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Etiqueta: Opinião

5 de Outubro, 2025 Eva Monteiro

Carta a um Crente

(Quase) todas as quartas-feiras sou anfitriã de um debate online em que convido crentes a discutirem temas que me parecem relevantes à luz das suas crenças. Faço-o através da plataforma TikTok e vou lá deixando também, em formato de vídeo, algum conteúdo. Foi com alguma surpresa que encontrei na minha caixa de entrada desta plataforma uma mensagem mais educada e razoável que as do costume (normalmente são insultos). Sou detalhada nas minhas respostas, pelo que no fim, achei que o texto poderia ser útil e decidi publicá-lo aqui. O que se segue é a mensagem inicial desta pessoa:

Ponderei bastante antes de enviar mensagem. Era bem mais fácil não dizer nada e pronto, vida que segue. Mas não consigo concordar contigo em relação às religiões. As religiões têm um papel fundamental na sociedade e esta é somente a minha opinião. E esta é a minha verdade. Tu tens a tua e outra pessoa qualquer poderá ter a dela e está tudo certo. Sem julgamentos, até porque a meu ver cada um tem o seu caminho e trajeto a seguir. Que me digas que houve e há uma instrumentalização por parte dos homens em relação a essas mesmas religiões, sem dúvida alguma, 100% de acordo. No entanto, as religiões na sua essência são apenas e só uma maneira de mostrar valores e distinguir o certo do errado. Percebo que me digas que isso faz parte da educação de cada ser, mas na minha opinião não é a mesma coisa. Pois uma coisa é o pai, ou a mãe, ou mesmo a professora, outra é supostamente uma entidade superior a demonstrar o bem ou o mal.

Atenção que à medida que crescemos todos nós optamos por diversos caminhos e começamos a questionar esses mesmos ensinamentos. O que é normal pois são apenas histórias que passaram de pessoas para pessoas e que quem as passa age como se fossem verdades absolutas.

Como é lógico, devemos questionar sempre e não acreditarmos em algo só porque sim. Devemos tirar as nossas próprias conclusões, pelas nossas próprias experiências e também pelas nossas pesquisas se assim o desejarmos e quisermos saber mais. Por exemplo, se me perguntares se eu acredito em Deus, eu vou responder o que respondo sempre. Eu não acredito, eu sei que Existe.

Não me identifico com nenhuma religião. Fui educado sim na igreja católica cristã (é cultural) e tive passagens pelo budismo. No entanto, desde os meus 5 anos de idade que tenho contato com outros planos, que não aquele que estamos no momento presente. Estudo o espiritismo segundo Allan Kardec, sempre baseado no método científico.

Como eu costumo dizer, o espiritismo não é uma religião, é um modo de vida. É apenas a maneira como vemos o mundo e que não há certos nem errados, há apenas experiências e modos de fazer e ver as coisas de maneira diferente. Lá porque dizes que algo é assim e eu digo que é assado é tudo uma questão de perspectivas. Estamos sempre a aprender e a evoluir.

Peço desculpa pela intromissão e pelo testamento. Bom fim de semana.

A minha resposta:

É a tua vez de me perdoares a extensão da resposta. Quando acabei de a escrever dei conta que talvez tenha sido detalhada demais. Ainda assim, acho que devo escrever o que tenho a dizer e tu decidirás se tens o tempo e a paciência de fazeres a leitura e até, se eu tiver alguma sorte, responderes aos pontos em que discordo contigo.

Prometi que te respondia mal pudesse dar atenção completa à tua mensagem e tive algum tempo para ponderar. É sempre um sinal de integridade intelectual quando alguém que me manda mensagem privada numa rede social se dispõe a refletir, questionar e dialogar, mesmo quando o tema é sensível; e poucas coisas o são mais do que as crenças religiosas. Por isso, antes de mais, quero agradecer-te novamente pela mensagem.

O facto de não concordares comigo quanto às religiões é válido, temos direito a portar diferentes opiniões e a defendermos diferentes posições. Contudo, eu acredito em fundamentar as minhas posições e a questionar o fundamento das posições contrárias à minha. Desta forma, posso entender se a minha posição está afinal, errada. Hoje não foi o dia. Parece-me que confundes, antes de mais, opinião com verdade. Esta ideia de que dada coisa é “a minha verdade” é completamente descabida. É a tua opinião, faz parte da tua mundividência, é o que tu achas. A verdade é outra coisa. Não depende da opinião nem da perspectiva de quem afirma que algo é verdadeiro, mas da coerência entre a afirmação e a realidade. Isto é, uma afirmação é verdadeira se corresponder aos factos ou ao estado de coisas que a pessoa afirma.

Quanto a opiniões, cada um tem a sua, é verdade. Por outro lado, não devo aceitar tudo o que me dizem só porque as pessoas têm direito a terem opiniões. Podemos certamente concordar que nem todas as opiniões fazem sentido. Há quem acredite que a terra é plana. Têm direito a acreditar numa coisa falsa, mas eu não tenho que aceitar que a terra é plana só porque essa é a opinião de uma pessoa que está muito claramente errada mas que decidiu ser essa “a sua verdade”. Há opiniões sobre tudo e para todos os gostos. Algumas opiniões são inócuas, outras têm consequências. Quando a consequência só atinge o próprio, está tudo bem. Quanto a consequência atinge outros ou a sociedade em geral, creio que opor-me é imperativo.

Do ponto de vista histórico, é verdade que as religiões moldaram civilizações, inspiraram arte, música e literatura, e serviram de estrutura moral e social durante séculos. Mas a questão crucial é: a que custo e com que fundamentos. A religião, de uma forma geral, foi a primeira explicação que a humanidade conseguiu dar a grandes questões, mas não foi a última nem foi a melhor. Pelo contrário, é a mais imperfeita das explicações do mundo e a que provocou piores danos. Contudo, ainda que não tivesse provocado danos e não fosse hoje uma visão obsoleta, o facto de em tempos ter tido utilidade não significa que seja verdade. São dois conceitos diferentes. Um vidente pode ser útil a um cliente que lá vai desabafar, mas não deixa de ser charlatanice. Naturalmente, não concordo contigo que as religiões ainda têm esse papel social, pelo menos no ocidente secularizado em que as leis, feitas por pessoas para pessoas, moldam a nossa vida diária. Por outro lado, a religião mantém esse poder em países onde a teocracia é a regra. Acho que basta olhar para os países que não fazem a separação entre o estado e as organizações religiosas para vermos o quanto a religião corrompe e destrói sociedades inteiras.

Quando alguém me diz que as pessoas é que instrumentalizam a religião, sinto que estamos a cair numa tautologia. A religião não é petróleo. Não é uma coisa que a humanidade descobriu e que não soube usar corretamente. A religião é uma construção humana cujo objetivo é o controlo. Parece-me por isso evidente que um instrumento seja… instrumentalizado. Basta olharmos para as sociedades para entendermos que tipo de deuses é que as pessoas criam. Uma sociedade de pequenas tribos, onde toda a gente se conhece e em que a violência e o crime são situações pontuais e aberrantes tende a ser animista. Já uma sociedade que desenvolve grandes cidades tende a criar deuses que vigiam, que estão em todo o lado, que castigam pecados. A religião é o que as pessoas criam antes de desenvolverem sistemas legais e modos mais seculares de regulação social.

Na sua essência, as religiões não te dão um sistema de valores. Pelo contrário, és tu que imprimes moralidade à religião que professas. Por isso é que tantos cristãos não são racistas, misóginos e violentos, apesar de o seu livro sagrado estabelecer um sistema de “valores” absurdo e impensável. Se decidisses agora seguir à letra o sistema de valores que o cristianismo, o judaísmo ou o islamismo oferecem nos seus escritos sagrados, só não ias parar à cadeia se te rebentasses juntamente com uma bomba, ou te suicidasses após desatares a matar infiéis, pecadores, bruxas, ateus e outros. Se seguisses à letra esse sistema de “valores”, não distinguirias o certo do errado. É porque consegues distinguir o certo do errado que tens a capacidade de ignorar as partes imorais de uma religião e selecionar ou reinterpretar as partes que se coadunam com o teu sistema moral.

Para mim, distinguir o que é bom e o que é mau também não faz inteiramente parte da educação de cada pessoa. Faz também parte do processo de seleção e da sobrevivência da espécie. Somos uma espécie cooperativa e se não tivéssemos a capacidade de coexistir, de saber que não se faz mal aos outros, que devemos ser bons uns para os outros, não sobreviveríamos enquanto espécie. Com todos os defeitos que temos, temos tendência a não sermos violentos, a não sermos destruidores da nossa própria espécie. É coisa comum a muitas espécies, especialmente entre os mamíferos e especificamente entre os primatas que nos são, do ponto de vista da evolução, mais próximos. A mãe e o pai, ou a mãe e a mãe, ou o pai e o pai, ou a avó, o avô, o tio, a tia, ou seja quem for que educa uma criança tem um papel essencial na sua vida através da educação e isso eu não nego. Uma criança bem educada terá um futuro mais feliz e útil, para si e para os outros. Contudo, falas de uma entidade superior que demonstra o bem e o mal. Suponho no entanto que o teu deus, seja ele qual for, nunca te respondeu às preces de forma audível e verificável. Não temos quaisquer provas de que uma entidade sobrenatural alguma vez tenha falado ou aparecido a alguém. Temos é padres, pastores, bispos, apóstolos, profetas, gurus e restantes líderes espirituais que dizem saber o que está certo e o que está errado, e que afirmam o que é ou deixa de ser a vontade do respetivo deus. Ora, cada líder religioso tem a sua opinião sobre o que está certo ou errado, pelo que não existe nessa suposta comunicação divina objetividade suficiente, nem nos dias de hoje nem ao longo da História, para suportar a tua afirmação. Eu creio que entendes isto, pela forma como escreves, mas não me parece que entendas que o que dizes num parágrafo contradiz o que dizes no parágrafo anterior.

Concordo que devemos questionar, tirar as nossas próprias conclusões, como dizes. Mas então em que momento desse processo é que entra deus?

Dizes uma frase que já ouvi centenas se não milhares de vezes em debates, especialmente com cristãos e muçulmanos: “Eu não acredito, eu sei que Existe.” Na verdade é o oposto, tu não sabes, tu acreditas. É matéria de fé e não de facto. Se soubesses efetivamente que o teu deus existe, terias como prová-lo. Se fosse esse o caso, não estaríamos a debater via mensagem no TikTok, terias mostrado esse facto à humanidade, não existiriam ateus e terias ganho meia dúzia de prémios Nobel e pelo menos uma beatificação. É apenas, e lamento ter que to dizer de forma tão direta, uma frase feita daquelas que os padres e os pastores gostam de atirar ao ar mas que carecem de qualquer tipo de sentido. É aquela jogada de dizer “eu sei no meu coração que deus existe” – se sabes no teu coração, não sabes na tua cabeça. Estou interessada naquilo que é verificável, não em “verdades pessoais” que é uma forma de dizer crenças infundadas.

Quando alguém me diz que não se identifica com nenhuma religião chego sempre à conclusão que é porque não se querem comprometer à partida com determinados dogmas, com os quais podem não concordar ou não saber como sustentar. No entanto, quando faço perguntas a quem diz que não se identifica com nenhuma religião, chego sempre à conclusão que o deus em que acreditam é aquele que lhes foi imposto na infância e que as suas crenças religiosas vão de encontro às crenças da instituição religiosa correspondente, ainda que não na sua totalidade. Resumindo, posso dizer que apesar de tu não te identificares com nenhuma religião, bastariam 10 minutos de conversa honesta para eu fazer essa identificação por ti. Aliás, esse diálogo, a ser feito internamente e de forma honesta, provavelmente também faria com que te identificasses com alguma religião. Vou apostar, sem muita base, porque essa conversa não aconteceu, que acreditas no deus da Igreja Católica (omnisciente, omnipotente, omnipresente e bom), mas que gostas de práticas mais místicas pelo que em vez de ires à missa preferes meditar e que não te identificas com a Igreja Católica porque o Kardecismo te conferiu a crença de que o mundo dos espíritos está ao teu alcance, quando a Igreja o nega. Isto é, descaradamente, um pré-conceito da minha parte. Não o nego e até peço desculpas se estiver errada. No entanto, apostaria uns euros nesta opinião se fosse forçada a isso.

Quanto ao espiritismo e à ideia de contacto com outros planos, o que posso dizer é que a sinceridade da experiência não garante a veracidade da interpretação. As experiências subjetivas (visões, intuições, sentimentos de presença) são universais e explicáveis em termos neurológicos e psicológicos. A mente humana é extraordinariamente criativa, e o cérebro é capaz de gerar experiências intensamente reais que, no entanto, não têm correspondência objetiva. O método científico serve precisamente para proteger-nos dessas ilusões, inclusive das mais agradáveis.

Embora Allan Kardec afirmasse seguir o “método científico” na elaboração da doutrina espírita, na realidade ele nunca aplicou qualquer procedimento científico reconhecível. Não houve observação controlada, hipóteses testáveis, experimentação reproduzível nem revisão por pares. O que Kardec fez foi recolher relatos mediúnicos e interpretá-los à luz das suas próprias convicções, apresentando-os como factos. Esse processo pode ter sido feito com sinceridade, mas não é ciência, é especulação metafísica. A ciência baseia-se em evidências verificáveis e na possibilidade de refutação. Já o espiritismo baseia-se em testemunhos subjetivos e fenómenos não demonstráveis. Portanto, apesar de Kardec desejar dar ao espiritismo uma aparência racional, os seus escritos pertencem ao domínio da crença, não ao da investigação científica. Que seja esse o teu modo de vida é uma escolha pessoal que não tenho que questionar. Contudo, é só isso, uma escolha de vida que em nada demonstra a veracidade dos ensinamentos que escolheste seguir e que em nada se baseia no método científico.

Concordo inteiramente contigo num ponto essencial: devemos sempre questionar e continuar a aprender. O problema é que o verdadeiro questionamento exige que também coloquemos em dúvida as nossas certezas mais íntimas, inclusive as espirituais. E é aqui que a postura ateísta não é uma negação da espiritualidade humana, mas uma exigência de honestidade intelectual. Por fim, suspeito que o que te incomoda no meu conteúdo é sobretudo o anticlericalismo. Deixa-me só referir que o anticlericalismo não é ódio à religião, mas defesa da liberdade de consciência contra qualquer instituição que pretenda ter autoridade sobre o pensamento humano. É uma oposição ao poder clerical. As igrejas e demais instituições religiosas e espirituais, todas elas, devem ser submetidas ao mesmo escrutínio que qualquer outra forma de poder. Isso não é intolerância; é maturidade intelectual.

Ao ler e reler a tua mensagem fico na dúvida: seria uma forma de evangelização? Tens como objetivo arrancar-me do ateísmo herege e pecaminoso? Tiveste necessidade de partilhar as tuas crenças porque sentes que o meu conteúdo as invalida de alguma forma? Ou só quiseste iniciar um debate? Não sei, mas agradeço na mesma a tua mensagem. O diálogo é o que nos permite evoluir.

Evoluímos melhor quando a verdade, e não o conforto, é o nosso objetivo.

29 de Setembro, 2025 Onofre Varela

«ERA UMA VEZ NA AMÉRICA»…

Os Estados Unidos da América (EUA) pelas acções dos republicanos no poder comandados por Donald Trump, deram, de si mesmos, a habitual imagem degradante do que é a política na versão fundamentalista com muletas religiosas.

Charlie Kirk, militante republicano assassinado a tiro no dia 10 de Setembro último, foi homenageado num recinto que se mostrou pequeno para albergar a multidão que acorreu à homenagem, congregando cerca de 90.000 pessoas. Kirk foi honrado como “mártir da fé cristã”, nas palavras do vice-presidente dos EUA, J. D. Vance. E Donald Trump, por sua vez, referiu-o como um “evangelista da liberdade”!…

Esta do “evangelista” é a mais recente versão do Cristianismo no seu modelo de seita fundamentalista, conseguida na confusão do lema “A América Grande Outra Vez” inventado por Trump, que é o candidato ao lugar histórico de ditador dos EUA. Nesta aproximação da América actual ao figurino religioso islâmico-fundamentalista, o Secretário de Estado Marco Rubio comparou Charlie Kirk a Jesus Cristo!…

Por sua vez, a viúva de Kirk tomou parte do espectáculo debitando um discurso místico, perdoando ao “jovem que matou” o seu marido, porque foi o que Jesus fez na cruz, ao dizer “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. “Porque a resposta nunca é o ódio, mas sim o amor. Amor pelos nossos inimigos e por quem nos persegue”.

Seguiu-se um outro momento patriótico com a multidão a entoar a canção “América the Beautiful”, rematada com um discurso do conselheiro presidencial Stephen Miller, dizendo que os que estão contra o activista Kirk “não são conscientes do que despertaram. Vós acreditastes que pudestes matar Charlie Kirk? Só conseguistes torná-lo imortal… agora, milhões tomarão o seu lugar!”

Depois apelou à derrota “das forças das trevas e do mal”, concluindo: “Não podem parar-nos. Nós temos beleza, luz, virtude, força, determinação. Os nossos inimigos não percebem a nossa paixão. Nós construímos este mundo e vamos defendê-lo. Estamos do lado do bem, do lado de Deus”. A seguir, Jack Posobiec, comentador de extrema-Direita e apoiante fervoroso de Trump, na mesma senda de Miller, entrou em cena apelando “a uma guerra espiritual”!…

Chegou o momento de Trump brilhar em apoteose, encerrando o degradante espectáculo. Fez um comício onde enalteceu o ideal “republicano-americano”, defendendo as comissões “caça-dinheiro” que impôs aos países que querem negociar com os EUA; atacou Joe Biden (o seu inimigo de estimação já neutralizado desde as eleições); mais os imigrantes que quer ver expulsos do território; e mais a “esquerda radical” a quem culpa pelo assassinato de Kirk; e ainda os meios de informação independentes por não dizerem o que ele quer que se diga. Acabou em grande, garantindo que nos seus oito meses de governação converteu os EUA no “país mais sexy do mundo”!…

Se tudo isto não é uma súmula de discursos de loucos… então o que é?!…

Aquilo que seria o funeral de um activista político assassinado, foi transformado numa jornada “político-religiosa” com Deus na boca e o Diabo no coração de todos os intervenientes, ao estilo das ameaças extremistas islâmicas!

E tudo isto acontece, hoje, na América!…

28 de Setembro, 2025 Onofre Varela

Pode-se viver sem deuses, mas não sem Conhecimento

Roberto Calasso foi um escritor e editor italiano que morreu em Milão no dia 29 de Julho de 2021, com 80 anos de idade. Reconhecido pelos seus amigos como sendo dono de um carácter “muito difícil e complicado”, também se lhe reconhecia a sua extrema elegância, falando com a precisão dos sábios. E sabia manter o silêncio sobre qualquer pensamento do qual ainda não tivesse tomado consciência plena para se poder exprimir sobre ele.

O filósofo e ensaísta espanhol Juan Arnau, especialista em religiões orientais, escreveu sobre Roberto Calasso, começando por dizer que “da solidão surge o conhecimento, do conhecimento a arte e da arte o eterno, fechando-se o ciclo”. Calasso não encontrava diferença entre “o pensamento e a literatura”, convivendo com as duas matérias como se fosse uma só.

Numa das suas últimas entrevistas, o escritor e editor confessou que se pode viver sem os deuses, mas que “a experiência do divino muda tudo”, e é essencial saber reconhecê-lo. Calasso soube ler o mundo como se fosse um texto sagrado no qual estamos entrelaçados, mas, ao mesmo tempo, olhava com receio os êxitos da nossa civilização tecnológica, dizendo que “a tecnologia cria a ilusão do conhecimento”, e que “estamos perto de sabermos quase tudo do que não nos interessa saber”.

Sobre a Neurociência (disciplina da moda no século XXI), Calasso mostrou-se muito crítico da ideia de “a consciência ser uma propriedade da matéria”, concluindo que a antiga busca do divino, encetada pelos gregos, se transformou hoje na indagação sobre a Natureza e a consciência, mas que a nossa civilização não foi (ainda) capaz de distinguir “mente e consciência”.

Nem sequer Husserl, que foi o primeiro a fazer da consciência o tema central da filosofia contemporânea. (Gustav Hussel [1859-1938] foi um filósofo e matemático alemão, fundador da “escola da fenomenologia”, cujo pensamento influenciou profundamente todo o cenário intelectual do século XX, mais a parte do século XXI que já vivemos).

Ao contrário do que é aceite – de que a mente está no cérebro – Calasso defendeu o contrário: o cérebro é que está dentro da mente! A identificação entre mente e cérebro é um dos descalabros do pensamento moderno – dizia ele – para a seguir sentenciar que “na sociedade secular tudo é idolatria, e que toda a boa literatura é sagrada”. A mente deixou-se embrulhar na sua própria projecção “e a inteligência deixou-se absorver pelos algoritmos”, do que resultou esta fatalidade: “os verdadeiros problemas não têm solução”… ou não estamos nada interessados em procurá-la, encantados que nos sentimos na artificialidade com que decoramos a naturalidade, como se fosse uma árvore de Natal!…

19 de Setembro, 2025 Onofre Varela

Bandidos e religiosos no poder

Por Onofre Varela

No primeiro dia do seu segundo mandato (21 de Janeiro de 2025), Trump indultou cerca de 1.600 condenados por delitos cometidos no assalto ao Capitólio de Janeiro de 2021, onde morreram cinco pessoas e houve muita destruição. A origem do tumulto esteve num discurso de Trump, enquanto perdedor das eleições, incendiando a raiva dos seus apoiantes, levando-os à prática de actos de bandidagem. Actos que Trump premiou quatro anos depois libertando os bandidos.

Trump e Bolsonaro (este seguiu aquele no acto de assaltar a “Casa da Democracia”) fazem parte de um punhado de tiranos que se imaginam “mandatados por Deus”. Bolsonaro deixou-se “benzer” pelo líder de uma seita extremista, dita cristã, e Trump criou o “Departamento de Fé da Casa Branca”, tendo como “assessora espiritual”, desde Fevereiro de 2025, Paula White, de 59 anos, que proclamou esta enormidade: “está a caminho uma legião de anjos para oferecer reforço celestial a Trump” (jornal espanhol El País de 13/09/2025).

Ao contrário de Bolsonaro, Trump não se assume como “fiel crente de uma fé religiosa”, só porque o seu umbigo fortemente inchado de poder e arrogância, não lhe permite submeter-se aos ditames de um deus; ele está acima de qualquer deidade… todos os deuses do mundo é que devem submeter-se-lhe… a “fé” de Trump é outra. Como comissionista que é, não obedece a outros deuses que não sejam o lucro, as suas contas bancárias, o desejo de exercer o poder sobre todos os governos do mundo, e de ver submetidos a si todos os cidadãos do universo.

Trump encarna “uma virilidade autoritária enraizada no imaginário evangélico”, a qual faz parte da cartilha dos extremistas da Direita americana (quiçá mundial) que interrogam: “Se Deus decide quem é o rico e o pobre, o que é que o Estado pode fazer perante tal decisão divina?”. Esta perigosa associação da política extremada de Direita com o extremismo religioso cristão, criou uma nova ideia referida por “cristoneofascismo” que preocupa muita gente, incluindo teólogos como Juan José Tamayo (que acabou de publicar o ensaio «Cristianismo Radical», na editora Trotta – Madrid) no qual afirma que “o evangelho da prosperidade” – conceito extremado na Direita política dos EUA e da América do Sul – está a arrebatar ao cristianismo a sua mensagem original.

Se os “pobrezinhos europeus” se consolam na ideia da bondade de Deus, do outro lado do Atlântico isso não basta. Enraíza-se a ideia de que “Deus abençoa os bons cristãos com êxito material”. Se a minha avó ouvisse tal argumento benzia-se com a mão esquerda e morria outra vez! (Bom… na verdade, a Igreja sempre praticou o poder material. A filosofia do “pobrezinho mas honrado” não passa de artimanha saloia para arrebanhar fiéis na escala dos mais desgraçados).

Quem alerta para essa ideia é Kristin du Mez, autora do livro “Jesús y John Wayne”, onde diz que os cristãos substituíram o humilde Jesus dos evangelhos por ídolos de masculinidade autoritária e pelo nacionalismo cristão. Pior ainda… há quem difunda a ideia de que “os pobres são indignos e os únicos culpados da sua pobreza”, cuja mensagem contraria os ensinamentos cristãos, mas que pretendem fazer lei na «América grande outra vez», de Trump.

Concluindo este meu raciocínio, alerto os meus leitores para o facto de Trump apoiar a decisão de El Salvador (para cujas prisões “exportou” imigrantes latino-americanos) poder abolir os limites do mandato presidencial, abrindo caminho ao presidente autocrático Nayib Bukele (empresário de 44 anos filiado no partido de extrema-Direita “Novas Ideias”, no poder desde 2019) para que se eternize no cargo de presidente do país). Isto devia preocupar-nos a todos porque, na sua campanha eleitoral, Trump disse aos americanos, ser “a última vez que precisam de votar” numa clara alusão à vontade de se eternizar no poder se conseguir, nos seus quatro anos de mandato, alterar as leis fundamentais da democracia nos EUA!…

(Quanto aos Bandidos e Religiosos referidos no título, deixo ao leitor uma viagem pela geografia política do mundo para poder elaborar a sua própria lista).

OV

12 de Setembro, 2025 Onofre Varela

Trump enterra o Ocidente num “cemitério bonito”

Por Onofre Varela*

*Publicado no Semanário Alto Minho e na Gazeta de Paços de Ferreira.

Donald Trump tomou conta do seu segundo mandato depois de ter sido derrotado eleitoralmente no final do primeiro (e após ter tentado uma espécie de “golpe de Estado” no incentivo que deu aos seus apoiantes para tomarem de assalto o Capitólio), prometendo tornar a “América grande outra vez”. (O seu homólogo brasileiro está a ser julgado por ter incentivado as mesmas acções de assalto ao poder, mas Trump está escudado pela “lei do Far-West”). 

O seu modo de “engrandecer a América” baseia-se na experiência que tem de comissionista, cobrando taxas pelo serviço de intermediação… profissão que deve ter exercido durante toda a sua vida, no estilo de cobrar dois cêntimos por cada botão vendido no território que dominava, tal como Al Capone cobrava com a venda ilegal de whisky no tempo da “Lei Seca” dos anos 20 e 30, nos bairros nova-iorquinos (a “honestidade” do seu enriquecimento poderá ter tido por base o mesmo modelo).

O espírito comercial de Trump, ávido de encher os cofres do Estado (e de fomentar o seu próprio negócio imobiliário), leva-o a reduzir despesas não apoiando a investigação científica, cortando verbas a universidades impedindo a formação de muita gente (entre a qual, estrangeiros), despedindo profissionais qualificados, insultando adversários políticos, ameaçando cancelar a licença de televisão à NBC, dificultando a vida a jornais, começando pelo The New York Times que teima em resistir-lhe, e expulsando imigrantes.

Com tal atitude Trump prepara-se para transformar os EUA numa espécie de Rússia/Putiniana ou China/comunista/capitalista, ambas governadas por quem despreza as liberdades individuais, mais todos os valores humanistas e solidários praticados na Europa desde 1789, reforçados com o fim da Segunda Guerra Mundial há 80 anos. 

Entre a América e o Oriente (via Oceano Atlântico), fica esta Europa que representa a Civilização Ocidental e que vive maus dias. Embora prezando a máxima que diz: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (no significado de “ausência de opressão, direitos iguais para todos e solidariedade”) instituídos após a Revolução Francesa no século XVIII, a Europa vê os seus inimigos internos cada vez mais apoiados por ideais totalitários importados de regimes políticos ditatoriais, colocando em risco todos os valores democráticos e as liberdades conquistadas pelos europeus que nos precederam e que as construíram sobre as ruínas da Segunda Guerra Mundial… fazendo esta Europa Moderna amante da Liberdade.

Do outro lado do mundo, Xi Jinping (China), Narendra Modi (Índia) e Vladimir Putin (Rússia) organizam-se numa frente comercial e num exército bem “municiado” de armamento e soldados, apoiados por outros vizinhos, como: Cazaquistão, Paquistão, Irão e Coreia do Norte, mais cerca de uma dúzia de outros países, de entre os quais se conta: Turquia, Arábia Saudita, Egipto e Myanmar (ex-Birmânia).

Este projecto “Made in Oriente” foi agora anunciado por Xi Jinping como sendo “um esforço de propiciar um modelo de diálogo alternativo ao ocidente”, cuja apresentação teve como convidado especial (para “inglês ver”…) António Guterres numa reunião bi-lateral com Xi Jinping na China. Este “modelo de diálogo alternativo”, obviamente, não passará de um monólogo imperial na imposição de uma única ideia (o que é costume acontecer com ditadores como são Xi e Putin)!

O futuro de todo o mundo adivinha-se muito preocupante, com o comissionista dos EUA a aliar-se aos opressores de todas as liberdades, ou a deixar-se enganar por eles, levado pela sua extrema vaidade incauta e inculta, convicto de que todas as suas acções “são bonitas” não percebendo que corre o risco de ajudar a transformar o mundo (principalmente o Ocidente que tanto preza o Humanismo) num “cemitério bonito”!

OV

Cartoon da autoria de Onofre Varela
5 de Setembro, 2025 Ricardo Alves

Missa de Estado? Era o que faltava.

Texto inicialmente publicado no blogue Esquerda Republicana, por Ricardo Alves.

A ICAR apropriou-se da tragédia do Elevador da Glória para se vestir de Igreja de Estado. Contou para tal com a conivência do presidente da República, do Primeiro Ministro, de vários ministros e do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que colaboraram na encenação, assim como políticos da «oposição».

A tragédia da Glória não foi católica, aliás não há religião comum a coreanos, um marroquino, israelitas, brasileiros, norte-americanos, um suíço, alemães, etc. E Lisboa não tem, que se saiba, religião oficial. Tal como a República.

Faz parte da liberdade religiosa a ICAR promover uma missa pela razão que entender, como faz parte dessa liberdade católicos lá irem. Só que a encenação da missa à hora dos telejornais com as altas autoridades do Estado na primeira fila foi uma descarada exibição de poder.

Não há qualquer obrigação para os políticos do poder ou da oposição de se prestarem a estas cerimónias. Há muitas formas de homenagear os mortos e confortar os vivos, e participar na forma católica é privilegiar essa igreja.

Foi confrangedor.

4 de Setembro, 2025 João Monteiro

Sobre o aproveitamento do desastre

Ontem à tarde, os portugueses foram confrontados com o trágico acidente do Elevador da Glória, em Lisboa, que causou 16 mortos e 21 feridos, dos quais pelo menos 5 em estado grave. Dada a gravidade da situação, considero correcto que tenha sido decretado um dia de luto nacional e três dias de luto municipal. Mas a par do processo de luto, é importante que durante os próximos dias se apurem os factos e as responsabilidades do sucedido.

Face à gravidade e seriedade do desastre, esperava que todos os atores, sociais e civis, evitassem fazer qualquer tipo de aproveitamento deste caso, durante o período de luto instituído. As minhas expetativas foram logo goradas, uma vez que a Igreja Católica decidiu fazer uma missa na Igreja de S. Domingos, no Rossio. A missa, presidida pelo Patriarca de Lisboa, pretendeu ser «um momento de oração e solidariedade para com os familiares e amigos das vítimas». Dado o mediatismo do acidente, na missa estiveram presentes também políticos locais e representantes do governo. Fica a dúvida se lá estiveram para uma sincera homenagem às vítimas ou se estavam preocupados com possíveis ganhos políticos, dado que estamos a pouco mais de um mês das eleições autárquicas. Deixo a resposta à consideração dos leitores.

Se a intenção fosse de prestar uma genuína homenagem às vítimas, haveria outras maneiras de o fazer que não num templo religioso, em que uma religião em particular tem a ganhar com essa visibilidade e protagonismo, resultado do mediatismo do acidente.

Também compreendo que dado o desastre ter sido muito recente, que cada um de nós, principalmente em Lisboa, estará ainda a lidar a quente com todas as emoções, sem pensar bem nas suas ações. Outros, porém, poderão estar a ser mais calculistas. Os próximos tempos permitirão a cada cidadão tirar as suas conclusões.

Por enquanto, espero que se continue a respeitar o luto pela perda de vidas. A minha solidariedade aos sobreviventes e às famílias de todas as vítimas.

4 de Setembro, 2025 Onofre Varela

O RECADO DE UM SOCIÓLOGO… E O MEU.

Por Onofre Varela

Na imprensa espanhola li uma entrevista ao professor de sociologia norte-americano Douglas Massey, na qual disse que, depois de Donald Trump ter ganho as eleições a Kamala Harris, teve este desabafo que enviou aos seus amigos, por Internet:

«A maioria dos votantes parece aceitar a sombria mensagem de uma nação em decadência, com a falsa narrativa de uma economia em crise, o aumento da delinquência e das minorias predadoras […] A campanha de Trump foi abertamente racista, xenófoba e autoritária. Os seus partidários parecem dispostos a abandonar a democracia apoiando um demagogo autocrático que promete ‘oferecer tudo’ enquanto alimenta a sua ira e o seu ressentimento […] Uma vez no poder, com um Congresso e um poder judicial controlados pelos republicanos, Trump governará despoticamente como um populista, baseando-se na sua compreensão desinformada e cada vez mais delirante da nação e dos seus desafios, causando estragos na economia política dos Estados Unidos e da ordem política global». 

Foi um discurso premonitório!

Neste momento o mundo tem conflitos produzidos por vários actores políticos, destacando-se de entre eles o próprio Trump, mais Putin e Netanyahu. São três protagonistas de dramas que ocupam noticiários mostrando destruição e morte em dois territórios invadidos (a Palestina por Israel e a Ucrânia pela Rússia), cujas invasões são condenadas por todas as leis e acordos internacionais… mas que Trump apoia! 

Sendo evidente a maldade feita aos povos inocentes da Palestina e da Ucrânia, os invasores são apoiados por alguns jovens (e menos jovens) deste meu país que teve um ditador durante 48 anos, o qual foi combatido, unicamente, pelos heróicos militantes comunistas (cujo reconhecimento público e nacional está por fazer) que sofreram no corpo e na mente as acções da ditadura fascista que nos oprimia e que enviou a juventude para uma guerra colonial ignóbil.

50 anos depois de vivermos em Democracia pluralista, neste Portugal regido por uma Constituição verdadeiramente HUMANISTA (quiçá, ao tempo, a mais progressista do mundo) que saiu da Assembleia da República em 1976, vejo, com muita preocupação, o aumento do apoio dado, dia-a-dia, a aprendizes de ditadores que querem destruir as liberdades conquistadas, e que, no plano internacional, apoiam o genocídio que Israel tenta na Palestina, mais a invasão da Ucrânia pela Rússia!… 

E de entre tais apoiantes contam-se militantes comunistas que desprezam o espírito dos seus heróicos combatentes, os quais me levaram a aderir ao Partido em 1978… mas a abandoná-lo quando os seus deputados, no Parlamento, viraram costas à Ucrânia numa descarada demonstração de apoio ao invasor e condenação do invadido!…

O mundo está ao contrário… o HUMANISMO já não tem valor… deixou de ser atendido por militantes comunistas (alguns nascidos depois da Revolução dos Cravos… mas outros com a minha idade e vivências) e que defendem ditadores pela sua visão sem pinga de HUMANISMO, desfocada pela cegueira ideológica. Os heróicos anti-Salazaristas e militantes comunistas na clandestinidade (cujos exemplos HUMANISTAS me levaram a aderir ao Partido) devem estar a dar voltas no túmulo.

Ou então… eu estive enganado toda a vida!… (Eu não fui ao Trivago…)

OV

Douglas Massey – Fonte: Wikipedia
3 de Setembro, 2025 Onofre Varela

O Papa Leão XIV existe?

Por Onofre Varela

O Papa Leão XIV foi eleito a 8 de Maio de 2025. São passados três meses (100 dias) da sua tomada de posse da cadeira de S. Pedro. Bem sei que três meses não é muito tempo numa organização bi-milenar como é a Igreja Católica… em termos temporais na longevidade de qualquer carreira (mesmo não considerando a idade da instituição), três meses foi ontem.

Porém, tal como o mundo hoje se apresenta, afogado em guerras alimentadas por líderes bélicos, invasores e assassinos dos povos seus vizinhos, a voz do Papa, enquanto referente de uma moral verdadeiramente Humanista e tão propalada pela sua Igreja (é assim que ela se identifica) tem-se mantido quase em silêncio (como é comum dizer-se: num silêncio ruidoso)!…

Pode ser uma atitude defensiva, obrigando-o a pensar muito bem no que quer dizer e como dizer, para ser bem compreendido e aceite, não correndo o risco de mostrar uma imagem de navegador sem rumo definido num mar de interpretações tão diversas e falsas como Judas. O mais certo (segundo o meu pensamento de ateu) é a figura do Papa não valer mais do que a de um chefe de qualquer grupo que só tem interesse para os elementos daquele grupo.

Podemos tentar provar este pensamento com o facto de o Papa Francisco ter sido tão falado, cantado, idolatrado e apresentado como exemplo moral de um perfeito “Jesus” actual, como referência moral que recuperou a degradada imagem da Igreja Católica depois de dirigida por um extremista de Direita-radical como alguns críticos reconhecem ter sido Bento XVI.

Há cem dias que Leão XIV é chefe da Igreja Católica… e nada do seu pensamento passou para a opinião pública, nem o seu nome é referido pelos sectores políticos e sociais que fazem a actualidade. A imagem do seu antecessor, Francisco, ainda perdura na história mais recente da Igreja como seu chefe supremo… como que se Leão XIV não exista, porque não dá sinais de vida, não discursa para fora da Igreja, não critica, não vaticina nem chama a atenção do mundo para aquilo que choca (ou deveria chocar) o seu pensamento… o qual, ninguém sabe qual seja!…

Se eu me colocar no lugar do Papa (o que é um exercício difícil, mas se cada um o fizer quando pretende julgar alguém, esse julgamento deixará de ter razão, ou será feito de um modo menos radical do que a ideia que o produziu), encontro-me sob o peso da forte imagem pública do meu antecessor, e obrigo-me a escolher uma de duas atitudes possíveis: ou continuo no caminho de quem me antecedeu, com todas as imensas dificuldades que vou encontrar no percurso porque eu não sou ele; ou então corto com os laços que me ligariam a ele, fazendo o meu caminho sem receio de comparações que me podem menorizar ou engrandecer, por muito diverso que o meu caminho seja daquele que Francisco percorreu, assumindo o risco de desiludir os crentes que esperavam de mim um “Francisco Segundo”.

Muito provavelmente, neste meu entendimento, estou a atribuir à maioria dos crentes católicos uma consciência moral e ética que eles não têm!… Por outro lado, a parte económica da Igreja é demasiado importante neste mundo onde nada se faz sem o dinheiro que “brota do Inferno” mas que tomou conta dos “altares” das nossas vidas… e dos da Igreja também. O “deus-dinheiro” é o verdadeiro deus da sociedade moderna tão precisada de evoluir no sentido de reconhecer a falta de valores que o dinheiro alimenta, e promover um sentimento maior onde o dinheiro nada vale.

Esta visão moral da despromoção do valor do dinheiro seria uma mais valia para uma Igreja que se diz fraterna e defensora do sentimento do “amor”… mas sem “o guito” que a alimenta, a Igreja falece como falecem os indigentes nas bermas das estradas e nos portais das cidades. Por isso me parece urgente reconhecer a menos-valia do dinheiro e do poder de quem o detém, trocando-o pela mais-valia das pessoas, independentemente de quem elas sejam… basta existirem!

Leão XIV conseguirá promover esta alteração social, transformando qualquer indigente num representante da espécie humana, muito mais importante e digno do que a importância falaciosa e a ausência de dignidade que retratam ratazanas de esgoto como são Trump, Putin e Netanyahu?

1 de Setembro, 2025 Onofre Varela

«Pode-se viver sem deuses, mas não sem conhecimento»

Roberto Calasso foi um escritor e editor italiano que morreu em Milão no dia 29 de Julho de 2021, com 80 anos de idade. Reconhecido pelos seus amigos como sendo dono de um carácter “muito difícil e complicado”, também se lhe reconhecia a sua extrema elegância, falando com a precisão dos sábios. E sabia manter o silêncio sobre qualquer pensamento do qual ainda não tivesse tomado consciência plena para se poder exprimir sobre ele.

O filósofo e ensaísta espanhol Juan Arnau, especialista em religiões orientais, escreveu sobre Roberto Calasso, começando por dizer que “da solidão surge o conhecimento, do conhecimento a arte e da arte o eterno, fechando-se o ciclo”. Calasso não encontrava diferença entre “o pensamento e a literatura”, convivendo com as duas matérias como se fosse uma só.

Numa das suas últimas entrevistas, o escritor e editor confessou que se pode viver sem os deuses, mas que “a experiência do divino muda tudo”, e é essencial saber reconhecê-lo. Calasso soube ler o mundo como se fosse um texto sagrado no qual estamos entrelaçados, mas, ao mesmo tempo, olhava com receio os êxitos da nossa civilização tecnológica, dizendo que “a tecnologia cria a ilusão do conhecimento”, e que “estamos perto de sabermos quase tudo do que não nos interessa saber”.

Sobre a Neurociência (disciplina da moda no século XXI), Calasso mostrou-se muito crítico da ideia de “a consciência ser uma propriedade da matéria”, concluindo que a antiga busca do divino, encetada pelos gregos, se transformou hoje na indagação sobre a Natureza e a consciência, mas que a nossa civilização não foi (ainda) capaz de distinguir “mente e consciência”.

Nem sequer Husserl, que foi o primeiro a fazer da consciência o tema central da filosofia contemporânea. (Edmund Gustav Albrecht Husserl [1859-1938] foi um filósofo e matemático alemão, fundador da “escola da fenomenologia”, cujo pensamento influenciou profundamente todo o cenário intelectual do século XX, mais a parte do século XXI em que já vivemos).

Ao contrário do que é aceite – de que a mente está no cérebro – Calasso defendeu o contrário: o cérebro é que está dentro da mente! A identificação entre mente e cérebro é um dos descalabros do pensamento moderno – dizia ele – para a seguir sentenciar que “na sociedade secular tudo é idolatria, e que toda a boa literatura é sagrada”. A mente deixou-se embrulhar na sua própria projecção “e a inteligência deixou-se absorver pelos algoritmos”, do que resultou esta fatalidade: “os verdadeiros problemas não têm solução”… ou não estamos nada interessados em procurá-la, encantados que nos sentimos na artificialidade com que decoramos a naturalidade, como se fosse uma árvore de Natal!… 

 OV 

Roberto_Calasso_(1991)_by_Erling_Mandelmann