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Mês: Junho 2006

23 de Junho, 2006 Carlos Esperança

Protocolo de Estado e falta de pudor republicano

Pretender integrar o clero na lista de precedências dos titulares dos órgãos de soberania e altos funcionários do Estado é um anacronismo incompatível com um país laico. Afigura-se tão despropositado como colocar nos templos uma cadeira junto ao altar para os representantes do Estado ou das autarquias.

Surpreende que um político experiente como o açoreano Mota Amaral, que não é um demagogo, persista na defesa de uma promiscuidade entre o Estado e a Igreja que tão maus resultados deu no passado e que só pode prejudicar ambas as instituições.

Mas, mais anacrónico, é a peregrina ideia de incluir no protocolo de Estado o Sr. Duarte Pio, um descendente do ramo miguelista da família de Bragança, a menos que se pretenda desprestigiar o regime democrático e transformar o País numa República de ananases, já que as bananas são características da outra Região Autónoma.

O pudor republicano é incompatível com os delírios místicos de um deputado ou com o pendor monárquico de quem sabe que a monarquia constitucional portuguesa se extinguiu com a morte de D. Manuel II.

Que o CDS dê particular destaque «quer às Forças Armadas, quer às instituições religiosas – com realce para a Igreja Católica», é uma atitude que se compreende num partido que foi expulso do Partido Popular Europeu, por ser demasiado conservador e anti-europeu. No fundo é um partido de duvidoso ideário republicano e de hesitantes sentimentos democráticos.

23 de Junho, 2006 Palmira Silva

Histórias do Paleolítico

Várias perspectivas das duas conchas encontradas em Skhul. A linha desenhada para comparação tem 1 cm.

A descoberta de objectos pré-históricos cuja morfologia indica terem sido alvo de acção humana deliberada (por vezes difíceis de distinguir de objectos naturais) levanta algumas questões aos arqueólogos sobre o fim destes objectos, nomeadamente se a sua função última tinha cariz prático ou simbólico.

Os arqueólogos e (antropólogos) identificam arfefactos simbólicos com uma competência cognitiva que normalmente é assumida como tendo aparecido relativamente tarde na evolução humana, mais concretamente tem sido considerado que a cultura humana moderna, capaz de interpretar a realidade simbolicamente e incorporar e transmitir esse simbolismo no seu comportamento, surgiu há cerca de 40 000 anos quando os homens anatomicamente modernos chegaram à Europa.

Nas últimas décadas uma série de descobertas tem indicado que esta capacidade cognitiva evoluiu com o próprio homem quiçá tendo estado presente no Neanderthal e nas populações Sapiens mais antigas. As sociedades simbólicas interpretam detalhes do mundo natural, incluindo o corpo humano, ou seja, procuram características do mundo que os rodeia em que baseiam todo um sistema de sinais- e por extensão um sistema de crenças – que transmitem às gerações subsquentes.

Isto é, as sociedades que criam uma «história acumulada», as «sociedades quentes» de Claude Lévi-Strauss – que se opõem às «sociedades frias» que vivem num eterno presente – podem ser anteriores ao que muitos acreditam. Até hoje tão anteriores como 75 000 anos como a descoberta de conchas Nassarius kraussianus perfuradas na caverna de Blombos na África do Sul indica.

No número de hoje da Science figura o artigo «Middle Paleolithic Shell Beads in Israel and Algeria» (artigo completo reservado a assinantes) que sugere a existência de culturas simbólicas há pelo menos 100 000 anos.

De facto, o artigo descreve descobertas arqueológicas em Skhul, Israel, e Oued Djebbana, Argélia, proeminentes entre elas mais conchas Nassarius perfuradas, análogas às encontradas em Blombos. A datação dos artefactos encontrados em Skhul indica que as duas conchas aí encontradas têm mais de 100 000 anos e que as de Oued Djebbana podem ter 90 000 anos.

«O nosso artigo suporta o cenário que humanos modernos em África desenvolveram comportamentos que são considerados modernos muito cedo, de forma que estas pessoas são não apenas biologicamente modernas mas igualmente modernas cultural e cognitivamente, pelo menos num certo grau» afirmou à World of Science um dos cientistas responsáveis pelo trabalho, Francesco d’Errico do Centre Nationale de la Recherche Scientifique, CNRS, em Talence, França.

Porque, como afirma por sua vez Marian Vanhaeren, a outra cientista responsável, também do CNRS «Comportamento mediado simbolicamente é um dos indicadores da modernidade incontestados e aceites universalmente. Uma característica chave de todos os símbolos é que o seu significado é atribuído por convenções arbitrárias socialmente construídas que permitem o armazenamento e transmissão de conhecimento».

Convenções arbitrárias e socialmente construídas como são as religiões, que quasi podem ser encaradas como sub-culturas «frias» na medida em que não foram penetradas pela «história acumulada» da Humanidade e persistem num simbolismo anacrónico e num sistema de crenças completamente dissociado do conhecimento actual. Nomeadamente nas religiões do livro a crença no «pecado original», com a concumitante concepção do ser humano como naturalmente perverso, a explicação para a existência do Mal, é um disparate «frio» que continuarei a analisar durante o fim de semana em conjunto com as contradições debitadas pelo Vaticano em relação à evolução.

23 de Junho, 2006 fburnay

A fé pessoal

Uma das críticas que faço à fé é a capacidade que tem de pôr as pessoas a acreditar em coisas sem que tenham para isso qualquer tipo de justificação. Não acho plausível acreditar em algo sem que me seja mostrado que de facto faz sentido fazê-lo. É por isso que não acredito na existência do éter. Pegando na existência dos deuses como hipótese (mesmo que isso não seja, a meu ver, tão válido como propor a existência do éter enquanto explicação natural do mundo) rapidamente se chega à conclusão de que não vale a pena acreditar neles. Epistemologicamente, não há razões para acreditar na existência do éter. Isso rapidamente nos leva a uma forma de agnosticismo – não há provas empíricas da existência do éter e não é um conceito relevante para explicar o Universo, como tal, sou levado a concluir que a existência ou não existência do éter é irrelevante. A partir daqui, acreditar na existência do éter é uma prática insubstanciada.

Se eu quiser continuar a acreditar que o éter existe, posso fazê-lo. Por capricho, por teimosia, por fé – seja por que razão for, estou no meu direito de o fazer. No entanto, tenho de concordar em que não posso esperar que os outros também acreditem. Sou só eu que acredito, pelas minhas razões pessoais.

O mesmo raciocínio aplicado às divindades chega a uma conclusão semelhante. Se bem que o conceito de deus é, em si, uma recusa explícita de uma explicação científica ou racional para qualquer tipo de fenómeno (é por isso que sou ateu) e, neste sentido, claramente diferente do conceito de éter, eu poderia não obstante continuar a acreditar num determinado deus, se quisesse. Isso seria, obviamente, uma prática individual. Acho que ninguém, racionalmente, tem razões senão para ser ateu. No entanto é justamente o Individualismo que resgata a possibilidade da fé, ainda que seja, a meu ver, uma prática extremamente perniciosa. Consegui provar a alguns crentes, julgo, que apesar de concordar com o facto de as provas (num contexto de testemunho enquanto vivência e não de provas empíricas) que me apresentam para a sua fé ter um imenso valor para eles, esses testemunhos são intransmissíveis.

Pessoalmente, não posso conversar de forma igual com pessoas diferentes. Que posso eu dizer a uma pessoa que acredita piamente nos milagres de Fátima senão que é a minha opinião de que se trata de um disparate acreditar em semelhante coisa? A uma pessoa que, seja por que razões, leva à letra os textos que considera sagrados não posso dizer-lhe mais de que não faz sentido levar à letra esses textos. Posso mostrar que este milagre é falso ou que esta profecia não se revelou, ponto a ponto, num exercício que, muito provavelmente, não vai mudar a opinião do meu interlocutor. No entanto, não penso que seja infrutífero fazê-lo – muitos crentes recusam-se, simplesmente, a acreditar que o mundo tem 5000 anos ou que o Sol rodou três vezes mas só na Cova da Iria. E não acreditam não por razões de fé – mas porque é implausível. É difícil acreditar nessas coisas e não no sentido em que é difícil para um católico acreditar na divindade de Maomé. É difícil porque a nossa razão e a nossa inteligência nos dizem – não faz sentido. Esta é a beleza da coisa.

Porque, vendo bem as coisas, as pessoas acreditam todas elas em algo diferente, ainda que se baseiem num substrato comum. Porque os líderes das religiões conhecem mais do que o comum fiel os textos sagrados. Terão, então, os fiéis as mesmas razões para acreditar que os seus sacerdotes?

Curiosamente – e este é o meu ponto – sempre que se ataca a fé nos pequenos “milagres” do dia-a-dia, nas benzeduras, nos exorcismos, quem sai em defesa do crente comum não é o crente comum. São crentes, sim, mas mais educados nas questões da fé. Pessoas com formação, inteligentes, com catequeses mais aprofundadas e menos literais. Porquê? Essas pessoas, mais que outras, deveriam perceber o porquê dessas críticas. Esses crentes têm uma noção muito mais refinada dos melindres da sua religião – não representam, de todo, o bruto dos crentes. E no entanto, continuam muitas delas (com raras e admiráveis excepções) a defender crenças medievais e os anacronismos mais repelentes. A distorcer a História na tentativa de ocultar manifestações de vivências pré-modernas para preservar dogmas. A deturpar conceitos como o de laicidade, liberdade, ciência, ateísmo, para salvaguardar o que de mais primitivo há na religião. E não as pessoas com catequeses mais provincianas mas sim as pessoas mais alfabetizadas. Os crentes que, fazendo uso da sua liberdade de pensamento e da sua individualidade procuram testemunhos que acreditam enriquecer a sua fé e a sua humanidade não percebem que defendem noutras alturas dogmas completamente contrários a essa expressão de individualismo? Como é isso ainda possível no século XXI?

Na minha opinião, isso apenas é possível graças a memes que foram transmitidos de forma diferente – no fundo, lavagens cerebrais mais eficientes. Isso talvez explique porque são, afinal de contas, os crentes comuns que abandonam a fé mais facilmente que os outros.

Quanto mais conhecemos mais contraditório se torna permanecer na fé. É este o medo que as religiões têm da Ciência e do livre-pensamento. Só uma educação fortemente orientada na religião e uma dependência memética extremamente enraizada impedem que uma pessoa com acesso a educação concilie a fé profunda com o mínimo bom senso.

23 de Junho, 2006 jvasco

30 minutos de radio

30 minutos de radio é tudo quanto Julia Sweeney precisa para explicar como deixou de ser crente. Para quem está à vontade com o inglês, aconselho vivamente: o texto é delicioso.

22 de Junho, 2006 jvasco

Onde está o sacrifício?

Jesus morreu pelos nossos pecados.
Morreu?

Segundo a Bíblia não, pois após 3 dias (ou menos…) andava por aí a falar com os discípulos, etc..

Nesse caso, onde está o sacrifício?
Ele não deu a vida pelos nosso pecados se, de facto, não a perdeu.
Como é que se dá a vida por algo, sabendo que se estará vivo e de boa saúde daí a 3 dias?

Onde está o sacrifício?

(nota: texto descaradamente baseado neste video)

22 de Junho, 2006 Carlos Esperança

Como se criam católicos

Nos primeiros dias de vida os pais entregam os neófitos ao padre, que lhes mergulha a fronha em água benta e os limpa do pecado original, quando ainda precisam de quem lhes mude a fralda.

Depois, crescem no temor de Deus, que se alegra quando comem a sopa e fica triste quando adormecem nas orações.

Aos seis anos de idade, com muitas ave-marias e padre-nossos rezados, para que o Deus cruel e apocalíptico os livre do Inferno, das perpétuas chamas e do azeite fervente, onde só há choro e ranger de dentes, as pias catequistas ensinam-lhes os mandamentos da Santa Madre Igreja e os do único Deus verdadeiro, à custa dos tempos livres.

Depois do exame de aptidão vem a confissão. Os pecados – ofensas feitas a Deus -, são ditos ao padre, punidos com penitência adequada e perdoados para poderem saborear o corpo de Cristo numa fina rodela de pão ázimo (sem fermento nem sal).

Com a missa semanal e a desobriga pela Páscoa da Ressurreição, como tarifa mínima, seguida de nova rodela mística, os cristãos ficam aptos para novos pecados que, de novo, serão perdoados e assim, sucessivamente, vão mantendo viva a fé na vida eterna.

A comunhão solene é um momento alto, com a família a alambazar-se em hidratos de carbono. Por pudor, a ICAR deixou de vestir de cruzados as crianças. A confirmação é imposta por um bispo que exibe o anelão de ametista e o faz oscular, indiferente aos micróbios que passa de boca em boca. O sinal da cruz é desenhado a óleo na testa do cristão pelo dedo do prelado ricamente paramentado e refastelado num cadeirão.

Nesta altura já as crianças de dez anos sabem que os judeus mataram Cristo, que a Santa ICAR está mais cheia de santos, mártires e bem-aventurados do que um autocarro da Carris em horas de ponta.

A xenofobia e o racismo estão na Bíblia. O dever de um cristão é converter quem está errado (os outros) à verdadeira fé, a que vem de Roma através de breves, bulas e encíclicas. O proselitismo é um dever e quem não quiser salvar-se deve ser obrigado.

Os créus querem esgotar a lotação do Céu e os ateus querem evitar que seja obrigatório.

21 de Junho, 2006 Ricardo Alves

«O Código Da Vinci» visto por um ateu

Sim, fui ver o filme. Na minha opinião, não é um manifesto anti-cristão, mas apenas um filme de entretenimento como muitos outros que todos os anos saem de Hollywood.

Quem gosta de filmes policiais, com perseguições de carro, pistolas apontadas, enigmas em série e actores competentes, não ficará decepcionado com «O Código Da Vinci». Quem é ateu e espera um manifesto anti-cristão (eu não esperava) sairá defraudado: perto do final, Robert Langdon diz algo como «não interessa se Cristo foi humano ou divino, o importante é que inspirou as pessoas», e recomenda os efeitos tranquilizantes da oração independentemente de se crer ou não. Pressiona ainda Sophie Neveu, que no início era ateia, a seguir esta espiritualidade, no fundo semelhante à de muitos grupos cristãos ditos «liberais», como os quakers ou os unitários. Tudo muito «cristianismo light», portanto.

Então, porquê a polémica? Pelo pouco que sei, por três razões. Primeira, o filme atribui uma descendência a dois personagens do Novo Testamento, «Jesus Cristo» e «Maria Madalena». Talvez por nunca ter sido cristão, não compreendo a aflição que a hipótese de que o semi-deus dos cristãos tivesse tido relações sexuais provoca. O «Deus» cristão em forma humana teria necessariamente que ser um castrado ou um impotente? Ou será a contradição com a misoginia doentia de Paulo de Tarso que incomoda?

Segunda razão para a polémica, o filme refere alguns factos históricos genuínos mas inconvenientes para a religião cristã, como a existência de evangelhos «não canónicos» que contradizem os evangelhos escolhidos no Concílio de Niceia, no ano 325 da nossa era, existência e escolha estas que são desconhecidas pela esmagadora maioria dos católicos. (Creio que o livro, que não li, se alarga mais sobre os evangelhos «não canónicos».)

Terceira razão de polémica (e talvez a mais importante), o filme mostra as auto-flagelações corporais praticadas no Opus Dei, embora com algum exagero (como as cicatrizes e o sangue a escorrer). No entanto, em boa verdade não se pode condicionar comunidades inteiras de pessoas numa cultura de auto-agressão e esperar que nem uma única pessoa exagere (particularmente quando circulam rumores, dentro da própria organização, de que Escrivá se flagelava até deixar as paredes da casa de banho esguichadas com sangue). Mas o nervosismo de certos sectores era desnecessário. Afinal, tanta publicidade até atraiu masoquistas à Obra…

Quanto aos «erros históricos», será verdade que no início do livro Dan Brown atribui uma data errónea (1099) à fundação do «Priorado de Sião», uma criação recente (século 20) de um grupo de brincalhões, e que inclui essa data num conjunto de afirmações apresentadas como «factos». Mas, das duas uma: ou é um recurso estílistico deliberado (muitas obras de ficção arrancam prometendo contar uma estória verídica) ou é efectivamente um erro do autor, que poderia ser corrigido em edições posteriores. Todos os anos são publicados romances históricos com «erros» (recordar «Equador», de Miguel Sousa Tavares), sem provocarem a fúria a que temos assistido. A razão real para a fúria católica deverá ser a ameaça que a narrativa «cristã alternativa» d´«O Código Da Vinci» representa para uma instituição habituada a ter o monopólio da fantasia e dos erros históricos e científicos (nascimentos a partir de virgens, a «ressurreição», a pretensamente incontroversa historicidade de «Jesus Cristo», a suposta fundação de uma nova igreja por «Jesus Cristo», etc.). Convém acrescentar que o filme «O Código Da Vinci» já foi visto por mais de meio milhão de portugueses, que assim têm acesso a factos, dúvidas e especulações que a ICAR lhes escondeu durante séculos, e que portanto lhes podem semear dúvidas…
Acrescente-se que existem centenas de filmes com «erros históricos», fantasias contraditas pela ciência e imprecisões várias. Encontrar «erros» em filmes é um pouco como encontrar pessoas na rua. Só choca quem não percebe que os filmes são ficção e que as pessoas circulam nas ruas. Dois exemplos: existe um filme com Marlon Brando em que os portugueses têm uma colónia nas Caraíbas («erro histórico»…) e oprimem os trabalhadores locais; existe um filme estado-unidense sobre Fátima em que se afirma, logo no início, que as igrejas em Portugal foram «mandadas fechar» em 1910 e que só em 1916 «reabriram algumas na província» («erro histórico» ideologicamente intencionado), e em que aparece uma «Virgem» suspensa no ar a falar à multidão (o que, sendo cientificamente disparatado, é uma fantasia habitual em filmes de ficção científica).
A terminar, é espantoso que ninguém tenha reparado que os países que proibiram a exibição de «O Código Da Vinci» são, salvo uma ou outra excepção, aqueles em que houve protestos violentos contra os cartunes dinamarqueses. A ICAR e o islão, com toda a coerência, são contra toda e qualquer crítica aos seus dogmas, e sabem cooperar quando necessário.
21 de Junho, 2006 Carlos Esperança

O Papa é um homem… para pior

É uma violência esperar de um homem normal a castidade absoluta, a vida sem alguém com quem trocar afecto, confiança e entrega. Mas o Papa ou o fez e mente, ou não o fez e violentou a sua natureza, ou ainda, talvez as duas coisas alternadamente.

O Papa não é apenas um algoz, frio e cruel, porque a vida e o múnus o conduziram a semelhante postura. É assim porque o sistema, a cujo vértice chegou, o exige.

Há no ditador vitalício do Vaticano atenuantes que as pessoas devem compreender. O frio inquisidor já foi jovem e teve, como todos, necessidades sexuais que realizou na clandestinidade ou reprimiu por medo. Hoje, transporta a culpa do pecado ou o trauma do desejo recalcado. O certo é que nunca amou.

Quem pode esperar compreensão, tolerância e bondade de quem sofreu humilhações, recalcamentos e frustrações. O camauro não sublima tendências no fim da vida, apenas vinga o passado.

O dever de ofício fá-lo fingir que acredita na Bíblia, ele que conhece as circunstâncias e finalidades com que as mentiras foram inventadas e velhos mitos reciclados, que sabe as semelhanças entre as várias religiões e como os homens as criaram.

Basta a mentira do livro sagrado, a falsificação da história da ICAR e o negócio das relíquias e indulgências para envergonhar um Papa. Não precisava da homologação de milagres que de todo o lado lhe solicitam para fabricar beatos e santos numa competição a que JP2 abriu as portas e a que o ridículo e a vergonha já não conseguem pôr cobro.

B16 é, pois, mais uma vítima da trama de interesses da multinacional da fé sediada num bairro de 44 hectares donde se prega uma moral anacrónica e se vive a obsessão do sexo que não se pratica ou se pratica em ansiedade e com sentimentos de culpa.

É por isso que os inveterados celibatários pregam a castidade com uma obsessão que, a ser aceite, levaria em breve à extinção da espécie humana.

21 de Junho, 2006 Palmira Silva

Mulher à frente da Igreja anglicana nos Estados Unidos

Katharine Jefferts Schori, bispo do Nevada e cientista antes da sua ordenação, foi eleita para dirigir a Igreja Episcopal americana na convenção dos bispos anglicanos deste país, eleição realizada no domingo passado.

As relações entre a Igreja mãe e a delegação americana, especialmente tensas depois da ordenação do bispo abertamente homossexual Gene Robinson, agudizaram-se com a eleição de Katharine, uma liberal firmemente defensora do evolucionismo e que apoia quer o casamento homossexual quer a consagração de bispos homossexuais. O Bispo de Rochester, Michael Nazir-Ali, afirmou que nesta altura um cisma na Igreja Anglicana é um sério risco:

«Ninguém quer uma separação mas se pensarmos que praticamente temos duas religiões na mesma Igreja, algo tem de ceder em algum momento».

O risco de cisma é ainda acrescido pelo facto de que a Igreja Católica já fez saber, pela voz do Cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos (CPPUC), que ordenar mulheres como bispos tornará a unidade entre ambas as Igrejas «inalcançável». Nesse sentido, o Cardeal Kasper exortou o líder da Igreja Anglicana e Arcebispo da Cantuária, Rowan Williams, a não realizar a ordenação episcopal de mulheres sem o apoio das Igrejas Ortodoxa e Católica (apoio que não se prevê nos próximos séculos).

Kasper acrescentou que o diálogo ecuménico entre as duas igrejas «mudará de tom» se a Igreja Anglicana não acabar com a «abominação». E avisou que esta «abominação» pode mesmo ameaçar a continuidade da Igreja Anglicana já que «Sem identidade, nenhuma sociedade, e muito menos uma igreja, poderá sobreviver».

Aparentemente o dignitário de Roma considera que a ordenação de mulheres é «uma perda da identidade» cristã, o que não está longe da verdade uma vez que a identidade do cristianismo assenta na misoginia.

Já no ano passado ano passado a Igreja de Roma tinha debitado um documento oficial de 10 páginas em que condenava a decisão da Igreja Anglicana não só em ordenar mulheres mas, especialmente, em elevá-las à posição de bispo, e em que avisava que consagrar mulheres «é um risco tremendo e intolerável» que pode causar «danos irreparáveis» dentro e fora da Igreja Anglicana.

E de facto, Katharine Jefferts Schori, que advoga abertamente o uso da razão e que afirma «Não usar os nossos cérebros para perceber o mundo que nos rodeia parece um pecado capital», é um «risco tremendo» para a Igreja de Roma…

20 de Junho, 2006 fburnay

A Raiz de Todo o Mal?

É o título de um documentário da BBC em que Richard Dawkins, o biólogo britânico ateu, mostra como o «processo de não-pensar», a fé, está na origem de crenças literais em mitologias que desafiam a Razão e nas certezas inabaláveis dos crentes que matam em nome da sua religião. Para ver os dois episódios, basta seguir os links:

The Root of All Evil? – Part 1
The Root of All Evil? – Part 2