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Carlos Esperança

31 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

Maria_1 (Crónica)

Se a alva e meiga Senhora que, há cerca de noventa e três anos, poisou numa azinheira, vestida com um manto de luz, para gáudio de três inocentes pastorinhos, por erro de navegação celeste houvesse poisado numa azinheira errada e encontrado um só pastor, mancebo de vinte e tantos anos; se a falta de energia lhe tivesse apagado o manto, sendo a beleza tanta quanto dela disseram as criancinhas, e entre o manto e o corpo nada houvesse, como é de crer, por ser a luz que resplandecia o único vestido que a cobria, poderia o dito pastor chamar-se José, como o humilde e humilhado carpinteiro de Nazaré, e a história seria outra.

Se o dito pastor, mancebo de vinte e tantos anos, na flor da idade e do desejo, impelido pelos sentidos, fosse tão rápido e eficaz a tomar a dita Senhora como o era a conduzir o rebanho, não seria o papa, muitos anos depois, a entrar em êxtase; seria ele, pastor, ali e então.

E, em vez de serem criancinhas a ouvir “eu sou a Nossa Senhora”, pitoresca apresentação que só ouvi a um Sargento, apresentando-se aos soldados, “eu sou o nosso primeiro Vieira”, em vez dessa apresentação que os exegetas atribuem à Virgem Maria, teria ouvido o pastor, mancebo de vinte e tantos anos, mais afeito ao rebanho do que ao corpo feminino, à guisa de apresentação e despedida, com voz lânguida e conformada, eu sou Maria.

Tudo leva a crer que a referida Senhora, de tão rara beleza, teria esquecido a conversão da Rússia, poupado o dito pastor à oração e, em vez de duas ou três aparições, poderia tentar outras, sabendo embora que não era a azinheira certa aquela em que poisava, mas adivinhando à sua sombra o pastor, mancebo de vinte e tantos anos.

Diz-me um amigo que o País devia duplicar o número de azinheiras para igualmente duplicar as probabilidades de novas aparições. Tenho a esse respeito opinião diferente, tese igualmente respeitável, embora nestas questões pouco valha a dialéctica, impossível que é formular a antítese, pois a ciência certa nunca a teremos. Penso que o caminho, o caminho correcto, está em duplicar o número de crianças que prefiram à escola a oração e se dediquem à pastorícia, de preferência longe dali, que os milagres raramente se repetem perto, e se acontecem, como há sobejas provas na Ladeira e noutros sítios, nunca são reconhecidos, por se desconfiar da abundância e se temer a concorrência.

E se no futuro apenas houver pastores crianças, com joelhos no chão e olhos no Céu, nunca mais haverá qualquer pastor na flor da idade e do desejo, mancebo de vinte e tantos anos, a ofender a virtude e a mudar o sítio às azinheiras, a perturbar a circulação celeste e os milagres.

30 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

Maria Madalena_1

Madalena

( Crónica a partir da tradição popular, modificada.)

Naquele tempo, em Magdala, na antiga Palestina, uma multidão preparava-se para apedrejar Maria sobre quem recaía a acusação de ser pecadora. Fora um boato posto a correr, talvez por um corcunda da tribo de Manassé, ressentido por se ter visto recusado, que a sujeitara àquele veredicto popular de que não cabia recurso. O princípio do contraditório ainda não tinha sido criado nem era hábito ouvir o acusado, principalmente sendo mulher, nem a absolvição estava enraizada nos hábitos locais. A lapidação de Maria tinha transitado em julgado.

A lapidação era, aliás, um divertimento muito em voga, que deixava excitados os autóctones que habitavam as margens do rio Jordão que atravessava o Lago Tiberíade a caminho do mar Morto. Diga-se, de passagem, que esse desporto ainda hoje é muito popular em numerosos países, para imenso gáudio das multidões, e não faltam adeptos um pouco por toda a parte.
Aconteceu que andando o Senhor Jesus a predicar por aquelas bandas, depois de indagar o que se passava,  aproveitou a multidão para se lhe dirigir,  e disse:
–    Aquele de vós que nunca errou que atire a primeira pedra.

O nazareno tinha créditos firmados com vários milagres e até a cura de um leproso lhe era atribuída entre os galileus. Falava-se mesmo, com rancor entre os fariseus, que teria ressuscitado um morto de nome Lázaro. Vários independentes já lhe tinham manifestado apoio, como sucede sempre que o poder está em vias de mudança.

Todos pareceram hesitar. Muitos deixaram cair as pedras com que se tinham municiado. Havia mesmo alguma crispação nos que vieram de longe, com sacrifício, e um certo desapontamento de todos os que esperavam divertir-se. Só o Senhor Jesus continuava sereno, a medir o alcance das sua palavras. Mas, eis que da multidão se ergueu um braço e Maria de Magdala caiu derrubada por uma pedrada certeira.
Enquanto algumas pessoas a reanimavam, na esperança de repor o espectáculo que tão depressa se esgotara, o Senhor Jesus foi junto do atirador e disse-lhe:

–    Então tu, meu filho, nunca erraste?

–    Senhor, a esta distância, nunca.

30 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

Se o cardeal tivesse consciência…

Fitas publicadas em dois jornais belgas mostram um ex-cardeal católico pedindo que uma vítima não revele que sofreu abuso sexual por um bispo, aumentando a polémica em torno dos escândalos sexuais dentro da Igreja.

As gravações feitas de forma secreta pela vítima trazem o ex-cardeal Godfried Danneels, antigo líder da Igreja na Bélgica, pedindo para uma vítima que aceite um pedido de desculpas em particular ou espere um ano para que o bispo se aposente antes de tornar o caso público.

30 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

Para que servem as orações?

Por

José Moreira

“Passeando” pelos jornais televisivos, deparo-me com a notícia, a correr em rodapé, de que “Bento XVI reza constantemente pelos mineiros do Chile (o sublinhado constantemente não é meu)”.


Desde logo, não está provado que as rezas possam servir para alguma coisa. Se servissem, certa

mente que nada teria acontecido aos mineiros, pois as famílias também devem rezar constantemente para que nada lhes aconteça. Além disso, tudo quanto é gente está empenhada em tirar os mineiros da dramática situação em que se encontram.

Fundamentalmente, estão empenhados em dar-lhes, enquanto durar esta situação, as melhores condições possíveis, evitando a entrada em depressão, tentando mantê-los ocupados, enfim, descrever as preocupações das diversas autoridades seria um exercício redundante, já que os leitores certamente acompanharão o desenrolar da situação.

De qualquer modo, onde eu quero chegar é a este ponto: as autoridades não estão a procurar a solução do problema nas mãos de uma qualquer divindade. Ou seja, eles não confiam em deuses para resolver os problemas. Provavelmente confiaram, ao não acautelar as devidas condições de segurança (respiros com escadas, por exemplo); se o fizeram, o resultado está à vista. Depois, acresce outra questão: onde estava Deus quando se deu a derrocada?

Mas a questão principal até nem é essa. “Bento XVI reza constantemente pelos mineiros do Chile”. Muito bem, se calhar é a sua obrigação. Mas, porquê a publicidade? Porquê a ânsia de protagonismo? Porquê a compulsiva atitude de se pôr em bicos de pés? Não foi Jesus que disse algo como “Mas, quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” (Mateus 6:3)?

28 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

Associação Ateísta Portuguesa (AAP)

COMUNICADO

A  Associação Ateísta Portuguesa (AAP), profundamente revoltada com as condenações à morte de que são vítimas cidadãos iranianos, manifesta a sua indignação contra o assassínio dos acusados de sodomia, adultério ou oposição ao Estado teocrático de Teerão.

Na defesa da Declaração Universal dos Direitos do Homem, do respeito pelo pluralismo e do direito à liberdade individual, a AAP  solidariza-se com a manifestação contra as lapidações no Irão, manifestação que terá lugar hoje, dia 28 de Agosto, às 18:00, no Largo de Camões, em Lisboa.

Assim, convidam-se todos os sócios, em especial os que vivem na região de Lisboa, a integrarem a referida manifestação, solidários na luta pelos Direitos Humanos e em protesto contra a pseudo-justiça que, em nome de uma crença absurda, desrespeita os mais elementares direitos de defesa das vítimas e aplica castigos que ofendem a civilização e repugnam à dignidade humana.