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Carlos Esperança

8 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Jesus cansado da cruz (Crónica)

Um dia o enorme crucifixo da velha igreja ganhou vida. Genuflectida a seus pés uma beata debitava a salve-rainha enquanto, do lado direito, um pouco atrás, antes do transepto, outra beata rezava padre-nossos junto ao altar da Virgem Maria. Era a força do hábito. Trocavam-se orações por pedidos sem reclamação dos ícones nem reparo dos mendicantes, enquanto o padre vociferava latim e dizia a missa.

O senhor Jesus já por ali andava dependurado, há uns séculos, a suportar a crueza dos espinhos e o mau aspecto das chagas que nunca mais saravam. Enegreceu com o fumo das velas, suportou os odores de quem cuida melhor a higiene da alma do que a do corpo, ouviu gente em desespero e pedidos de vingança de almas danadas que lhe solicitavam o infortúnio alheio.

Conheceu centenas de padres e numerosos bispos a quem nunca fez reparo pelo latim periclitante, a pobreza das homilias ou a riqueza dos paramentos. Ouviu confissões eróticas sem mover a tanga, safadezas incríveis sem se ruborizar, misérias de vidas e vidas de miséria, sem um suspiro, um grito ou um vómito. A tudo o senhor Jesus se habituou, até às versões diferentes a respeito da sua própria vida.
Ouviu um bispo irado a condenar os jacobinos, outro a  amaldiçoar os judeus, e, todos, conforme as épocas, a execrar a Revolução Francesa, a república, o laicismo, a apostasia, a blasfémia e o preservativo.

A tudo o senhor Jesus assistiu, em silêncio, no bronze em que o esculpiram. Até um dia. Até ao dia em que o padre apostrofou os incréus que se afastavam do culto, faltavam à santa missa e se furtavam à eucaristia; admoestou as donzelas impacientes que não esperaram pelo casamento; ameaçou os casais que substituíam a castidade pelo preservativo e contrariavam os desígnios de Deus quanto aos filhos. Jesus despertou no preciso momento em que o oficiante explicava que naquelas rodelas de pão ázimo ia ele próprio, em corpo e sangue, pousar nas línguas ávidas de quem guardara jejum desde a meia-noite, bem confessado, melhor arrependido e excelentemente penitenciado.

Foi então que arrancou os cravos, deu um piparote na coroa de espinhos, abandonou a cruz e esgueirou-se por entre os devotos sem ninguém notar, nem a beata das salve-rainhas, nem o padre que administrava a partícula, nem os comungantes habituados a fechar os olhos. Ninguém reparou que no seu lugar ficou apenas um sinal mais, em raiz de nogueira, com quatrocentos anos, aliviado do peso e do freguês.

Jesus não mais foi visto.

7 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Momento zen de segunda

Por

Rui Cascão

O Carlos Esperança que me perdoe por me antecipar à sua diuturna refutação da crónica de Segunda feira de João César das Neves no DN, e ainda por lhe plagiar o “lead”, mas desta vez não consegui resistir.

Ora cá cá vai a contradita:

JCN refere “Desde o Iluminismo que uma ingénua arrogância luta, em nome do mundo novo, para substituir as tradições cristã, judaica, muçulmana, celta, germânica, greco-romana por uma ficção pseudo-científica que alimenta o corropio de ideologias.”. É claro que JCN convive mal com a Europa que emergiu das luzes, e que preferiria o pio mundo das trevas medievas e da infalibilidade papal.

Numa outra pérola, afirma que “pelo contrário, havendo atrocidades de parte a parte, regra na época, a superior técnica cruzada permitiu, face a enorme desvantagem numérica, manter um reino e rica cultura “que, pelo menos ao longo da costa, durou quase tanto quanto os EUA são uma nação” … não haverá aqui uma contradição no raciocínio de JCN? Ora as atrocidades de parte a parte, regra na época, conforme afirma, não são apenas a consequência do espírito da época pré-iluminista? Ora, os valores iluministas consistem precisamente na erradicação da barbárie, e os que se verificaram no período pós-iluminista se devem essencialmente a derivas irracionalistas ou na incapacidade humana de aplicar os valores do iluminismo?

JCN prossegue afirmando que “Desde o Iluminismo que uma ingénua arrogância luta, em nome do mundo novo, para substituir as tradições cristã, judaica, muçulmana, celta, germânica, greco-romana por uma ficção pseudo-científica que alimenta o corropio de ideologias. Em resultado, empirismo, utilitarismo, positivismo, marxismo, nazismo, existencialismo, pós-modernismo têm-se sucedido, degradando uma elevação cultural que modelou o mundo.”. Fabuloso… nem sei por onde começar a contestação. JCN é um economista, sendo o seu pensamento económico (que é aliás irrepreensível) enquadrado por uma óptica liberalista. Ora o liberalismo económico tem como bases o empirismo, o positivismo e o utilitarismo. Será que JCN arriscará a sua credibilidade profissional ao renegar as bases metodológicas da sua arte? Sempre pensei que JCN fosse cristão. Ora o existencialismo iniciou precisamente como uma reacção filosófica cristã contra o positivismo e o utilitarismo (com o seu expoente máximo o teólogo Søren Kierkegaard). Por outro lado, como é que se colocam no mesmo saco do pós-iluminismo ideologias tais como o nazismo, o existencialismo e o pós-modernismo, que têm como fundamento a própria negação dos princípios e valores do iluminismo, ou o marxismo (e o hegelianismo) que restringem o valor da liberdade humana em contradição com o iluminismo, no mesmo saco do positivismo e do utilitarismo? Só com a intenção dolosa de criar uma falácia tal se poderá admitir.

Prossegue JCN ao afirmar que “Desde o Iluminismo que uma ingénua arrogância luta, em nome do mundo novo, para substituir as tradições cristã, judaica, muçulmana, celta, germânica, greco-romana”… Será que não haverá aí um certo elitismo, para não dizer outra coisa, na selecção das pseudo-matrizes culturais da Europa? Milhares foram os povos e culturas que preteritamente marcaram e futuramente marcarão a Europa enquanto este planeta existir. Então e a tradição eslava, a tradição báltica, a tradição nórdica, a tradição magiar, a tradição otomana, a tradição cigana, a tradição albanesa, a tradição basca, a tradição ibérica, as várias tradições de todas as sete partidas do mundo que enriqueceram a cultura europeia, etc.? E expliquem-me o que é que significa “tradição greco-romana” para além de um cliché? Que eu saiba, existe a cultura helénica, a cultura helenística, a cultura romana e um aglutinado entre uma cultura avançada (a helenística, hedonística e nefelibata) que foi conquistada e escravizada por outra cultura mais pragmática. Tradição germânica… qual? A dos Francos? A dos Visigodos? A dos Ostrogodos? A dos Vândalos, e neste caso quais? Os Asdingos ou os Sililingos? O que é a tradição cristã? A cristã ortodoxa, a católica, a luterana, a calvinista, a copta ou a monofisita? E a tradição islâmica? A sunita, a xiita ou a sufita? E entre a sunita, prevalente na Europa? A wahabista, a salafista, a malaquista, ou a shafiista? Então e as “tradições” cristalizam-se no tempo e no espaço em entropia?

Finalmente refere JCN uma obra de Rodney Stark com uma visão alternativa das cruzadas em que o materialismo rapaz dos cruzados é uma falsificação, os cruzados são a ingerência humanitária in illo tempore, etc. JCN, quando não fala sobre economia, é recidivo em utilizar apenas uma fonte revisionista erigindo-a em suma autoridade que decisivamente revê o paradigma. Penso que JCN deveria ler Thomas Kuhn. Bem sei que provavelmente Kuhn deve estar no index e que JCN provavelmente preferiria a epistemologia coeva de Galileu. Kuhn afirmou que, para que uma determinada tese científica (paradigma) possa ser revista e superada, de forma a haver uma revolução epistemológica relativamente a essa tese, é necessária a completa superação da tese anteriormente dominante na comunidade científica. E, quanto às cruzadas, o paradigma dominante não foi superado por esse autor que JCN indica, e que configura esse sistema histórico (as cruzadas) como um confronto de interesses entre dois pólos principais. De um lado os interesses espirituais e venais dos Estados Pontifícios, de algumas potências europeias com possibilidades limitadas de expansão territorial devido ao equilíbrio de poder na Europa e forte pressão demográfica (quanto a isto, leia-se o Diplomacia de Kissinger), a ânsia de glória e fortuna dos não morgados excedentários do regime feudal. Do outro lado o expansionismo do califado islâmico, (aliás, JCN deveria verificar melhor as suas fontes, nas primeiras cruzadas ainda os turcos não tinham adquirido a preponderância no mundo islâmico- o protagonismo coube até 1258 ao Califado Abássida de Baghdad, data em que foi conquistado pelos mongóis… a história afinal tem números, tal como a economia). Actores menores e contraditórios foram o Império Romano do Oriente (cristão ortodoxo, que foi saqueado e ocupado na quarta cruzada pelos cruzados, precipitando a sua agonia que culminou com a tomada de Constantinopla em 1483) e a Sereníssima República de Veneza, ansiosa de expandir o seu território, acertar contas com os Estados Pontifícios e promover os seus interesses mercantis no Levante.

JCN fala de cátedra e fala bem quando fala de economia. Quando fala de filosofia ou de história, deveria ir mais ao fundo. E não deveria generalizar no que concerne a temas tão imensamente complexos. É que a sua reputação sofre. E prefiro mil vezes o nosso imperfeito admirável mundo novo à entrópica pax ecclesiae e o gloria in excelsis deo defendidos por JCN.

6 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Os 33 mineiros do Chile e o oportunismo clerical

Sobre a mina de S. José os padres pairam como aves de rapina.

No Chile, a 700 metros de profundidade , 33 mineiros lutam pela sobrevivência numa caverna onde deviam ter sido escavados túneis que tornavam a exploração mineira mais cara mas de menos risco.

A tragédia apanhou-os numa jornada de 12 horas, horário herdado do piedoso Pinochet, fascinado por Milton Friedman que transformou o Chile no laboratório da sua demência neoliberal.

Os mineiros, afeitos ao sofrimento e penosidade, têm resistido às condições adversas e mantêm viva a esperança de resgate. Enquanto lutam pela vida, cá fora, os funcionários de deus lutam pelo mercado da fé. O Papa enviou-lhes 33 terços benzidos manualmente, por intermédio do cardeal Francisco Javier Errazuriz, e o pastor Carlos Parra, da Igreja do Sétimo Dia, 33 bíblias protestantes em miniatura.

O respeito pela diversidade religiosa e pelas condições de fragilidade psicológica não impediu os prosélitos de montarem a tenda de adereços pios sobre a mina onde lutam pela vida os mineiros enclausurados e as famílias desesperadas aguardam.

Cá fora ergueram um santuário a transbordar de altares sobre pedras e caixas de cartão. Entre a reprodução da Virgem de Andacollo e um Cristo não faltam Santo Expedito e, naturalmente, S. Lourenço que a Igreja católica decidiu fazer patrono dos mineiros.

O presidente Piñera, especialista na caça ao voto, já ameaçou erguer um santuário católico no local, indiferente ao respeito que devia merecer-lhe o pluralismo religioso, nomeadamente a Igreja evangélica, que cerca de metade dos mineiros enclausurados frequentavam. Os clérigos que exploram o medo e a aflição das famílias fragilizadas parecem aves de rapina à espera dos despojos. Não aguardam a libertação dos mineiros, exploram o drama que se vive dentro e fora da mina, numa acção de propaganda pia.

Agora é tempo de confiar nos homens e esperar que especialistas mantenham condições de sobrevivência durante meses enquanto outros lutam por abrir um túnel que os salve.

Perante o barulho das máquinas fica o espectáculo da superstição e do oportunismo clerical a explorar a dor, o medo e a ansiedade.

Há profissões que vivem disso.

6 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Humor eclesiástico

Na Universidade de Verão do PSD

O padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, saiu-se com esta “anedota” há dias em Castelo de Vide: “Costumo dizer q a igreja precisa mto das mulheres… senão quem é q fazia as limpezas?!”

Sem comentários…

(contado no Facebook pela Celia de Sousa, jornalista na Antena 1)
Publicada por Susana Barros

5 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Dúvida metódica

Por

José Moreira

Tenho seguido, religiosamente, os comentários relacionados com a questão do envio de terços aos mineiros chilenos. E a verdade é que, até este momento, ninguém conseguiu responder para que, CONCRETAMENTE, servem os terços, numa situação aflitiva como a dos mineiros. Pediram tabaco, foi-lhes negado; pediram vinho, deram-lhes ácido fólico (deve ser parecido. Vou experimentar, no próximo cabrito assado. ..). Não pediram terços nem bíblias, mas eles aí vão.

No entanto, e este é que me parece ser o ponto principal, ainda ninguém se referiu ao facto – este sim, de suma importância – de os terços terem sido benzidos pelo B16. Ora, meus caros: estão a discutir o sexo dos anjos, e omitem o primordial? A benzedura terçal (rima e é verdade)?

Aliás, se não fosse importante, os jornais nem falariam nisso, sabido como é que os rapazes da imprensa só publicam coisas importantes.

Pois bem: eu, como ateu iletrado que sou, não consigo distinguir entre um terço bento (16?) e um terço dito normal. Para mim, é tudo a mesma choldra. Mas sou obrigado a admitir que alguma diferença haverá. Tal como há, certamente, entre a água benta e a outra – a da torneira, por exemplo.Porque se não houvesse diferença, o B16 não iria perder o seu rico tempo a benzer trinta e três terços, qualquer coisa como 33/3. Não senhor. A menos que os tenha benzido por atacado, como se faz nos baptizados, e nas missas de 7º dia, em que se reza uma missa para todos, mas se cobra individualmente. E bem!

Mas estou a afastar-me do meu objectivo, que é o de pedir, encarecidamente, aos católicos de plantão ao DA, que me elucidem acerca destes magnos problemas:

– Como é que se distingue um terço bento (16?) de um terço “tout-court”?
– Qual a diferença, em termos de resultados práticos, entre um e outro, ou seja, qual deles tem mais poder?
– Na hipótese, meramente académica e manifestamente absurda, de ambos terem poder igual, para que serviu a benzedura?
– Se os terços tivessem sido bentos por um mero sacerdote, teriam menos valor? Ou menos poder?
– Os mineiros são todos católicos?
– Os mineiros conseguem verificar se os terços são terços bentos ou não? Ou será que alguém os dilucidará?

5 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

AAP – Carta aos sócios

A Associação Ateísta Portuguesa não pode deixar de congratular-se com a afirmação do eminente cientista inglês, Stephen Hawking, de que não há espaço para Deus nas teorias sobre a criação do Universo.

O cientista usado pelas Igrejas para mostrar que, à falta de argumentos, as crenças têm quem as defenda, exibiam a sua enorme inteligência com a beata insinuação de que os ateus não estavam à sua altura, como se isso provasse a existência do deus criado pelos homens e à custa do qual vivem as religiões.

A afirmação de que o Big Bang foi apenas uma consequência das leis da Física sem qualquer papel de Deus, deixa os vendedores de ilusões mais sós. A teoria do professor Stephen Hawking surge no seu novo livro, intitulado The Grand Design, e contraria as posições assumidas anteriormente pelo cientista, que chegou a defender que a crença num Criador não era incompatível com a Ciência, num livro publicado em 1988.

A AAP reitera a sua satisfação pela conclusão de Stephen Hawking a respeito do Big Bang e subscreve as palavras de outro grande cientista e referência dos ateus, Richard Dawkins, a esse respeito: «Obrigado Hawking. Disseste alto e bom som o que todos nós já repetimos sem fim: deus não faz parte da explicação do mundo em que vivemos».

Saudações ateístas.

Associação Ateísta Portuguesa – 02-08-2010

4 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Papa contra o laicismo

O papa Bento XVI criticou “uma forte corrente ‘laicista’ que quer afastar Deus” e afirmou que “um mundo sem Deus é um ‘inferno'” numa mensagem divulgada hoje a propósito das Jornadas Mundiais da Juventude em Outubro.

“Existe uma forte corrente ‘laicista’ que quer afastar Deus da vida das pessoas e da sociedade, tentando criar um ‘paraíso’ sem ele”, afirma o papa na mensagem, em que apela à Europa para “recuperar as suas raízes cristãs”.

Comentário: O mundo não pode estar sob o jugo do clero.

3 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Papa envia terços aos mineiros soterrados

O Vaticano continua a acompanhar atentamente a situação dos 33 mineiros que estão presos na mina de São José, no Chile, procurando transmitir força e esperança às vítimas e suas famílias.

Segundo a agência EFE, os 33 mineiros receberam no dia 2 um conjunto de terços benzidos pelo Papa.

Nota: Não há ensaios duplo-cegos sobre a eficácia dos terços benzidos nem sobre bênçãos comparadas entre o Papa e um padre de paróquia.

2 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Deus não é para aí chamado

Hawking exclui Deus da criação do Universo

Não há espaço para Deus nas teorias sobre a criação do Universo, garante o cientista Stephen Hawking

O Big Bang foi simplesmente uma consequência das leis da Física e Deus não teve nenhum papel nisso. A teoria do professor Stephen Hawking surge no seu novo livro, intitulado The Grand Design, e vai contra a posição assumida anteriormente pelo cientista britânico, que chegou a defender que a crença num Criador não era incompatível com a Ciência, num best-seller publicado em 1988.