Loading

Carlos Esperança

15 de Abril, 2010 Carlos Esperança

O Vaticano e o vendaval que o assola

O Vaticano tem uma queda especial para o disparate e tremendo horror à ciência. Nesse bairro de 44 hectares o tempo parou e, como sinal de pompa, mantiveram-se os adereços femininos.

Quem não distinga a água benta da outra nem enxergue numa rodela de pão ázimo o corpo e o sangue de Cristo, é difícil ver um papa com vestidinho de seda, a cabeça enfiada num camauro e as pernas guarnecidas por meias coloridas, sem um amplo sorriso.

Um ateu nada teria a observar sobre a forma garrida e exótica como se veste o regedor do bairro se ele não tivesse o hábito de pregar moral e aconselhar sobre a sexualidade. Quando um celibatário, inveterado, quer ser o guardião da moral e dos bons costumes tem de se comportar de forma exemplar e não admitir no seio da sua Igreja quem se comporta ao arrepio da moral que prega.

Não pode permitir que um bispo, mentindo, afirme que o preservativo propaga a sida, e ajude a morrer um continente infectado pelo terrível flagelo. Não pode ser tão insensível que se oponha à interrupção da gravidez de uma criança de 12 anos violada pelo amigo do pai e rosnar ameaças contra o planeamento familiar.

Não se podem fazer milagres ao domicílio e criar santos entre os que apoiaram os piores ditadores, caso de Espanha, para combater os adversários e, depois, esperar indulgência. A Igreja católica continua a viver na Idade Média, com milagres obrados por cadáveres com séculos de defunção e que alimentaram a superstição popular.

A tentação obscurantista, servida por um implacável conservadorismo, levou este Papa a reconduzir a sua Igreja ao Concílio de Trento. Reintegrou os bispos fascistas e anti-semitas de Lefebvre, apoiou-se no Opus Dei, escondeu desvios sexuais e crimes do seu clero, sem respeito pelas crianças que molestavam, e desenvolveu uma campanha contra a modernidade, a democracia e a liberdade.

Todos os ventos fustigam agora o jovem das juventudes nazis, os escândalos atingem as sotainas e já ninguém acredita na palavra da Igreja que ocultou os crimes ou nos bispos que transferiam padres pedófilos de terra em terra sabendo que iam continuar a molestar crianças.

E, na dureza das cabeças pias, continuam as confusões criadas nas manhãs submersas dos seminários. Insistem em confundir a homossexualidade com a pedofilia. O cardeal Tarcisio Bertone, número dois do Vaticano, estabeleceu uma relação entre pedofilia e homossexualidade, perante o desmentido da comunidade científica e da comunicação social.

Não apreendem. Estão hoje, como sempre, contra o mundo, agarrados a um deus cada vez mais obsoleto.

14 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Tolerância de ponto? Não

Como se a crise se resolvesse com idas à missa, o Governo concedeu tolerância de ponto aos seus funcionários, atitude que alguns autarcas já haviam antecipado.

É surpreendente que a sociedade civil não se revolte com este atropelo à laicidade a que o Estado é obrigado, que não haja partidos que denunciem o abuso, que faltem cidadãos que se sintam envergonhados.

Quando o Estado se põe de joelhos perante o Papa católico, arrisca-se a ficar de rastos.

Não quererá a Comunicação Social ouvir vozes indignadas com esta deriva beata?

13 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Britânicos estudam possibilidade de prender o Papa

Dois escritores britânicos anunciaram que têm a intenção de processar criminalmente o Papa Bento XVI. Em causa, está o escândalo de pedofilia no seio da Igreja Católica, que está a abalar o Vaticano, e no qual, segundo as últimas notícias, o Cardeal Ratzinger pode estar envolvido.

Os escritores Richard Dawkins e Christopher Hitchens são ateus e críticos da religião. Os dois intelectuais informaram que pretendem levar Bento XVI à justiça quer Grã-Bretanha, quer no Tribunal Penal Internacional.

13 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Momento zen de segunda_12-04-10

João César das Neves (JCN) voltou às homilias de segunda, no DN, para fustigar os leitores com «a nona bem-aventurança».

Quiçá envergonhado com as notícia sobre a sua Igreja, em vez de fazer a leitura crítica, deu-se à exegese da sua história e à negação do seu passado mais negro. JCN imagina calúnias onde os historiadores vêem nódoas, descobre mentiras onde existe perversão e adivinha ataques curiosos onde há factos indesmentíveis.

Confundindo o cristianismo com o Vaticano, diz o bem-aventurado que os discípulos de Cristo são perseguidos há 2000 anos, não imaginado que os judeus, os muçulmanos, os índios, os hereges, os livres-pensadores, os albigenses e os próprios protestantes tenham uma visão oposta.

JCN afirma que «A Igreja [deve referir-se à católica] é a única instituição a que se assacam responsabilidades pelo acontecido há 100, 500 ou 1500 anos», esquecendo que os impérios e as religiões politeístas não resistiram aos crimes que praticaram mas os monoteísmos ainda resistem.

JCN não se conforma com a pungência da verdade: «Os cristãos actuais são criticados pela Inquisição do século XVII, missionação ultramarina desde o século XV, cruzadas dos séculos XI-XIII, até pela política do século V (no recente filme Ágora, de Alejandro Amenábar, 2009)». Deviam ser mentiras mas os factos esmagam os desejos pios.

No seu usual delírio místico, insurge-se porque a Igreja Católica, Apostólica, Romana (ICAR) é atacada (na sua opinião, paradoxalmente) por ser «contra o sexo e a favor da procriação», um facto que nada tem de paradoxal e é uma obsessão doutrinária.

Depois agride os iluministas, sem os quais, a vida da Igreja seria um sonho, mas a dos livres-pensadores um pesadelo, por a considerarem « a principal inimiga da ciência: supersticiosa, obscurantista, persecutória do estudo e investigação rigorosos», jurando que a evidência histórica demonstra o contrário.

Denuncia ainda os jacobinos por terem acusado a Igreja pelas «terríveis perseguições religiosas, étnicas e sociais, destruição cultural de múltiplos povos, amiga de fogueiras e câmaras de tortura, chacinas, saques e genocídios», como se fosse uma mentira que «a caridade, mediação, pacifismo» que atribui à sua Igreja pudessem desmentir.
Depois de passar pelos marxistas chegou onde agora lhe dói: «Vivemos hoje talvez o caso mais aberrante: a Igreja é condenada por… pedofilia».

JCN não percebe que ninguém, a não ser as Igrejas, a começar pela sua, em relação aos judeus, converte os crimes individuais em ferrete colectivo.

O que JCN não percebe é que não estão em causa crimes de alguns padres (até podiam ser quase todos) no legítimo ataque à ICAR. Nem se acusam cristãos, como finge crer. O que o devia envergonhar e revoltar é a cumplicidade de numerosos bispos e dos três últimos papas a protegerem os pedófilos sem cuidarem do mal que faziam às crianças, preferindo ocultar os crimes a salvar crianças dos predadores.

A pungência da prosa do megafone do episcopado, JCN, converte-se em ridículo para quem sabe o que está a acontecer: «O ataque à Igreja é uma constante histórica. A História muda. A Igreja permanece. Porque ela é Cristo. Dela é a nona bem-aventurança: “Bem-aventurados sereis quando vos insultarem e perseguirem” (Mt 5, 11).

Amém.

12 de Abril, 2010 Carlos Esperança

Carta ao presidente da Conferência Episcopal Portuguesa

Exmo. Senhor
D. Jorge Ortiga
Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP)
[email protected]
Quinta do Cabeço, Porta D
1885-076 MOSCAVIDE

Excelência:

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) assiste na comunicação social à pressão que os  bispos portugueses exercem sobre o Governo para que seja concedida tolerância de ponto nos dias previstos da visita de Bento XVI a Portugal, no próximo mês de Maio.

A AAP nada tem contra a visita de dignitários religiosos, sejam de que religião forem, mas não pode aceitar que o carácter laico do Estado português seja posto em causa e, muito menos, que sejam exercidas pressões indevidas sobre os órgãos da soberania.

Acresce que se adensam as suspeitas de encobrimento de crimes de pedofilia por parte do actual pontífice, de ter protegido padres sob investigação e outros cuja condenação transitou em julgado, em várias nações. A própria tentativa judicial de incriminar Bento XVI, por cumplicidade, está a ser estudada por juristas de diversos países.

Os factos, pouco abonatórios para a reputação do pontífice, desaconselhariam a vinda, até cabal esclarecimento do seu comprometimento, para não constranger as entidades que o protocolo obriga a recebê-lo. Dadas as dificuldades financeiras por que o País passa devia também este facto merecer do Vaticano ponderação suficiente para não as agravar.

A Associação Ateísta Portuguesa, certa de que não serão muitos os portugueses que se regozijam com a visita prosélita de Bento XVI e que serão ainda menos os que aceitam os custos que a pompa e a circunstância acarretam, pede a V. Ex.ª que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), através do Núncio Apostólico, solicite o adiamento sine die da viagem prevista, não faltando razões substantivas que o justifiquem.

Desejando que o bom senso impere, a AAP espera que a visita inoportuna não seja um factor de perturbação política e o pretexto para branquear as responsabilidades pessoais deste Papa e o comportamento do Vaticano durante os três últimos pontificados.

Confiando que a CEP possa demover a obstinada intenção de Bento XVI de visitar Portugal, durante o vendaval de escândalos que o compromete,

Apresenta a V. Ex.ª os seus cumprimentos.

Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 12 de Abril de 2009

11 de Abril, 2010 Carlos Esperança

A rubrica que tardava a aparecer…

Bento 16 perseguido pelo passado

Por

E – Pá

Há alguns anos que se denuncia a existência de documentos secretos oriundos do Vaticano com o fim de instruir os bispos católicos sobre a melhor forma de ocultar e evitar acusações judiciais em caso de crimes sexuais contra crianças…link

Nesta situação estará o documento Crimen Sollicitationis, da responsabilidade do papa João XXIII, uma cartilha de 39 páginas, escrita em latim, no ano de 1962, e distribuída pelos bispos católicos de todo o mundo.
Este ignóbil escrito impõe um pacto de silêncio entre a vítima menor, o padre que é acusado do crime e quaisquer testemunhas ou pessoas a par do ocorrido. Quem quebrasse esse pacto seria excomungado pela Igreja Católica, conforme foi denunciado, em devido tempo, pela BBC.

A ICAR reagiu através do arcebispo Vincent Nicohls que tentou controlar danos referindo que o referido documento documento não se refere a eventuais actos de pedofilia por parte dos padres, mas apenas ao “uso impróprio do confessionário”. Em vez de esclarecer a questão da pedofilia no seio da Igreja levantou um outro problema: uma eventual utilização com inconfessáveis fins do segredo do confessionário…

Poderemos dizer que estes factos remontam a tempos passados em que o crime de pedofilia tinha outra moldura penal. Tal asserção que encerra alguma verdade não se pode aplicar à ICAR cujos parâmetros morais sempre pairaram à margem do Direito Civil.

Mas o que dizer, ou melhor, o que pensar, da carta em destaque (cuja autenticidade foi confirmada pelo jesuíta Federico Lombardi) link, assinada pelo punho do então cardeal Joseph Alois Ratzinger – hoje papa Bento XVI – datada de 1985, em que o então perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) se opôs à destituição do cura Stephen Keisle da diocese de Oakland (Califórnia), – acusado por abusos sexuais em menores praticados em 1981 – invocando “ o bem da Igreja Universal”?

Esta é a “Doutrina da Fé”!