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Dia: 1 de Maio, 2005

1 de Maio, 2005 Carlos Esperança

Vale a pena bater no ceguinho

Antes do 25 de Abril de 1974 o único bispo que discordou da ditadura foi António Ferreira Gomes, bispo do Porto. Sofreu dez anos de exílio e foi a excepção que confirmou a regra de uma Igreja comprometida com a ditadura, silenciosa perante as prisões arbitrárias, alheada do degredo, da tortura e dos assassinatos que a ditadura cometeu contra o povo português..

Depois de Abril, a ICAR tolerou a democracia, apesar da azia que apoquentou os bispos que viram muitos padres trocar o múnus pelo tálamo conjugal, optar pelo Kamasutra em vez da Bíblia, abandonar as pessoas da Santíssima Trindade por uma única mulher.

Hoje pode dizer-se que a Igreja tem uma postura civilizada, com excepção no que diz respeito à defesa e ampliação dos privilégios que a pusilanimidade dos governantes consente. Interfere nas leis que dizem respeito à família, vai buscar à gamela do orçamento o ordenado dos capelães militares e hospitalares, os vencimentos dos professores de religião católica e o dinheiro necessário à reparação dos estabelecimentos comerciais, designados igrejas.

Desde 1975 que nenhum outro bispo ameaçou com a «heresia e as penas do inferno» quem não votasse no CDS como o fez o bispo de Braga, Francisco Maria da Silva. Não consta que a Igreja tenha voltado a comprometer-se com o terrorismo depois de extintos o MDLP e o ELP. Até o bondoso cónego Eduardo Melo se entregou mais ao Sporting de Braga e à saudade que tem por «esse grande estadista» que pensa ter sido Salazar.

Mas os bispos não podem ignorar as palavras do paladino da liberdade que foi o Cardeal Ratzinger, que usa agora o pseudónimo de Bento XVI: «O cristão é uma pessoa simples» e «os bispos devem defender esta gente sincera dos intelectuais».

É por isso que em Timor é mais fácil cumprir a vontade de Deus. Ximenes Belo proibiu o uso dos contraceptivos. Agora, Alberto Ricardo da Silva e Basílio do Nascimento, bispos de Díli e Baucau, respectivamente, não toleram o carácter facultativo da religião nem a redução da carga horária. A salvação das almas não pode estar sujeita à vontade dos homens. Deus não se discute. A Bíblia não se põe a votação. Os sacramentos não são mercearia, à espera dos fregueses.

Na diocese de Díli castiga-se o corpo dos réprobos para lhes salvar a alma, prendem-se os suspeitos para os libertar dos pecados, ameaça-se a vida dos danados para que possam arrepender-se e gozar a vida eterna.

Não falta liberdade em Timor. Todos podem rezar o terço. Há missas frequentes. Os cânticos religiosos são estimulados. Os casamentos abençoados procriam para maior glória de Deus. A Virgem Santíssima viaja em papel colorido nas mãos dos crentes.

Em Timor cada homem é um soldado de Cristo cujos batalhões são comandados por dois bispos, auxiliados por uma multidão de freiras e padres. Em Timor o catolicismo avança em plena Idade Média. Em Portugal, o Governo e a Conferência Episcopal não sabem o que se passa em Timor e aguardam instruções divinas ou do Papa, dois intrujões com provas dadas e mentalidade anacrónica à espera de reciclagem.

A ICAR é pacífica.

1 de Maio, 2005 fburnay

Está aí alguém?

Bastante agoniado pela desculpa, já esfarrapada do uso, de que a Igreja é feita de homens que cometem erros, mesmo sob o dogma da infalibilidade papal, e que assim tenta perdoar os crimes do passado sob o manto da má memória e das vicissitudes históricas, lembro aos seguidores da ICAR que esta não perde tempo a fazer uso dessa propriedade tão humana que é a imperfeição.

É que a ICAR está a cometer um erro, bem recente mas nada original, em Timor.

A atitude da parte dos crentes também não é propriamente inovadora. Vão querer esperar uns anos para condenar o que está a acontecer agora? Vão querer deixar as coisas arrefecer e então ouvir as desculpas do vosso infalível pontífice para depois desbobinarem a posição oficial da ICAR sobre o assunto a quem constrangedoramente optar por pegar no assunto? Ou será que os acontecimentos que têm tido lugar em Timor são inocentes demais para rivalizar com o passado da vossa Igreja?

1 de Maio, 2005 Palmira Silva

Inquisição em Dili

De acordo com o Diário de Notícias, que cita uma testemunha que pede o anonimato (pelas razões óbvias) os dois portugueses que foram agredidos pelos fanáticos católicos que se concentram em frente à residência do primeiro-ministro timorense foram sujeitos a um «tribunal popular na casa do bispo de Díli e maltratados durante quatro horas».

A testemunha acrescenta que «Os dois estavam sentados num canto, todos escavacados, num pequeno anexo, insisti para que os levassem a um hospital, mas diziam que não, que ‘eles tinham de ser julgados, num tribunal à maneira’, com jurados e tudo». Os dois portugueses, um professor e um funcionário de uma empresa de construção, só foram libertados deste reviver da boa tradição inquisitorial quando outro português decidiu ficar como refém dos tresloucados e prepotentes delegados da Igreja de Roma em Timor, certamente para permitir tratamento médico às primeiras vítimas desta tentativa de golpe de estado teocrático.

Segundo o Diário de Notícias, o português que testemunhou o «tribunal popular» disse ainda que numa tentativa de menorizar o sequestro de dois cidadãos estrangeiros em casa do Bispo, o porta-voz do Episcopado, padre Domingos Soares, terá dito que «também temos aqui jovens timorenses que não se portaram bem, não são só os portugueses».

O mesmo padre Domingos Soares acabaria por reconhecer os acontecimentos ao jornalista da RTP/Antena 1 em Díli «Todas as pessoas de quem desconfiamos, e cuja atitude é diferente, são levadas para o centro de investigação para esclarecer as suas atitudes». Ou seja, admite que há um «tribunal popular» em casa do Bispo. Como nos «saudosos» tempos da Inquisição, a Igreja Católica timorense arroga-se ao direito de julgar cidadãos, crentes ou não crentes, por atitudes «diferentes» das preconizadas pela «santa» Igreja!

1 de Maio, 2005 jvasco

Aspiração clericalista

Não só em Timor, mas em muitas partes do mundo, vários crentes de diferentes religiões lutam para conseguirem concretizar as suas aspirações…

1 de Maio, 2005 Mariana de Oliveira

A luta continua

De acordo com o presidente da FRETILIN, Francisco Guterres «Lu-Olo», a Igreja Católica mantém cárceres privados na residência do bispo de Díli e que cidadãos se encontram lá detidos.

Esta notícia surge depois de doze dias de manifestação, organizada pela ICAR, contra a decisão do governo timorense de tornar o ensino da religião facultativo e pago por aquela confissão religiosa, em 32 escolas nacionais.

Não se ficando pela tentativa de invasão do Palácio Governamental, censura de jornalistas e de pressões várias, cidadãos portugueses foram agredidos pelos protestantes.

De acordo com o artigo 12º Constituição da República Democrática de Timor-Leste, «o Estado reconhece e respeita as diferentes confissões religiosas, as quais são livres na sua organização e no exercício das actividades próprias, com observância da Constituição e da lei». Ora, a Lei Fundamental, no artigo 16º, consagra o princípio da igualdade e da universalidade, ou seja, «todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres» e, assim, «ninguém pode ser discriminado com base na cor, raça, estado civil, sexo, origem étnica, língua, posição social ou situação económica, convicções políticas ou ideológicas, religião, instrução ou condição física ou mental». Conjugando estes dois preceitos, temos que o Estado Timorense é laico e que, ao entender que a disciplina de religião e moral, no ensino público, deve ser facultativa e financiada pela confissão religiosa em causa, está apenas a observar os princípios constitucionais mais básicos.

Para além disso, apesar da liberdade de reúnião e de manifestação estar assegurada no artigo 42º, esta implica que seja «pacífica e sem armas». Não parece que o incitamento ao derrube de um governo e a agressão a cidadãos estrangeiros se insira na definição de «pacífico».

Em suma, a Igreja Católica, ao tentar um golpe de Estado – por uma bagatela, diga-se de passagem – está a imiscuir-se nos assuntos de Estado de uma jovem República de forma injustificável e inadmissível numa Democracia civilizada.