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8 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Direitos humanos segundo Maomé

TEERÃO (Reuters) – Países estrangeiros não devem interferir no sistema legal do Irão e devem parar de tentar converter o caso de uma mulher condenada à morte por apedrejamento por ter cometido adultério em problema de direitos humanos, disse Teerão na terça-feira.

Continua….

8 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Jesus cansado da cruz (Crónica)

Um dia o enorme crucifixo da velha igreja ganhou vida. Genuflectida a seus pés uma beata debitava a salve-rainha enquanto, do lado direito, um pouco atrás, antes do transepto, outra beata rezava padre-nossos junto ao altar da Virgem Maria. Era a força do hábito. Trocavam-se orações por pedidos sem reclamação dos ícones nem reparo dos mendicantes, enquanto o padre vociferava latim e dizia a missa.

O senhor Jesus já por ali andava dependurado, há uns séculos, a suportar a crueza dos espinhos e o mau aspecto das chagas que nunca mais saravam. Enegreceu com o fumo das velas, suportou os odores de quem cuida melhor a higiene da alma do que a do corpo, ouviu gente em desespero e pedidos de vingança de almas danadas que lhe solicitavam o infortúnio alheio.

Conheceu centenas de padres e numerosos bispos a quem nunca fez reparo pelo latim periclitante, a pobreza das homilias ou a riqueza dos paramentos. Ouviu confissões eróticas sem mover a tanga, safadezas incríveis sem se ruborizar, misérias de vidas e vidas de miséria, sem um suspiro, um grito ou um vómito. A tudo o senhor Jesus se habituou, até às versões diferentes a respeito da sua própria vida.
Ouviu um bispo irado a condenar os jacobinos, outro a  amaldiçoar os judeus, e, todos, conforme as épocas, a execrar a Revolução Francesa, a república, o laicismo, a apostasia, a blasfémia e o preservativo.

A tudo o senhor Jesus assistiu, em silêncio, no bronze em que o esculpiram. Até um dia. Até ao dia em que o padre apostrofou os incréus que se afastavam do culto, faltavam à santa missa e se furtavam à eucaristia; admoestou as donzelas impacientes que não esperaram pelo casamento; ameaçou os casais que substituíam a castidade pelo preservativo e contrariavam os desígnios de Deus quanto aos filhos. Jesus despertou no preciso momento em que o oficiante explicava que naquelas rodelas de pão ázimo ia ele próprio, em corpo e sangue, pousar nas línguas ávidas de quem guardara jejum desde a meia-noite, bem confessado, melhor arrependido e excelentemente penitenciado.

Foi então que arrancou os cravos, deu um piparote na coroa de espinhos, abandonou a cruz e esgueirou-se por entre os devotos sem ninguém notar, nem a beata das salve-rainhas, nem o padre que administrava a partícula, nem os comungantes habituados a fechar os olhos. Ninguém reparou que no seu lugar ficou apenas um sinal mais, em raiz de nogueira, com quatrocentos anos, aliviado do peso e do freguês.

Jesus não mais foi visto.

7 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Momento zen de segunda

Por

Rui Cascão

O Carlos Esperança que me perdoe por me antecipar à sua diuturna refutação da crónica de Segunda feira de João César das Neves no DN, e ainda por lhe plagiar o “lead”, mas desta vez não consegui resistir.

Ora cá cá vai a contradita:

JCN refere “Desde o Iluminismo que uma ingénua arrogância luta, em nome do mundo novo, para substituir as tradições cristã, judaica, muçulmana, celta, germânica, greco-romana por uma ficção pseudo-científica que alimenta o corropio de ideologias.”. É claro que JCN convive mal com a Europa que emergiu das luzes, e que preferiria o pio mundo das trevas medievas e da infalibilidade papal.

Numa outra pérola, afirma que “pelo contrário, havendo atrocidades de parte a parte, regra na época, a superior técnica cruzada permitiu, face a enorme desvantagem numérica, manter um reino e rica cultura “que, pelo menos ao longo da costa, durou quase tanto quanto os EUA são uma nação” … não haverá aqui uma contradição no raciocínio de JCN? Ora as atrocidades de parte a parte, regra na época, conforme afirma, não são apenas a consequência do espírito da época pré-iluminista? Ora, os valores iluministas consistem precisamente na erradicação da barbárie, e os que se verificaram no período pós-iluminista se devem essencialmente a derivas irracionalistas ou na incapacidade humana de aplicar os valores do iluminismo?

JCN prossegue afirmando que “Desde o Iluminismo que uma ingénua arrogância luta, em nome do mundo novo, para substituir as tradições cristã, judaica, muçulmana, celta, germânica, greco-romana por uma ficção pseudo-científica que alimenta o corropio de ideologias. Em resultado, empirismo, utilitarismo, positivismo, marxismo, nazismo, existencialismo, pós-modernismo têm-se sucedido, degradando uma elevação cultural que modelou o mundo.”. Fabuloso… nem sei por onde começar a contestação. JCN é um economista, sendo o seu pensamento económico (que é aliás irrepreensível) enquadrado por uma óptica liberalista. Ora o liberalismo económico tem como bases o empirismo, o positivismo e o utilitarismo. Será que JCN arriscará a sua credibilidade profissional ao renegar as bases metodológicas da sua arte? Sempre pensei que JCN fosse cristão. Ora o existencialismo iniciou precisamente como uma reacção filosófica cristã contra o positivismo e o utilitarismo (com o seu expoente máximo o teólogo Søren Kierkegaard). Por outro lado, como é que se colocam no mesmo saco do pós-iluminismo ideologias tais como o nazismo, o existencialismo e o pós-modernismo, que têm como fundamento a própria negação dos princípios e valores do iluminismo, ou o marxismo (e o hegelianismo) que restringem o valor da liberdade humana em contradição com o iluminismo, no mesmo saco do positivismo e do utilitarismo? Só com a intenção dolosa de criar uma falácia tal se poderá admitir.

Prossegue JCN ao afirmar que “Desde o Iluminismo que uma ingénua arrogância luta, em nome do mundo novo, para substituir as tradições cristã, judaica, muçulmana, celta, germânica, greco-romana”… Será que não haverá aí um certo elitismo, para não dizer outra coisa, na selecção das pseudo-matrizes culturais da Europa? Milhares foram os povos e culturas que preteritamente marcaram e futuramente marcarão a Europa enquanto este planeta existir. Então e a tradição eslava, a tradição báltica, a tradição nórdica, a tradição magiar, a tradição otomana, a tradição cigana, a tradição albanesa, a tradição basca, a tradição ibérica, as várias tradições de todas as sete partidas do mundo que enriqueceram a cultura europeia, etc.? E expliquem-me o que é que significa “tradição greco-romana” para além de um cliché? Que eu saiba, existe a cultura helénica, a cultura helenística, a cultura romana e um aglutinado entre uma cultura avançada (a helenística, hedonística e nefelibata) que foi conquistada e escravizada por outra cultura mais pragmática. Tradição germânica… qual? A dos Francos? A dos Visigodos? A dos Ostrogodos? A dos Vândalos, e neste caso quais? Os Asdingos ou os Sililingos? O que é a tradição cristã? A cristã ortodoxa, a católica, a luterana, a calvinista, a copta ou a monofisita? E a tradição islâmica? A sunita, a xiita ou a sufita? E entre a sunita, prevalente na Europa? A wahabista, a salafista, a malaquista, ou a shafiista? Então e as “tradições” cristalizam-se no tempo e no espaço em entropia?

Finalmente refere JCN uma obra de Rodney Stark com uma visão alternativa das cruzadas em que o materialismo rapaz dos cruzados é uma falsificação, os cruzados são a ingerência humanitária in illo tempore, etc. JCN, quando não fala sobre economia, é recidivo em utilizar apenas uma fonte revisionista erigindo-a em suma autoridade que decisivamente revê o paradigma. Penso que JCN deveria ler Thomas Kuhn. Bem sei que provavelmente Kuhn deve estar no index e que JCN provavelmente preferiria a epistemologia coeva de Galileu. Kuhn afirmou que, para que uma determinada tese científica (paradigma) possa ser revista e superada, de forma a haver uma revolução epistemológica relativamente a essa tese, é necessária a completa superação da tese anteriormente dominante na comunidade científica. E, quanto às cruzadas, o paradigma dominante não foi superado por esse autor que JCN indica, e que configura esse sistema histórico (as cruzadas) como um confronto de interesses entre dois pólos principais. De um lado os interesses espirituais e venais dos Estados Pontifícios, de algumas potências europeias com possibilidades limitadas de expansão territorial devido ao equilíbrio de poder na Europa e forte pressão demográfica (quanto a isto, leia-se o Diplomacia de Kissinger), a ânsia de glória e fortuna dos não morgados excedentários do regime feudal. Do outro lado o expansionismo do califado islâmico, (aliás, JCN deveria verificar melhor as suas fontes, nas primeiras cruzadas ainda os turcos não tinham adquirido a preponderância no mundo islâmico- o protagonismo coube até 1258 ao Califado Abássida de Baghdad, data em que foi conquistado pelos mongóis… a história afinal tem números, tal como a economia). Actores menores e contraditórios foram o Império Romano do Oriente (cristão ortodoxo, que foi saqueado e ocupado na quarta cruzada pelos cruzados, precipitando a sua agonia que culminou com a tomada de Constantinopla em 1483) e a Sereníssima República de Veneza, ansiosa de expandir o seu território, acertar contas com os Estados Pontifícios e promover os seus interesses mercantis no Levante.

JCN fala de cátedra e fala bem quando fala de economia. Quando fala de filosofia ou de história, deveria ir mais ao fundo. E não deveria generalizar no que concerne a temas tão imensamente complexos. É que a sua reputação sofre. E prefiro mil vezes o nosso imperfeito admirável mundo novo à entrópica pax ecclesiae e o gloria in excelsis deo defendidos por JCN.

6 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Os 33 mineiros do Chile e o oportunismo clerical

Sobre a mina de S. José os padres pairam como aves de rapina.

No Chile, a 700 metros de profundidade , 33 mineiros lutam pela sobrevivência numa caverna onde deviam ter sido escavados túneis que tornavam a exploração mineira mais cara mas de menos risco.

A tragédia apanhou-os numa jornada de 12 horas, horário herdado do piedoso Pinochet, fascinado por Milton Friedman que transformou o Chile no laboratório da sua demência neoliberal.

Os mineiros, afeitos ao sofrimento e penosidade, têm resistido às condições adversas e mantêm viva a esperança de resgate. Enquanto lutam pela vida, cá fora, os funcionários de deus lutam pelo mercado da fé. O Papa enviou-lhes 33 terços benzidos manualmente, por intermédio do cardeal Francisco Javier Errazuriz, e o pastor Carlos Parra, da Igreja do Sétimo Dia, 33 bíblias protestantes em miniatura.

O respeito pela diversidade religiosa e pelas condições de fragilidade psicológica não impediu os prosélitos de montarem a tenda de adereços pios sobre a mina onde lutam pela vida os mineiros enclausurados e as famílias desesperadas aguardam.

Cá fora ergueram um santuário a transbordar de altares sobre pedras e caixas de cartão. Entre a reprodução da Virgem de Andacollo e um Cristo não faltam Santo Expedito e, naturalmente, S. Lourenço que a Igreja católica decidiu fazer patrono dos mineiros.

O presidente Piñera, especialista na caça ao voto, já ameaçou erguer um santuário católico no local, indiferente ao respeito que devia merecer-lhe o pluralismo religioso, nomeadamente a Igreja evangélica, que cerca de metade dos mineiros enclausurados frequentavam. Os clérigos que exploram o medo e a aflição das famílias fragilizadas parecem aves de rapina à espera dos despojos. Não aguardam a libertação dos mineiros, exploram o drama que se vive dentro e fora da mina, numa acção de propaganda pia.

Agora é tempo de confiar nos homens e esperar que especialistas mantenham condições de sobrevivência durante meses enquanto outros lutam por abrir um túnel que os salve.

Perante o barulho das máquinas fica o espectáculo da superstição e do oportunismo clerical a explorar a dor, o medo e a ansiedade.

Há profissões que vivem disso.

6 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Humor eclesiástico

Na Universidade de Verão do PSD

O padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, saiu-se com esta “anedota” há dias em Castelo de Vide: “Costumo dizer q a igreja precisa mto das mulheres… senão quem é q fazia as limpezas?!”

Sem comentários…

(contado no Facebook pela Celia de Sousa, jornalista na Antena 1)
Publicada por Susana Barros

5 de Setembro, 2010 Ludwig Krippahl

Treta da semana: Mexe? Nah…

No dia 6 de Novembro vai haver uma conferência interessante no Indiana, EUA. É a “Primeira Conferência Católica sobre o Geocentrismo” (1). Segundo o cartaz, Galileu estava enganado e a Igreja Católica é que tinha razão. O programa promete. O “Dr.” Robert Sungenis, mestre em teologia pelo Seminário Teológico de Westminster, começa com a sua palestra “Geocentrismo: eles sabem mas estão a escondê-lo”. Os maganos… isso não se faz.

Segue-se uma introdução à mecânica do geocentrismo, e depois vem o Dr. Robert Bennett com experiências científicas que demonstram que a Terra está parada no espaço. Estas experiências devem ser fascinantes. Há também evidências bíblicas do geocentrismo – nestas coisas “evidência” inclui as fantasias de tribos antigas – e, como não podia faltar, o Carbono 14 para demonstrar que a Terra é um planeta jovem. A idade da Terra não tem nada que ver com o geocentrismo mas, treta por treta, que venham também as do criacionismo. E tudo isto por uns meros cinquenta dólares com almocinho incluído. Se fosse aqui perto (e só o almoço) talvez eu até lá fosse.

Na conferência estará à venda o livro de Sungenis e Bennett, Galileo Was Wrong: The Church Was Right, uma obra em dois volumes. O argumento central, se argumento se pode chamar, parece ser que a física permite estipular qualquer referencial onde medir coordenadas (2). O que é verdade, mas eu diria ser mais um argumento contra o geocentrismo do que a seu favor, visto não dar qualquer razão para considerar a Terra como estando no centro do universo. E até dá boas razões contra escolher esse referencial.

Num sistema de referência inercial as expressões são mais simples. Se medirmos as coordenadas num sistema de referência que acelere ou rode em relação a sistemas inerciais, temos de acrescentar forças fictícias para descrever as trajectórias e a expressão das mesmas leis da física torna-se muito mais complexa. Por exemplo, a figura abaixo mostra as órbitas de Mercúrio, Vénus, Terra e Marte representadas, da esquerda para a direita, em relação ao Sol, em relação a um referencial centrado na Terra mas sem rodar, e num referencial na Terra rodando com esta (3).

complicar o simples

Como é normal nestas coisas, o geocentrismo massaja o ego de quem não consegue admirar o universo pelo que ele é – naturalmente indiferente às nossas preferências ou inseguranças – em detrimento de uma descrição correcta, rigorosa e sucinta. Mas, para mostrar que tenho aprendido umas coisas no diálogo com os defensores da teologia, decidi concluir este post com uma apologia do modelo geocêntrico.

Fisicamente, o geocentrismo não faz sentido. Mas, ainda assim, é uma certeza metafísica pelo mistério da fé. Como a transubstanciação da hóstia e a virgindade de Maria. E sendo a fé um complemento da razão, estas nunca podem contradizer-se e é impossível interpretar a doutrina geocêntrica de forma a contradizer a ciência. Temos de considerar vários níveis de interpretação, como o arbitrário e o fictício, para interpretar o geocentrismo e poder afirmar que a Terra está imóvel no centro do universo sem contradizer, de forma alguma, a ciência que afirma precisamente o contrário.

E, se for preciso, podemos chamar a atenção dos cientistas para um aspecto fundamental de qualquer questão acerca do universo. A jurisdição. Tal como a origem do universo, a existência de deus e a aparição milagrosa de vários defuntos, a posição da Terra é um problema teológico e não científico. Por isso os cientistas não podem dizer que o universo surgiu sem precisar de um deus nem dar dicas acerca da posição da Terra. Esses são assuntos que não lhes dizem respeito.

1- Galileowaswrong.com. Obrigado à Ana Luísa pela informação, os momentos de incredulidade e o facepalm quando, umas googladelas depois, descobri que era mesmo a sério.
2- Catholic Truths, Geocentrism 101. (Mas confesso que não tive pachorra para ler tudo…)
3- O código fonte, para Octave, está aqui. As unidades dos gráficos são em centenas de milhões de kilómetros, mais ou menos alguns zeros caso me tenha enganado. Os gráficos são para 690 dias terrestres, que é um ano de Marte, com um ponto por dia excepto no último, onde calculo 6 pontos por dia para contar com a rotação da Terra.

Em simultâneo no Que Treta!

5 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

Dúvida metódica

Por

José Moreira

Tenho seguido, religiosamente, os comentários relacionados com a questão do envio de terços aos mineiros chilenos. E a verdade é que, até este momento, ninguém conseguiu responder para que, CONCRETAMENTE, servem os terços, numa situação aflitiva como a dos mineiros. Pediram tabaco, foi-lhes negado; pediram vinho, deram-lhes ácido fólico (deve ser parecido. Vou experimentar, no próximo cabrito assado. ..). Não pediram terços nem bíblias, mas eles aí vão.

No entanto, e este é que me parece ser o ponto principal, ainda ninguém se referiu ao facto – este sim, de suma importância – de os terços terem sido benzidos pelo B16. Ora, meus caros: estão a discutir o sexo dos anjos, e omitem o primordial? A benzedura terçal (rima e é verdade)?

Aliás, se não fosse importante, os jornais nem falariam nisso, sabido como é que os rapazes da imprensa só publicam coisas importantes.

Pois bem: eu, como ateu iletrado que sou, não consigo distinguir entre um terço bento (16?) e um terço dito normal. Para mim, é tudo a mesma choldra. Mas sou obrigado a admitir que alguma diferença haverá. Tal como há, certamente, entre a água benta e a outra – a da torneira, por exemplo.Porque se não houvesse diferença, o B16 não iria perder o seu rico tempo a benzer trinta e três terços, qualquer coisa como 33/3. Não senhor. A menos que os tenha benzido por atacado, como se faz nos baptizados, e nas missas de 7º dia, em que se reza uma missa para todos, mas se cobra individualmente. E bem!

Mas estou a afastar-me do meu objectivo, que é o de pedir, encarecidamente, aos católicos de plantão ao DA, que me elucidem acerca destes magnos problemas:

– Como é que se distingue um terço bento (16?) de um terço “tout-court”?
– Qual a diferença, em termos de resultados práticos, entre um e outro, ou seja, qual deles tem mais poder?
– Na hipótese, meramente académica e manifestamente absurda, de ambos terem poder igual, para que serviu a benzedura?
– Se os terços tivessem sido bentos por um mero sacerdote, teriam menos valor? Ou menos poder?
– Os mineiros são todos católicos?
– Os mineiros conseguem verificar se os terços são terços bentos ou não? Ou será que alguém os dilucidará?

5 de Setembro, 2010 Carlos Esperança

AAP – Carta aos sócios

A Associação Ateísta Portuguesa não pode deixar de congratular-se com a afirmação do eminente cientista inglês, Stephen Hawking, de que não há espaço para Deus nas teorias sobre a criação do Universo.

O cientista usado pelas Igrejas para mostrar que, à falta de argumentos, as crenças têm quem as defenda, exibiam a sua enorme inteligência com a beata insinuação de que os ateus não estavam à sua altura, como se isso provasse a existência do deus criado pelos homens e à custa do qual vivem as religiões.

A afirmação de que o Big Bang foi apenas uma consequência das leis da Física sem qualquer papel de Deus, deixa os vendedores de ilusões mais sós. A teoria do professor Stephen Hawking surge no seu novo livro, intitulado The Grand Design, e contraria as posições assumidas anteriormente pelo cientista, que chegou a defender que a crença num Criador não era incompatível com a Ciência, num livro publicado em 1988.

A AAP reitera a sua satisfação pela conclusão de Stephen Hawking a respeito do Big Bang e subscreve as palavras de outro grande cientista e referência dos ateus, Richard Dawkins, a esse respeito: «Obrigado Hawking. Disseste alto e bom som o que todos nós já repetimos sem fim: deus não faz parte da explicação do mundo em que vivemos».

Saudações ateístas.

Associação Ateísta Portuguesa – 02-08-2010

4 de Setembro, 2010 Ludwig Krippahl

Q&A.

O Miguel Panão fez quatro perguntas no seu blog, em quatro posts recentes. Como as respostas do Miguel não me parecem fazer justiça à clareza das perguntas, decidi dar uma ajuda.

«É possível considerar uma ciência de Deus?»(1)

É. E nem é preciso inventar um “método científico-teológico”, como o Miguel propõe. Basta que se possa inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus. Basta isto porque os objectos da ciência são as hipóteses, modelos e teorias. Se formarmos as nossas ideias de maneira a poder descobrir quando erramos, elas dão-nos um caminho para o conhecimento. E isso é ciência.

Infelizmente, gato escaldado tem medo de água fria. A Igreja Católica já sofreu tantos traumas com a refutação dos seus modelos falsificáveis que agora prefere alegações vagas que nunca se possa saber se são verdade, mentira ou sequer se alguma diferença faz. E o incentivo da crença lucrativa em milagres e aparições disfarça-se de tolerância erudita pela simplicidade dos menos esclarecidos.

«Prova científica da existência de Deus?»(2)

Também. Mas a prova científica não é um argumento ou uma demonstração. É um teste. A prova científica da existência de Deus é, simplesmente, o teste da hipótese “Deus existe”. O que é perfeitamente viável. Só que, para os crentes, é inconveniente. E se falha? Grande chatice. Por isso o Miguel apressa-se a excluir a possibilidade alegando que «se Deus fosse considerado uma hipótese formulada no quadro do mundo natural implicaria considerá-lo como um ser entre outros seres, uma causa entre outras causas, logo, não seria Deus. Por definição».

À parte de querer dizer à realidade como ela é à força da definição, o que claramente não funciona, esta objecção é irrelevante. Há muito na ciência que não é “causa entre outras causas” nem “ser entre outros seres”, desde o princípio de incerteza de Heisenberg às leis da termodinâmica, e incluindo todas as abstracções lógicas e matemáticas que usamos para construir modelos, como a raiz quadrada de dois ou as funções trigonométricas.

E já se fez muitas provas cientificas a muitas hipóteses acerca de muitos deuses. Incluindo o do Miguel. O resultado é que foi desanimador para os crentes. Sempre que alguma destas hipóteses foi posta à prova, chumbou. Daí a preferência moderna por hipóteses que nunca podem ir a exame.

«Todo o cientista é não-crente?»(3)

Aqui estou de acordo com o Miguel, se bem que a resposta não tenha nada que ver com o materialismo. É claro que o cientista pode crer num deus e ter fé. Mas só da maneira como o neurocirurgião pode ser pugilista e o padeiro fazer compostagem. Separadamente. O problema não é se a mesma pessoa é capaz de ambas as actividades mas que as actividades são incompatíveis. O bom padeiro tem de lavar as mãos antes de meter a mão na massa, o neurocirurgião tem de trocar de luvas e o cientista tem de deixar a sua fé noutro lado. Porque a convicção de já saber a Verdade impede que descubra a verdade. Esta última, apesar de escrita com minúscula, é mais útil e mais honesta. E chegamos à quarta pergunta do Miguel.

«Como interagem ciência e fé?»(4)

Mal. A fé é convicção, empenho emocional e apego às ideias. É ser fiel a uma hipótese, é confiança e crença pela crença. É ver como virtude a defesa persistente de uma ideia face a qualquer vicissitude ou evidência contraditória. A ciência é o oposto. É dúvida metódica, imparcialidade e desapego. É a disposição para mudar de ideias, desconfiar das premissas e aceitar as crenças apenas em função das evidências. E ver como virtude a capacidade de dizer enganei-me, esta ideia não serve, vamos procurar outra.

Uma pessoa poder dedicar-se a ambas não indica que sejam compatíveis. É como um copo poder ter água e azeite. Continua a ser preciso escolher como agir em cada situação. Ou dando um salto de fé na esperança de cair em respostas certas. Ou avançando com o andar prudente da dúvida, ciente que cada passo pode ser um erro, que tem de ser sujeito a testes e fundamentado em evidências, e admitindo a possibilidade de voltar atrás para procurar melhores caminhos.

1- É possível considerar uma ciência de Deus?
2- Prova científica da existência de Deus?
3- Todo o cientista é não-crente?
4- Como interagem ciência e fé?

Em simultâneo no Que Treta!

4 de Setembro, 2010 Fernandes

A minha educação sexual

Quando descobri que certas toques eram particularmente agradáveis, aproveitava todas as ocasiões para aumentar essa descoberta. Certa vez a minha mãe apareceu inesperadamente e disse-me em tom severo: «proíbo-te de tocares nisso, é um pecado grave, e vais acusar-te dele na próxima confissão.» Como o desejo era mais forte que o interdito, continuava episodicamente as minhas práticas masturbatórias, na angústia e no medo da condenação eterna. O problema da masturbação acompanhou-me durante toda a adolescência.
Ao domingo, toda a família ia à missa. Se por infelicidade me tivesse masturbado, e não tivesse tempo de me confessar, ia à comunhão com a certeza de cometer um pecado mortal. Mas preferia correr esse risco a ter de suportar o olhar inquisidor do meu pai e a atitude dolorida da minha mãe. Não comungar, era confessar oficialmente o meu vício, a minha “fraqueza”.
Fiz os meus primeiros estudos num colégio interno dos Salesianos. toda a minha educação foi dominada pela noção da culpabilidade e do pecado. Lá, tudo era pecado: Falar no dormitório, não ir à missa todos os dias, queixar-se da comida, isolar-se com um companheiro para conversar ou jogar, não saber o catecismo ou desinteressar-se das lições de religião e moral. Qualquer falta à perfeição era sancionada conforme a gravidade, com uma reprimenda, algumas orações na capela, ou com um dever suplementar que consistia em copiar algumas passagens do Evangelho. As faltas mais graves eram punidas com castigos como, ficar a um canto virado para a parede, ficar de joelhos, ou de pé com os braços abertos como Jesus.
A minha educação foi orientada por alguns grandes princípios:
1º Deus está em toda a parte e vê-me em cada momento da minha vida. Pedir-me-á contas, no dia do juízo final, mesmo das acções mais ocultas.
2º Devemos procurar sem descanso a perfeição. Só a perfeição nos pode aproximar de Deus, que é perfeito.
3º Devemos desconfiar dos nossos instintos e más tendências. O bom cristão deve estar sempre vigilante, pois o Demónio está sempre pronto a seduzir-nos e a afastar-nos de Deus.
Os meios preconizados para conseguir cumprir este código eram a oração, a abstinência, o sacrifício permanente de si próprio, a luta quotidiana contra os maus pensamentos, sobre tudo em matéria de sexualidade, e a busca da perfeição em todos os actos da vida.
O confessor repetia-me muitas vezes: «Deus vê-te e julga-te. Pensa no sofrimento de Jesus que foi crucificado pelos nosso pecados.»
Quando penso nesses tempos, ainda me sinto esmagado. Era uma autêntica espiritualidade do terror.
Os meus pais intervieram muito pouco na minha educação. Tinham-me posto no colégio interno dos senhores padres. Tinham cumprido o seu dever.
Meu pai era aquilo a que se chama um bom cristão cumpridor. Tinha uma vida cristã bem organizada entre missas e comunhões regulares; pagava escrupulosamente o seu contributo para as despesas da Igreja e do Padre. Era um homem bom, mas demasiado preocupado com a sua própria angústia existencial.
Como todas as boas famílias cristãs, também tínhamos o nosso oráculo: o meu tio, jesuíta, culto e respeitado. Vinha almoçar uma vez por mês a nossa casa, e nós éramos obrigados a suportar os seus discursos sobre as teorias sociais da igreja.
Uma vez agarrou-me pelo braço, puxou-me para o terraço e lembrou-me: «Sabes que a masturbação é proibida» disse-me com ar ameaçador. «Não se deve mexer nas calcinhas às raparigas. Se isso já te aconteceu tens de te confessar.»
No colégio fui castigado por ter ficado em cuecas durante alguns minutos no dormitório. «Não podes ficar em cuecas diante dos teus colegas, podes provocar maus pensamentos» – foi a justificação.
Já tinha catorze anos quando o meu pai me faz a seguinte recomendação:
«desconfia das raparigas, mesmo das que, aparentemente, são umas pombas de brancura. São umas manhosas.»
Mas o ensinamento mais importante foi-me dado pelo nosso oráculo do domingo: «o único método contraceptivo autorizado é o das temperaturas.»
Eis um resumo do que foi a minha educação sexual oficial e familiar. Tudo o mais aprendi-o como me foi possível; nas piadas dos meus colegas e algumas revistas pornográficas que passávamos uns aos outros.