Homem que morreu em Boliqueime “entregou-se a Deus”, afirmou Calvão da Silva.
E se fosse ao Espírito Santo?
Por
Paulo Franco
“O paraíso é a ausência do Homem”. Emil M. Ciora.
Em muitas ocasiões onde é referida a extraordinária capacidade que a imaginação humana tem revelado para conceber soluções tecnológicas complexas para os problemas humanos, é salientado que existe uma desproporção enorme entre as possibilidades criativas infinitas da imaginação humana e as possibilidades práticas reduzidas de concretizar essas criações imaginadas.
Desde que nos tornamos Homo-Sapiens, e isto quer dizer exactamente que a evolução dotou o nosso cérebro com capacidades nunca antes vistas, passamos a ter possibilidades infinitas de interpretar o mundo e recriá-lo, o que nos rodeia e outros mundos mentalmente imaginados. O decorrer dos milénios tornou-nos ainda mais
engenhosos e complexos a engendrar mundos imaginários, soluções possíveis, sonhos individuais ou meramente objectivos de vida. Tendo em conta que apenas uma muito reduzida percentagem de humanos tem (ou teve) meios económicos e materiais para realizar sonhos imaginados nos seus cérebros, podemos facilmente concluir que a grande maioria dos humanos alguma vez existentes sofre (ou sofreu) de enormes
frustrações por ver o fruto das suas criações mentais ou desejos mais profundos impossibilitados de se concretizarem. É verdade que a grande, grande maioria dos humanos têm (ou tiveram) como principal preocupação a subsistência básica, mas isso nunca impediu alguém de sonhar.
Ora talvez possamos imaginar também que o paraíso prometido pelas muitas religiões existentes não seja outra coisa se não um projectar do nosso imaginário colectivo para uma dimensão de existência onde todos os sonhos, de todas as pessoas (só as boas, as que obedecem Deus, claro) são potencialmente realizáveis. A ambiguidade com que as principais religiões falam desse paraíso que nos é prometido para o depois da morte revela que é uma projecção esperançosa de um mundo desejado mas desconhecido,
que nos abre um leque alargado de possibilidades imaginárias para aí finalmente sermos felizes. A glória de Deus, com a sua luz radiante do paraíso cristão, ou os rios de mel do paraíso do Islão poderão ser interpretadas como formas poéticas de designar uma outra dimensão existencial onde tudo, idealizado ou sonhado por nós, será finalmente possível de realizar.
Ser ateu é um luxo aparentemente pouco acessível à maioria das pessoas. Tendo em conta os acontecimentos trágicos, bem conhecidos da História, que têm afectado particularmente pessoas religiosas onde milhões têm sucumbido, deveria surpreender-nos a todos que não haja mais ateus no mundo.
Desde as tragédias que têm acontecido nas peregrinações gigantescas a Meca no mundo islâmico (só este ano, mais de 700 mortos); a tragédia do holocausto, na 2ª guerra mundial, que liquidou mais de 6 milhões de judeus; as milhares (ou milhões) de pessoas que morreram na Europa Cristã com as cruzadas contra o Islão e a inquisição; os milhares de hindus que têm morrido nas suas, também gigantescas, peregrinações religiosas; se nenhum dos seus múltiplos Deuses puderam evitar estas mortes, então o que seria necessário acontecer para convencer estas pessoas de que o conceito “Deus” afinal é uma ilusão, um engano?
Mas afinal qual será a razão para que uns vejam na ausência de protecção divina uma prova da sua inexistência e outros, teimosamente, permaneçam crente?
As pessoas que se mantêm crentes contra todas as evidências estarão possivelmente ainda impreparadas para abandonar a esperança de um dia vir a realizar-se e a concretizar-se enquanto projecto ambicionado e imaginado. A magia que possíveis truques de ilusionismo possam surgir de uma fada escondida ao fundo do jardim parecem conferir ao imaginário destas pessoas uma aura de sobrenaturalidade, e isso abre ao sonhador as portas para uma multiplicidade infinita de possibilidades no mundo da fantasia, e claro, é por esse fascínio inebriante e mágico, que viabiliza a realização de todos os sonhos, que anseiam encontrar no “outro mundo”.
Será talvez esta a explicação para que as promessas do paraíso pós-morte surjam como cogumelos em todos os pontos do mundo onde prolifera a religião.
“Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles apenas nos amam, sem condições.
Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz”. Milan Kundera.
“O paraíso é um conto de fadas para pessoas com medo do escuro”. Stephen Hawking

De acordo com a imprensa italiana, dados foram roubados do computador do controlador geral das finanças do Vaticano, o italiano Libero Milone, no seu gabinete situado próximo da praça de São Pedro.
Homem que morreu em Boliqueime “entregou-se a Deus”, afirmou Calvão da Silva.
E se fosse ao Espírito Santo?
http://38.media.tumblr.com/c1bf24386fcf930d0576f628cee06edd/tumblr_n6q0l5Yu321ru5h8co1_500.gif (Clique na imagem para ver o milagre)
Por
Casa do Oleiro
(Texto retirado do livro de Yuval Noah Harari “Sapiens: de animais a Deuses”)
Em 1818, Mary Shelley publicou Frankenstein, a história de um cientista que criara um ser artificial que ficou fora de controlo e espalhou o caos.
Ao longo dos últimos dois séculos esta mesma história foi contada vezes sem conta em inúmeras versões. Tornou-se um pilar central da nossa mitologia cientifica. À primeira vista, a história de Frankenstein surge para nos avisar de que, se tentarmos desempenhar as funções de Deus e criar vida, seremos severamente punidos. No entanto, a história tem um significado mais profundo.
O mito de Frankenstein confronta o Homo Sapiens com uma questão desconcertante: o avanço do desenvolvimento tecnológico irá, em breve, levar à substituição do Homo Sapiens por seres completamente diferentes, que possuem não só anatomias diferentes, mas também mundos cognitivos e emocionais diferentes.
Gostaríamos de acreditar que, no futuro, pessoas como nós viajarão de planeta para planeta em naves espaciais velozes. Não queremos considerar a possibilidade de, no futuro, os seres com emoções e identidades como as nossas deixarem de existir e o nosso lugar ser ocupado por formas de vida alienígena cujas capacidades minimizariam as nossas.
Encontramos, de certa forma, conforto na ideia que o Dr. Frankenstein criou um terrível monstro, que tivemos de destruir para nos salvarmos. Gostamos de contar a história dessa forma porque assim implica que somos os melhores de todos os seres, que nunca houve nem jamais haverá algo melhor que nós. Qualquer tentativa de nos melhorar falhará inevitavelmente porque, mesmo se os corpos puderem ser melhorados, será impossível tocar no espírito humano.
A história ensina-nos que aquilo que parece encontrar-se ao virar da esquina pode muito bem nunca se materializar, devido a barreiras imprevistas, e que outros cenários não imaginados, ocorrem no seu lugar.
Quando o Sputnik e a Apolo 11 espevitaram a imaginação do mundo, toda a gente começou a prever que, pelo final do século, as pessoas viveriam em colónias espaciais em Marte ou em Plutão.
O que devemos levar a sério é a ideia de que a próxima fase da História inclui não só transformações tecnológicas e organizacionais, como também transformações fundamentais na consciência e na identidade humanas. E estas podem ser transformações tão fundamentais que colocarão o próprio termo «humano» em causa.
Se a História dos Sapiens estiver realmente a acabar, nós, membros de uma das derradeiras gerações, devemos dedicar algum tempo a responder a uma última questão: no que queremos transformar-nos?
Por
Casa do Oleiro
Há 70 000 anos, o Homo Sapiens ainda era um animal insignificante preocupado consigo próprio, num canto de África. Nos milénios que se seguiram transformou-se no senhor do mundo inteiro e num dos flagelos do ecossistema. Hoje está prestes a tornar-se num Deus, preparado para adquirir não só a juventude eterna como também as capacidades divinas da criação e da destruição.
Infelizmente, o domínio Sapiens na Terra produziu, até agora, pouco de que possamos orgulhar-nos. Dominamos o meio envolvente, aumentamos a produção de alimentos, construímos cidades, estabelecemos impérios e criamos extensas redes de comércio.
Mas diminuímos o nível de sofrimento no mundo?
Vezes sem conta, um aumento considerável do poder humano não correspondeu,
necessariamente, ao bem estar do Sapiens individual, provocando também, por norma, um enorme sofrimento aos outros animais.
Ao longo das últimas décadas conseguimos, por fim, fazer um progresso real no que diz respeito à condição humana, com a redução da fome, de pragas e das guerras. No entanto, a situação dos outros animais está a deteriorar-se mais rapidamente do que nunca e os melhoramentos da humanidade são demasiado recentes e frágeis para serem certos.
Além disso, apesar das coisas espantosas que os humanos são capazes de fazer, continuamos sem ter a certeza dos nossos objectivos e parecemos estar mais desligados que nunca. Avançamos das canoas para as caravelas, para barcos a vapor, para vaivéns espaciais – mas ninguém sabe para onde vamos.
Estamos mais poderosos do que alguma vez estivemos, mas não fazemos a
mínima ideia do que fazer com todo esse poder.
Ainda pior: os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca.
Deuses auto-proclamados, com apenas as leis da física para nos fazer companhia, não somos responsabilizados por ninguém. Estamos, assim, a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente, em busca de pouco mais do que o nosso próprio conforto e divertimento sem, no entanto, nos darmos por satisfeitos.
Existirá algo mais perigoso do que Deuses insatisfeitos e irresponsáveis, que não sabem o que querem?
Este texto foi retirado do livro de Yuval Noah Harari “Sapiens: de animais a Deuses”.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.