‘New York Times’ volta a acusar o Papa de fechar os olhos à pedofilia quando era arcebispo de Munique
O cardeal Joseph Ratzinger, actual Papa Bento XVI, sabia que um padre pedófilo que foi albergado na sua diocese nos anos 1980, para se submeter a terapia, tinha regressado ao trabalho noutra paróquia poucos dias depois de ali chegar. Esta foi a história revelada ontem pelo jornal New York Times, um dia depois de ter acusado o Papa de nada ter feito contra um padre norte-americano que terá abusado de 200 alunos surdos.
Senhor Presidente da Assembleia Geral da Associação Ateísta Portuguesa, caros colegas dos corpos sociais, prezados consócios:
Ao iniciar este segundo mandato como presidente da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) saúdo os sócios presentes, vindos de todo o país, os que não puderam vir e todos os ateus onde quer que se encontrem.
A AAP procura afirmar o ateísmo como opção filosófica de quem se responsabiliza pelos seus actos e pela sua forma de viver, de quem estima a sua vida e a dos outros, de quem recorre à razão e confia no método científico para construir modelos da vida, e de quem não remete as questões morais para seres hipotéticos, criados pelos homens, nem para a esperança de uma existência após a morte.
Neste mandato continuaremos a defender o direito de todos os homens e mulheres à sua crença, descrença ou anti-crença, exigindo ao Estado a mais absoluta neutralidade face às opções individuais, cuja afirmação lhe cabe defender, sem subserviência aos clérigos nem favores às religiões, de acordo com a laicidade a que a Constitução obriga e que a ética recomenda.
Não deixaremos de insistir no abuso que constituem as aulas de Ensino da Moral e da Religião Católicas (EMRC) nos estabelecimentos de ensino público, com professores nomeados por bispos, pagos pelo Orçamento do Estado e anunciados através de ofício pelas dioceses.
Continuaremos a reclamar contra a burla episcopal indicando professores de EMRC, com habilitações para outras disciplinas, sem notas para as leccionarem por concurso, ultrapassando outros colegas através das aulas de EMRC, vinculados passados três anos.
Repudiaremos o aproveitamento político da vinda do Papa e, se vier a verificar-se, a subserviência de titulares de órgãos da soberania ou dirigentes autárquicos, bem como a utilização partidária da visita de Bento XVI, cujas provas de ocultação de crimes de pedofilia, divulgadas pela comunicação social internacional, aconselhariam a moderar o proselitismo e as viagens de promoção da fé.
A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) prosseguirá a linha de defesa da laicidade do Estado denunciando o aproveitamento que a Igreja catóilica faz das figuras cimeiras do Estado para as comprometer no reconhecimento dos pseudo-milagres com que persiste em explorar a crendice popular.
Finalmente, estaremos atentos a qualquer forma de religiosidade que procure atacar as liberdades individuais e comprometer a democracia. A AAP não aceitará que, em nome de qualquer deus, sejam diminuídos direitos, liberdades e garantias que as sociedades democráticas conquistaram com a repressão poítica do proselitismo religioso.
Lisboa, 27 de Março de 2010
a) O Presidente da Direcção
É a semana de todas as revelações.
Soube-se agora que, em 2007, um responsável de uma ONG dirigiu-se à Santa Sé com denúncias de abusos sexuais de menores cometidos por um sacerdote italiano. A Santa Sé nada fez. A Conferência Episcopal Italiana também foi informada. E também nada fez.
O padre seria preso em 2008, acusado de abusos sexuais e prostituição de menores. Até hoje, a Congregação para a Doutrina da Fé não sancionou o padre, que só não exerce o seu cargo por se encontrar na prisão.
Em 2007, Ratzinger era Papa. E nada fez. Como nada fizera em 1996 quanto ao padre do Wisconsin que abusou de duzentas crianças surdo-mudas. Era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e nada fez. Como também não fizera nada em 1980 quando era arcebispo.
Agora, escreveu um texto a defender que se deve «colaborar» com os tribunais. Pois.
Esta semana, Ratzinger ganhou uma nova alcunha. Depois de ser «Nazinger» e «Sapatinhos Vermelhos», é o «Santo Protector dos Pedófilos».
O New York Times traz hoje um novo artigo sobre a protecção e indulgência de Ratzinger para com sacerdotes responsáveis por crimes de abuso sexual de menores.
Em 1980, um certo padre Hullerman foi acusado, na diocese de Essen, de forçar um menor a ter relações sexuais com ele. Deve dizer-se, em abono da verdade, que a diocese o suspendeu das suas funções. Mas houve uma diocese que o aceitou: a de Munique, onde o arcebispo era o próprio Ratzinger. E que fez Ratinzger? Não colaborou com as autoridades judiciais (como recomenda agora) nem considerou o perigo que o padre representaria para as crianças da sua diocese. Pelo contrário, aceitou que o padre se mudasse para a sua diocese (ou seja, reabilitou-o), e até permitiu que ensinasse «Religião e Moral» numa escola pública. Em 1986, o padre foi condenado por um tribunal civil por um crime de abuso sexual de menor.
A semana passada, Ratzinger escreveu um texto a afirmar-se «escandalizado» com os abusos sexuais clericais na Irlanda, e convidando ao «arrependimento». Não explicou se ele próprio está arrependido.
Como já se vai dizendo, é a altura de perguntar «o que é necessário para um Papa se demitir»?
Richard Dawkins celebra hoje o seu sexagésimo nono aniversário.
Em homenagem, um dos seus momentos mais célebres no Youtube:
Que continue por muitos e largos anos com a força que o caracteriza na luta contra o obscurantismo é o que lhe desejo. Estou também curioso pelo seu próximo livro, que será direccionado às crianças. Suspeito que será uma obra que terei grande prazer em oferecer aos mais novos.
Perante a bancarrota moral da ICAR, com a cumplicidade do que é hoje Papa, e o silêncio a que condenaram as vítimas, vale a pena ler o El País, de hoje.
Carl Sagan, no seu livro «Um mundo infestado de demónios», lembra-nos que o abade Richalmus escreveu um tratado sobre os demónios, por volta de 1270. Os sedutores demoníacos de mulheres chamavam-se íncubos e os de homens, súcubos. Santo Agostinho acreditava que as bruxas eram o produto dessas uniões proibidas tal como a maioria das pessoas da antiguidade clássica ou da Idade Média.
Compreendem-se hoje as freiras que, num estado de confusão, viam semelhanças entre o íncubo e o padre confessor ou o bispo e que ao acordarem se sentissem conspurcadas como se se tivessem misturado com um homem, como escreveu um cronista do século XV (pág.126, ob. citada).
A fé e a superstição confundem-se. Ainda hoje vemos crentes que rumam a Fátima e à santa da Ladeira e quem promete a bilha de azeite ao santo e não dispensa conselhos da bruxa quando a adversidade lhes bate à porta.
Esta é a parte inofensiva da fé, pelo menos para os não crentes. Os únicos prejudicados são os crédulos que esportulam o óbolo sem qualquer benefício. O mesmo não se pode dizer do proselitismo e das perseguições aos que recusam partilhar a mesma fé.
Dir-se-á que hoje ninguém é molestado por comer carne de porco, por trabalhar nos dias santos ou por desprezar os sacramentos, mas isso só acontece onde foi contido o clero. É uma conquista contra o poder eclesiástico e não um direito outorgado pelas religiões. A lei seca dos EUA teve origem no radicalismo religioso [fruto do esforço conjunto da União Feminina da Temperança Cristã e das pressões de certas associações missionárias protestantes]. O porco continua o animal imundo para judeus ortodoxos e muçulmanos, escravos de um deus que está com o olho neles a cheirar o bafo e a vigiar os hábitos alimentares, a forma de vestir e a frequência das rezas para decidir o que lhes reserva: as penas perpétuas ou o Paraíso.
Não se aceitam crenças diferentes sobre higiene básica, epidemiologia e alfabetização e, no entanto, apesar da ligação directa entre as crenças e a acção, aturam-se crenças que apelam à violência, ao racismo e ao genocídio em nome da tolerância religiosa e/ou do multiculturalismo.
Enfim, dois pesos e duas medidas para as crenças religiosas e para as políticas, ambas com efeitos directos sobre os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Proíbe-se o incitamento ao ódio, a xenofobia, a discriminação de género, a mutilação e muitas outras barbaridades excepto quando praticadas sob os auspícios da fé.
Segundo um artigo publicado hoje no New York Times, Ratzinger recebeu em 1996 duas cartas do arcebispo do Wisconsin alertando para um sacerdote que já abusara sexualmente de cerca de duzentas crianças surdas. O que aconteceu? Aconteceu que Tarcisio Bertone, então vice de Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé, tentou abrir uma investigação canónica (e portanto meramente interna), mas bastou uma singela carta a Ratzinger do padre (internamente) acusado para o processo ser engavetado por Bertone. O padre morreu em 1998, aparentemente sem remorsos de qualquer espécie.
Este caso, provavelmente apenas um entre as dezenas ou centenas de que Ratzinger terá tido conhecimento durante o quarto de século que passou à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, permite concluir que Ratzinger soube de crimes de abuso sexual de menores, e que nada fez para denunciá-los às autoridades civis. Antes pelo contrário, protegeu o criminoso. Agora, na recente carta irlandesa, pede «perdão» (o que não serve rigorosamente para nada) e fala em «cooperar com as autoridades civis». Mas a verdade é que ele próprio ainda não começou a cooperar, e é pouco crível que não tenha conhecimento de casos que ainda possam ir a tribunal. Afinal, há apenas cinco anos, em 2005, ainda era ele o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Se realmente quer ser um homenzinho e assumir responsabilidades, Ratzinger tem muito que contar.
Outra conclusão que se impõe é que a obrigação de manter segredo, dentro da ICAR e perante os tribunais civis, sobre crimes de abuso sexual de menores cometidos por padres, ainda se mantinha em vigor nos anos 90. Ninguém pode garantir que já não esteja em vigor hoje (Ratzinger reafirmou-a em 2001). E os bravos jornalistas portugueses poderiam ter a coragem de perguntar aos bispos e padres portugueses o que fariam perante casos destes. Ou investigar casos semelhantes, por exemplo na Madeira.
A reacção da equipa do Spamcartoon:
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