.

Para os que se enfeitam com vestidinhos de seda e sapatinhos vermelhos pouco importa o número das pessoas da Trindade, estão mais interessados na expansão do negócio, na intriga política e na conquista do poder global, através do aparelho de Estado, nos países que perdem a noção da honra e se submetem aos ditames do Vaticano.

É a vida ou a fábula de Deus para proveito de alguns parasitas.

24 de Outubro, 2007 Carlos Esperança

Como se faz um crente

Pega-se num recém-nascido do redil de uma Igreja e faz-se um ritual de iniciação com sinais cabalísticos e substâncias tradicionais. Pode usar-se a água benta, que só os créus distinguem da outra, uma pitada de sal, algum latim ou árabe e, a partir daí, ameaçar com tormentos a deserção da fé.

Deus, qualquer Deus, condena o apóstata à morte espiritual se o poder da sua Igreja não lhe permitir a fogueira purificadora, a lapidação festiva ou uma decapitação justiceira.

A leitura não é o começo do conhecimento científico, é o meio para melhor aprender a palavra de Deus ensinada por almocreves das almas, fundamentalistas da salvação e parasitas da fé. A doutrina é o meio usado para fanatizar crianças e alienar o espírito criativo e o sentido crítico que desenvolve a humanidade e civiliza as culturas arcaicas.

O medo, a ignorância, o ambiente e os constrangimentos sociais castram a liberdade de autodeterminação intelectual e assustam os que querem emancipar-se das mentiras seculares e dos ódios ancestrais. Herda-se uma religião, como se transmite a epilepsia. Pode contrair-se por traumatismo mas transmite-se na reprodução.

Deus é a suave mentira que embala o berço na torpe incubadora da fé. Depois, torna-se o fermento da intolerância a levedar sob as sotainas até crepitar em labaredas de ódio e guerras sanguinárias.

22 de Outubro, 2007 Carlos Esperança

Momento Zen de segunda

O inefável João César das Neves (JCN) não desiste da homilia das segundas-feiras, no DN, na cruzada contra o aborto.

A obsessão fundamentalista católica ultrapassa a dos padres rurais mais conservadores, habituados às confissões das paroquianas pobres, que votaram contra a despenalização do aborto mas já fizeram, ao longo da vida, vários «desmanchos», que a pobreza não lhes permitia sustentar mais bocas, e o planeamento familiar era pecado. Para essas mulheres, carregadas de filhos e privações, o aborto, a contracepção e o preservativo são pecados mortais a que não se atrevem, mas «botar abaixo aquilo» é outra coisa, em que arriscam a vida sem comprometerem o destino da alma.

JCN, referindo-se ao feto, afirma que «pouco há a fazer à criança quando se detecta esse tipo de mal [trissomia 21], para logo acrescentar com pungente azedume: «Além do aborto, claro».

Há pessoas, como JCN, para quem a vida da mãe, as malformações, o incesto ou a violação nada valem face aos preconceitos religiosos que alimentam a padres-nossos e imprecações, quanto mais respeitarem a liberdade individual da mulher, até às 10 semanas de gravidez, de acordo com a lei.

Mas onde se vê a desonestidade intelectual, o insulto, a má-fé e a ausência de qualquer limitação ética em relação à verdade é na comparação do aborto ao nazismo e na citação do livro de um especialista na matéria, o padre Nuno Serras Pereira, que acaba de publicar «Ao Gólgata – A Liberalização do Aborto e o Nazismo» embora se presuma mais ódio ao primeiro do que ao último.

O paralelo aborto/nazismo é um truque habitual de quem, não correndo o risco de ter de recorrer ao primeiro, por questão de género, não dá garantias de que não tivesse apoiado o segundo por razões anti-semitas.

Só há uma observação a fazer aos fundamentalistas: Hitler era contra o aborto, preferira matar adultos. O padre Serras Pereira e JCN estão historicamente bem acompanhados.

21 de Outubro, 2007 Carlos Esperança

Diálogo de religiões

O diálogo de religiões é uma impossibilidade teórica e prática. Pode – e deve – haver diálogo de culturas. Aliás, as culturas contaminam-se, no sentido sociológico, e acabam por ser a síntese de várias, o produto da convivência entre comunidades diversas, o resultado da assimilação mútua e recíproca dos usos e costumes de todas e cada uma.

O diálogo das religiões é diferente – uma utopia na melhor das hipóteses e, na pior, uma operação de marketing para facilitar o proselitismo e disfarçar o ódio à concorrência. A religião, qualquer que ela seja, considera-se a única que interpreta a vontade divina e, pior do que isso, exige que os outros se submetam à vontade do seu Deus.

Os homens estão condenados a entenderem-se, os deuses não podem fugir ao confronto. O boato de que os livros sagrados são a expressão da vontade divina, ditados por anjos ou intermediados por profetas transforma as mentiras em dogmas e as crises demenciais do seu Deus em mensagens a que os homens se devem submeter.

Quando um dignitário de uma Igreja fala em diálogo das religiões tem em vista aparecer aos olhos do mundo globalizado como o primeiro entre pares, o líder da unificação de todos os credos onde promete o Paraíso para todos e se prepara para combater os ateus.

Não há diálogo entre doutrinas totalitárias. Não é possível haver cedências em nome de Deus simplesmente porque este não existe e os que dizem representá-lo não sabem disso ou, sabendo, não querem prescindir dos privilégios do múnus ou do conforto do clã. Deus é o maior detonador do ódio que os homens inventaram. Tem os piores defeitos dos seus criadores e minguam-lhe as virtudes que a humanidade, na sua caminhada, foi adquirindo.

Não é por acaso que as sociedades secularizadas e os Estados laicos protegem direitos, liberdades e garantias, pugnam pela não discriminação em função da raça, sexo ou religião, em suma, são plurais, tolerantes e regidas pelo direito. Pelo contrário, as sociedades que se regem pelos livros sagrados são intolerantes, cruéis e misóginas, perpetuam os hábitos tribais e exercem a jurisprudência divina – um simulacro de justiça administrada pelos clérigos com a crueldade que só Deus pode.

21 de Outubro, 2007 Carlos Esperança

Ateus e avençados do divino

Há vários equívocos que urge resolver no Diário Ateísta, ainda que desagrade a muitos leitores.

Sem me arvorar em administrador do DA, julgo-me com autoridade para apelar à contenção da linguagem, particularmente ao carácter obsceno e às provocações gratuitas, venham de onde vierem, de ateus ou de devotos.

A escrita a negrito ou em maiúsculas é uma atitude pouco simpática num blogue que não costuma interferir nas discussões entre leitores. Evitar manifestações de xenofobia, ódio, racismo ou homofobia não é apenas um dever, é uma exigência do DA.

Quanto aos equívocos: o DA é, de facto, um lugar de discussão pública, mas um espaço de ateus. Se a tolerância ateia consente as diatribes dos crentes é por tolerância que não nos seria consentida nos espaços beatos donde vêm os bandos de prosélitos.

Não é aqui o espaço adequado à discussão entre ateus e beatos, ainda que o nosso apego à biodiversidade procure defender a reserva ecológica dos que julgam que Deus fez o mundo em seis dias sem se interrogarem o que fez depois.

Os ateus não têm a mínima consideração ou respeito pelo Deus abraâmico ou outro, tal como os devotos não apreciam o ateísmo. Não é nossa intenção perseguir os crentes pois não nos move o proselitismo, mas não gostamos que os crentes venham insultar-nos à nossa casa. Bem sei que os hábitos totalitários das religiões levam os dementes da fé a julgar que todo o mundo é seu.

Tal como um bando de bispos resolve benzer toda a Europa, como se o continente fosse uma feitoria do Vaticano, assim os crentes se julgam com direito a circular no espaço que os ateus criaram para defender o direito à blasfémia e à apostasia, duas atitudes com uma dimensão ética incomparavelmente superior à humilhação dos que se ajoelham ou circulam de rastos em torno de ídolos que criaram para que os parasitas da fé vivam na ociosidade e no fausto.

Espero que os devotos moderem o proselitismo neste espaço. Nenhum ateu vai à missa dizer ao padre que está a burlar os simples que se ajoelham e lhe contam a vida privada nem prevenir estes incautos de que é falsa a religião que seguem.

Se Deus existisse já teria convertido os ateus. Não podem os lacaios de uma projecção demencial assumir o papel do supremo exterminador da felicidade humana. Pelo menos no Diário Ateísta.

19 de Outubro, 2007 Carlos Esperança

BCP – Opus Dei – Nova Democracia

QUANDO É GRANDE O ESCÂNDALO, perigosas as conexões e suspeitas as ligações políticas, passa a ter interesse público o que se passa num banco privado.

O perdão de 12 milhões de euros ao filho do presidente do Conselho de Administração do BCP é ainda mais estranho do que o empréstimo sem garantias. Que o filho e o pai sejam membros do Opus Dei, à semelhança do delfim Paulo Teixeira Pinto, caído em desgraça, é uma coincidência que faz soar as campainhas de alarme de quem se lembra dos escândalos espanhóis Rumasa e Matesa, protagonizados pelo Opus Dei.

Quem não esquece que o governo do ditador Franco ao tempo dos referidos escândalos era formado por vários membros do Opus Dei, instituição sempre ligada ao capital financeiro e à santidade, bem como à extrema-direita e aos dois últimos papas, recorda a falência fraudulenta do Banco Ambrosiano onde o Vaticano perdeu muito dinheiro e credibilidade.

Deste último sabe-se que o dinheiro foi usado para o sindicato polaco Solidariedade e para ajudar alguns ditadores sul-americanos mas a falência custou a vida ou a liberdade a Robert Calvi, Lúcio Gelli, Michele Sindona e ao arcebispo Marcinkus que João Paulo II nunca deixou extraditar para ser julgado em Itália.

Claro que os casos referidos nada têm a ver com o banco de Jardim Gonçalves mas o facto de o filho, a quem foi perdoada tão grande dívida, ter sido fundador e financiador do Partido da Nova Democracia (PND) põe um homem a pensar.