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18 de Março, 2010 Carlos Esperança

A Taxa Camarae do papa Leão X

Um dos pontos culminantes da corrupção humana

A Taxa Camarae é um tarifário promulgado, em 1517, pelo papa Leão X (1513-1521) destinado a vender indulgências, ou seja, o perdão dos pecados, a todos quantos pudessem pagar umas boas libras ao pontífice. Como veremos na transcrição que se segue, não havia delito, por mais horrível que fosse, que não pudesse ser perdoado a troco de dinheiro. Leão X declarou aberto o céu para todos aqueles, fossem clérigos ou leigos, que tivessem violado crianças e adultos, assassinado  uma ou várias pessoas, abortado… desde que se manifestassem generosos com os cofres papais.

Vejamos o seus trinta e cinco artigos:

1.    O eclesiástico que cometa o pecado da carne, seja com freiras, seja com primas, sobrinhas ou afilhadas suas, seja, por fim, com outra mulher qualquer, será absolvido, mediante o pagamento de 67 libras, 12 soldos.

2.    Se o eclesiástico, além do pecado de fornicação, quiser ser absolvido do pecado contra a natureza ou de bestialidade, deve pagar 219 libras, 15 soldos. Mas se tiver apenas cometido pecado contra a natureza com meninos ou com animais e não com mulheres, somente pagará 131 libras, 15 soldos.

3.    O sacerdote que desflorar uma virgem, pagará 2 libras, 8 soldos.

4.    A religiosa que quiser alcançar a dignidade de abadessa depois de se ter entregue a um ou mais homens simultânea ou sucessivamente, quer dentro, quer fora do seu convento, pagará 131 libras, 15 soldos.

5.    Os sacerdotes que quiserem viver maritalmente com parentes, pagarão 76 libras e 1 soldo.

6.    Para todos os pecados de luxúria cometido por um leigo, a absolvição custará 27 libras e 1 soldo; no caso de incesto, acrescentar-se-ão em consciência 4 libras.

7.    A mulher adúltera que queira ser absolvida para estar livre de todo e qualquer processo e obter uma ampla dispensa para prosseguir as suas relações ilícitas, pagará ao Papa 87 libras e 3 soldos. Em idêntica situação, o marido pagará a mesma soma; se tiverem cometido incesto com os seus filhos acrescentarão em consciência 6 libras.

8.    A absolvição e a certeza de não serem perseguidos por crimes de rapina, roubo ou incêndio, custará aos culpados 131 libras e 7 soldos.

9.    A absolvição de um simples assassínio cometido na pessoa de um leigo é fixada em 15 libras, 4 soldos e 3 dinheiros.

10.   Se o assassino tiver morto a dois ou mais homens no mesmo dia, pagará como se tivesse apenas assassinado um.

11.   O marido que tiver dado maus tratos à sua mulher, pagará aos cofres da chancelaria 3 libras e 4 soldos; se a tiver morto, pagará 17 libras, 15 soldos; se o tiver feito com a intenção de casar com outra, pagará um suplemento de 32 libras e 9 soldos. Se o marido tiver tido ajuda para cometer o crime, cada um dos seus ajudantes será absolvido mediante o pagamento de 2 libras.

12.   Quem afogar o seu próprio filho pagará 17 libras e 15 soldos [ou seja, mais duas libras do que por matar um desconhecido (observação do autor do livro)]; caso matem o próprio filho, por mútuo consentimento, o pai e a mãe pagarão 27 libras e 1 soldo pela absolvição.

13.   A mulher que destruir o filho que traz nas entranhas, assim como o pai que tiver contribuído para a perpetração do crime, pagarão cada um 17 libras e 15 soldos. Quem facilitar o aborto de uma criatura que não seja seu filho pagará menos 1 libra.

14.   Pelo assassinato de um irmão, de uma irmã, de uma mãe ou de um pai, pagar-se-á 17 libras e 5 soldos.

15.   Quem matar um bispo ou um prelado de hierarquia superior terá de pagar 131 libras, 14 soldos e y6 dinheiros.

16.   O assassino que tiver morto mais de um sacerdote, sem ser de uma só vez, pagará 137 libras e 6 soldos pelo primeiro, e metade pelos restantes.

17.   O bispo ou abade que cometa homicídio põe emboscada, por acidente ou por necessidade, terá de pagar, para obter a absolvição, 179 libras e 14 soldos.

18.   Quem quiser comprar antecipadamente a absolvição, por todo e qualquer homicídio acidental que venha a cometer no futuro, terá de pagar 168 libras, 15 soldos.

19.   O herege que se converta pagará pela sua absolvição 269 libras. O filho de um herege queimado, enforcado ou de qualquer outro modo justiçado, só poderá reabilitar-se mediante o pagamento de 218 libras, 16 soldos, 9 dinheiros.

20.   O eclesiástico que, não podendo saldar as suas dívidas, não quiser ver-se processado pelos seus credores, entregará ao pontífice 17 libras, 8 soldos e 6 dinheiros, e a dívida ser-lhe-á perdoada.

21.   A licença para instalar pontos de venda de vários géneros, sob o pórtico das igrejas, será concedida mediante o pagamento de 45 libras, 19 soldos e 3 dinheiros.

22.   O delito de contrabando e as fraudes relativas aos direitos do príncipe contarão 87 libras e 3 dinheiros.

23.   A cidade que quiser obter para os seus habitantes ou para os seus sacerdotes, frades  ou monjas autorização de comer carne e lacticínios nas épocas em que está vedado fazê-lo, pagará 781 libras e 10 soldos.

24.   O convento que quiser mudar de regra e viver com menos abstinência do que a que estava prescrita, pagará 146 libras e 5 soldos.

25.   O frade que para sua maior conveniência, ou gosto, quiser passar a vida numa ermida com uma mulher, entregará ao tesouro pontifício 45 libras e 19 soldos.

26.   O apóstata vagabundo que quiser viver sem travas pagará o mesmo montante pela absolvição.

27.   O mesmo montante terá de pagar o religioso, regular ou secular, que pretenda viajar vestido de leigo.

28.   O filho bastardo de um prior que queira herdar a cura de seu pai, terá de pagar 27 libras e 1 soldo.

29.   O bastardo que pretenda receber ordens sacras e usufruir de benefícios pagará 15 libras, 18 soldos e 6 dinheiros.

30.   O filho de pais incógnitos que pretenda entrar nas ordens pagará ao tesouro pontifício 27 libras e 1 soldo.

31.   Os leigos com defeitos físicos ou disformes, que pretendam receber ordens sacras e usufruir de benefícios pagarão à chancelaria apostólica 58 libras e 2 soldos.

32.   Igual soma pagará o cego da vista direita, mas o cego da vista esquerda pagará ao Papa 10 libras e 7 soldos. Os vesgos pagarão 45 libras e 3 soldos.

33.   Os eunucos que quiserem entrar nas ordens, pagarão a quantia de 310 libras e 15 soldos.

34.   Quem por simonia quiser adquirir um ou mais benefícios deve dirigir-se aos tesoureiros do Papa que lhos venderão por um preço moderado.

35.   Quem por ter quebrado um juramento quiser evitar qualquer perseguição e ver-se livre de qualquer marca de infâmia, pagará ao Papa 131 librase15 soldos. Pagará ainda por cada um dos seus fiadores a quantia de 3 libras.

No entanto, para a historiografia católica, o Papa Leão X, autor de um exemplo de corrupção tão grande como o que acabamos de ler, passa por ser o protagonista da «história do pontificado mais brilhante e talvez o mais perigoso da história da Igreja».

(Fonte: Rodríguez, Pepe (1997). Mentiras fundamentais da Igreja católica.
Terramar – Editores, Distribuidores e Livreiros –
(1.ª  edição portuguesa,  Terramar, Outubro de  2001 – Anexo, pp. 345-348)

NOTA: Esta é a primeira vez que a Taxa Camarae do papa Leão X aparece na NET em português.

17 de Março, 2010 Carlos Esperança

A superstição ao serviço da Igreja

Nunca percebi por que motivo a comunicação social, tão ávida em descobrir escândalos, não investiga os milagres que desacreditam o Vaticano e comprometem a sanidade dos crentes.

De Alexandrina Maria da Costa, também conhecida por Santinha de Balasar, beatificada em 25 de Abril de 2004, talvez para comemorar três décadas da Revolução de Abril, até Nuno Álvares Pereira que curou o olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com óleo fervente de fritar peixe, após ter beijado a imagem do guerreiro, tem havido uma série de prodígios que mereciam a atenção da comunicação social.

No primeiro caso trata-se da devota que esteve mais de 13 anos sem comer nem beber, em anúria, alimentando-se apenas de hóstias consagradas – como anunciou o Papa João Paulo II –, maravilha bem maior do que a obrada por D. Nuno, de quem fizeram colírio para queimaduras do olho esquerdo com óleo de fritar peixe.

É fácil acusar de anticlericalismo quem se preocupa com as campanhas sistemáticas de embrutecimento das diversas Igrejas para fanatizarem populações e aumentarem os seus proventos. Vê-se como a Europa lida mal com o Islão, que prega o ódio nas mesquitas e madraças e alimenta a xenofobia recíproca que ressuscitou a extrema-direita nas eleições regionais francesas desta semana.

Prende-se por burla uma cigana que lê a sina na palma da mão e deixam-se á solta as Igrejas que vigarizam multidões.

17 de Março, 2010 Carlos Esperança

Religião: A fé e as hormonas

Deixai vir a mim as criancinhas

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Em Portugal há sempre um manto de silêncio a proteger a religião ao contrário do que acontece com os milagres que alimentam a indústria das canonizações.

16 de Março, 2010 Carlos Esperança

Um atrás do outro …como as cerejas!

Por

E  – PÁ

José Ángel Arregui Eraña, um clérigo membro da congregação dos Clérigos de São Viator que tem como lema “adorado e amado seja Jesus” e se encontra implantada em 13 países (Canadá, Colômbia, Costa de Marfim, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Haiti, Honduras, Itália, Japão, Peru e Taiwan), encontra-se detido no Chile, por posse de material pornográfico infantil. link

Este clérigo que, em 1979, enveredou por dedicar-se ao ensino iniciou-se num Colégio dessa congregação no País Basco, na área da Educação Física, percorreu vários estabelecimentos escolares em Espanha (Madrid, Huesca, Vitoria, Valladolid e Bilbao/ Basauri) “usava” o estratagema de estar a preparar uma tese sobre “El crecimiento físico en la adolescencia y su influencia en la flexibilidad y su medición”, para contactar menores e, simultaneamente abusar sexualmente destes alunos. Não contente com isso, filmava-os.

O “eminente pedagogo e investigador” defendeu esta tese em 2006, com a classificação de “sobresaliente cum laude”, na área de Pedagogia em Educação Física. Depois dessa graduação ocupa uma vaga de docente na Universidade São Tomás, em Santiago de Chile. Em Agosto passado foi detido por um brigada de investigação em ciber-crimes , nessa cidade, na posse de material pornográfico infantil pessoal e capturado na internet.
Na investigação paralela que decorre em Espanha foram indiciados 3 centros educativos onde terá “colhido” material para a sua tese – Colégios de São Viator em Madrid e Vitória e São José em Basauri (Bilbao).
Para as gravações destes infames actos de pedofilia utilizava a técnica da câmara oculta. Segundo a investigação espanhola terá abusado e gravado imagens, nesses pios colégios, de 15 menores…

A Igreja católica completamente atolada no meio da maior podridão. Repugnante!

15 de Março, 2010 Carlos Esperança

Diário Ateísta – uma voz contra a superstição

Gostava de entender qual é o objectivo do Diário Ateísta. É uma espécie de Inimigo Público aplicado à religião? Quer apenas divertir-nos num mundo tão cheio de crises?
Alfredo Dinis (Comentário ao post «Vaticano sem psiquiatria»

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O Diário Ateísta existe desde 30 de Novembro de 2003 e só esteve ausente dos leitores durante os ataques de haeckers que, piedosamente, o quiseram calar. Chegou a ser uma referência pela qualidade dos textos, honrado na gramática e nas ideias, acutilante nas críticas e destemido na denúncia das superstições e medos com que as Igrejas intimidam os crentes.

Continua a denunciar os monoteísmos que são cada vez mais violentos, embrutecedores e retrógrados, vendendo o mesmo deus que foi o produto da imaginação dos homens das sociedades patriarcais da Idade do Bronze.

Curiosamente, o comentário em epígrafe refere-se a um post que se limita a reproduzir as preocupações do exorcista-chefe da Igreja Católica com os poderes do demónio que, segundo ele, Grabriele Amorth, «reside no Vaticano».

O Diário Ateísta não discute o domicílio de Satanás nem especula sobre os bispos que lhe estão «ligados». Só admira a inépcia de um deus que deixa entrar o demónio nos 44 hectares de sotainas, sem respeitar o Papa e os bispos que fabricam a água benta e se consideram especialistas em afugentar o demo.

Uma pessoa sensata considera a pedofilia uma doença do foro psiquiátrico e é capaz de atribui-la às hormonas, mas nunca ao demónio como declarou o calejado exorcista, com 25 anos de experiência no ramo.

Quando um sacerdote refere a sua experiência em 1700 sessões de exorcismo e recorda que os possuídos chegavam a cuspir pedaços de vidro e «de metal do tamanho de um dedo, mas também pétalas de rosas», não é preciso ser ateu para ver no autor um caso psiquiátrico ou um burlão contumaz.

É contra o regresso à Idade Média, contra esta escalada obscurantista, contra a mentira e o medo com que o clero imbeciliza os crentes, que o Diário Ateísta se constitui baluarte da sanidade mental e desmascara os impostores.

O negócio dos demónios já deu o que tinha a dar. A Igreja não cai pela razão mas desmorona-se pelo ridículo.

15 de Março, 2010 Carlos Esperança

Citações

«A única desculpa de Deus é que não existe» (Stendhal)

«Quem quiser ser cristão tem de arrancar os olhos à sua própria razão» (Lutero)

«A religião é vista pela gente comum como verdadeira, pelos sábios como falsa e pelos governantes como útil» (Séneca)

«Desde os tempos imemoriais que se sabe quão proveitosa nos tem sido esta fábula de Jesus Cristo» (Leão X, Papa, 1513/21). Carta dirigida ao cardeal Bembo, por João de Médicis que viria a ser proclamado papa com o nome de Leão X). In Mentiras Fundamentais… e a Desilusão de Deus.

“… a ideia perigosa de Darwin é um solvente universal, capaz de abrir caminho até ao cerne de tudo aquilo que vemos.”
Pág. 524, 1.ª Edição,  2001, “Temas e Debates”: ” A IDEIA PERIGOSA DE DARWIN”. Daniel Dennett” Darwin´s Dangerous idea”, 1995

Bento XI (1033/1045) nasceu em 1022. Foi Papa aos 11 anos.

14 de Março, 2010 Ludwig Krippahl

Mais equívocos

Ou mais do mesmo. O Alfredo Dinis continua a insistir que «O maior drama do ateísmo [é] estar estruturalmente impedido de […] erradicar a religião» e que as críticas do ateísmo «não beliscam a religião»(1). Se o maior drama é isso estou bem, que o meu ateísmo serve-me para eu viver sem religião. Se há quem acredite em astrologia, Allah ou aparições em Fátima tenho pena. Gostaria que conseguissem livrar-se desses disparates. Mas antes eles que eu. Quando leio esta afirmação do Alfredo sinto como se me dissesse que o maior drama de não fumar é não conseguir que todos os outros deixem de fumar. O objectivo não é bem esse…

E não beliscar “a religião” não tira valor ao ateísmo. Nenhuma religião se belisca com as críticas das outras. São muito resistentes ao diálogo. Além disso a religião, no singular, não existe. Existem religiões. Muitas. Milhentas crendices, rituais, dogmas, hierarquias e superstições da mais variada espécie, cada uma das quais defendida como “A Religião®” pelos seus praticantes. Quando dou exemplos dessa diversidade, o Alfredo diz que critico caricaturas. Como o padre Gabrielle Amorth, exorcista-mor do Vaticano, segundo o qual o filme “O Exorcista” é «substancialmente exacto»(2), os exorcisados cospem pregos e vidros, e Hitler e Estaline estavam possuídos pelo diabo*. Julga este padre que a maior tragédia do século XX podia ter sido evitada com um par de exorcismos. Talvez o Alfredo não chegue a chamar caricatura a isto. Mas se fosse outra religião suspeito que não hesitaria.

E é por isto que o ateísmo não belisca nenhuma religião. Porque cada religioso acha, à partida e sem discussão, que a sua religião é que é a verdadeira e tudo o resto são imitações inferiores. Chamam-lhe fé. Dizem que a fé é a confiança que têm em deuses mas, em rigor, estão enganados. É apenas a confiança exagerada que têm nas suas próprias crenças. O que me traz ao “quarto equívoco” que o Alfredo aponta. Alegadamente, o ateu pensa que «Só os ateus têm a possibilidade de pensar livremente sem constrangimentos de espécie alguma».

Eu não. Pelo contrário. Julgo que os meus interlocutores nestas conversas são capazes de um pensamento tão livre quanto quiserem. Senão nem discutia isto, que não me interessa tentar o impossível. Também não ensino solfejo a caracóis nem dou aulas de biologia ao Jónatas Machado. E concordo com o Alfredo que o nosso pensamento está sempre sob pressões culturais. É precisamente por isso que devemos avaliá-lo tentando sair dessa perspectiva.

Eu confio no meu ateísmo porque assenta em premissas que eu consideraria igualmente válidas se tivesse nascido numa família muçulmana em Kabul, entre hindus em Varanasi ou budistas em Lhasa. Sou ateu porque não me quero submeter a deuses e porque não encontro evidência objectiva de haver algum. E isto vale aqui e vale do outro lado do mundo. Em contraste, o Alfredo várias vezes justificou a sua fé pela tradição cristã, prendendo-se precisamente àquelas restrições culturais que nos limitam o pensamento se não tentarmos ver mais além. Não por ser incapaz de o fazer. Ao contrário do que o Alfredo sugere, eu tenho confiança que, se ele quisesse, poderia pensar no problema do ateísmo e das religiões de uma forma menos constrangida pela sua cultura e formação. Mas talvez seja por isso que tem relutância em fazê-lo, reconhecendo que se tivéssemos nascido noutra parte do mundo o meu ateísmo seria o mesmo mas a religião dele seria muito diferente.

Tentando contrariar a ideia da fé como uma prisão intelectual, o Alfredo faz notar que a sua religião tem mudado ao longo do tempo. «A compreensão da doutrina e dos dogmas do cristianismo tem sido reformulada de acordo com a evolução da língua e da cultura, bem como dos conhecimentos que se vão adquirindo através da ciência.» Mas isto apenas demonstra o problema que o Alfredo apontou, que a maneira de pensar é pressionada pela cultura e educação. Como diz Dennett, as religiões adaptam-se porque precisam convencer as congregações (3). É por isso que se modificam «de acordo com a evolução da língua e da cultura» e de acordo com a percepção popular da ciência. Não mudam quando descobrem coisas novas. Mudam quando os bancos começam a ficar vazios. Mudam, ou desaparecem.

A ciência faz previsões concretas que, quando falham, a obrigam a mudar. Por isso a teorias da relatividade, da evolução e da mecânica quântica, a astronomia, a bioquímica e a cosmologia, não foram mudando ao sabor de “língua e cultura”. Pelo contrário. Mudaram perante os factos e isso fez mudar muito a nossa cultura, a nossa visão do mundo e até a nossa língua. É este o processo que o ateísmo segue. Olhar para os dados em vez de seguir crenças e tradições.

E como os dados exigem modelos para os interpretar, há que considerar vários. Quanto mais melhor. Considerar a possibilidade do universo ter sido criado por Shiva, por Cronos, pelo Homem-Aranha, por Jeová ou por processos físicos. Depois comparar o desempenho desses modelos e escolher o que melhor explica o que se observa. Esse processo, com os dados que temos, dá em ateísmo. Para se chegar a qualquer alternativa religiosa é preciso escolher essa logo à partida e ignorar o processo por completo. E, nesse caso, a escolha é provavelmente determinada pela cultura na qual se nasceu.

*É curioso que não tenha mencionado Mussolini…
1- Alfredo Dinis, Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo
2- Times online, 11-3-2010 Chief exorcist Father Gabriele Amorth says Devil is in the Vatican
3- Neste debate, por exemplo: Debate – Hitchens, Harris, Dennett vs Boteach, D’Souza, Wright, Cuidad de las ideas

14 de Março, 2010 Carlos Esperança

Sobre as religiões

As páginas do Corão apelam constantemente à destruição dos infiéis, da sua cultura e civilização, bem como dos judeus e cristãos (por esta ordem) em nome do mesmo Deus misericordioso que alimenta a imensa legião de clérigos e hordas de terroristas.

O assassínio do cineasta Theo van Gogh, as tentativas de homicídio de Salman Rushdie ou do dinamarquês Kurt Westergaard, autor de caricaturas de Maomé, são os casos mais mediáticos da demência islâmica que aterroriza a Europa e provocou os mais sangrentos actos de horror em Nova Iorque, Londres e Madrid, numa fúria selvagem contra tudo e todos os que consideram infiéis. O Islão não é, neste momento histórico, uma simples crença, é uma máquina de guerra totalitária de que é preciso proteger os povos.

Como entender que haja quem creia, e, pior, quem aceite impor a tolice criacionista nas escolas e que a Terra, apenas a Terra, nasceu no Sábado, 22 de Outubro de 4004 A.C., às seis horas da tarde – como infantilmente calculou o famoso arcebispo James Ussher de Armagh –, num universo que terá começado há cerca de 12 mil milhões de anos?

Com que cara fitaria hoje, cada um de nós, homens civilizados, a nossa mãe, a mulher, as nossas filhas ou as irmãs, se cumpríssemos a recomendação do Talmude – manual de maus costumes, como diria Saramago –, o livro sagrado mais antigo, em uso contínuo, que ordena ao crente que agradeça todos os dias ao criador por não o ter feito mulher?

É essa misoginia que observamos em Paulo de Tarso, judeu de cuja dissidência nasceu o cristianismo, quando expressava medo e desprezo pelas mulheres, que o A.T. afirmava terem sido criadas para uso e consolo do homem. Que demência pode justificar o medo primitivo de que metade da raça humana fosse simultaneamente suja e impura como atestam os textos religiosos?