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Carlos Esperança

20 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Areosa – Uma paróquia propensa a equívocos (Crónica)

1 – A tourada (agosto de 2012)

Há três anos foi a festa à santa errada quando Agosto era mês e a fé estava no auge, não porque a piedade tivesse crescido mas porque as férias e o regresso dos emigrantes dão mais colorido às procissões e maior frequência às missas. Este ano foi a tourada que a Câmara Municipal tinha proibido no concelho, em 2008, na presidência de Defensor de Moura, e que ontem se refugiou em terrenos rústicos da freguesia de Areosa, sob escolta policial, enquanto a população, tal como no caso da santa, se dividiu. Um touro perdeu a paciência e espalhou sucessivamente os pegadores pela arena. A inteligência venceu a força.

Desta vez, o confronto entre aficionados e adversários das touradas marcaram o fim de semana da Areosa. Há três anos foi a festa pia, agora foi a festa brava. É a maldição do mês de agosto que persegue a Areosa.

2 – Festas à santa errada (agosto de 2009)

A paróquia da Areosa, que se avista do alto de Santa Luzia, em Viana do Castelo, sofreu com a notícia que o padre João Cardoso Oliveira teve a incumbência de comunicar aos fiéis e, num ato inédito, com a urgente necessidade de sacrificar a santidade por amor à verdade.

A arreliante troca de uma preposição, pela contração da mesma com o artigo definido, pode pôr em causa a devoção, o entusiasmo e a felicidade de quem atribuía à santa as vindimas fartas e a qualidade do vinho.

A santa devia ser a Senhora “de” Vinha mas, vá lá saber-se porquê, obra do demo, quem sabe, por equívoco no nome acabou venerada uma santa que não era a autóctone – uma Senhora “da” Vinha – a quem os devotos passaram a confiar a vinicultura quando a santa da paróquia, a verdadeira, tinha por vocação a pecuária.

Os paroquianos reforçavam com ave-marias a eficácia dos herbicidas e procuravam a sinergia da fé para erradicar ervilhacas, malvas, saramagos, urtigas, gramas, escalrachos  e outras dicotiledóneas e gramíneas que retiram força à cepa e comprometem a vindima. A vera santa da Areosa tinha competência veterinária e especialização «ovínea», donde derivou o nome “de vinha, que em latim se refere a ovelhas e originou o adjetivo “ovino” do português atual e, por lapso, rezaram a uma santa errada, padroeira da vinha, que, afinal, protege a pastorícia.

Durante muitas décadas os paroquianos fizeram a festa e a procissão a uma santa que tutelava a pastorícia e veneraram como protetora e padroeira da vinha. Quantos terços, novenas e missas foram rezados par a proteger do míldio as cepas, e a santa a pensar na sarna, nos parasitas, picadas de moscas, claudicações, mamites e outras moléstias que apoquentam o gado ovino!?

Que utilidade tiveram homilias, festas e orações, para fins agrícolas, dirigidas à santa que só tinha olhos para os rebanhos? E as oferendas de lavradores que não tinham ovelhas e pagaram promessas feitas para proteção das vinhas? Quem os vai ressarcir?

A Senhora da Vinha dá o nome à igreja da paróquia e a devoção levou os autóctones a homenageá-la com uma escultura em gesso que é, nem mais nem menos, uma videira, imune à filoxera mas não à provação do logro.

Quem sabe se a santa não continuaria a fazer milagres à altura da fé que se vai apagando lentamente sem provocar a comoção geral que o padre Oliveira, prior da Areosa, há 25 anos, terá de gerir!

Ainda hão de maldizer o professor de História da Universidade do Porto, frequentador da festa, que se pôs a esgaravatar no Louvre, em Paris, e descobriu uma pintura do século XIV com a Senhora “da” Vinha, sem parecenças com a Senhora “de” Vinha, salvo na virtude que as há de igualar e não se vislumbra a olho nu.

Maldito o respeito que a Universidade, o Louvre e os professores passaram a merecer e que ofusca o apreço que às imagens pias era devido, com manifesto prejuízo do maior bem que a gente simples possuía – a fé. Por ora, não se adivinha o efeito devastador da investigação histórica, confirmada pelo pároco, na desorientação de uma paróquia tão piedosa, temente a Deus e orgulhosa da santa que era “de” Vinha e os paroquianos julgaram ser “da” Vinha.

20 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Citação

Ateísmo: Toda a gente é ateia em relação milhares de deuses, a maioria em relação a todos os deuses menos um – mas alguns vão apenas mais um passo em frente no seu ateísmo. (Richard Dawkins, zoólogo, biólogo e escritor britânico de divulgação científica, defensor do ateísmo, 1941-.)

20 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

O Papa também é guiado pelo Espírito Santo

Ex-mordomo do Papa afirma ter sido “guiado pelo Espírito Santo” para vazar documentos do Vaticano.

«Os documentos vazados apontavam caos de corrupção em negócios do Vaticano com empresas italianas, incluindo serviços superfaturados, e detalhavam rivalidades entre cardeais e conflitos a respeito da administração do banco do Vaticano.

De acordo com a denúncia judicial, o mordomo do papa afirma que sua motivação para o desvio desses documentos seria fazer uma “limpeza” na Igreja Católica, por ter visto “o mal e a corrupção em todo lugar da Igreja”. Ele disse ainda que quis, com a divulgação das informações, cortar o mal pela raiz, “porque o papa não estava suficientemente informado”».

Diário de uns Ateus – O mordomo usou como defesa a proposta defendida aqui. Infelizmente para ele o Vaticano não acredita no Espírito Santo e acusou-o de insanidade mental.

19 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

E se a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) convidasse os católicos para pensarem na fábula de Cristo e nas mentiras fundamentais da ICAR?

A Igreja Católica convida ateus e membros de outras religiões para uma missa de ação de graças pelos Jogos reservados a pessoas com deficiência, que se realizam em Londres de 29 de agosto a 9 de setembro.

“Esperamos que os atletas paraolímpicos do passado e do presente, católicos, cristãos, de outras religiões ou também ateus, estejam presentes na missa” marcada para 8 de setembro, afirmou James Parker, delegado da Conferência Episcopal de Inglaterra e Gales para a coordenação das Olimpíadas de 2012.

19 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

A Igreja da Minha Aldeia (Crónica pia)

A igreja era a única construção sólida da aldeia. Os meus pais viriam a erguer uma casa de raiz para poupar os filhos ao frio que entrava pelas frinchas das paredes e aos pedaços de telha-vã que acontecia soltarem-se em noites de vendaval na casa que conseguiram. Eram poucas as janelas e os vidros que se partiam eram supridos por tábuas ou cartolina até chegar um novo, com tamanho aproximado, que acertasse no caixilho.

A escola viria a cair um dia, durante a noite, por milagre do Senhor, que soía colher os louros das desgraças que podiam ser piores. Se o milagre ocorresse durante as aulas era tragédia e caber-me-ia a perda precoce da mãe e do irmão mais novo, acompanhados de meia centena de crianças que ocupavam o espaço para onde desabaram três paredes e o telhado.

A Junta de Freguesia reduzia-se a um carimbo e um livro onde a professora escrevia e assinava a rogo de quem o devia fazer e não sabia. Pode dizer-se que a autarquia funcionou nas escadas das casas do Sr. António Bernardo e do Sr. José Simão, quando necessário; nos intervalos jazia em alguma gaveta, misturada com garfos e colheres de ferro ou de alumínio – já que o talher, com inclusão da faca para cada comensal, era desconhecido e supérfluo nesses anos e nesses sítios –, ou sobre a mesa por entre malgas e outra louça de barro. Julgava eu, então, que a Junta de Freguesia era o sítio onde se guardavam os boletins de voto dos vivos e mortos que no dia das eleições eram metidos na urna pelos eleitores que apareciam ou pelo Sr. António Bernardo quando faltavam, sobretudo os mortos, cujo exercício da vontade cabia ao presidente da mesa, sem pasmo nem reclamações.

A pobreza da aldeia só é imaginável, hoje, percorrendo países do terceiro mundo. Os ventres dilatados de várias crianças eram fruto de carências proteicas; e os olhos, que ameaçavam saltar das órbitas quando viam comida, denunciavam a fome que as consumia. Valeu a Cáritas, em meados do século XX, ter começado a distribuir leite em pó, farinha, queijo e marmelada. Só voltei a ver uma fome assim, então sem apoio de qualquer organização humanitária ou instituição governamental, em finais dos anos sessenta do século passado, em Moçambique.

Mas era da igreja que ia falar, da sua torre de dois sinos que tangiam desde a manhãzinha até às trindades, sempre aptos a anunciar as cerimónias litúrgicas e as orações que faziam correr aflitos os paroquianos, não fosse o atraso fazer perigar o destino da alma ou atrair a recriminação do padre, ou mesmo do sacristão e de algum zelador mais beato, por se julgarem investidos do prolongamento da autoridade eclesiástica e se anteciparem na admoestação.

A igreja era assaz grande para nela caber a população da paróquia e sobrar espaço. Podia proceder-se ao recenseamento durante a missa se lhe acrescentassem o meu pai e o Sr. Morgado, cujas ausências me intrigavam e algumas vezes me afligiram quando o Sr. padre, na homilia, verberava ateus, mações, comunistas e judeus e os condenava às perpétuas penas do Inferno, onde só havia choro, ranger de dentes e azeite fervente onde as almas frigiam eternamente.

Durante a catequese, que era ministrada à noite, aprendia-se a doutrina da única religião verdadeira, a que conduzia à salvação da alma, e decoravam-se as orações ensinadas num autêntico curso de terrorismo religioso que induzia terrores noturnos e intensa xenofobia nas pobres crianças. É difícil perceber como duas catequistas tão doces e analfabetas tinham uma imaginação tão fértil e perversa.

A Igreja era varrida uma vez por semana e lavada de longe em longe por mulheres que mudavam as toalhas do altar e a farpela aos santos, esfregavam as pedras onde os devotos se ajoelhavam e limpavam as paredes com um pano húmido na ponta de um enorme varapau. A pia de água benta era lavada com a vulgar água da fonte de mergulho e sabão, depois de acesas discussões teológicas para tentar concluir se a água benta que nela restava podia deitar-se fora sem cometimento de pecado ou se o uso do sabão não seria sacrilégio perante a bênção dessa água, que até a alma lavava. Valia a decisão da senhora Deolinda, que, sem conversas, alheia a preocupações metafísicas, encharcava um pano seco e o torcia na rua a escorrer água negra do lodo depositado e que a bendição não lograra tornar alvo, até enxugar a pia e proceder, depois, à lavagem com água e sabão azul.

As festas canónicas eram no Verão. Talvez o frio não desse saúde aos santos que saíam em passeio a ver a aldeia e a arejar ao som de cânticos, sem música, que a banda ia de graça mas era preciso alimentar os músicos e matar-lhes a sede. Vinha um pregador de fora, pago a peso de ouro, para exaltar a santidade do bem-aventurado que servia de pretexto à festa e, só isso, era um sério encargo para os paroquianos e preocupação para os mordomos.

Assisti a sermões empulgantes. Não, não eram empolgantes, como o leitor já pensará, imaginando-me um prevaricador ortográfico que deixou escorrer a nódoa para o pano da crónica. Os sermões, a missa, o terço e as novenas eram deveras empulgantes por causa do calor e dos animais com que as pessoas conviviam – fora da igreja, claro.
A fé e as orações eram retribuídas com pulgas cujas picadas espalhavam o prurido, alheias ao ar empolgado dos devotos perante as palavras rebarbativas do pregador, possuídos do mesmo êxtase místico com que ouviam o latim da missa, que sempre os maravilhava.

Talvez, quem sabe, esse deslumbramento tenha guiado Bento XVI no regresso ao latim.

 

 

19 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Jesus da vida airada

Por

Kavkaz

Todos se lembram da história infantil da formiga e da cigarra. Enquanto a formiga trabalhava e reunia comida para o inverno, a cigarra cantava e passeava pelo bosque todo o verão. Para a cigarra o que importava era aproveitar a vida, e aproveitar o hoje, sem pensar no amanhã. Para quê construir um abrigo? Para quê armazenar alimentos?

Depois chegou o inverno e o frio. A cigarra sem abrigo e não tendo comida guardada foi, desesperada, bater à porta da casa da formiga que lhe deu uma sopa quente e a agasalhou…

O que será que esta história infantil pode ter a ver com Jesus Cristo? Tem a ver com as formas de pensar que as pessoas adoptam. Uns comportamentos são mais parecidos com os da formiga, outros pensam viver mais ao modo da cigarra.

Como pensava Jesus viver a sua vida? Ele pensava vivê-la como a cigarra. Ele juntava os amigos, os apóstolos, as mulheres, pessoas e andava caminhando e falando do que entendia. A Bíblia não relata que Jesus tivesse qualquer profissão ou emprego.

Os grupos de pessoas que acompanhavam Jesus manifestavam inquietação por aquele modo de viver. Não lhes augurava um bom futuro viverem daquela maneira. E Jesus afirmava um discurso parecido com o da cigarra:

«E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam.» Mt: 6, 28.

«Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?» Mt: 6, 31.

«Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.» Mt: 6, 34.

De Jesus relata-nos a Bíblia: «Aí está um glutão e bebedor, amigo de publicanos e pecadores!» Mt: 11,19.

Jesus da vida airada, aos trinta e três anos, ainda queria a ajuda do paizinho!

17 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

O 10 de junho, o ridículo e a Senhora de Fátima

Não vou falar da Senhora de Fátima, a única personagem que tem mais heterónimos do que Fernando Pessoa. Vou referir-me aos exóticos edis da Câmara de Ourém, aos seus anseios autárquicos e à frivolidade das reuniões camarárias.

Segundo o jornal «O Mirante», a edilidade de Ourém, “quer comemorações do Dia de Portugal em Fátima”. O delírio místico, próprio da região, partiu de um edil do PSD que pretende as referidas comemorações, em 2013, na Cova da Iria, um terreno de pastorícia que as cambalhotas do Sol e as visões da Irmã Lúcia transformaram num lucrativo local do setor terciário, quer no sentido da ciência económica quer na prática litúrgica, graças à promoção do terço.

A justificação baseou-se na importância «que o santuário de Fátima tem para Portugal e para o mundo», justificação que colheu a unanimidade do executivo municipal (PS/PSD/CDS) e levou à decisão de manifestar tão pia vontade ao Presidente da República.

Com tal argumento certamente se justificariam muitos outros eventos, nomeadamente de natureza desportiva, dadas as dimensões do santuário e as infraestruturas hoteleiras.

 

O 10 de junho, há muito que perdeu o sentido republicano, com que o feriado foi criado, para se converter na lúgubre evocação da cerimónia com que o salazarismo glorificava a guerra colonial. O atual PR acedeu a ser presidente da comissão de honra da canonização de Nun’Álvares depois daquele milagre que o guerreiro medieval obrou no olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, curando-a da queimadura provocada pelos salpicos do óleo fervente de fritar peixe, mas a República, apesar da ofensa da canonização ao herói de Aljubarrota e das genuflexões do PR, continua laica.

Será que os trogloditas que formam o executivo camarário de Ourém, habituados a andar de joelhos e a rastejar, sabem o que significa a laicidade do Estado?

Hoje pede-se que as comemorações do Estado se realizem num santuário mariano, quiçá à luz das velas, com o PR a ser recebido pelo batalhão de servitas de Fátima e com uma charanga de cónegos a tocar o Avé. No futuro assistiremos à procissão do «Adeus» a sair da Assembleia da República.

16 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

O ‘acordo de Hamburgo’…

Por

E – Pá

O Land (Cidade-Estado) de Hamburgo concluiu, na passada 3ª. feira, um acordo com os representantes muçulmanos residentes visando a sua integração social, cultural e religiosa na comunidade hamburguesa. …”. link.
Uma interessante notícia vinda da Alemanha dirigida pela Srª. Merkel que, recentemente (em Outubro 2010), anunciou o fim (ou o falhanço) do multiculturalismo… link.


O tempo dirá da importância deste acordo.

16 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

O MEU ATEÍSMO

Por

ONOFRE VARELA

Já confessei aqui que não sou (ou não era) um atento leitor, nem frequente visitador, deste site sobre Ateísmo. Isso acontece porque os computadores não me atraem e sou informaticamente analfabeto por vontade e conta própria. E embora faça parte dos órgãos sociais de quatro associações (duas de arte, uma de jornalismo, e mais a
Associação Ateísta Portuguesa, cujo movimento para a sua formação iniciei no Porto em 1997), também confesso que as actividades associativas, bem como as empresariais ou políticas, ao nível directivo, não me cativam. Não tenho jeito para líder, nem para balir como cordeiro em redil.

Prezo muito a minha liberdade de acção, de pensamento e de expressão, e talvez este modo de estar na vida seja a consequência de sempre me dedicar às artes (sou pintor, ilustrador, caricaturista e cartunista, para além de escrever em jornais [escrevi e desenhei em todos os jornais do Porto desde 1969 até 2000] e já ter publicado meia dúzia de livros) cuja “praxis” é individual e solitária.

Mas, há dias, dei uma volta pelo arquivo deste portal e li o texto “Porque Sou Ateu?”, de Jaime Gralheiro, publicado em 16 de Julho último. Deste autor já li excepcionais textos, noutras fontes, e recomendo a releitura atenta das suas razões a quem, de religiosidade, de ateísmo e de Humanidades, tiver uma visão séria, e não se fique pelas picardias — que também li nos recados de rodapé do excelente texto que refiro — que denotam um total desrespeito boçal e ignorante, pelo homem de cultura que é Jaime Gralheiro.

Do seu sincero e humilde texto ressalta esta verdade incontornável:
O ateu faz-se, não só porque pensa (os religiosos também pensam, por suposto…), mas principalmente pela especial excelência do seu pensamento.

(O ateu que se faz por si próprio, é de melhor qualidade do que o ateu induzido. Este, será igual [em sentido inverso] ao religioso que sai do aviário da catequese). O acto de pensar, para além de ser subversivo, pode ser comparado com o gosto pela música: há quem se fique pela adoração do Marco Paulo e da Ágata, e há quem prefira Zé Mário Branco e Manuel Freire!
Quer dizer: há o pensamento “pimba”, e o outro!…

Num plano mais elevado de pensamento, subimos degraus até Bach, Haydn, Chostakovich, Richard Wagner, Boccherini… e passamos pelos mestres da casa, Emmanuel Nunes, Victorino de Almeida, Fernando Lopes Graça, Carlos Paredes…

No mundo da Religião temos aqueles que pensam ao nível de Bach, mas a esmagadora maioria dos peões-militantes-de-base, que são os alimentadores da mesa farta dos melómanos Bachianos, não passam do nível… Quim Barreiros!

Alguns dos meus amigos ateus começaram por ser religiosos, tal como Jaime Gralheiro confessa, embora outros nunca tenham entrado numa igreja com espírito de crente por não terem sido contaminados em meninos.
E é nessa contaminação que reside o problema, e a diferença!…

A minha história de ateu começa pelo importante facto de os meus pais nunca me educarem na filosofia religiosa, mas no comportamento ético do respeito pelos outros e pela Natureza, impedindo a Igreja de me agrilhoar a mente, como faz aos cérebros tenrinhos. Estou eternamente grato aos meus pais, também, por isso.

Devo dizer que não fiz a comunhão, por um triz e por acaso! O meu pai, que nasceu em 1912, foi influenciado pelo anti-clericalismo da primeira República, mas não era fundamentalista e deixou à minha vontade fazer, ou não, a aprendizagem do Catecismo Católico, quando eu teria doze ou treze anos. Essa história conto-a no livro “O Peter Pan
Não Existe”, (Caminho, 2007) pág. 178 e seguintes.

Na adolescência não alinhava em missas, nem me considerava ateu ou agnóstico. O fenómeno religioso era-me indiferente. Passava-me ao lado vertiginosamente. Já estava incorporado no Exército quando comecei a pensar com mais qualidade na história de Deus e no hábito religioso dos meus camaradas, e tudo isso foi motivado pelo discurso de um padre militar, alferes-capelão.

Ser militar não era coisa que estivesse nos meus intentos, mas foi uma inevitabilidade a que não soube fugir. Naquele tempo a juventude tinha a vida parada, no mínimo, por três anos (no máximo, ficava estropiado ou morria) por causa do conflito armado com as Colónias, e muitos recusaram servir o Exército de Salazar e, clandestinamente, partiram para França e por lá ficaram, evitando, desse modo, participar na Guerra Colonial com a qual não concordavam.

A minha passividade reteve-me por cá, obrigando-me ao cumprimento do serviço militar obrigatório. Não declarei as habilitações académicas (3º ano de pintura) por recusa de dar o melhor de mim à ditadura de Salazar, e fui soldado raso, condutor. (De nada valeu esta minha repulsa pelo Exército, porque quem é portador de algo para dar, dá-o mesmo sem querer. No meu primeiro embate com a disciplina militar, fui condenado a quatro dias de prisão, que cumpri. E de África acabei por trazer três louvores!… Mas isso são contas de outro rosário).

Um dia, no quartel CICA 1, Porto, recebemos a visita do alferes-capelão e ouvimos o seu discurso. Estava ali para nos dar bons conselhos, disse ele. Já não recordo o teor da sua palestra, mas suponho ter sido semeada pela religiosidade alimentadora do espírito
de qualquer sacerdote, católico ou não, com a habitual e inabalável atitude de fé num deus supremo. Mas recordo o modo como ele rematou aquela sua apresentação, porque o registei numa espécie de diário que então fazia.

Disse-nos que devíamos seguir “um caminho certo” e “praticar o bem”, completando os seus anunciados conselhos com esta enigmática frase:
“Façam sempre o que a vossa consciência manda”.

Para mim era impossível ouvir aquilo e não reflectir… e ali andava surrealidade!
Imediatamente antes de aqueles recrutas entrarem naquela sala, tinham acabado de receber instrução de armamento, e uma arma é um objecto fabricado com o propósito de matar. O discurso do sacerdote teve como ilustração de fundo o som dos disparos que nos chegavam da carreira de tiro, os quais tinham o objectivo de apurar a pontaria para, na guerra, não se desperdiçar munições e ser-se certeiro na liquidação do inimigo. Cada tiro deveria corresponder a um cadáver.

Para além disso, não pertencíamos ao Exército de um governo democrático que, em princípio, usaria as armas na defesa de causas nobres. Não! Nós prestávamos serviço num quartel das Forças Armadas de um país que tinha um governo ditatorial, anti-democrático, e que alimentava uma guerra colonialista em África, contra os povos que
reivindicavam independência.

Era esta a surrealidade que emoldurava a presença daquele padre com discurso moralista no quartel (!?), como se houvesse moral que se aproveitasse, na acção bélica daquele exército!… Em tal contexto, o que é que se devia entender por “caminho certo?” E “praticar o bem”?! Será certo, e bem, pertencer ao exército de um ditador?
Será certo, e bem, partir para uma guerra colonial, lutando contra os povos que pedem a independência? Como pode um soldado fazer sempre o que “a sua consciência manda?”

Os exércitos obrigam a uma “consciência colectiva”, onde o indivíduo não é respeitado como tal, e recrutam jovens imaturos destituídos de consciência crítica. Aquele padre estaria a tentar dizer-nos que quem não concordasse com a política do governo colonialista não deveria, em consciência, estar ali? Estaria a incentivar a deserção e a rebelia?! E ele? Porque estava ali? Porque não desertava?!

A sua consciência estava tranquila e harmonizada com a situação política do país, que as Forças Armadas defendiam e ajudavam a manter? Na sua consciência não lhe pesava o facto, nem o fardo, de servir nas fileiras do exército de um ditador? Ou navegava contra-a-corrente e tentava, camufladamente, alertar-nos para a política de que estávamos distanciados?!…

O seu discurso não passaria de um conjunto de palavras de circunstância, no fingimento de, ao serem ditas por um sacerdote católico, serem exemplo de uma autoridade moral? Será que eu entendi mal o seu recado, transformando-o na lógica do meu pensamento cívico e arreligioso?…

Numa palestra posterior o padre acabou por destruir a boa imagem que eu estava a construir de si imaginando as suas intenções subversivas secretas a partir do seu discurso que, de algum modo, me parecia revolucionário. Dessa vez disse-nos:

— Deus vê-nos e escuta os nossos mais secretos pensamentos, portanto devemos pensar e executar só o bem… e, até, devemos dar a última gota de sangue, dar a nossa vida, pela Pátria… (!?)

Desilusão!… Senti-me traído por aquele sacerdote, e deixei de prestar atenção ao seu discurso que se revelou tão infantil… tão ao estilo de história da carochinha e do Pai Natal, em contraste com o outro que me pareceu ter “miolo”! Lembrei-me imediatamente daquela anedota do Zéquinha, a quem o padre disse que devia portar-se bem porque Deus estava sempre ao seu lado testemunhando as suas acções. Intrigado, o Zéquinha perguntou:

— Deus também está ao meu lado quando brinco no quintal da minha avó?
— Claro que sim, meu filho…
— Ora, vá-se lixar… a minha avó não tem quintal!…

Esta infantilidade anedótica do alferes-capelão, passei a detectar em todos os discursos de padres, a partir daquele dia! Nas igrejas onde assisto a casamentos, a baptizados e a funerais, mas também nas palavras de bispos e de papas, difundidas pela imprensa, pela rádio e pela televisão, e ainda nas palestras ridículas e vigaristas das seitas ditas cristãs (tão ridículas e vigaristas como as católicas, mas com nuances), em espaços televisivos e radiofónicos. (Se Jesus Cristo tivesse sabido do lindo serviço que fazia, tinha ficado quieto e caladinho e não havia milagres para ninguém!… Isto, se acaso a figura histórica JC existiu realmente, para além do mito sobre o qual foi, estrategicamente, construído o Cristianismo!… O que não é totalmente claro).

Parece-me que todos os padres falam para uma assistência de criancinhas de infantário, ou para adultos com um considerável atraso mental, colocando-os ao nível dos putos de cueiros! Se eu ouvisse esses recados religiosos desde o berço, o meu cérebro tinha sulcos, abertos como caminhos, por onde escorriam os recados religiosos transformados em “inegáveis verdades”. Mas quando se ouve desses recados, já com cérebro adulto, o crivo do sentido crítico funciona e não deixa abrir caminho por aí, porque já se percebe que esse não é o caminho.

Por essa razão é que a ICAR e o Islão teimam em “educar” as criancinhas na sua estética religiosa, sulcando os seus cérebros com um arado diabólico, semeando-o de mitológicos santos e demónios, impedindo que os seus intelectos amadureçam com qualidade. É assim que se fabricam soldados para alimentar o exército de religiosos, e assim queria fazer o actor Tom Cruise, recentemente, ao cérebro da sua filha, na seita Cientologia, mas a mãe da criança teve a sensatez de o impedir (mais uma vez agradeço aos meus pais o terem-me poupado a essa maldade).

O deus que espia no quintal de quem não tem quintal… e que condena à morte o seu amado filho-proveta… para nos salvar (!!??…), não pode ser coisa séria, nem convencer ninguém que pense e que não ouça Quim Barreiros!…

A experiência militar que me esperava nas matas dos Dembos, no norte de Angola (Dez. 1965 – Fev. 1968), foi trágica e mostrou-me a presença constante da morte. O medo pavoroso que sentimos pela irremediável morte, é o grande responsável pela sedimentação das crenças religiosas. Todas elas pretendem fintar a morte, propagandeando uma outra vida para além dela. É este o segredo do marketing religioso: aceitar a morte como passagem para o “reino de Deus” onde se desfrutará de felicidade inaudita! E a alma, que é etérea — logo, destituída de sistema nervoso — quando é enviada para o inferno, sofre abundantemente!… Mitologia pura, deglutida até à última garfada pelos religiosos seguidistas, incapazes de criticarem a ementa que lhes é servida em chip cerebral.

Nas matas dos Dembos vi de perto camaradas caídos em combate, e ajudei o médico numa autópsia. A morte rondava a cada hora de cada dia, e passei noites debaixo de fogo. Perante aquela situação de desespero prolongado, percebi a necessidade que os meus camaradas tinham de consumir o produto-droga-Deus, na procura de um conforto para as suas angústias. Assistiam fervorosamente às missas campais, movidos pela tal promessa de vida eterna, e na presunção de que se adorassem Deus e lhe rezassem com frequência desmedida, estariam protegidos em combate!

Conversei com camaradas protestantes que me diziam assistirem às missas católicas por ser “o sítio do encontro com Deus”. Compreendi todas as suas motivações, mas nunca senti necessidade delas. O que senti, isso sim, foi desconforto por ser o único, de entre os jovens militares que ali esperávamos o correr do tempo para regressarmos às nossas famílias a salvo, que não alinhava em conceitos religiosos. Não tinha ninguém com quem pudesse conferir os meus pontos de vista contra-a-corrente !…

A constante presença da morte não era agradável, mas era uma condição natural da vida, embora ali o drama do fim prematuro fosse ampliado pela situação de guerra, o que, certamente, valorizava o sentido religioso dos meus camaradas de infortúnio. O conceito de Deus estava nas suas cabeças, mas não na minha. Não havia deus algum que desviasse uma bala que viesse na minha direcção, e essa era a realidade científica que a fantasia de Deus não alterava. A diferença estava na qualidade do meu pensamento, e na qualidade do pensamento de todos os meus camaradas.

Era a tal questão da música !… Chostakovich ou Quim Barreiros ?… (Na altura, era mais Ray Charles ou Roberto Carlos ?). Percebi a infantilidade das suas crenças, e passei a interrogá-los sobre a sua fé, começando aí a fazer a minha colecção de conceitos
religiosos, com espírito de aprendiz de Antropologia. Não negava as suas convicções, nem os incentivava a prossegui-las ou a deixá-las. Só queria saber como era. Motivava a conversa como ignorante que era nas coisas que à “razão” da fé pertenciam, ouvia, aprendia e armazenava.

Assim fiz quando, em 1968, regressei à vida civil. Movido pela curiosidade religiosa que a experiência militar me proporcionou, obriguei-me a ler a Bíblia, a Tora, o Corão e textos budistas (Udãna, la Palabra de Buda. Barral Editores, 1972). Passei a frequentar missas católicas, com atenção e intenção crítica, conversei com padres e percebi o funcionamento do culto. Li filósofos e ensaístas. Os clássicos Feuerbach, Shopenhauer, Hobbes, Kant, Espinosa, Nietzsche… mas também o Catecismo Católico, Santo
Agostinho, David Hume, Pascal, Pierre Teilhard de Chardin… e mais Sartre, Roland Barthes, Bertrand Russel…

Tudo isto fiz durante um período de cerca de 25 anos, com sentido antropológico, numa atitude de aprender o comportamento humano perante o fenómeno religioso, e não animado de espírito guerreiro ao serviço do “anti-Cristo”, nem, tão pouco, na “procura de Deus”, do que não necessito absolutamente e em definitivo. Nem, ainda — como se vê pelo tempo dilatado —, com interesse de tirar um curso apressado de Religião, ao estilo dos cursos de Miguel Relvas!…

O fenómeno religioso, embora me interesse culturalmente, nunca constituiu matéria de extrema importância para a minha vida. Não é daí que eu tiro o meu sustento, apesar de me sentir bem lendo, pensando e escrevendo sobre o tema, e sempre fui muito passivo perante as religiões e as opiniões dos religiosos. Só me afirmei ateu, convicta e conscientemente, quanto já contava mais de 40 anos de idade. Mantenho-me tolerante, mas, às vezes (muito raramente), “salta-me a tampa” e assumo um discurso não habitual em mim, que não é antropológico do ponto de vista científico, mas que descamba mais para o estilo Gil Vicentino! Não sou santo e já não tenho idade nem paciência para aturar insolentes.

Hoje, perante o facto de um licenciado (médico, por exemplo) encarar o conceito de Deus com a mesma religiosidade demonstrada por um servente de pedreiro analfabeto, continuo a interrogar-me: Será que o licenciado não aprendeu nada, ou o analfabeto sabe muito?!…

Na verdade, crença e conhecimento (crer e saber) são matérias que não cabem no mesmo saco. São como água e azeite. Não se misturam nem têm índole semelhante. São, até, antagónicas, como o são os polos magnéticos. Repelem-se. Mas a primeira pode encontrar-se em cabeças recheadas com a segunda… quando se bebe da taça religiosa até ao fim, em catequeses e missas, na meninice!

Espanto-me com a recusa, ou incapacidade, que esse indivíduo intelectualmente superior tem, de apartar o mito do real! Acaba por fazer uma salada com ingredientes que não ligam! O resultado dessa experiência culinária, só pode ser… uma estupidificante diarreia mental !…

De facto o cérebro do Homem é complexo… e a música também. E a culinária… já agora !…

A religiosidade também pode ser manifestada em idade adulta, por quem não teve iniciação em criança, o que é mais raro mas acontece, e eu conheço um caso. Cada indivíduo, quando é dono da sua consciência, trilha caminhos próprios, motivados no seu querer e pelo seu crer. São interesses sempre iniciados por algo que vai funcionar como espoleta.

Na política aconteceu o mesmo depois do “Verão quente” de 1975. Filhos de comunistas, em regiões marcadamente de esquerda, filiaram-se no CDS. E alguns pais da ala mais direitista do espectro político da jovem democracia portuguesa, viram os seus filhos a militarem no PCP! A rebeldia contra o poder e a autoridade dos pais, pode criar destes fenómenos sociais, na política e na religião.

Obviamente (porque, realmente, não sou antropólogo, e não obstante a minha tolerância) não me coíbo de criticar costumes da Igreja, e de seitas religiosas que nascem como cogumelos em estrumeira para explorarem o sentido religioso dos mais despossuídos de tudo: de dinheiro, de sentido crítico, de qualidade de pensamento e de vida… e do resto.

Exploração que confirma o facto de Deus ser a pior invenção do Homem, porque tem, na subtil clonação das mentes, um dos aproveitamentos mais maldosos das religiões, criando “batalhões” que se servem de Deus para explorarem, chularem, sugarem e vigarizarem os crentes, que são, sempre, as vítimas culturalmente mais indefesas…

E isso devia constituir crime.

Onofre Varela