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Mês: Janeiro 2011

15 de Janeiro, 2011 Carlos Esperança

Vamos contar mentiras

João Paulo II: Cardeal explica milagre

Responsável pela Congregação para as Causas dos Santos diz que a beatificação está acima de «quaisquer dúvidas».

O prefeito da Congregação para as Causas dos Santos (CCS), cardeal Angelo Amato, revelou que a causa de beatificação de João Paulo II foi submetida a um “escrutínio particularmente apurado”, para a colocar acima de “qualquer dúvida”.

Nota: A grande nódoa do novo taumaturgo foi a ocultação dos crimes de pedofilia. De resto, curar uma doença de que não se viu livre em vida, é obra de defunto.

14 de Janeiro, 2011 Carlos Esperança

Missa gay

Missa de apoio a Renato Seabra em Cantanhede

Realizou-se ao final da tarde de ontem, quinta-feira, uma missa de apoio ao jovem suspeito do homicídio do cronista social Carlos Castro.

De acordo com a TVI, “muita gente” compareceu nesta iniciativa convocada através de uma página do Facebook. Familiares, amigos, conhecidos ou população em geral compareceram na missa, que se realizou na igreja de Cantanhede.

Comentário: Aos que possam pensar que a missa foi pela vítima, o Diário Ateísta esclarece que os paroquianos rezaram pelo algoz.

14 de Janeiro, 2011 Carlos Esperança

Em busca de Deus

“Acto sexual aproxima o casal de Deus”

Um sacerdote polaco cujo trabalho diário é ajudar os casais cristãos a resolver os seus problemas conjugais escreveu um polémico livro em que tenta provar que a religião católica não é prejudicial para a harmonia sexual do matrimónio.

13 de Janeiro, 2011 João Vasco Gama

Fontes fidedignas, e Evangelhos – II

No texto anterior a conclusão foi que para que um conjunto de relatos mereça muita confiança em relação à descrição de um ou mais eventos, os relatos devem corresponder às seguintes condições:

-serem feitos por quem observou o(s) evento(s)
-serem recentes face ao(s) evento(s) descrito(s)
-serem feitos por parte desinteressada
-serem de fontes independentes entre si
-serem consistentes

Quem discorda desta conclusão deve discuti-la no texto anterior. Eu vou discutir se os Evangelhos correspondem a estas características, em particular se os evangelhos foram escritos por quem observou o evento, e se são recentes face aos eventos descritos.

Note-se que, caso fosse possível concluir que os evangelhos tinham sido escritos pelas testemunhas oculares dos eventos relatados pouco depois dos mesmos terem ocorrido, isso não implicaria que os mesmos fossem fidedignos. Faltaria ainda verificar que verificariam as restantes condições enumeradas.

É preciso dizer que aferir, ou saber se é impossível fazê-lo, os autores dos diferentes evangelhos, e a data de escrita dos mesmos não é um assunto trivial. É necessário um grande estudo, dedicação e bases para conhecer os factos que permitem tirar as melhores conclusões a esse respeito, e ser capaz de os interpretar de forma cientificamente adequada. Como não sou um historiador nem escrevo para um público de historiadores, opto por expor as conclusões que a generalidade dos especialistas no assunto tiraram a partir dos dados a que têm acesso.

Evangelho segundo Marcos
O evangelho em si é anónimo (o autor não revelou a sua identidade), mas a tradição cristã inicial atribuiu este evangelho a S. Marcos, que se teria baseado no testemunho de S. Pedro. A opinião da maioria dos académicos é que a tradição está errada, e a autoria deste evangelho é desconhecida. Esta opinião é baseada na linguagem em que o texto foi escrito (grego, num estilo muito erudito; ao invés do aramaico comum que seria de esperar) e na heterogeneidade das fontes que usou. Ainda assim, há vários académicos que consideram a tradição cristã inicial credível.
Já no que diz respeito à data do evangelho, existe consenso entre os especialistas: terá sido escrito perto do ano 70 d.C., na Síria. A maioria dos académicos acredita que este foi o primeiro dos evangelhos conhecidos. Ele terá sido escrito várias décadas depois dos eventos que relata.

Evangelho segundo Mateus
O evangelho em si é anónimo (o autor não revelou a sua identidade), mas a tradição cristã inicial atribuiu este evangelho a S. Mateus, o cobrador de impostos que se teria tornado discípulo de Jesus. A opinião da maioria dos académicos é que a tradição está errada, e a autoria deste evangelho terá pertencido a um judeu-cristão que o teria escrito no início do século primeiro, originalmente em grego (e não uma tradução do aramaico ou hebraico). Outros académicos acreditam que a tradição não está errada, e que, tendo sido S. Mateus um cobrador de impostos, faria pouco sentido atribuir-lhe erroneamente a autoria de um evangelho.
Embora exista discordância quanto a qual dos dois evangelhos, Marcos ou Mateus, terá sido escrito primeiro, sendo a opinião maioritária a de que Marcos precede Mateus, a data da escrita deste evangelho é colocada entre 70 d.C. e 110 d.C. Uma minoria de académicos acredita que o evangelho pode ter sido escrito a partir de 63 d.C., novamente várias décadas depois dos eventos que relata.

Evangelho segundo Lucas
O evangelho em si é anónimo (o autor não revelou a sua identidade), mas a tradição cristã inicial atribuiu este evangelho a S. Lucas, um companheiro de S. Paulo. Este autor terá sido, na opinião generalizada, o autor dos «Actos dos Apóstolos».
O autor, quem quer que fosse, tinha uma educação muito superior à da generalidade da população, era muito viajado e muito bem relacionado, a forma como escrevia (grego) revelava uma erudição elevadíssima. Os académicos dividem-se entre os que acreditam que a tradição não está errada, e os que acreditam que o autor deste evangelho teria sido um cristão gentio anónimo. Entre os que acreditam nesta última possibilidade existe quem acredite que o autor teria tido acesso a testemunhas oculares dos eventos descritos, e os que acreditam que tal não terá sido o caso. Aquilo que é comum a estas três possibilidades é que o autor não terá sido, ele próprio, testemunha dos eventos que descreve.
A generalidade dos académicos acredita que este evangelho terá sido escrito entre 80 d.C. e 90. d.C., mas alguns acreditam que pode ter sido escrito entre 60 d.C. e 65. d.C., em qualquer dos casos décadas depois dos eventos descritos no evangelho.

Evangelho segundo João
O evangelho em si é anónimo (o autor não revelou a sua identidade), mas a tradição cristã inicial atribuiu este evangelho a S. João, alegadamente o “discípulo amado” de Jesus. A opinião da maioria dos académicos é que a tradição está errada, e a autoria deste evangelho é desconhecida. Esta opinião é baseada no facto de S. João ter sido, tanto quanto se sabe, analfabeto, ao invés de fluente em filosofia helenística como a escrita deste evangelho – novamente escrito em grego com um estilo revelando erudição – exigiria. Uma minoria de académicos disputa esta alegação fazendo notar que a tradição não surgiu subitamente, mas ao invés existiria uma continuidade tal que poderia indiciar que, se S. João não tivesse escrito o evangelho, te-lo-ia influenciado de forma decisiva.
A generalidade dos académicos acredita que o evangelho terá sido escrito entre 90 d.C e 100 d.C. Uma minoria de académicos acredita que a ausência de referências à destruição do templo de Jerusalém será indício de que a data da escrita do evangelho possa ser pouco anterior a 70 d.C. Em qualquer dos casos décadas depois dos eventos descritos no evangelho.

Evangelhos não-canónicos
O consenso generalizado é de que não foram escritos por testemunhas directas dos eventos descritos, e décadas depois dos mesmos terem ocorrido.

Conclusões:
A opinião maioritária entre os académicos é a de que os diferentes evangelhos não foram escritos por quem observou directamente os eventos descritos. Alguns académicos sérios podem contestar esta afirmação no que diz respeito a alguns dos evangelhos, mas a generalidade dos especialistas considera que as evidências são suficientes para afirmar que a hipótese mais provável é que os evangelhos tenham sido escritos por anónimos que terão relatado aquilo que lhes contaram.
Aquilo que imediatamente descarta os evangelhos como fontes de confiança em relação aos eventos neles descritos, é o facto de, de acordo com todos os académicos sérios, nenhum deles ter sido escrito e compilado menos de dez anos depois dos eventos descritos; pelo contrário, todos os evangelhos terão sido escritos várias décadas depois dos eventos que relatam.

E se porventura os evangelhos tivessem sido escritos por testemunhas directas dos eventos ocorridos, pouco depois dos mesmos terem lugar? Será que os poderíamos considerar fontes fidedignas? Para isso teremos de aferir se cumprem as restantes condições, que é o que farei no próximo texto sobre este assunto.

13 de Janeiro, 2011 Carlos Esperança

O Papa, o purgatório e o negócio pio

Bento XVI: Purgatório é «verdade fundamental» da fé

O Purgatório foi uma das mais lucrativas mercadorias da Igreja católica, partilhada por outras Igrejas cristãs. O marketing do Purgatório tem sofrido numerosas flutuações de acordo com as necessidades de exploração pia.

As caixas das alminhas do Purgatório ocupavam outrora um espaço nos templos e nas curvas dos caminhos à espera de esmolas que, convertidas em missas, antecipavam o transporte para o Paraíso. Foram desaparecendo à míngua de benfeitores e com excesso de predadores à cata do pecúlio. Demoram mais as almas carregadas de pecados veniais a fazerem o trajecto celestial.

Quem inventou o Purgatório foi um génio do marketing. O trintário, série de 30 mis­sas celebradas em dias seguidos por alma de um defunto, com promessa de rápido indulto, foi uma fonte de receitas que durou séculos e rendeu fortunas.

Quando os clientes pensavam que, à semelhança do Limbo, o Purgatório fora abolido, veio o Papa Ratzinger, reabri-lo à piedade e á exploração comercial. Disse a santidade de turno que o purgatório é “uma verdade fundamental da fé” que convida os católicos a “rezar pelos defuntos”. E deus, com o caderno de apontamentos, sempre á mão, lá vai registando as orações e fazendo as contas até enviar às almas penadas o transporte para o Céu.

B16 socorreu-se de Santa Catarina de Génova (1447-1510), consagrada especialista em questões de Purgatório, para reabrir o estabelecimento e explorar o negócio. Falta dizer quantos tempo diminui a pena por missa, óbolo ou peregrinação a Fátima.

O Paraíso, o mais refinado produto que as Igrejas abraâmicas comercializam, é difícil, mas não há bem celeste que os bens terrenos não comprem.

12 de Janeiro, 2011 Carlos Esperança

O Papa, a blasfémia e a laicidade

Bento XVI condenou as perseguições e crimes sectários cometidos contra os cristãos no Egipto e no Iraque e «a lei contra a blasfémia» do Paquistão. Quem aceita tal desvario? Só a demência sectária de uma crença pode levar à chacina de quem reza outras orações ou tem sobre a carne de porco e o álcool uma visão diferente.

O ódio religioso, destilado pelos livros ditos sagrados, é uma sobrevivência das tribos que inventaram deus como explicação por defeito para tudo o que ignoravam, para dar coesão social, combater os medos e sonhar uma vida para além da morte.

É surpreendente que as guerras religiosas que se agravam em África, entre muçulmanos e cristãos evangélicos mereçam tão pouca atenção da comunicação social europeia, que as limpezas étnicas e religiosas que ocorrem em várias partes do globo mereçam menos atenção do que qualquer acidente aéreo.

O Papa tem razão quando lamenta os ataques aos cristãos e pede o fim da “lei contra a blasfémia”, violência gratuita a primeira e anacronismo medieval a segunda. Blasfémia é qualquer discordância em relação à crença oficial ou inexistência de crença. No fundo, qualquer pessoa é ateia com os deuses dos outros. Mesmo em política, onde as ditaduras imitam as religiões, não se perdoam convicções heterodoxas.

O próprio Bento XVI ignora o «crime» quando se mantém nos códigos penais de países ditos católicos, como se as convicções particulares servissem para adjectivar países, mas a jurisprudência dos países democráticos privilegia o direito à liberdade de expressão face ao «crime» de blasfémia, ao contrário do que se passa nas teocracias.

Há muito que a laicidade se tornou a vacina capaz de conter o proselitismo e evitar lutas religiosas. O direito à crença, descrença ou anti-crença não se discute e a garantia reside na neutralidade do Estado. Só o Estado laico pode evitar a alienação de quem, para além  do direito à sua crença, quer impedir aos outros uma crença diferente ou a ausência dela.

Curiosamente, o Papa que reivindica a laicidade onde os cristãos estão em minoria, é o mesmo que se opõe à educação laica na América Latina. É, aliás, normal que os bispos católicos defendam o Estado laico quando são minoritários e uma Concordata quando se julgam maioritários, com o argumento de que não se deve aplicar a igualdade ao que é diferente.

Não podemos esquecer que a liberdade religiosa só foi reconhecida pela Igreja católica no Concílio Vaticano II, há cerca de 50 anos, e não parece que o actual pontífice recorde com entusiasmo o sínodo em que participou.

Por sua vez, o mais implacável dos monoteísmos – o Islão –, recusa qualquer crença que não seja o plágio grosseiro do cristianismo, sem o tempero da cultura grega e do direito romano.

Só a laicidade pode evitar o regresso das guerras religiosas, a submissão às sotainas e o retrocesso civilizacional.

11 de Janeiro, 2011 João Vasco Gama

Fontes fidedignas, e Evangelhos – I

Um historiador geralmente não tem acesso directo aos factos históricos. Ele tenta, a partir dos diferentes indícios, estabelecer as hipóteses mais prováveis que com eles são compatíveis. Consoante a abundância e fiabilidade dos diferentes indícios, o historiador pode ter mais ou menos confiança numa determinada hipótese.

Por exemplo, podemos ter muita confiança que António Oliveira Salazar nasceu muito perto de Santa Comba Dão. Podemos ter muita confiança que Napoleão Bonaparte mandou invadir Portugal. Podemos ter muita confiança que Júlio César foi assassinado no Senado.

O que nos faz ter muita confiança num determinado facto histórico, seja ele qual for?

Uma condição necessária é a existência de muitos relatos consistentes contemporâneos com o evento. Esta condição é necessária, mas insuficiente para atribuir à ocorrência do evento uma confiança muito elevada.

Um relato, por si, pode consistir numa descrição adequada daquilo que se passou, mas pode também consistir numa descrição distorcida ou falsa, seja a distorção ou falsidade devida a equívoco, mentira deliberada, ou algo de ambos.

O que é que pode condicionar a confiança que se deve depositar num relato?
Em primeiro lugar, saber se o autor teve acesso directo ao que relata, ou se relata algo que outros lhe contaram.
Em segundo lugar, saber se o autor relata o evento pouco depois de ter acontecido, ou muito depois.
Em terceiro lugar, aferir se o autor é parte desinteressada, a nível material ou emocional, nos eventos que descreve.

O que é que pode condicionar a confiança que se deve depositar num conjunto de relatos que descrevem um mesmo evento?
Em primeiro lugar se cada um dos relatos é independente dos outros.
Em segundo lugar se são consistentes entre si.

É verdade que uma consistência excessiva entre dois relatos pode também ser um indício da fabricação dos mesmos. Se duas testemunhas em tribunal relatam um acidente com exactamente as mesmas palavras, será razoável suspeitar de concertação entre ambas. É natural que ambas expliquem o que viveram em termos diferentes, ou mesmo que ocorra um equívoco de pormenor aqui e ali e que portanto os relatos honestos de ambas as testemunhas tenham inconsistências ligeiras.
Mas se quatro ou cinco testemunhas relatam o evento com inconsistências muito significativas entre as versões, é natural que se tenha pouca confiança no testemunho de cada uma delas, pelas contradições que tem com os restantes. Neste sentido, inconsistências relevantes entre as fontes é algo que deve diminuir a nossa confiança nestas.

Resumindo, para que um conjunto de relatos mereça muita confiança em relação à descrição de um ou mais eventos, os relatos devem corresponder às seguintes condições:

-serem feitos por quem observou o(s) evento(s)
-serem recentes face ao(s) evento(s) descrito(s)
-serem feitos por parte desinteressada
-serem de fontes independentes entre si
-serem consistentes

Em que ponto estamos no que diz respeito aos evangelhos?
Vou explorar este assunto no meu próximo texto.

11 de Janeiro, 2011 Carlos Esperança

Religião e política, uma mistura letal

Crescem a xenofobia e o racismo e a debilidade cultural da Itália se expande pelo continente europeu. Trono e altar aliaram-se de novo, agora de maneira distinta. Hoje assistimos a uma fusão entre mercado, fé e política, que tratam de organizar nossas vidas, manipulando o direito.

Na Itália, a corrupção não só não é perseguida, como está protegida pela lei. Aboliram a transparência e os controles ordinários para poder roubar melhor. Hoje o que manda é o uso personalista e autoritário das instituições.

A sociedade se decompôs, o país está se desfazendo. A política faz uso ostensivo da força, e o direito se esfarela.