Loading
8 de Novembro, 2009 Ludwig Krippahl

Relacionamentos e margens de erro

Quando era miúdo tive uma professora de português de quem não gostava nada. A princípio. Mas, num momento de inspiração, ocorreu-me que aquilo de que eu não gostava era apenas uma ideia. Todo esse meu desagrado tinha por objecto a opinião que eu formara acerca de alguém que mal conhecia. A epifania serviu de imediato para tornar aquelas aulas muito mais suportáveis. E, a longo prazo, além de ainda me lembrar o que é o pretérito imperfeito do conjuntivo, tem me ajudado muito recordar que, salvo raras excepções, a ideia que formo das pessoas tem uma grande margem de erro. Há muito pouca gente na nossa vida que conheçamos suficientemente bem para ignorar lacunas na informação e estimativas erradas.

No relacionamento com os outros podemos assumir que os juízos que fazemos são fiáveis e evitar desilusões julgando os outros de forma mais pessimista. Ou podemos assumir o melhor das outras pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida dentro da margem de erro e precavermo-nos contra dissabores tendo consciência que esse juízo é muito incerto. A experiência com a professora de português levou-me a optar pela segunda alternativa. É mais agradável, e mais justo, desconfiar da minha capacidade de julgar os outros em vez de ser pessimista acerca das pessoas.

Por isso concordo, em parte, com o que me descrevem os crentes quando dizem confiar no seu deus. Dão-lhe o benefício da dúvida. Se não conhecemos alguém, podemos assumir que é boa gente. Mas só concordo em parte porque é preciso considerar que podemos formar um juízo errado. Se um estranho me toca à porta eu assumo que é boa pessoa e incapaz de maltratar crianças. Mas como posso estar enganado acerca disto não vou deixar que leve os meus filhos a passear sem mais informação que reduza a tal margem de erro. Para isso já tem de ser alguém que eu conheça o suficiente para que, além da confiar que é boa pessoa, também confie nesse juízo que fiz dele.

E é nisto que os crentes se espalham. A religião, dizem-me, é uma relação com Deus. Ou com um deus, pelo menos. É confiar nesse deus. Mas o que quer que sintam por esse deus será sempre função da ideia que formaram dele. Ou dela. E o problema é não terem qualquer informação onde basear essa ideia. Eu, ao menos, tinha aulas com a professora de português. Não era suficiente para saber se era boa ou má pessoa, mas sempre sabia alguma coisa acerca dela. E neste universo não se vê vestígio de qualquer divindade. Tudo o que se pensava indicar intervenção divina tem vindo a desaparecer, como a magia do ilusionismo quando se explica o truque. Acerca do deus, da deusa ou dos deuses, nenhum religioso tem informação. Só especulação.

Por isso não me convencem quando dizem que se tem de interpretar o Antigo Testamento de uma maneira especial por esse deus não ser como os hebreus julgavam. Concordo que o Antigo Testamento relata o relacionamento dos hebreus com o seu deus, e que o relacionamento dos católicos com o deus católico é diferente daquele que os hebreus tinham com o seu. O dos católicos é chatinho mas é menos ameaçador, se descontarmos a tortura eterna com que castiga quem discorde dele. Mas ninguém, nem católicos, nem hebreus, nem seja quem for, faz ideia de como Deus é. Não se sabe sequer se existe tal coisa, quanto mais saber o que quer, o que manda, de que gosta ou desgosta ou como se deve interpretar o que se escreve acerca dele.

Em suma, até compreendo que queiram confiar num deus. Quando não tenho informação em contrário acerca de alguém também prefiro pensar que é boa pessoa. Mas neste caso é um exagero. A ideia que fazem do respectivo deus – e, no fundo, é sempre com a ideia que nos relacionamos – é fruto unicamente da imaginação dos crentes. Nem sequer é alguém que encontrem de vez em quando, nas aulas de português ou assim, porque na missa só está lá o padre e o cenário. Se estivesse lá um deus notava-se bem.

E este exagero nem é o pior. Na verdade, se é exagero ou não é um juízo subjectivo, e admito podermos discordar disto por divergências de valor. É legítimo alguém querer confiar tanto num ser que até confia, sem evidências, que esse ser existe. É estranho, mas está no seu direito. O que é objectivamente incorrecto é ignorar a margem de erro. Que é enorme. Infinita. Todas as religiões que há, que houve e que algum dia inventem cabem nessa margem de erro, porque não há quaisquer dados que a reduzam.

Daí que as minhas críticas não sejam por crerem, ou quererem confiar, naquilo que nem sabem se existe. O que critico é dizerem que sabem. Que sabem que deus é assim e assado, que aquele trecho deve ser interpretado daquela maneira, que condena o preservativo, transubstancia a hóstia, engravidou Maria e milhentos outros pontos tirados ao acaso do grande chapéu das margens de erro. O que critico é venderem erro como se fosse conhecimento.

Em simultâneo no Que Treta!

8 de Novembro, 2009 Fernandes

A Bíblia (III)

Os Dez Mandamentos:

(cf. Êxodo 20:3-17)

Os cristãos dizem que os Dez Mandamentos são o fundamento da lei.

Nada poderia ser mais absurdo. Muito antes de esses mandamentos aparecerem, havia códigos legislativos na Índia e no Egipto – leis contra o assassínio, o perjúrio, o furto, o adultério e a fraude. Tais leis, são tão antigas quanto a sociedade humana; tão antigas quanto o amor à vida; tão antigas quanto a noção de prosperidade e o amor humano.

Nos Dez Mandamentos todas as ideias boas são antigas; todas as novas são tolas. Se Jeová fosse civilizado, teria dispensado o mandamento sobre guardar os sábados para o santificar, e no seu lugar diria: “Não escravizarás o teu próximo”.

Teria deixado de lado aquele sobre imagens esculpidas, e diria: “Não provocarás guerras de extermínio”.

Se Jeová fosse civilizado, os Dez Mandamentos seriam melhores.

Tudo o que chamamos de progresso, emancipação do homem, a substituição da pena de morte pela prisão e da prisão pela fiança, a liberdade de expressão, os direitos de consciência; em suma, tudo que favoreceu o desenvolvimento da civilização humana; todos os frutos da investigação, da observação, da experimentação e do livre-pensamento; tudo que o homem conquistou em benefício do próprio homem desde o fim da Idade das Trevas – de tudo isso prescindiu o Velho Testamento.

Permitam-me ilustrar a moral, a misericórdia, a filosofia, a poesia e a bondade do Velho Testamento:

A história de Acã:

(cf. Josué 7)

Josué tomou a cidade de Jericó. Antes da queda da cidade ele declarou que todos os despojos deveriam ser entregues ao Senhor. Apesar dessa ordem, Acã escondeu numa capa um pouco de prata e ouro. Posteriormente, Josué tentou tomar a cidade de Ai. Fracassou e muitos soldados foram mortos. Josué procurou a causa da derrota e descobriu que Acã havia escondido numa capa, duzentos siclos de prata e uma cunha de ouro.

Diante disso, Acã confessou.

Imediatamente Josué tomou Acã, seus filhos, filhas, esposa, bois e ovelhas, apedrejou-os até a morte e queimou os seus corpos.

Nada indica que seus filhos e filhas haviam cometido qualquer crime. Certamente, os bois e ovelhas não deveriam ser apedrejados até à morte pelo crime do seu proprietário. Essa foi a justiça, a clemência de Jeová!

Após Josué ter cometido esse crime, com a ajuda de Jeová, capturou a cidade de Ai.

É esta uma história bonita para ensinar a uma criança?

A história de Eliseu:

(cf. II Reis 2:23-24)

“Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, dizendo: Sobe, calvo; sobe, calvo!” “E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos.”

Essa foi a obra do bom Deus – do misericordioso Jeová! Esta é a tal poesia de que tanto ouvimos falar aos “especialistas bíblicos”.

Linda história para educar as nossas crianças!

6 de Novembro, 2009 Luís Grave Rodrigues

O Manual de Maus Costumes

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Manuel Clemente, acha que José Saramago utilizou um discurso de «tipo ideológico, não histórico nem científico» e que revela uma «ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas».

Negar que a Bíblia é «um manual de maus costumes» ou «um catálogo de crueldade» é, de facto de uma hipocrisia tão confrangedora, que normalmente só é acessível a pessoas de muita fé.

A Bíblia não é mais do que um catálogo das malfeitorias de um Deus cruel e sanguinário e o repositório de critérios sociais e de moralidade de pastores primitivos da Idade do Bronze.
O pior, é que foram precisamente os ensinamentos bíblicos que determinaram a mortífera vida das sociedades ocidentais nos últimos 1700 anos.

E negar este simples facto, é de uma impudica desonestidade intelectual, bem típica das pessoas de muita fé.

Tal como o é a afirmação de que a Bíblia «não pode ser interpretada literalmente» porque deve antes ser lida de acordo com uma integração histórica, como uma parábola e os seus ensinamentos e determinações como «simbólicos».
Contudo, nunca consegui que alguém me explicasse: simbólicos de quê?…

Como também nunca consegui que me explicassem como é que um Deus omnisciente deixa a sua Palavra escrita de uma forma tão defeituosa que precisa de uma interpretação humana para a integrar num contexto, qualquer que ele seja. É como se de repente coubesse aos Homens a tarefa de corrigir aquilo que Deus deixou mal explicado.
Para um crente isso deve ser de facto muito gratificante…

Ora, como é por demais óbvio, sei bem que o Antigo Testamento começou a ser escrito há qualquer coisa como quatro mil anos. E sei bem que a Igreja Católica do século XXI já não defende – como o fazia antigamente – o assassínio de judeus, apóstatas, ateus, homossexuais, adúlteros ou de quem simplesmente apanha lenha aos sábados.

Mas não é por isso que a Bíblia deixa de ter escrito aquilo que lá está escrito.
E não é por isso que dizer que a Bíblia é «um manual de maus costumes» ou «um catálogo de crueldade» passa a ser mentira.
Como não é por isso que uma interpretação histórica e dentro do contexto actual apaga o cristalino facto de que a História da Igreja Católica não é mais do que um gigantesco banho de sangue e do que um indizível sofrimento da Humanidade durante séculos e séculos.

Mas a maior de todas a hipocrisias dos bons e fiéis católicos é, sem dúvida, andarem a fazer de conta que a sua religião está completamente afastada – em TODOS os aspectos – da doutrina formulada na Bíblia, designadamente no Antigo Testamento.

Basta dar um salto ao «Catecismo da Igreja Católica» para afastar essa gigantesca mentira.
E bastam algumas citações, respigadas ao acaso:
«§81 – A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto redigida sob a moção do Espírito Santo».
«§106 – Deus inspirou os autores humanos dos livros sagrados. Na redacção dos livros sagrados, Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar as suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo ele próprio neles e por meio deles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que ele próprio queria».
«§121 – O Antigo Testamento é uma parte indispensável das Sagradas Escrituras. Os seus livros são divinamente inspirados e conservam um valor permanente, pois a Antiga Aliança nunca foi revogada».
«§123 – Os cristãos veneram o Antigo Testamento como a verdadeira Palavra de Deus. A Igreja sempre rechaçou vigorosamente a ideia de rejeitar o Antigo Testamento sob o pretexto de que o Novo Testamento o teria feito caducar

Mas talvez nada melhor do que um exemplo concreto para ilustrar e deixar bem demonstrada a profunda hipocrisia católica no que a este assunto respeita.
E o melhor exemplo é o dogma de Onan:

Um dia Deus resolver matar Er. O motivo não podia ser mais justo para o bom Deus o matar: Er era iníquo.
Pois bem: de acordo com a lei da altura, por morte de um homem o seu irmão deveria tomar a viúva como esposa, e assegurar-lhe uma descendência.

E aqui entra, de facto, a necessidade de uma interpretação histórica:

Obviamente sem segurança social, uma mulher sem marido e sem filhos estaria certamente condenada a morrer de fome. Entende-se por isso a razão de ser da obrigatoriedade do irmão do morto casar com a cunhada. Tratava-se certamente da própria sobrevivência desta.
Ora, o irmão do morto era Onan, que por qualquer motivo não queria casar com a viúva do seu irmão e muito menos fazer-lhe filhos.
Vai daí, sempre que «se deitava» com a cunhada, o bom do Onan derramava «a sua semente» para a terra, para evitar que ela engravidasse.

Está bom de ver qual o resultado de tudo isto: o bom Deus matou o Onan porque, já sabemos, a semente do homem é sagrada e não se pode desperdiçar, sob pena de morte.

É deste dogma bíblico que resulta a expressão «onanismo» e, como toda a gente sabe, o horror que a Igreja Católica tem à masturbação, ao ponto de… poder causar cegueira (e no mínimo borbulhas) aos adolescentes católicos mais incautos e insistentes.

Mas é também a este dogma que se deve o horror da Igreja Católica ao preservativo!

E é aqui que entra a suprema hipocrisia e a mais profunda imbecilidade dos católicos que acham que a Bíblia é um poço de virtudes quando sujeita a uma interpretação mais actualista.

Interpretação actualista uma ova!!!
Porque a Igreja Católica valoriza bem mais esta porcaria deste dogma que a própria vida humana e que o efeito que a proibição do preservativo tem na infernal disseminação da SIDA.
Nem o Papa, nem os cardeais, nem os bispos nem todo aquele exército de ociosos facínoras vestidos de saias se condoem com o autêntico drama que é a infernal percentagem de infecções com SIDA na África ao sul do Saara, especialmente nos países de maior influência católica.

Se virmos bem, a Igreja Católica continua a preconizar a morte – desta vez por SIDA – de quem derrama a semente para a terra, e não há «interpretação actualista» que lhe valha.

E não me venham com a velha história da castidade.
Porque se a Igreja sabe bem autorizar como anticoncepcional o método da contagem dos dias, não é por isso que permite o uso do preservativo mesmo entre pessoas casadas que estejam a ter relações sexuais nos dias inférteis da mulher.
Nem sequer nesses dias a Igreja Católica permite o preservativo.

Porque, afinal, que Diabo: um dogma é um dogma!!!


6 de Novembro, 2009 Fernandes

A Bíblia (II)

Muitas vezes dou comigo a pensar até que ponto o Antigo Testamento pode ser considerado um livro “inspirado” por Deus. Se assim for, esse será um livro que ninguém jamais conseguirá igualar pois deverá conter a perfeição filosófica e moral, estar totalmente de acordo com cada facto ocorrido na natureza e dar-nos a conhecer o mais ínfimo pormenor da vida e do universo. As suas normas de conduta deverão ser justas, sábias e perfeitas. Jamais ambíguas. Deverá estar repleto de inteligência, justiça e principalmente de liberdade.

Deverá opor-se à guerra, à escravatura, à cobiça, ignorância e superstição. Numa palavra: deverá ser Verdadeiro.

Haverá no Antigo Testamento, na história que lá se descreve, na teoria, na lei, na moral e na ciência, algo de transcendente ou sobrenatural que não corresponda aos costumes, preconceitos, crenças e ideias dos povos daquela época?

Os antigos hebreus acreditavam que a Terra era o centro do Universo, que o sol, a lua e as estrelas eram manchas no céu. A Bíblia assim o afirma. Os antigos hebreus pensavam que a Terra era plana, com quatro cantos; que o céu, o firmamento, era sólido, sendo essa a morada de Deus. A Bíblia ensina precisamente o mesmo.

Também imaginavam que o sol viajava ao redor da Terra e que, parando-se o sol, o dia poderia ser prolongado. A Bíblia também o diz. Acreditavam que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos; que haviam sido criados poucos anos antes deles – os hebreus –, e que eles próprios eram os seus directos descendentes. Também a Bíblia ensina isso.

Ora, admitindo que Deus é o autor da bíblia, esta não deveria conter erros tão flagrantes em astronomia, geologia ou quaisquer outros assuntos.

Lendo a bíblia ficamos a saber que os seus autores estavam enganados acerca da criação do homem, da Astronomia, da Geologia, sobre as causas dos fenómenos, a origem do mal e as causas da morte. Ficamos a saber que Deus não domina as ciências e erra com demasiada frequência para um Deus Omnisciente.

É óbvio que a bíblia foi escrita por seres ignorantes e equivocados. No entanto durante séculos, a Igreja insistiu que a bíblia era verdadeira, e não podia conter erros porque ela era a Palavra de Deus, que os relatos nela descritos sobre a astronomia e geologia estavam rigorosamente certos, que a história da criação era verdadeira, e que os que dela discordavam eram infiéis e Ateus, sendo por isso condenados às penas do Inferno e à fogueira.

Hoje as coisas são diferentes. Foram necessários muitos séculos para forçar os teólogos a admitirem as mentiras bíblicas.

Com relutância, cheios de malícia e ódio, os padres tomaram outra posição. Admitem que os autores da bíblia não estariam assim tão “inspirados” para as coisas das ciências. Que Deus não tinha como objectivo instruir o mundo sobre astronomia ou geologia. Que os homens que escreveram a bíblia desconheciam qualquer ciência, e que escreveram sobre a Terra as estrelas, o sol, a lua e o universo de acordo com a ignorância da época. Que Jeová queria que os seus filhos tomassem apenas conhecimento do seu amor infinito e da sua vontade. Que Jeová quis apenas corrigir o seu povo depravado, ignorante e corrompido, tornando-o espiritualmente sábio, moralmente justo e compassivo.

5 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Casamentos homossexuais e religião

Os bispos entraram em febre referendária que alastra de forma epidémica aos padres e seus assalariados que descobriram agora as delícias da participação popular.

Não vou acusar os actuais bispos da cumplicidade com a ditadura salazarista, um delito dos antecessores,  mas é bom lembrar-lhes que o divórcio, por exemplo, é hoje um direito dos cidadãos que foi conquistado contra a vontade do clero e a exigência de uma Concordata que o Vaticano negociou com Portugal e vários outros Estados fascistas.

Em matéria de direitos individuais talvez valha a pena dizer que a liberdade religiosa só foi reconhecida pelo Concílio Vaticano II e que vem incomodando o actual pontífice.

Voltemos à febre referendária que agita as mitras e faz tremer os báculos: os direitos individuais não se referendam. Entendem os senhores bispos que deve ser submetida a referendo a possibilidade de ser budista, adventista do 7.º dia ou Testemunha de Jeová?

Além de o referendo ter demonstrado que não interessa ao eleitorado, há o direito de pôr em causa a legitimidade representativa da Assembleia da República, legitimidade que os bispos da ditadura não contestaram em mais de quatro décadas de partido único?

Acresce que os partidos disseram durante a campanha eleitoral qual era a posição sobre os casamentos homossexuais e até houve partidos que se comprometeram a viabilizá-los. Foram esses programas que os portugueses sufragaram e cujo cumprimento cabe aos partidos honrar.

O casamento gay é um direito de uma minoria discriminada injustamente, não é uma decisão a que alguém se sinta obrigado.

5 de Novembro, 2009 Fernandes

A Bíblia (I)

– Para aqueles que acham que o mundo devia ter a Bíblia como guia, que esse livro foi “revelado” por Deus e quem aspira à santidade deve adoptá-lo como código moral:

Há milhões de pessoas que acreditam ser a Bíblia a “Palavra de Deus”, ou por Ele inspirada. Milhões de pessoas acreditam que a Bíblia é um guia moral, um livro conselheiro e consolador que incentiva a paz e esperança no futuro.

Milhões de pessoas acreditam que a Bíblia é a fonte da lei, da justiça e da clemência, pela qual o mundo devia reger-se na base da liberdade nela expressa e na riqueza civilizacional dos seus sábios ensinamentos. Milhões de pessoas acreditam que a Bíblia é a revelação do amor de Deus ao homem. Mas também milhões de pessoas ignoram ou tentam omitir, a selvajaria, o ódio à liberdade, o incentivo à perseguição religiosa, à vingança e à dor eterna, expressa na Bíblia. Omitem que ela é inimiga da liberdade intelectual, e incentiva à superstição.

A Bíblia tem na sua origem umas famílias errantes, pobres e ignorantes, sem educação, sem qualquer forma de arte ou poder. Descendentes daqueles que foram escravizados, acabaram fugidos dos seus senhores, no deserto. O seu líder, Moisés, é descrito como um homem criado pela família do Faraó. Aprendeu a lei e a mitologia egípcia, falava assiduamente com Deus, chegando inclusivamente a encontrar-se “face a face” com Ele, recebeu das mãos deste, umas tábuas de pedra com dez mandamentos escritos. Deus informou Moisés sobre os sacrifícios que lhe agradavam ou não, e as leis que deviam governar esse povo.

Afirmaram que o Pentateuco era da autoria de Moisés. Hoje sabemos de fonte segura que não,  porque nele são mencionadas cidades que nem sequer existiam na época em que Moisés viveu, é mencionado dinheiro que só foi cunhado muitos séculos após a sua morte. Muitas leis que são mencionadas no livro, sobre agricultura, sacrifício, sobre tecelagem de roupas, sobre o cultivo da terra, sobre as colheitas, o debulho do grão, casas e templos, sobre cidades e sobre muitos outros assuntos; não têm relação possível com uns quantos viajantes famintos, errantes no deserto.

Todos os teólogos são unânimes em afirmar que o Pentateuco não foi escrito por Moisés, nem por uma só pessoa. Todos admitem que não é possível saber quem foram os autores daqueles livros. Todos são unânimes em reconhecer que esses textos estão repletos de erros e contradições, por exemplo:

– Jusué não escreveu o livro que tem o seu nome, porque nele existem referências a eventos que ocorreram muito tempos após a sua morte. Ninguém conhece o autor de Juízes; mas sabe-se que foi escrito séculos após os juízes terem deixado de existir. No 25º capítulo de I Samuel, é narrada a criação de Samuel pela feiticeira de Endora, mas ninguém conhece o autor do Primeiro ou do Segundo de Samuel; sabe-se apenas que Samuel não escreveu os livros que têm o seu nome. Ninguém sabe quem foi o autor de Rute ou o autor de I e II Reis ou de I e II Crónicas; tudo o que sabemos, é que tais livros não têm qualquer valor. Sabemos que os Salmos não foram escritos por David. Neles fala-se da escravidão, a qual só ocorreu cinco séculos após David ter “dormido” com os seus pais. Sabemos que Salomão não escreveu os Provérbios nem os Cânticos; que Isaías não foi o autor do livro que tem o seu nome; que ninguém conhece o autor de Jó, Eclesiastes, Éster ou qualquer outro livro do Novo Testamento, com excepção de Esdras. Sabemos que Deus não é citado no livro de Éster, mas basta lê-lo para constatar que o livro é cruel, absurdo e impossível.

Podemos constatar que Deus não é mencionado no Cântico dos Cânticos, – o melhor livro do Velho Testamento. Mas sabemos que Eclesiastes foi escrito por um incrédulo, e que até ao século II da N.E. (nossa era), os judeus não haviam decidido que livros seriam considerados como “inspirados”. Sabemos também que a ideia da “inspiração” se foi difundindo lentamente, e que essa pretensa inspiração foi determinada por “indivíduos” que tinham objectivos muito bem definidos.

O problema começa quando estes ”indivíduos” alegam que essa lei foi “revelada” e estabelecida para ser aplicada a toda a humanidade.

5 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

As novas e as velhas questões do Islão…

Por

E – Pá

Foi publicado pela The Pew Forum on religion & public life link um estudo sobre a distribuição da população muçulmana no Mundo – intitulado Mapping the Global Muslim Population. A report on the Size and Distribution of the World’s Muslim Population link

Na realidade o “peso demográfico” é significativos :
Os muçulmanos representam 1,57 mil milhões de crentes, quase um quarto da população mundial (23%), e 60% deles, vivem na Ásia, nomeadamente na Indonésia, Paquistão, Índia, Bangladesh, etc.

Nas “zonas mais turbulentas” no Norte de África e Próximo Oriente, vivem 315 milhões de muçulmanos, seguidos da África subsahariana.
Uma grande maioria dos muçulmanos é sunita, sendo apenas 10% deles xiitas que se encontram concentrados no Irão , no Paquistão e na Índia.
Na Europa (do Atlântico aos Urais) acolhem-se cerca de 38 milhões de muçulmanos. A Rússia é o país com maior número de muçulmanos residentes, seguida da Alemanha e da França.
Este é um quadro demográfico avassalador. A sua repercursão na vida política e social do Mundo não será menor.

E a grande interrogação é o que pensam verdadeiramente os muçulmanos?

Quem, na verdade, fala em nome do Islão ?

Algumas questões pertinentes, não estão esclarecidas, muito menos respondidas.

1.) – Os muçulmanos não têm uma visão monolítica do Ocidente e conseguem distinguir a suas políticas, cultura e religiões ;
2.) – O seu principal sonho é arranjar trabalho ;
3.) – Os muçulmanos que aprovam actos de violência é uma minoria ?
4.) – Essa minoria é mais religiosa do que os outros muçulmanos ?
5.) – Os muçulmanos admiram a tecnologia ?
6.) – Os muçulmanos acreditam na democracia ?
7.) – As mulheres muçulmanas desejam direitos de igualdade mas desejam manter a religião na sua vida social ?
8.) – a grande maioria dos muçulmanos desejam que os dirigentes religiosos tenham um papel directo na condução política dos seus países ?
9.) Os muçulmanos acham indispensável que a sua religião seja uma fonte e a raiz da sua legislação ?
10.) Existem muçulmanos laicos ?

Estas são uma pequena parte das questões que se colocam entre a convivência entre os muçulmanos e o Mundo.

Muitas outras haverá que, de alguma maneira, equacionem e respondam às perguntas candentes :
– Democracia ou teocracia ?
– Como um muçulmano se torna num radical (fundamentalistas) ?
– Quais as reivindicações das mulheres muçulmanas ?
– Guerra (clash) ou coexistência ? ».

4 de Novembro, 2009 Miguel Duarte

Tertúlia sobre Física e as Origens do Universo com Orfeu Bertolami

global_11090100

No âmbito dos Encontros Ateístas e Humanistas, vamos ter mais uma tertúlia, desta vez sobre o tema “Física e as Origens do Universo”, tendo como convidado o físico Orfeu Bertolami, no próximo dia 11 de Novembro, pelas 20:00, no Fábulas (Chiado – Lisboa). Se desejar estar presente, saber mais informações ou receber notícias sobre as próximas tertúlias, faça a sua inscrição no site dos encontros.

Orfeu Bertolami nasceu em São Paulo, Brasil, em 1959. Licenciado em Física pela Universidade de São Paulo em 1980, obteve o mestrado no Instituto de Física Teórica em São Paulo em 1983, o Grauv avançado em Matemática na Universidade de Cambridge em 1984 e o doutoramento em física teórica na Universidade de Oxford em 1987. Trabalha no Departamento de Física do Instituto Superior Técnico (IST) e no Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear do IST.

Desenvolveu actividades de investigação no Institut für Theoretische Physik em Heidelberg, na Alemanha, no Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN) em Genebra, na secção de Turim do Istituto Nazionale de Fisica Nucleare e na Universidade de Nova Iorque. É Professor Associado no Departamento de Física do Instituto Superior Técnico, onde lecciona desde 1991. Obteve a Agregação pela Universidade Técnica de Lisboa em 1996. Publicou mais de 190 artigos científicos, em livros, jornais, actas de conferências e revistas especializadas nas áreas da astrofísica, cosmologia, gravitação clássica e quântica, e em teorias de cordas quânticas.

É autor dos livros “O Livro das Escolhas Cósmicas”, publicado em 2006 na colecção Ciência Aberta da Editora Gradiva, e “Gravity Control and Possible Influence on Space Propulsion: A Scientific Study”, escrito em colaboração com Martin Tajmar da Agência Espacial Austríaca, publicado pela Agência Espacial Europeia em 2002.

Tem participado, desde 1990, em actividades de divulgação da ciência apresentando dezenas de palestras sobre temas como a unificação das interacções fundamentais da natureza, o Big Bang, explosões de raios gama, a origem da vida no Universo, o planeta Marte, a hipótese do controle da gravidade, ciência e literatura, a teoria das cordas quânticas, e em 2005, sobre a vida e a obra de Albert Einstein e a cosmologia do século XXI.

Já apresentou cerca de mais de quatro dezenas de palestras convidadas em conferências internacionais e quase duas centenas de seminários especializados em universidades e centros de investigação na Europa, na Rússia, na Coreia, no Japão, no Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos. Foi galardoado com o terceiro prémio da Gravity Research Foundation dos Estados Unidos em 1999, com o Prémio União Latina de Ciência em 2001 e o Prémio Universidade Técnica de Lisboa/Santader Totta de excelência científica nas áreas de Biofísica e Física em 2007. Colabora em projectos europeus de estudo da física da matéria escura, da energia escura e de física fundamental no espaço, com a Agência Espacial Europeia e com o Jet Propulsion Laboratory da NASA na Califórnia.

Tem uma filha e vive em Portugal desde 1989.