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Carlos Esperança

3 de Janeiro, 2010 Carlos Esperança

O Medo

Por

A H P

Em homenagem a Kurt Westergaard, dinamarquês autor das caricaturas de Maomé (o que prova que nem tudo “está podre no reino da Dinamarca”) e ao nosso Administrador Carlos Esperança (pelo seu post “Os trogloditas de Maomé”), gostaria de citar aqui dois textos (separados no tempo por mais de 50 anos, mas ainda – infelizmente – ambos actuais):

1- Do artigo de Miguel Sousa Tavares no último “Expresso” : “Em breve, viajar será um pesadelo e a bordo de um avião estaremos todos como prisioneiros. Prisioneiros de Osama bin Laden, o homem da década – aquele que, infelizmente para o mal, mais mudou a nossa vida. Do fundo da sua gruta (…) derrotou o Ocidente com a mais eficaz das armas: a do medo.”

2- De “O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO” publicado por Alexandre O´Neill em 1951:

“(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos”

E concluo eu: é preciso que todos não tenhamos medo. Vale mais morrer em pé do que viver ajoelhados ou acocorados, “como ratos, sim, ratos”.

1 de Janeiro, 2010 Carlos Esperança

Papa não ouviu falar de Darwin

Deus quis que a mulher fosse a companheira do homem e não sua escrava ou dominadora, declarou o papa Bento XVI durante sua última audiência-geral do ano nesta quarta-feira.

Deus criou a mulher a partir da costela de Adão e não, por exemplo, a partir de sua cabeça, para que ela não seja nem dominadora, nem escrava, e sim sua companheira”, declarou o Papa, citando o teólogo medieval e bispo de Paris, Pierre Lombard.

Comentário: B16 é mentiroso ou ignorante? Um criacionista ao serviço do embuste religioso e da superstição.

31 de Dezembro, 2009 Carlos Esperança

O que eu penso da homilia de Natal do Patriarca

A escalada da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) contra as liberdades entre as quais se conta o direito à crença (a qualquer crença), à descrença e mesmo à anti-crença é uma evidência, enquanto o ateísmo defende a liberdade religiosa na qual se inclui o direito à descrença.

Recordo que em 2008, no dia 13 de Maio, o senhor cardeal Saraiva Martins, então angariador de mila-gres e criador de beatos e santos, presidiu em Fátima à «peregrinação contra o ateísmo na Europa». Podia ter sido a favor da fé mas entendeu a ICAR, no seu fervor belicista, dedicar o evento «contra o ateísmo» e o Sr. Cardeal considerou o ateísmo o «maior drama da humanidade», esquecendo a fome, as doenças, as guerras, as religiões e o terrorismo religioso, por exemplo.

A Igreja católica só aceitou a liberdade religiosa no Concílio Vaticano II mas, apesar de ser recente a conformação com um direito inalienável, julgava que já o tinha assimilado na sua praxis. Pelo contrário, a convivência com o pluralismo e as liberdades individuais parece ser uma dificuldade inultrapassável para a ICAR e para os seus prelados.

Em 2009, entre vários ataques de diversos bispos ao ateísmo, recordo o do Sr. bispo Carlos Azevedo, contra a AAP e o seu presidente, em 2 de Junho, no Correio da Manhã. Escusado será dizer que não foi permitida a defesa, apesar de reiteradamente solicitada, e os ataques parecem ser uma tentativa deses-perada de fazerem do ateísmo o bode expiatório de uma Igreja de onde desertam os padres e fogem os crentes.

Deixo agora de parte a cruzada violenta contra os casamento homossexuais quando seria fácil aconse-lhar os adversários a não se casarem com pessoas do mesmo sexo.

Usando poderosos meios de propaganda e a complacência da televisão pública para com a ICAR, pôde o Sr. Cardeal difundir a sua Mensagem de Natal e divulgar a homilia da missa de Natal em que não se coibiu de atacar os «inimigos», assim considerados todos os que não partilham as suas crenças.

Estranha-se a veemência com que na referida homilia arremeteu contra os agnósticos e, sobretudo, contra os ateus, como se ser ateu ou agnóstico mereça censura, sobretudo de um cardeal.

Os ateus revêem-se na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Constituição da República Portuguesa e, defendendo a liberdade sem privilégios defenderão qualquer religião que, eventualmente, venha a ser perseguida por religiões rivais ou por algum Estado ateu que possa surgir, tão perverso como os confessionais.

Apesar das profundas divergências que separam os ateus do cardeal, pensando os ateus que foram os homens que criaram Deus e o Sr. Cardeal o contrário, os ateus defenderão a liberdade, a democracia, o livre-pensamento e a ciência, contra o obscurantismo, a mentira, o medo e o pensamento único. Serão sempre contra a xenofobia, o racismo, o anti-semitismo e qualquer forma de violência ou de discrimi-nação por questões de raça, religião, nacionalidade ou sexo. O que não acontece com a ICAR.

29 de Dezembro, 2009 Carlos Esperança

Os bispos e os referendos

Andaram os bispos portugueses 48 anos em paz, sem preocupações com a democracia, com direito a báculo e mitra apenas com autorização de Salazar, indiferentes aos crimes da ditadura e à guerra colonial, e tornaram-se agora os paladinos da democracia directa.

Todos os dias saltam prelados a agitar a mitra contra os casamentos homossexuais, a brandir o báculo contra o aborto, a perorar sobre a família, como se disso tivessem alguma experiência. Disparam ave-marias e salve-rainhas contra os “inimigos da moral e dos bons costumes” e, finalmente, exigem um referendo sobre matéria que fez parte da campanha eleitoral e dos conselhos pios aos eleitores para se afastarem de partidos que, na sua pitoresca linguagem, são contra a família.

Os bispos, que impedem a interrupção voluntária do celibato aos padres, em nome de uma decisão que lhes aumenta o poder, estão agora na vanguarda da defesa da família e da reprodução. Por que motivo não referendam, entre os padres, o celibato?

Com que legitimidade exigem a uma beata, amiga do peito e da missa, que decida sobre direitos de quem não vai à missa nem frequenta os sacramentos? Que dêem normas de conduta aos crentes é um direito, que exijam a outros que se rejam pelas normas pias é um acto prepotente e uma manifestação totalitária.

É altura de se dedicarem ao breviário e deixarem os políticos decidir em paz. Não têm, nesse campo, grande autoridade nem bons exemplos. E arriscam-se a perguntas incómodas.

28 de Dezembro, 2009 Carlos Esperança

Associação Ateísta Portuguesa – Carta ao Patriarca Policarpo

Exmo. Senhor
Prof. Dr. José da Cruz Policarpo
Cardeal Patriarca de Lisboa
[email protected]
Lisboa

Excelência:
A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) vem manifestar a V. Ex.ª o seu apreço pela grande melhoria do estatuto do ateísmo aos olhos da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR).

Em 2008, no dia 13 de Maio, o senhor cardeal Saraiva Martins presidiu em Fátima à «peregrinação contra o ateísmo na Europa». No mesmo ano, V. Ex.ª, Sr. Cardeal, considerou o ateísmo o «maior drama da humanidade», maior ainda que a fome, as doenças, as guerras e o terrorismo religioso. Foi por isso com agrado que notámos o tom mais conciliatório desta última Homilia de Natal e da mensagem de V. Ex.ª por essa ocasião. Tal como V. Ex.ª, também a AAP defende que «Ser crente ou descrente não pode transformar-se em conflito, um motivo mais para as tensões e agressões mútuas entre os homens.»

No entanto, a AAP lamenta ainda que V. Ex.ª considere os ateus, os agnósticos e todos os que são indi-ferentes à Vossa religião como oponentes a vencer em vez de interlocutores a considerar. Afinal, se as certezas de quem crê são verdadeiramente humildes, como afirma V. Ex.ª, deveriam abrir-se à possibi-lidade de serem os outros quem tem razão ou, no mínimo, da crença ser igualmente legítima como opção pessoal sem precisar do aparato religioso e de representantes oficiais dos deuses.

Apesar destas reservas, a AAP encara com satisfação o progresso na atitude da Igreja Católica em Por-tugal. Despedimo-nos com votos de Boas Festas e o desejo de que, em 2010, V. Ex.ª opte por usar a posição privilegiada que a comunicação social lhe concede para afirmar mais claramente a falta de fé, tal como a fé, como opções individuais às quais todos têm direito.
Esperando que deixe de ver os ateus como oponentes a vencer.

Apresentamos-lhe cordiais saudações.

Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 28 de Dezembro de 2009