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Carlos Esperança

16 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

Presa por atentado ao pudor

Annette Kellerman promove o Direito das mulheres ao usar um maiô em 1907.

Ela foi presa por atentado ao pudor.


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16 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

As crenças, os crentes e a convivência pacífica

Há uns tempos fui convidado para um colóquio realizado sob os auspícios do «diálogo inter-religioso», circunstância que me fez refletir sobre a oportunidade da presença ateia num simpósio onde as conferências seriam proferidas por um budista, um judeu, um católico (padre), um protestante evangélico e um ateu.

Refletindo sobre o amável convite e, depois de ter pensado se a conferência de um ateu faria sentido, no âmbito de um diálogo inter-religioso, cheguei à conclusão de que, se alguém estaria a mais, seriam os crentes.

Lembrei-me do automobilista que ia em contramão na autoestrada e que, ao ouvir pela rádio que um condutor circulava do lado errado, pensou que eram todos. Acontece que no pensamento, tal como na condução, a verdade não se determina pelas maiorias. Não era por todos pensarem que o Sol girava à volta da Terra que Galileu estava errado ou a Terra interrompia o movimento de rotação.

Seja quem for que detém a verdade, aspeto que agora enjeito, pensei, e penso, que é mais fácil o diálogo entre quem não tem qualquer crença e mudará de opinião, se os factos ou a ciência o justificarem, do que entre os crentes, com verdades absolutas, irrevogáveis e eternas.

Os crentes estão cheios de certezas e os ateus crivados de dúvidas. Como método, parto do princípio de que todos podem ter razão ou de que esta não asiste a ninguém. Por isso entendo que a verdade não é passível de escrutínio. Esta postura serve-me no ateísmo e na política. A liberdade foi excomungada por Pio IX, o Islão julga-a obra de Satanás e os totalitarismos um furúnculo que corrói o poder absoluto.

Sem prejuízo das convicções profundas que me animam não abdico do contraditório. A intolerância nasce das verdades absolutas e da certezas eternas.

No fim desse colóquio, enquanto um dos crentes se furtou ao almoço, levando consigo o ódio, e outros crentes me olhavam com azedume, eu olhei-os com bonomia porque não combato os crentes, batalho contra as crenças.

15 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

DIÁRIO DE UNS ATEUS – 10.º aniversário

No último dia de novembro do ano de 2003 o Diário de uns Ateus chegou à blogosfera. Foi com este nome que nasceu e, depois de várias vicissitudes, da mudança de nome para Diário Ateísta, e, de novo, para Diário de uns Ateus, aqui continua sem o esplendor de outros tempos mas numa recuperação honrosa que resistiu às contingências do acaso e aos ataques informáticos de que foi alvo.

Passou esquecido o 10.º aniversário, com  2 milhões e 90 mil visitas e com cerca de 400 visitas diárias. Vimos recordá-lo com quinze dias de atraso. É uma data relevante.

Estatisticamente podemos dizer que 1 em cada 5 portugueses já passou por este espaço onde os ateus se encontram, os crentes de rosto humano vêm procurar o contraditório e os fanáticos cuspir insultos e exibir raiva. De facto, tem sido o espaço de convívio entre portugueses e brasileiros, para afirmar o ateísmo ou para insultar os que aqui escrevem.

Contrariamente aos blogues religiosos, aqui não há censura nem monolitismo político, embora procuremos evitar referências partidárias, exceto quando a laicidade é posta em causa ou algum partido ou o Governo se põem de cócoras sob as sotainas.

Porque não há religiões boas, somos plurais no ataque às diversas crenças, no combate a todas as superstições, na denúncia da maldade de qualquer Igreja. Repudiamos o ódio sectário das religiões como o fazemos a qualquer totalitarismo político que, no fundo, é a política tornada religião e convertida em verdade única.

Como cada religião considera falsas todas as outras e falso o deus de cada uma delas, no que certamente todas têm razão, todos nos podemos considerar ateus. Nós, os legítimos, só consideramos falsa mais uma religião e um deus mais. No fundo todos somos ateus.

Dois milhões e noventa mil visitas depois, o Diário de uns Ateus, aqui continua firme na defesa da laicidade e na luta pelo direito de todos, e de cada um, à crença, à descrença e à anti crença, em igualdade de direitos, recusando o ódio sectário que as religiões mútua e reciprocamente destilam.

Aos livros sagrados, carregados de ódio e de mitos, sobrepomos a Declaração Universal dos Direitos Humanos, certos de que à maldade de Deus se deve sobrepor a liberdade e a igualdade dos homens que beberam no Iluminismo os princípios da solidariedade.

A luta contra as religiões e a discriminação de género, que preconizam, encontram neste Diário o combate que a misoginia, a crueldade, a homofobia e o tribalismo merecem.

 

15 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

Vermiosa – Paróquia Excomungada (Crónica)

Vermiosa é uma povoação na periferia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, freguesia a que se segue a de Malpartida, já no município de Almeida.

As pessoas sempre aí trataram a fé e a terra com esmero, afeitas a cuidar da alma e do corpo, da devoção cristã e do amanho da terra, encontrando no vinho o mais rentável dos produtos com que o húmus generoso fez a aldeia farta antes da crise que arruinou a lavoura, fez abalar os jovens e transformou a povoação em reserva da terceira idade.

Durante anos o padre José Joaquim Coelho, que paroquiava a aldeia, ganhou a simpatia local e a das paróquias de Mata de Lobos, Almofala e Escarigo, onde também exercia o múnus, porque a escassez de vocações adicionou freguesias ao cuidado de um só pastor.

Uma súbita decisão do bispo da Guarda afastou o padre das paróquias onde era querido e despachou-o para Penamacor, sentença sem apelo a que os sacerdotes se submetem na ordenação. O serviço de Deus promove a sujeição ao arbítrio do bispo, mas o povo tem da vontade divina conceções próprias e da inviolabilidade episcopal uma leve ideia.

Os paroquianos elegeram a comissão que pediu audiência ao bispo e obteve uma recusa, primeiro, e uma receção descortês, depois, onde o prelado lhe fez saber que não devia explicações. As pessoas desoladas com a saída do padre, que ia à caça e à pesca com os fregueses, gestos que os simples preferem às homilias, afetos que tocam mais fundo do que o martírio de Deus, sentiram revolta e raiva pela ofensa. Sofriam o exílio do padre José Joaquim e o bispo Manuel Felício feriu sentimentos, achando que a mitra, o báculo e o anelão o exoneravam de explicações.

No dia 18 de Setembro do ano da graça de 2005, para aquietar os ânimos, o bispo foi dizer missa a Almofala e à Vermiosa, acolitado pelo arcipreste de Figueira de Castelo Rodrigo, António Espinha Monteiro, nado na Vermiosa, e pelo padre Vítor, acólito do arcipreste.

Começou em Almofala onde o povo o recebeu em silêncio, como combinado nas quatro paróquias pelos órfãos do padre José Joaquim, uma manifestação de mágoa pela saída do sacerdote e pela descortesia com que recebeu a delegação das paróquias.

Os clérigos que escoltavam o bispo quiseram evitar outra receção igual e, para lhe fazerem a festa, recrutaram beatos em Figueira a troco de indulgências ou de facilidades no Paraíso para os acompanharem à Vermiosa e contagiarem a paróquia. A esperteza pia acirrou os paroquianos da maior e mais inconformada das aldeias. Em vez do silêncio combinado, o prelado entrou na igreja matriz seguido de impropérios, insultos e vaias, com linguagem que o cronista, por pudor, se abstém de reproduzir.

Na igreja matriz começou a missa com os fiéis que entraram e, no adro, agitavam-se outros com os que vieram de Almofala, sendo precisa a GNR para os acalmar enquanto desapareciam os apoiantes vindos de Figueira de Castelo Rodrigo. Na igreja, o bispo era impedido de dizer a missa e, em vez dos canónicos améns, os paroquianos reincidiram nos insultos e vaias que o faziam elevar os olhos para o céu e implorar amiudadas vezes «pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem», antes de desistir e de se refugiar no carro que o pôs a salvo, após deixar o solidéu nas mãos de quem gostaria de o escalpar e levando consigo o sacrário da igreja matriz e os clérigos que o acolitaram.

Do carro, já em grande velocidade, o padre Vítor, sentindo-se a salvo, fez para o povo que insultava o bispo as armas de S. Francisco, expressão que por essas bandas designa o gesto com que Rafael Bordalo Pinheiro imortalizou o Zé Povinho. A senhora que zelava o altar entrou em aflição e foi parar ao hospital da Guarda. O arcipreste viria a escrever um artigo em que censurava os conterrâneos e exaltava o bispo. Este, porque o “pai” não tivesse perdoado a injúria de que ele, bispo, foi vítima ou porque admitiu que o povo soube o que fez, excomungou a paróquia da Vermiosa, privando-a de ministro do culto, sacramentos e qualquer ato religioso.

A gente da Vermiosa tem traquejo em deceções pias. Há muitos anos uma paroquiana a quem o Dr. Montezuma de Carvalho, de Coimbra, tinha restituído a saúde com a ajuda de orações a Santa Filomena, ofertou a tempo, antes de se finar, sã, a imagem da santa com quem repartia a fé no Dr. Montezuma. Foi colocada na capela do Divino Senhor Santo Cristo a ladear o Cristo crucificado do lado oposto ao de Nossa Senhora da Silva mas quando esta e o seu divino filho vão em procissão, todos os anos, Santa Filomena, após a humilhação da despromoção papal, permanece só. Não mais teve direito a andor, preces, esmolas ou outras manifestações piedosas.

Mas uma coisa é perder uma santa, embora com prestígio no ramo dos milagres, e outra é a ausência da assistência espiritual, a falha da água benta na cova que recebe o féretro, a privação da eucaristia aos devotos e a falta dos santos óleos a um moribundo ávido da extrema-unção.

Com o andar do tempo foram-se atenuando as razões da excomunhão e a raiva do bispo. Este esqueceu os insultos e as palavras que os castos ouvidos não terão entendido bem, solidéus há muitos, e, na Páscoa de 2006, D. Manuel Felício deu por finda a expiação. Foi duro o tempo em que o diácono que supriu o padre era forçado a viajar com o cálice a caminho da Guarda para recolher na alfaia partículas consagradas e as levar de volta.

Hoje, a fé e a saudade do padre José Joaquim Coelho continuam vivas, ainda não passou um lustro, as pessoas é que são menos e agora vem de Espanha o padre. Os dramas de uma região que vai morrendo não têm cronistas, não interessam às gazetas, não lhes dá guarida a agência Ecclésia ou a Rádio Renascença.

Por isso fui ouvir a gente e avaliar a experiência amarga desprezada por réprobos, que hilaria os urbanos e enxofrou o bispo da Guarda. São gritos de alma que não encontram eco, lágrimas de revolta que não secam, mágoas que acompanham à cova.

Almeida, terça-feira, 4 de Junho de 2009

14 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

Receita para fazer um santo


O Papa Francisco sucede a Barack Obama, que também já tinha sido eleito em 2008

 
CENA 1: Um certo Francisco dobra-se, perante as câmaras do mundo inteiro, para lava pés a doze pessoas. Pela primeira vez na história de 2 milénios, lembra-se de incluir, na cerimónia, essa espécie sub-humana que dá pelo nome de “mulher”.
 
Cai o pano…..
 
Comentários do público: “Ele é tão humilde ! Ele é tão bom ! Ele é tão generoso ! Vejam como se lembra de meter duas mulheres num grupo de doze seres humanos ! Não é extraordinário ? .”
 
CENA 2: “Mandela, líder histórico mundialmente considerado pelo seu papel em prol da paz, da justiça e dos direitos humanos, move. Francisco, esse primor de encenação, manda um representante de segunda linha, que isto de prestar homenagem aos que verdadeiramente lutam pelos direitos humanos é coisa para outros. Francisco dobra os joelhos perante humildes desconhecidos, para entreter parolos, mas é incapaz de fazer, o que muitos outros líderes mundiais fizeram: deslocar-se à África do Sul para homenagear, com sua presença, um HOMEM digno.”
 
Cai o pano !
 
Comentário dos tolinhos: “Francisco, como representante de deus na Terra, não se curva perante nenhum poder terreno ; só ajoelha perante os humildes para mais facilmente os entreter.” 
 
Cristianismo, a entreter tolos há dois mil anos !… 

13 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

A fé, a esmola e o poder do clero

O Islão, o mais implacável dos monoteísmos, insiste no 3.º pilar, “Zakat”, a obrigação de dar esmolas aos pobres, devendo cada muçulmano dar 2,5% dos seus rendimentos, se os tiver. Não é novidade do Islão, é herança judaico-cristã acolhida na cópia medíocre do cristianismo feita pelo arcanjo Gabriel, que voou junto a Maomé, entre Medina e Meca, em numerosas viagens, durante 20 anos, até o obrigar a decorar o que viria a ser o Corão, enquanto conduzia camelos. Que seria das religiões sem pobrezinhos?

Não tenho aversão à esmola, tanto mais que tenho estado do lado de quem a pode dar e não do de quem é obrigado a solicitá-la, mas não tenho ilusões sobre o facto de se tornar a indústria de quem a administra, para evitar a luta de quem a recebe, e um instrumento para a conquista do poder.

Os Irmãos Muçulmanos estão na origem da sobrevivência de multidões onde a religião não deixa florescer um Estado laico, justo e solidário. Depositários da verdade única, tal como as duas religiões que copiaram de forma primária, resolvem as carências básicas na educação, saúde e alimentação. A liberdade, o álcool e o toucinho é-lhes vedado, mas o martírio, o Paraíso e o tapete para as cinco orações diárias ficam garantidos, enquanto as esmolas e o Corão impedem a modernidade.

Em Portugal, enquanto o Governo, com fortes motivações ideológicas, vai reduzindo o povo à miséria, não falta com o cheque às escolas privadas, pondo em xeque as públicas e a igualdade de acesso à educação. No que diz respeito à saúde e à assistência está em curso a transferência para privados, sobretudo IPSSs, com dinheiros públicos e gestão das Misericórdias. Os Irmãos Católicos, sem necessidade de recorrerem aos suicídios, até porque lhes falta o estímulo das 72 virgens e dos rios de mel doce, vão ocupando o espaço público, com fortes ajudas estatais, generosas doações pias e benefícios fiscais.

Em breve. não será possível encontrar um lar de idosos, um centro de reabilitação com internamento ou um hospital, que não tenha uma pia de água benta, à entrada de um doente, e um turíbulo a queimar incenso à saída do defunto.

Aposto duplo contra singelo que o Hospital de Santo António, no Porto, não tarda a cair nas mãos da Misericórdia, a grande proprietária imobiliária do país. Depois será fácil ao prestigiado Instituto Abel Salazar, mudar o nome honrado para o de um santo qualquer, e transformar-se na ambicionada Faculdade de Medicina da Igreja.

Por todo o País, enquanto se destrói o SNS, à sorrelfa, espreitam as Misericórdias, os Melos e o Espírito Santo, o do banco. Os velhos, doentes e pobres serão a mercadoria que dará dinheiro ou garantirá indulgências.

Espero que os nossos netos respeitem e amem o Afonso Costa que um novo ciclo há de gerar.

Apostila: Os Irmãos Católicos chamam-se Irmãos Mesários.