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6 de Junho, 2010 Ludwig Krippahl

Treta da semana: com esses meninos não brinco.

Recebi por email a notícia que o Conselho Pontífice para a Cultura vai encetar um “diálogo aberto” entre o Vaticano e os ateus, «criando uma fundação para focar as relações com ateus e agnósticos» (1). À partida a ideia é boa. Quando duas partes discordam faz falta uma conversa franca onde cada uma possa apontar as premissas que rejeita, justificar as suas de forma que a outra aceite e esteja disposta a mudar a sua posição se a justificação contrária for melhor.

Mas o Vaticano tem uma ideia diferente de “diálogo aberto”. Mais habituados à missa que ao debate, querem deixar a conclusão assente logo de início. A iniciativa responde ao desafio do Papa para que a Igreja Católica venha «renovar o diálogo com homens e mulheres que não acreditam mas que querem aproximar-se de Deus». Parece-me que será uma amostra pequena e tendenciosa do universo de ateus e agnósticos. Além disso, o objectivo não é determinar quem tem razão ou sequer encontrar pontos consensuais. É «ajudar as pessoas a sair de uma concepção pobre da crença e promover a compreensão que a teologia tem dignidade científica». Começar por dizer “diálogo aberto” e chegar a isto faz-me lembrar as velhinhas com a revista Despertai debaixo do braço que começam por perguntar “Jovem, gosta de ler?”. O que se segue está para o gosto pela leitura como esta iniciativa está para o diálogo aberto.

Para reforçar que isto é só para quem quer ouvir o sermão e não para quem quer debater, deixam claro que só estão interessados no «ateísmo ou agnosticismo nobre, não no polémico», e que não querem debater com «ateus como [Piergiorgio] Odifreddi na Itália, [Michel] Onfray na França, [Christopher] Hitchens e [Richard] Dawkins». Querem um diálogo aberto mas sem polémica.

Talvez seja um problema de generation gap. O topo da hierarquia da Igreja Católica tem apenas homens do tempo em que se levava o catolicismo tão a sério que ninguém apontava estes disparates. Mas hoje, por muito que lhes custe a admitir, as coisas mudaram. Se organizam um “diálogo aberto” só com fantoches, «para criar uma rede de pessoas agnósticas ou ateístas que aceitem o diálogo e entrar como membros na fundação e, portanto, no nosso dicastério», vão ser é gozados.

Se querem dialogar com os ateus então organizem os debates com aqueles que os ateus consideram resumir melhor a sua posição. Se só escolherem os “ateus nobres” que querem fazer parte da Igreja Católica e aproximar-se desse deus o diálogo vai ser notável apenas pelo caricato da iniciativa.

1- Catholic News Agency, Atheists invited to join Vatican Council for outreach initiative
2- The Independent, Vatican reaches out to atheists – but not you, Richard Dawkins

Também no Que Treta!.

5 de Junho, 2010 Carlos Esperança

O esgoto do Universo

É assim que o primata, que parece saído do título com que pretendeu definir o ateísmo, intitulou este texto no Jornal da Madeira.

Quando um cruzado sai da Idade Média para bolçar inanidades, não há argumentação que valha, nem paciência que justifique uma resposta.

Faz mais pelo ateísmo este naco de ódio em português medíocre do que a lúcida, serena e inteligente pedagogia dos pensadores ateus.

5 de Junho, 2010 Carlos Esperança

Cavaco e a alegada candidatura de direita

Só o rancor político de Santana, o desabafo beato do patriarca Policarpo e um golpe de mestre dos cavaquistas se podiam ter conjugado para inventarem a possibilidade de uma candidatura à direita de Cavaco.

Ninguém imagina à direita do candidato de Boliqueime espaço para uma agulha. Não está só encostado, está colado. Já coleccionou dois Papas, muitas missas e a presidência da comissão de honra da canonização de Nuno Álvares Pereira, comissão que aprovou simbolicamente o milagre da cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus queimado com salpicos ferventes de óleo de fritar peixe.

O candidato Cavaco gravou para a posteridade o eco pontifício da repetição dos nomes dos netos, o espectáculo de toda a família a beijar o anel do regedor do Vaticano e a sua presença nos actos litúrgicos do peregrino Ratzinger.

Cavaco não é apenas um homem de direita, é um reaccionário que reage mal às decisões dos outros órgãos de soberania e que encontra sempre as palavras mais adequadas para dizer as coisas da forma mais errada, seja a pretensa justificação da infeliz golpada das escutas ou o álibi para promulgar a lei do casamento de pessoas do mesmo sexo.

À direita de Cavaco não existe nada. Nem um desejo mais veemente de substituir o PS pelo PSD ainda que com o enfado de não ser por quem preferia.

Depois de a esquerda, certa esquerda, ter ajudado a empurrar o eleitorado para a direita do PS só lhe interessa gerir os passos para continuar a ocupar o palácio de Belém donde sonha exercer o poder executivo por interposta pessoa do PSD.

Com este golpe, onde aproveitaram para enaltecer figuras tão medíocres como Bagão Félix ou Pires de Lima, os estrategos da direita fingiram que Cavaco seria um homem do centro. Bem jogado.

3 de Junho, 2010 Carlos Esperança

Para que serve uma primeira dama?

A existência de uma primeira-dama, numa República, é um anacronismo que diminui a indeclinável igualdade de género e um fenómeno que alimenta as revistas cor-de-rosa onde a ociosidade de princesa prevalece sobre a dignidade profissional da mulher. É um resquício monárquico preservado como adereço de presidentes e primeiros-ministros  em viagens de Estado ou como electrodoméstico para cuidar do marido  nas deslocações internas.

Seja como instrumento de propaganda, ou como hábito, é maior a humilhação do que a glória e o paradigma obsoleto destrói o exemplo de mulher moderna e emancipada de que precisam os povos habituados a hábitos patriarcais e tradições religiosas misóginas.

Mantém-se o espírito bíblico que subordina a mulher ao homem, não faltando mulheres cultas, inteligentes e bem preparadas para exercerem qualquer cargo com dignidade.

A eleição de uma mulher simbolizaria, no exercício da mais alta magistratura da nação, o carácter emblemático da igualdade de género, quando já ninguém duvida da qualidade com que as mulheres exercem cargos de topo na magistratura e na diplomacia, funções que a ditadura lhes negava.

A qualidade da democracia também se avalia pela igualdade entre homens e mulheres. A discriminação é intolerável e a existência de uma primeira-dama só contribui para a perpetuação de uma simbologia em que à mulher está reservado um papel subalterno.

Não importa que os EUA e o Reino Unido, ou mesmo a França, dêem maus exemplos. A emancipação feminina não se compadece com papéis que o progresso e a civilização tornaram anacrónicos.

3 de Junho, 2010 Carlos Esperança

Associação Ateísta Portuguesa – Conferência

Ateísmo, Laicismo e Anti-clericalismo em Portugal

Dia 4 de Junho: Amadeu Carvalho Homem (professor catedrático U.C.)
Tema: Religião e República  – 18H30

Biblioteca-Museu República e Residência – Espaço Cidade Universitária

(Próximo da faculdade de Farmácia)

Rua Alberto de Sousa, 10 – A  (Zona B do Rego) – Lisboa

Metro: Cidade Universitária; Entrecampos