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Carlos Esperança

24 de Abril, 2014 Carlos Esperança

O 25 de Abril está a chegar

Falta 1 dia para celebrarmos o 40.º aniversário da data que venceu a mentira, a tirania e o poder clerical. Amanhã será:

«Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo».

(Sophia de Mello Breyner Andresen»

Nessa madrugada a ICAR sentiu que a cumplicidade com a ditadura tinha sido infeliz.

22 de Abril, 2014 Carlos Esperança

O antissemitismo cristão

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Um pequeno monumento, sobre uma grande memória,em frente à Igreja de S. Domingos, onde o massacre começou. Um crime que os dominicanos carregam, fruto do antissemitismo cristão
(Foto do meu amigo M. P. Maça)

 

22 de Abril, 2014 Carlos Esperança

O fundamentalismo não é um exclusivo islâmico

1 – Naquele tempo andava em alta a fé e pouco estimada a cultura. Sobraçava a pasta, nesse remoto Ano da Graça de 1992, um simples «ajudante de ministro» de seu nome Pedro Santana Lopes, acolitado por dois subajudantes, Maria José Nogueira Pinto e António Sousa Lara.

Coube a este último pronunciar-se sobre a obra «O Evangelho segundo Jesus Cristo», do «inveterado ateu» José Saramago que concorria a um prémio literário. Disse o pio, que Deus abandonaria nas trapalhadas da Universidade Moderna, que «A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os» e, com tão clemente argumentação, o mullah Lara vetou o livro.

2 – «Tal como em 1499, são eles (Dominicanos) que estão à frente da matança iniciada em 19 de Abril de 1506 em Lisboa. No decorrer de uma cerimónia religiosa na Igreja de S. Domingos, um homem que participava no culto, no momento em que o povo gritava «milagre» à vista de um resplendor que saía de um crucifixo, teve a ideia inoportuna de argumentar que se tratava apenas do reflexo de uma vela. Foi logo taxado de «Cristão-Novo», morto e queimado in loco. Dois frades dominicanos brandindo crucifixos excitaram os fiéis aos gritos de «heresia, heresia». Durante três dias a cidade esteve nas mãos dos amotinados, que pilhavam as casas, atiravam mulheres e crianças da janela à rua e acendiam por toda a parte fogueiras onde ardiam vivos e mortos». “Judeus e Cristãos-Novos”, António José Saraiva.

3 – «A maior das falácias é achar que é a religião que está no centro destes eventos (e se fosse? O que é que mudava?) mas claramente uma recusa política da democracia e uma recusa cultural da tolerância, da liberdade, das diferenças» J. Pacheco Pereira (Público)

4 – A blasfémia é um crime medieval que hoje tem menos valor do que a liberdade de expressão, direito a que não devemos renunciar. Renunciar aos direitos conquistados na Europa, contra o clericalismo, é regressarmos ao fundamentalismo romano.

5 – Respondendo a um leitor que me chamou «racista» por ter escrito «O Islão não é a apenas uma religião estúpida, consegue ser também a mais hipócrita», respondo-lhe, em nome da liberdade e da sua defesa, que repudio igualmente as Cruzadas, a Inquisição, o Nazismo, o Estalinismo e todas os sistemas totalitários.

6 – Dizem-me que há um islão moderado. Não o vejo condenar Bin Laden, aceitar a separação da Igreja e do Estado, renunciar à sharia, admitir a igualdade dos sexos ou defender a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

7 – Quando alguém diz defender a liberdade, mas…, sinto no uso da adversativa um velho conformismo com os demónios da censura, um temor reverente ao poder, uma capitulação perante a prepotência, a brutalidade e a força.

A 4 dias do 25 de Abril lembrei-me dos fundamentalistas que o abominam e dos que o reclamam como um exclusivo seu. Indiscutível, foi a cumplicidade da Igreja católica com a ditadura.

20 de Abril, 2014 Carlos Esperança

A missa na aldeia (Crónica)_1

Os sinos da igreja intimavam os paroquianos para a missa. O templo ia enchendo, homens à frente, mulheres atrás, os menos pobres nas primeiras filas, sempre conforme à hierarquia e à tradição. Uns minutos antes das nove ouvia-se a moto do padre Farias que já tinha despachado a missa das oito em Casal de Cinza e ainda o esperava a das dez noutra paróquia.

Entrava sempre com o ar mal disposto de quem sentia o penoso serviço de Deus como condenação, em paróquias pobres, de gente rude, sem instrução nem banho. Ainda há dois dias ali estivera para ouvir em confissão os pecadores mais aflitos ou com hábitos mais frequentes da eucaristia. Não tardariam a chamá-lo de novo para levar o viático a um desgraçado que já não descolava da cama nem para a santa missa.

O latim deixava estarrecidos os crentes pelo carácter esotérico que assumia aos castos tímpanos de quem até o português, para lá de algumas centenas de palavras, soava a latim ou parecia língua estrangeira criada por Deus para confundir os homens das obras na Torre de Babel.

A homilia era breve e as ameaças repetidas. Trabalhar ao domingo deixava o Senhor furioso, comer carne à sexta-feira era veneno para a alma de quem não tivesse a bula, a côngrua andava atrasada por parte de alguns paroquianos, a trovoada tinha dizimado as searas, era certo, mas a culpa não lhe cabia a ele, padre Faria, que cuidava das almas, a moto não se movia a água nem o mecânico a consertava a troco da absolvição dos pecados. Mas o mais injurioso para Deus, e arriscado para a alma, era trair a castidade pela qual a Santa Madre Igreja tanto zelava.

Dita a missa, antes de deixar sair os paroquianos, fazia avisos: pedia a quem encontrasse uma burra que avisasse o dono, lembrava às freguesas que as crianças podiam ficar em casa se não se calassem na missa, que todos os cristãos podiam batizar um recém nascido em perigo de vida, ‘in articulo mortis’, sem necessidade de estafeta a exigir a sua presença, com risco de estar ausente ou de lhe minguar a disponibilidade.

Recordo as pias mulheres, embiocadas no xaile e lenço negro, a debitar ave-marias, sem me ocorrer que vivessem o drama de D. Josefa que Eça nos apresenta «toda sossegada, toda em virtude, a rezar a S. Francisco Xavier – e, de repente, nem ela soube como, põe-se a pensar como seria S. Francisco Xavier, nu, em pelo».

Já não me surpreende que a Ti Celesta, transida de frio e carregada de fome, de fé e de filhos, sempre com aquela tosse que irritava o padre e merecia das outras mulheres o diagnóstico de tísica, se debatesse com o mesmo problema da D. Josefa de «O crime do padre Amaro», talvez em situações mais graves.

A bondosa D. Josefa acrescentava à nudez fantasiada do santo outro pecado que a torturava: «quando rezava, às vezes, sentia vir a expetoração; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na boca, tinha de escarrar; ultimamente engolia o escarro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia de embrulhada para o estômago e se ia misturar com as fezes! Que havia de fazer?”
Com a Celeste a consumição era maior, embora alheia à metafísica. A tosse e a expetoração apoquentavam-na durante a eucaristia e o padre Farias já a tinha ameaçado de lhe recusar o sacramento apesar da devoção com que cumpria os deveres canónicos e a regularidade com que paria um filho por ano.

Mal o corpo e o sangue do Cristo lhe eram pousados na língua, em forma de alva rodela de pão ázimo, logo as secreções lhe acudiam à boca parecendo acalmar à medida que o alimento espiritual aconchegava o trato gastrointestinal, acalmando o jejum e o catarro, seguindo o curso fisiológico.

Depois, enquanto o padre desaparecia sobre a moto, entre nuvens de pó, ficavam os homens a falar da vida enquanto as mulheres regressavam a casa a fazer contas à vida e os garotos enganavam a fome com uma bola de trapos, sem pensar na vida.

19 de Abril, 2014 Carlos Esperança

Sobre a criação de deus

DIVINA COMÉDIA

Erguendo os braços para o Céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam:-“Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?!Incessante
Corre o tempo e só gera,inextinguíveis,
Dor,pecado,ilusão,lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?”
Mas os deuses com voz ainda mais triste,
Dizem:-“Homens!porque é que nos criastes?!”

Antero de Quental

18 de Abril, 2014 Carlos Esperança

A intolerância, a raiva e a vingança

Há cerca de dez anos que sou assíduo na blogosfera. Tenho mantido dois blogues que diariamente alimento com novos textos.

Um, o «Diário de uns Ateus», propriedade da Associação Ateísta Portuguesa, teve de ser alojado numa plataforma paga, para fugir aos constantes ataques com que as almas pias queriam ganhar o Paraíso. Já não lhes bastava os insultos aos colaboradores, de tal modo baixos, que deixei de frequentar a caixa de comentários!

Agora foi o Ponte Europa, vítima da fauna reacionária e da fúria dos imbecis que veem em Passos Coelho um PM, em Cavaco o PR de todos os portugueses e na presidente da AR uma pessoa sensata.

Sou persistente, e não abandono a luta pelo que julgo correto. Engano-me, sou algumas vezes injusto, e nem sempre sou suficientemente perspicaz para detetar montagens cujos especialistas estão normalmente na área do Governo. Mas nunca, absolutamente nunca, engano deliberadamente.

É com satisfação que anuncio aos leitores que o Ponte Europa, graças à generosidade de um engenheiro informático, já está livre dos energúmenos que o atacaram. Aí está, após dois dias em que se transformava em pinturas exóticas, na defesa dos princípios e ideias dos seus colaboradores.

Aqui fica o endereço: http://ponteeuropa.blogspot.pt/

18 de Abril, 2014 Carlos Esperança

Bento XVI e a cruzada contra a secularização da Europa

Das alfurjas do Vaticano ouviam-se latidos contra o laicismo. O pastor alemão mostrou os dentes, afiou as garras e vociferou latim. Saíram-lhe santas imprecações em forma de oração, por hábito e contenção beata.

Quando o paramentavam para os rituais, enquanto sentia as mãos macias do sacristão e as sedas que lhe moldavam a pele, B16 cismava vingar-se da Europa, indiferente a que as pessoas da Santíssima Trindade fossem três ou trezentas, os mandamentos da lei de Deus, dez ou cem, e os milagres necessários para criar um santo, dois ou duzentos.

Como chefe de um exército de sotainas convocou as hostes para anunciar o Evangelho, aqueles quatro livros cheios de contradições e de violência que se juntaram ao Antigo Testamento, por ordem de Constantino, escolhidos entre muitos outros ainda mais contraditórios e inverosímeis.

Quando pediu aos bispos «um testemunho claro, público e corajoso», B16 não mandou ensinar padre-nossos ou treinar beatos a ruminar ave-marias, usou um eufemismo para lançar a cruzada, fez uma declaração de guerra com palavras melífluas, incitou bispos a brandir o báculo e a arremeter contra Governos que se negassem a esportular o óbolo, a fazer a genuflexão e a dificultar o proselitismo.

Para B16 a liberdade era a «ditadura do relativismo», o respeito pelos Mandamentos de Deus (interpretados pela Mafia que dirigia) devia ser imposto e não admitia que «desapareça a identificação com o Magistério da Igreja», isto é, a subserviência à tiara.

B16 exortou os Bispos a que «exponham a Palavra de Deus com toda a clareza, mesmo os pontos que, muitas vezes, são escutados com menos vontade ou que provocam reações de protesto ou mesmo de deserção». É a ordem de marcha, em beata cruzada contra os infiéis, réprobos, apóstatas e ateus.

Francisco ainda não desautorizou o anterior Torquemada.