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Categoria: Arte e cultura

1 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Mártir

– Preciso de ir para o inferno – Eufémia sussurrou, quase a encostar os lábios à dobra luminosa onde supunha estar o ouvido do anjo. A ausência de sombras impedia o discernimento de distâncias, num local onde nem o som se propagava. Ainda assim não conseguia elevar a voz.

Hadraniel não se moveu. De asas abertas, mantinha uma imobilidade sólida que se estendia ao ar que o rodeava.

– Não te entendo – disse, sem qualquer censura. – Estás onde deves estar.

Ao fundo, tocava uma harpa incorpórea. Não era alta, nem agressiva. Era perfeita. A melodia repetia-se com variações mínimas, apenas as suficientes para parecer sempre nova mas nunca diferente. Eufémia tentou contar quantas vezes já a tinha ouvido, desistiu, e sentiu o mesmo cansaço de sempre assolar-lhe o corpo, se é que se podia chamar corpo àquilo.

Inspirou fundo. Desde que ali chegara, o ar estivera sempre carregado de doçura: flores que não murchavam, mel que nunca fermentava. Um perfume constante, sem falhas, sem descanso. Abriu os olhos e fechou-os de novo, numa tentativa inútil de escapar ao brilho dourado que se infiltrava em tudo, inclusive por trás das pálpebras.

– Eu não consigo ficar aqui – disse. – Não há aqui nada.

– Nada? – Hadraniel inclinou ligeiramente a cabeça. O gesto era estranho, parecia ensaiado. – Aqui está tudo.

Eufémia quis ajoelhar-se.

O impulso surgiu-lhe inteiro, intacto, aprendido em vida. O corpo iniciou o gesto de forma mecânica, dobrando-se à espera do impacto, do próprio peso a ceder, da pressão nas articulações. Nada. Não houve contacto, nem resistência, nem aquele momento instável em que o ouvido ajusta o equilíbrio.

Forçou o movimento. Inclinou-se mais, empurrando o corpo perfeito para a frente, à procura de um limite que se impusesse. A posição não se alterou. Estar de pé ou de joelhos exigia a mesma ausência de esforço. A perfeição não oferecia fricção.

Endireitou-se bruscamente e deixou-se cair.

Era um gesto calculado e simples. Esperava, pelo menos, a humilhação do fracasso e o eco vazio da tentativa. O movimento dissolveu-se antes de se completar. O conceito de queda parecia incompatível com aquela existência.

O ar não reagiu. Não se deslocou. Não acolheu nem rejeitou o gesto. Eufémia ergueu as mãos ao espaço à sua frente, abrindo e fechando os dedos, à procura de atrito. Nada. Nem frio, nem calor. Uma neutralidade absoluta, colada à pele que já não sentia como sua.

Inspirou fundo e reteve o ar nos pulmões.

Em vida, aquele gesto ter-lhe-ia feito arder o peito com urgência, uma sensação familiar de aflição seguida de um espasmo inevitável. Agora, a reação física estava ausente. Soltou o ar apenas porque sabia que era assim que o gesto devia terminar.

Apertou as mãos uma na outra de forma deliberada. Esperou pela dor, atenta ao formigueiro familiar ou um qualquer sinal de limite. Não doeu. Apertar ou relaxar era indiferente.

– Preciso de sentir alguma coisa – disse, baixo.

– Aqui não há dor – respondeu o anjo. – Não é necessária.

Eufémia soltou uma gargalhada curta e seca, que morreu no espaço sem eco.

– Era – disse. – Para mim, era.

Começou a mover-se. Era estranho caminhar sem produzir passos. Não havia ritmo, nem cadência. Avançar não aproximava nada. Parar não a afastava. Cada tentativa confirmava apenas que não pode haver movimento sem oposição.

Parou.

A sensação de cansaço não lhe largava o corpo perfeito, talvez não como fadiga física, mas como memória de exaustão. Olhou em volta. O branco estendia-se em todas as direções, saturado de reflexos dourados que não indicavam caminho nenhum. Não havia portas, nem margens, nem fissuras.

– Se não posso cair – disse -, se não posso ajoelhar-me, se não posso cansar-me… não estou aqui.

O anjo demorou a responder.

– Estás.

A palavra não corrigiu nada. Encerrou a possibilidade de réplica. Eufémia fechou os olhos. Pela primeira vez desde que ali chegara, desejou simplesmente estilhaçar, já que não lhe era permitido desaparecer. Queria transmutar-se, reconhecer-se em qualquer coisa de imperfeito, mutável, ainda que falhado.

Piscou os olhos com fúria. Tudo permanecia imutável, dourado e perfeito. Sem prestar atenção ao corpo que não reconhecia, deixou-se levar à memória do tempo em que era físico e em constante mutação. Ao procurar sentir os próprios olhos, notou apenas que não produziam lágrimas para espelhar o desamparo.

– Não sei por que estou aqui, anjo. A minha vida não foi tão pia quanto aparenta. O Pai não sabe? – Podia tê-lo dito com maior malícia, se o seu rosto não fosse tão perfeito que não permitisse um esgar.

– O Pai sabe tudo; estás onde deves estar.

– Quando me torturaram, quando me espancaram, quando me violaram, eu não cedi. Nunca renunciei ao Pai. De cada vez que me maltratavam o corpo eu sentia orgulho, não sentia o amor d’Ele. Sentia poder no desafio de me manter dissidente perante quem me queria quebrar. Nunca foi por fé. Não entendes? Eu não pertenço aqui.

Eufémia fechou os olhos com força, numa tentativa vã de recuperar alguma coisa do peso antigo. Em vida, aquele gesto precedia sempre a decisão. Ao fazê-lo, havia de aceitar mais uma humilhação, mais um golpe, mais uma prova.

– Eu queria aquilo – disse por fim. A voz saiu-lhe firme, desafiante. – Não o céu. A dor. Nunca quis nada disto.

Hadraniel fitou-a, com a imobilidade de sempre.

– Quando me batiam, quando me deixavam sem forças, quando me tomavam o corpo com toda a crueldade que a mente humana consegue imaginar, eu sentia-me maior do que eles. – Abriu os olhos, fixando o vazio dourado à sua frente. – Não era amor. Era orgulho. Eu tinha a certeza de que não me conseguiam quebrar.

Em vida, aquelas palavras ter-lhe-iam custado dizer. Por hábito, fez uma pausa curta. Não precisava de respirar mas o hábito permitia sentir se o anjo mudava de posição ou transparecia algum sentimento.

– Eu queria ser como Ele. – disse sem hesitação. – Detestava os santos que rezavam em silêncio, mas almejava ser como o Filho na cruz. A sangrar, exposto à dor, humilhado pelos homens. Queria que o meu corpo fosse prova. Que a morte fosse a confirmação inequívoca de que tinha sido mais digna do que qualquer outro mártir antes de mim.

Hadraniel ouviu-a com a mesma atenção serena que lhe havia dedicado desde que ali chegara. Não havia aprovação, nem reprovação.

– Eu queria morrer – continuou Eufémia. – Não acreditava verdadeiramente na promessa, mas a morte parecia-me o auge. O fim justo para uma vida de sofrimento. – Um sorriso breve tentou formar-se-lhe no rosto, mas não encontrou lugar. – Morri convencida de que tinha vencido.

O silêncio que se seguiu não pesou. Nada ali pesava.

– Aqui – disse ela, mais baixo. – Não tenho um corpo que possa reconhecer como meu. Nem feridas. Nem mérito. Tudo o que fiz… tudo aquilo em que me tornei, está ausente.

Deu um passo em direção ao anjo, com esperança que fosse possível aproximar-se de alguma coisa.

– Se o Pai soubesse quem eu era, não me teria trazido para cá. Eu não fui boa. Fui apenas mais de tudo. Fui cruel comigo mesma e com os outros. Chamei fé ao desprezo pelo mundo, à recusa da dúvida, ao prazer secreto de me sentir eleita. – A voz tentou, em vão, tremer de frustração. – Isso não devia ser recompensado. Ou isto é um castigo?

Hadraniel respondeu sem alterar o tom retumbante e indiferente.

– O sofrimento foi suportado. A renúncia foi mantida. A morte confirmou a fidelidade.

– Mas não foi por amor – insistiu Eufémia. – Foi tudo vaidade.

– A motivação não altera o desfecho – disse o anjo. – Aqui não existe culpa.

As palavras nem sequer precisavam de ecoar.

Eufémia abriu a boca para protestar, para voltar a acusar-se, para encontrar uma falha maior, algo que obrigasse aquele lugar a rejeitá-la. Nada parecia pior do que revelar as suas motivações mais humanas. Sentia que nem sequer havia categoria para o pecado que queria confessar. Ira? Soberba?

Baixou o olhar. Pela primeira vez desde que morrera, sentiu-se verdadeiramente nua. Num corpo perfeito, só se havia despido de sentido.

Se o céu recusava a culpa, não havia redenção possível. Em vida não o teria confessado, teria visto o mundo como vil e a si mesma ombro a ombro com o deus a quem entregara tudo. Agora, perante a perfeição desta existência, tudo em vida lhe parecia mesquinho e inferior, num mundo tão ternamente imperfeito que teria merecido o seu amor.

– Então tudo o que fui morreu comigo – murmurou.

Hadraniel não respondeu.

Eufémia compreendeu, com uma clareza que a atravessou como uma lança romana, que nem a maldade lhe era permitida ali. Depois de todas as tentativas falhadas, o impulso extinguiu-se-lhe como um músculo atrofiado. Ao invés de resistir, o céu absorvia tudo. Não impunha limites, porque não permitia a existência de nada que os pudesse transpor.

A harpa angelical persistia. Já não a distinguia como som, era apenas o status quo, como o mel e as flores que cheirava continuamente. Não vinham de lugar nenhum, não se dirigiam a ninguém. Existiam como uma condição daquele espaço, tal como o brilho, tal como a ausência de sombra, tal como a certeza de que nada ali podia falhar.

Eufémia tentou recordar a última vez em que sentira medo verdadeiro. Havia o medo ritual, aprendido, invocado nos sermões e nas leituras piedosas, mas o que procurava recordar era o medo animal, que encolhe o corpo e tolda o raciocínio. A memória surgiu-lhe. Estava numa cela húmida e escura que cheirava a fezes e sangue, onde conseguia ouvir o som irregular da própria respiração e o grunhidos das ratazanas. Tentou agarrar-se à memória, deixar-se envolver na recordação. Sentiu-a escapar-lhe, corrigida em vez de apagada.

– Nem a memória me pertence – disse, sem elevação de voz, sem expectativa de resposta.

Hadraniel continuava ali. Os olhos pousados nela não indicavam atenção nem desatenção. Sem troca, o anjo tornava-se apenas parte do branco infinito, mais um raio de luz dourada que a acompanhava.

Eufémia concentrou-se no último gesto possível: desistir de querer. Em vida, desistir fora sempre impossível. Mesmo na exaustão extrema, mesmo quando o corpo implorava rendição, havia nela uma chama obstinada e arrogante, que a obrigava a continuar. Agora, tentava extingui-la deliberadamente.

Não funcionou.

Desistir, ali, não era queda. Era apenas a natural forma de estar. Nem sequer o abandono lhe era permitido enquanto gesto final. A vontade, anulada, tornava-se irrelevante. O céu não exigia participação porque lhe bastava a presença.

– Isto é a vitória – murmurou, mais como constatação do que como acusação. – Não é?

Hadraniel não respondeu, nem havia diálogo possível. O anjo não representava uma consciência com quem pudesse negociar. A sua função não era explicar, nem punir, nem consolar. Era garantir que aquilo que chegava ali nunca mais saía.

Eufémia sentiu por fim a maior das derrotas ontológicas. O cansaço de existir sem consequência. De pensar sem consequência. De ser sem possibilidade de erro. Da inevitável imutabilidade.

– Se não posso errar – disse -, não posso escolher. E se não posso escolher… não posso ser.

A harpa manteve-se inalterada. Repetiu a variação mínima que prometia novidade mas que no fundo representava apenas continuidade.

Durante um instante, tão breve que Eufémia quase o descartou como ilusão, o brilho à sua frente hesitou. Desviou-se, como se se tivesse deparado com algo que não sabia como tocar. Não havia fissura visível, nem porta, nem sombra. Mas a certeza absoluta sofrera uma imperfeição microscópica.

Hadraniel inclinou a cabeça. O gesto foi mínimo, funcional, isento de significado humano. Ainda assim, aconteceu.

– Vais permanecer aqui – disse, finalmente. Não era uma ameaça. A frase era apenas uma descrição.

Eufémia não respondeu. Já não havia palavras que pudessem produzir efeito. O céu tinha vencido de forma total. Onde na violência não podia acontecer, era a impossibilidade de conflito que a fazia, finalmente, render-se. Não lhe restava sequer a dignidade da insurreição.

Deixou de ter noção se tinha os olhos abertos ou fechados, já não fazia diferença. Se o inferno existia, não estava ao seu alcance. E se alguma vez lhe fosse possível alcançá-lo, não seria por força, nem por fé, nem por vontade.

A escolha não lhe pertencia. E o som da harpa continuou a assaltar-lhe os ouvidos perfeitos.

***

Não havia tempo no céu, mas havia registos. A ausência foi anotada antes sequer de ser compreendida.

Hadraniel manteve-se no ponto exato onde Eufémia existira pela última vez. O espaço continuava pleno, intacto, saturado de luz e harmonia. Nada indicava qualquer falha. Nada, exceto o facto de já não haver ali uma presença a sustentar.

– Alma permanente – declarou, não para alguém em particular, mas para o próprio sistema que o constituía. – Estado: íntegro. Continuidade: garantida.

A afirmação não produziu efeito.

A música celestial manteve-se. A harpa executou a variação mínima seguinte. O branco não se alterou, a luz dourada não voltou a hesitar. Ainda assim, algo não coincidia com o enunciado. A permanência exigia ocupação. E ali, naquele ponto exato, havia apenas plenitude vazia.

Hadraniel recalculou. Não tinha a capacidade de produzir dúvida, porque esta não fazia parte da sua função, mas havia um procedimento. O céu não previa evasão. A categoria não existia. As almas não saíam. Permaneciam, dissolvidas na perfeição, sem fricção, nem resíduo.

– Não presente – acrescentou, após um intervalo que não correspondia a hesitação.

O registo aceitou a informação sem reação. A luz intensificou-se, como consequência automática da invocação superior. Não havia deslocamento na presença do Pai, em vez de movimento, a transcendência trazia saturação. Tudo ficou cheio de tudo.

– Uma alma atribuída à glória não permanece – declarou Hadraniel, agora dirigido ao absoluto. A constatação não carregava nenhum tipo de acusação.

Seguiu-se um silêncio que traía apenas a suspensão de relação. O Pai preenchia tudo. A totalidade não precisava de se explicar.

– Alma à glória – constatou o anjo. – Renúncia mantida. Ausência.

A luz da totalidade não se alterou.

Durante um instante impercetível, houve um ajuste falhado. Não no espaço, mas na lógica que o sustentava. Uma correção automática, como se o céu procurasse uma forma de incluir a exceção sem a reconhecer como alteração à sua intrínseca imutabilidade.

– A alma não rejeitou a glória. – acrescentou Hadraniel. – Cessou.

A palavra não era exata. Mas era a mais próxima disponível.

O Pai permaneceu.

Não havia ali um termo para perda. O céu não concebia fuga. Aquilo que não permanecia não podia, por definição, ter lá estado.

– Anomalia registada – disse o anjo, finalmente.

A luz começou a rarefazer-se até ao nível habitual. A harpa retomou o ciclo desde o início, sem memória da interrupção que nunca acontecera. Hadraniel permaneceu no lugar designado. A sua função não era procurar, muito menos compreender. Limitava-se garantir a estabilidade daquilo que existia.

Ainda assim, no ponto onde nada faltava, a totalidade demorou mais do que o expectável a fechar-se sobre si mesma. Se uma alma podia desaparecer sem oposição, não era o inferno que a reclamava. O céu é que não acolhia a sua existência.

7 de Novembro, 2025 Eva Monteiro

Segunda Carta a Um Crente

A primeira Carta a Um Crente está aqui. Poderá dar maior contexto à troca que se segue.

E não é que obtive resposta? Contra todas as minhas expectativas, o kardecista que anteriormente me abordou e que após insistência minha disse que eventualmente responderia… respondeu mesmo. Não é costume, pelo que lhe reconheço muito valor pelo respeito e esforço. Decidi partilhar aqui porque poderá ter interesse para os que apreciaram a primeira troca.

Segue a resposta do crente:

Boa noite Eva. Por mais que queira, não está a ser fácil dar-te a devida atenção e por isso peço desculpa pela resposta tardia.

Agradeço-te o cuidado e a profundidade da tua mensagem. É raro encontrar um diálogo que não se limite a slogans e que procura ir à raiz das ideias. É nesse espírito de respeito e reflexão que te respondo.

Quando digo “eu sei que existe”, não me refiro a um saber de laboratório, mas a uma certeza construída pela experiência íntima, pelo raciocínio e pela observação dos efeitos espirituais ao longo do tempo. No Espiritismo, essa certeza não é cega nem dogmática, é resultado de estudo, comparação e repetição de fenómenos mediúnicos que, analisados em conjunto, apontam para a sobrevivência da consciência após a morte.

Kardec nunca afirmou possuir provas absolutas, mas propôs algo que considero de uma lucidez rara para o seu tempo:

“Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.”
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIX)

Ou seja, no Espiritismo, crer não é o oposto de pensar. É crer porque se pensa.

É verdade que Kardec não aplicou o método científico no sentido estrito moderno, mas também é verdade que a ciência do século XIX ainda não tinha instrumentos para abordar a consciência como hoje começa a tentar fazê-lo. O que ele fez foi usar o método da observação comparada e recolher milhares de comunicações, eliminar as incoerentes, comparar mensagens de origens diferentes e sistematizar princípios. Não é ciência de laboratório, mas é um método de verificação empírica dentro dos limites possíveis quando o objeto de estudo é o espírito e não a matéria.

Quanto à ideia de que as experiências mediúnicas são meras ilusões neurológicas: o Espiritismo não as exclui. Kardec alertou inúmeras vezes para o autoengano, a influência do subconsciente e dos espíritos inferiores. A verdadeira investigação espírita começa justamente pela dúvida e pela necessidade de confirmação. A diferença é que, depois de filtradas e repetidas, muitas experiências deixam de poder ser explicadas apenas pela imaginação e é nesse ponto que nasce a convicção pessoal, fruto de observação e de coerência interior.

O teu apelo ao questionamento é algo que também defendo. A diferença é que, para mim, o verdadeiro questionamento inclui não excluir à partida a hipótese de que a consciência não se limite ao cérebro. A postura espírita não é de negação da ciência, mas de complementaridade, a ciência explica o mundo físico e o Espiritismo tenta compreender o mundo moral e espiritual que o completa.

Não vejo no Espiritismo uma instituição que pretenda impor autoridade sobre o pensamento humano, vejo, antes, uma doutrina que liberta da autoridade ao incentivar o estudo, o livre-arbítrio e a responsabilidade individual. O anticlericalismo, nesse sentido, não é uma ameaça ao Espiritismo, porque este não tem clero, dogma, nem intermediários entre o homem e Deus.

Por fim, não te escrevo por evangelização, nem para arrancar ninguém de lado algum. Escrevo porque acredito que o diálogo sereno entre a razão e a espiritualidade é a via mais digna de evolução que podemos trilhar.
Como bem disseste:

“Evoluímos melhor quando a verdade, e não o conforto, é o nosso objetivo.”
Nisso, estamos de pleno acordo. 🙏

Ora, como é evidente, eu respondi:

Boa noite,

Antes de mais, quero agradecer-te por teres dedicado o teu tempo a responderes-me.

Acho que quando falas em saber que algo existe por convicção pessoal, estás a cair na falácia da ambiguidade. Dizes que “sabes que Deus existe”, mas que não te referes a um saber de laboratório, e sim a uma certeza interior construída pela experiência. É nisto que precisamos de rigor: o verbo “saber” não muda de significado conforme a conveniência de quem o usa. O conhecimento, em qualquer domínio, requer justificação e correspondência com a realidade. Se falta a justificação verificável, não é saber, é crença. A sinceridade da crença não é um selo de verdade. Pelo contrário: faz-se hoje em dia uma apologia da crença como se fosse uma coisa boa e desejável, como se fosse um marco de integridade e bondade, quando no fundo, só significa ter grande convicção na ausência de provas. Um muçulmano, um hindu ou um cristão místico podem todos afirmar “eu sei que o meu deus existe”, e no entanto as certezas deles são mutuamente exclusivas. Para o teu deus existir, o deus dos outros tem de ser falso. Todas as crenças podem ser (e não duvido que sejam) sentidas como verdadeiras, mas não podem sê-lo simultaneamente. A emoção, por mais intensa que seja, não é critério de realidade. Só deste um palavreado mais intelectual à expressão “mas eu acredito”.

Referes que o Espiritismo chega a essa certeza pela repetição de fenómenos mediúnicos e pela observação comparada. Contudo, a repetição de experiências subjetivas, sem controlo e sem exclusão de hipóteses alternativas, não é ciência, é circularidade na melhor das hipóteses. A tua descrição do método kardecista não passa de um processo de confirmação seletiva. Ou seja, eliminam-se as comunicações incoerentes, sistematizam-se as que parecem convergir e conclui-se que há coerência. No entanto, isso só pode acontecer precisamente porque as incoerências foram descartadas. Não é o método científico a ser aplicado. Esse pode ser aplicado por qualquer pessoa, pelo que se o Espiritismo estivesse em posição de ser confirmado pela ciência, já não pertenceria ao campo da crença. É, aliás, um caso clássico de viés de confirmação. Se um cientista aplicasse este procedimento a um fenómeno físico, seria descredibilizado à primeira revisão por pares. Por falar nisso, onde está a revisão por pares do Kardecismo? Ou os pares têm de ser kardecistas? A grande diferença aqui é que a ciência não elimina as anomalias: investiga-as. No Espiritismo, pelo contrário, as anomalias são descartadas para que a hipótese original se mantenha intacta. Ou seja, o que o kardecista faz é o mesmo tipo de “cherry picking” de todas as outras religiões, tradições místicas, ocultismos e afins, mas com uma roupagem científica. Lembra-te que também os Cientologistas o fazem, e com o mesmo resultado: uma mão cheia de coisa alguma (e a outra cheia de dinheiro).

A frase “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade” não diz rigorosamente nada. É um chavão conceptualmente autofágico. Se a fé espírita tem de encarar a razão, então também tem de se submeter ao critério racional. Ora isto significa que deve poder ser provada, testada e, se falhar, abandonada. Mas o Espiritismo não permite esse exame. Nenhuma das suas afirmações centrais (existência de espíritos, reencarnação, mediunidade, ação dos “fluidos”) resiste ao método científico. Portanto, a própria citação, se levada a sério, aniquila a doutrina que pretende enobrecer. É o mesmo que um astrólogo dizer: “A astrologia é válida apenas se passar pelos testes da astronomia”. Pois claro, só que não passa. E o Espiritismo muito menos. Aceito a ideia de que o Espiritismo possa ser “crer porque se pensa”. Contudo, quando as pessoas pensam mal, acabam a acreditar em falsidades. Daí a necessidade do método científico que, não sendo infalível, é a melhor ferramenta de que dispomos para evitar pensar muito e chegar na mesma a conclusões falsas. A fé que encara a razão não é fé: é hipótese. Se resiste à razão, não precisa de se proteger com metáforas. Se depende da intuição interior, não é conhecimento, não é ciência, não é nada senão aquilo que acontece em todas as religiões do mundo: crença infundada e infundável.

O argumento de que “a ciência do século XIX não tinha instrumentos para estudar a consciência” é um equívoco histórico. O método científico não depende de tecnologia, depende da lógica e do controlo experimental. Em 1859, Darwin publicou “A Origem das Espécies” com base em observação e dedução. Não tinha, nessa altura, um único microscópio eletrónico ou um décimo da tecnologia de que hoje dispomos. O que faltou a Kardec não foram instrumentos, foi precisamente o método. E, mais grave que isso, o que ele propôs não se tornou mais plausível com os instrumentos que a ciência desenvolveu desde então. Se estivesse correto e apenas não tivesse na altura a tecnologia para o provar, o que está a impedir os kardecistas hoje? Não há confirmação da hipótese espírita da sobrevivência da consciência em nenhuma investigação em neurociência, psicologia ou física moderna. Nem sequer há indícios de que a mente exista fora do cérebro, de todo, em nenhum estudo que tenha sido levado ao escrutínio de pares.

Fonte: Britannica

Afirmas que, depois de filtradas e repetidas, certas experiências deixam de poder ser explicadas “apenas pela imaginação”. Essa frase é um exemplo típico da falácia do apelo à ignorância. O facto de não sabermos explicar algo não significa que a explicação espírita esteja correta. Só porque ainda não explicámos algo, não significa que seja inexplicável, é apenas para já inexplicado. E só porque a ciência ainda não explicou determinado fenómeno (sublinho que esse fenómeno deve pertencer ao campo da realidade e não da imaginação), não significa que possas apontar uma explicação sobrenatural só porque te apetece. Se fosse assim, cada lacuna da ciência seria prova do sobrenatural. Essa é precisamente a armadilha do “deus das falhas”, que podemos até apelidar, neste caso, de “espíritos das falhas”: sempre que a explicação natural ainda não está disponível, o sobrenatural preenche o vazio. O problema é que, à medida que o conhecimento avança, as lacunas encolhem e o espiritual recua. A história da ciência é, em grande parte, a história do recuo dos deuses, dos espíritos, das fadas, dos unicórnios, das sereias e restantes criaturas do plano da fantasia. O grande problema está onde dizes “A verdadeira investigação espírita começa justamente pela dúvida e pela necessidade de confirmação”. O método científico não procura confirmação, procura refutação. Quem procura confirmação é o crente, que precisa muito de acreditar e vai em busca de padrões que justifiquem a crença. Parte da resposta, não parte da pergunta. Não é racional, é emocional, é fé.

Dizes também que o verdadeiro questionamento não deve excluir à partida a hipótese de que a consciência não se limita ao cérebro. Concordo, não se deve excluir nenhuma hipótese a priori. Mas uma hipótese que não apresenta qualquer evidência positiva é, por definição, descartável a posteriori. Nas palavras de Christopher Hitchens: “O que pode ser afirmado sem evidências pode ser rejeitado sem evidências”. É esta a navalha que corta, a posteriori, as afirmações de Allan Kardec que, por melhores intenções que tivesse, falhou redondamente a missão. Não é uma questão de recusar à partida uma hipótese, é não me ser dado a encontrar nenhum mérito racional na hipótese colocada. O ceticismo não é o dogma da negação: é a recusa em aceitar como verdadeiro o que não foi demonstrado. A diferença pode ser subtil, mas é mesmo essencial. A dúvida é uma virtude precisamente porque nos protege da tentação de confundir desejo com realidade. O tal “wishful thinking” de que tanto falam os americanos.

Quanto à “complementaridade” entre ciência e espiritismo, o termo é sedutor mas intelectualmente falso e muito enganador. Ciência e fé não se complementam, porque operam em planos distintos e com métodos incompatíveis. Aliás, sempre que se tentam misturar, acaba a fé a querer encurtar a ciência. A ciência, por sua vez, não se preocupa com a fé, deixa-a à porta do laboratório porque não cabe lá dentro. A ciência exige prova e refutabilidade. Já o Espiritismo aceita convicção e intuição, como se o valor fosse o mesmo quando definitivamente não é. A complementaridade só é possível se uma abdicar da sua natureza. Historicamente, é sempre a fé que acaba por abdicar (entre birras e pontapés), ajustando-se a contragosto à medida que a ciência avança. Quando o Espiritismo se afirma “em harmonia com a ciência”, é porque se adapta retroativamente aos seus resultados, nunca porque os antecipa ou os demonstra. Caso contrário não se chamava Espiritismo, chamava-se Neurofísica Post-Mortem ou coisa que o valha.

Dizes ainda que o Espiritismo liberta da autoridade. Mas toda a doutrina que parte de postulados inquestionáveis, como a existência de espíritos, a reencarnação, a evolução moral das almas, entre outros, é uma estrutura de autoridade dogmática, ainda que possa não depender de um clero. A ausência de sotainas e chapéus esquisitos não é sinónimo de liberdade intelectual. Um sistema de crenças que não admite a possibilidade de estar errado é, por definição, autoritário. Mesmo que o autoritarismo se disfarce de serenidade. Ora, se o Espiritismo estivesse disposto a reconhecer efetivamente as suas falhas, já não teria adeptos, já teria concluído que não há razão para manter estas crenças, porque não passam no escrutínio do método científico. Eu sou de facto anticlerical. No entanto, só porque um determinado corpo de crenças não é clerical não me faz ter por ele mais consideração intelectual. O que ganha a minha aceitação são os factos, não o que alguém escreveu num livro, ou em muitos, com roupagens pseudocientificas.

Por fim, afirmas que o diálogo entre razão e espiritualidade é a via mais digna de evolução. Eu diria antes que o diálogo entre razão e espiritualidade só é fértil quando a espiritualidade aceita o crivo da razão e se deixa expirar como o iogurte estragado que é. A espiritualidade que resiste à verificação é apenas uma forma de poesia existencial. Pode ser muito bonita, muito afável ao ego, mas revela-se impotente perante a realidade. A verdade não se mede pela paz interior que nos oferece, mas pela correspondência com os factos. Daí que a utilidade da fé para efeitos de conforto emocional não justifique nada.

Fico contente por concordares que evoluímos melhor quando a verdade, e não o conforto, é o nosso objetivo. Mas a verdade exige disciplina intelectual: a disposição constante de dizer “posso estar enganado”. Essa é precisamente a diferença entre o método científico e qualquer doutrina espiritual: uma pode falhar e corrigir-se, a outra precisa de permanecer certa para continuar a consolar. E entre a necessidade de consolo e o dever de lucidez, hei-de escolher sempre a lucidez.

30 de Outubro, 2025 Onofre Varela

Humanismoe lei religiosa (3 e Fim)

Quando se fala em Humanismo, está-se a falar de quê?

Não há uma definição única amplamente aceite de Humanismo, tal como acontece noutros assuntos relacionados com o Pensamento. Pode haver versões paralelas em cada movimento desenvolvido por pensadores que fizeram as várias épocas que nos precederam, criando variações. Na Igreja essas “variações” são designadas por cisma.

Podemos dizer que os humanistas se opõem à imposição política de uma cultura e rejeitam ditaduras. Também não pertencem a uma igreja ou religião estabelecida, nem aceitam o uso da violência sob qualquer justificação.

Uma definição de Humanismopode ser esta: “Uma postura de vida democrática e ética na afirmação de que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas. Representa a construção de uma sociedade mais humana através de uma ética baseada em valores humanos e naturais, no espírito da razão e na investigação livre. O Humanismo não é teísta nem aceita visões sobrenaturais da realidade”.

Em conformidade com esta definição, os humanistas apoiam a erradicação da fome, as melhorias na saúde, na habitação e na educação. O Humanismo é um conceito que pretende melhorar as condições sociais, aumentando a autonomia e a dignidade de todos os seres humanos, seja qual for a geografia de onde sejam naturais ou onde se encontrem. Rejeita qualquer forma de divindade e defende o bem-estar e a liberdade dos povos perante tudo e todos, com base no respeito da dignidade do Ser Humano.

O conceito humanista também pode ser referido por “Humanismo Renascentista” pelo facto de ter nascido num movimento intelectual e filosófico que floresceu na Europa entre os séculos XIV e XVI, com origem em Itália. Caracterizou-se pelo interesse renovado na antiguidade clássica, pelo antropocentrismo (o homem no centro do universo) e pela crença nas capacidades do ser humano, influenciando a arte, a ciência e a filosofia. Este movimento marcou a transição do pensamento medieval para o moderno, promovendo uma visão mais racional e individualista.

O termo Humanismo para designar esse resgate dos valores do período clássico, foi inicialmente usado pelo estudioso alemão Friedrich Niethammer, na sua obra de 1808: “A controvérsia entre filantropismo e humanismo na teoria da instrução educacional do nosso tempo”.

Friedrich Niethammer

No contexto histórico das transformações sociais que marcaram o tempo de Niethammer, o Humanismo surgiu como manifestação cultural de rupturas com a decadência da hegemonia da Igreja e o enfraquecimento do poder papal, a secularização da política, o surgimento das monarquias nacionais com o fim do feudalismo e a renovação da filosofia: portanto, uma atitude positiva para a Humanidade no seu todo.

O movimento trouxe uma renovação no estudo de Humanidades como algo essencial à formação do Ser Humano enquanto universalista.

Hoje vivemos um mau período para o Humanismo. Assistimos a práticas políticas anti-humanistas promovidas por uma extrema-direita que alastra como nódoa social, ajudada pela ganância pessoal de políticos, a qual é, sempre, alicerçada na ignorância e na falta de memória histórica. Com a sua retórica, os anti-humanistas convencem os eleitores menos atentos que são apanhados pela ganância própria do miserável que, destituído de moral humanista, quer ultrapassar o seu vizinho mas nunca deixando de ser, no pensamento, o miserável que é… por muito dinheiro que tenha… mas habitualmente é pobre. No bolso e no pensamento.

26 de Outubro, 2025 Onofre Varela

Humanismo e lei religiosa (2)

É sabido que as ditaduras oprimem os povos submetendo-os a uma pretensa “tradição a pedir respeito”. Tal tradição não passa de falácia pela qual se praticam maldades. As tradições sociais e religiosas não legalizam a maldade. 

Numa aldeia transmontana era tradição prender um gato no cimo de um poste, ao qual se ateava fogo! Numa outra localidade espanhola também era tradição lançar uma cabra viva, das ameias de um castelo, para um penhasco!

Dir-se-á que nas duas situações se dava vida a “tradições culturais” comunitárias… mas eram, principalmente, acções desumanas e cruéis que tiravam a vida aos animais (ou os feriam) para gáudio de uns tantos homens de comportamento moral duvidoso (muito mais imoral do que moral) que a “cultura” não pode tolerar e que a lei de um país moderno não pode outorgar; por isso se proibiram essas práticas “culturais”. As leis não podem ser desligadas do respeito devido a qualquer ser humano, ou animal, seja aqui ou na Cochinchina.

No Irão e no Afeganistão praticam-se leis que não são modelo de respeito em lugar nenhum do mundo… começando por não o ser nos próprios países que as praticam. No Irão, em Outubro de 2024 foi publicada uma lei sobre o uso do “hijab” (lenço de cabeça) que castiga com até cinco anos de cadeia as mulheres que não o usem. 

Num comunicado da organização “Human Rights Watch” (Observatório dos Direitos Humanos – uma organização não governamental) faz-se saber que a nova lei, intitulada “Protecção da família através da promoção da cultura do hijab e da castidade”, apresentada no Parlamento iraniano a 20 de Setembro de 2023, foi aprovada pelo Conselho dos Guardiões, o órgão religioso que faz a aprovação final das leis do país. 

Tal lei consolida medidas que já vigoravam para impor o véu islâmico, e adiciona sanções mais severas, como multas e penas de prisão mais longas, bem como restrições ao emprego e às oportunidades de educação para os infractores. (No Ocidente os governos extremistas de Direita vão atrás dos mentores islâmicos e proíbem o uso de trajes regionais. Por cá, a proibição acontece para imigrantes quando usam trajes folclóricos quando não são minhotos, escalabitanos ou algarvios!…).

A morte da jovem de 22 anos Mahsa Amini, às mãos da polícia em Setembro de 2022 por não usar o hijab conforme a lei manda, desencadeou uma onda de protestos durante vários meses com motins nas ruas e a polícia a matar e a prender manifestantes. 

Fonte: Britannica

O governo autocrático e religioso, em vez de responder ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade” com as reformas fundamentais reivindicadas, “silenciou as mulheres com leis de vestuário ainda mais repressivas, o que só pode gerar uma resistência e um desafio feroz entre as mulheres dentro e fora do Irão”, disse Nahid Naghsh Bandi, investigadora da Human Rights Watch no Irão. 

A nova lei, que pode castigar com cinco anos de prisão a falta de uso do véu, é composta por 71 artigos que reforçam o controle sobre a vida das mulheres e das instituições que não aplicam estas medidas. No século XXI, o Irão – que tem a carga histórica de se localizar na região geográfica da Mesopotâmia onde nasceu a civilização há cerca de seis mil anos – em termos de evolução do pensamento ainda não passou da mais profunda Idade Média!

(Continua)

20 de Outubro, 2025 Onofre Varela

Humanismo e lei religiosa (1)

O tema em que pego para escrever esta crónica, obriga-me a ocupar um espaço maior do que aquele que o jornal me concede. Vou, por isso, dividi-lo em três partes, publicando hoje a primeira parte.

Cada país rege-se pelas leis aprovadas no seu Parlamento, o qual tem duas formas de existência: ou foi formado pelo voto popular e vive em Democracia, ou foi imposto por um qualquer sistema ditatorial.

Retirando a segunda hipótese que todos nós rejeitamos (espero eu… exceptuando quem não o rejeita, até o deseja, e que hoje até tem assento no nosso Parlamento), é comum, por respeito à liberdade dos povos, não nos imiscuirmos na política interna de outros países, nem “ditarmos leis” na casa dos nossos vizinhos. Mas podemos (e, sobretudo, devemos) criticá-los porque a Democracia também existe para isso mesmo… e no caso de os nossos vizinhos serem dirigidos por ditadores, podemos (e também, sobretudo, devemos) ajudá-los a combater a ditadura que os oprime, em nome da decência, da ética e da Humanidade.

As leis não caem do céu como as folhas outonais caem das árvores.

Há uma “História das Leis” ligada ao desenvolvimento da Civilização. No Egipto Antigo, há 5.000 anos, já havia uma lei escrita para governar o país, baseada na tradição e na igualdade social.

Há 3.800 anos, o Código Hamurábi regia a lei na Babilónia, ficando conhecido como o primeiro código de leis da civilização Suméria (o berço da civilização).

Fonte: The Paris Review

O Antigo Testamento tem mais de 3.300 anos e assume a forma de imperativos morais (alegadamente ditados por um deus) como recomendações para uma boa gestão da sociedade.

Há cerca de 2.900 anos, Atenas foi a primeira sociedade a basear-se na ampla inclusão dos seus cidadãos, mas excluindo mulheres e escravos.

A lei romana foi influenciada pela filosofia grega e impôs-se na Europa Medieval após a queda do Império Romano, a qual foi retocada com preceitos religiosos católicos.

Depois surgiu a necessidade de redigir leis internacionais para regular o comércio em toda a Europa e no mundo.

Toda esta retórica me serviu para chegar ao momento de dizer que, embora cada país tenha a autoridade legal e inalienável de ditar leis aos seus povos, é igualmente verdade que a liberdade de cada pessoa em qualquer parte do mundo é, também ela, inalienável à luz do Humanismo, do conceito da igualdade e do respeito devido ao próximo. Por isso as ditaduras são repudiadas.

Podemos dizer que cada sociedade tem a sua sensibilidade, e esta está na base das leis que a rege. Porém, o Humanismo não está presente nas leis de muitos países… e o Ser Humano é igual em qualquer parte do mundo. Cada mulher, cada homem, cada criança, tem o mesmo sistema nervoso que lhes permite sentir alegria e tristeza perante a mesma experiência de vida, e não precisamos de estudar Direito para sabermos – e sentirmos – o que é justo e o que é injusto. Aqui ou nos antípodas.

O Humanismo, com todas as particularidades que o constroem, é o único modo político e económico de governar (bem) os povos, em qualquer parte do mundo.

PARTE 2

18 de Outubro, 2025 Eva Monteiro

Soltem as Ideias

O Vice-Presidente da Associação Ateísta Portuguesa, Onofre Varela, em conversa sobre a sua vida:

12 de Setembro, 2025 João Monteiro

ONOFRE VARELA EXPÕE “OBRA VÁRIA”

A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto tem patente na sua sede (Rua de Rodrigues Sampaio, 140 – na esquina com a Rua do Bonjardim, à Praça de D. João I, no Porto) de 15 de Setembro até 15 de Outubro, uma exposição do artista plástico Onofre Varela (cartunista e cronista d’O Cidadão).

Com o título “ObraVária’7”, a exposição contempla Desenho Gráfico, Retrato, Cartune e Banda Desenhada, juntamente com recortes biográficos de imprensa e livros do autor.

Com abertura às 18 horas do dia 15 de Setembro (Segunda-feira), a exposição manter-se-á franqueada ao público até ao dia 15 de Outubro, apenas na parte da tarde, de Segunda a Sexta-feira, das 15h às 18h.

1 de Setembro, 2025 Onofre Varela

«Pode-se viver sem deuses, mas não sem conhecimento»

Roberto Calasso foi um escritor e editor italiano que morreu em Milão no dia 29 de Julho de 2021, com 80 anos de idade. Reconhecido pelos seus amigos como sendo dono de um carácter “muito difícil e complicado”, também se lhe reconhecia a sua extrema elegância, falando com a precisão dos sábios. E sabia manter o silêncio sobre qualquer pensamento do qual ainda não tivesse tomado consciência plena para se poder exprimir sobre ele.

O filósofo e ensaísta espanhol Juan Arnau, especialista em religiões orientais, escreveu sobre Roberto Calasso, começando por dizer que “da solidão surge o conhecimento, do conhecimento a arte e da arte o eterno, fechando-se o ciclo”. Calasso não encontrava diferença entre “o pensamento e a literatura”, convivendo com as duas matérias como se fosse uma só.

Numa das suas últimas entrevistas, o escritor e editor confessou que se pode viver sem os deuses, mas que “a experiência do divino muda tudo”, e é essencial saber reconhecê-lo. Calasso soube ler o mundo como se fosse um texto sagrado no qual estamos entrelaçados, mas, ao mesmo tempo, olhava com receio os êxitos da nossa civilização tecnológica, dizendo que “a tecnologia cria a ilusão do conhecimento”, e que “estamos perto de sabermos quase tudo do que não nos interessa saber”.

Sobre a Neurociência (disciplina da moda no século XXI), Calasso mostrou-se muito crítico da ideia de “a consciência ser uma propriedade da matéria”, concluindo que a antiga busca do divino, encetada pelos gregos, se transformou hoje na indagação sobre a Natureza e a consciência, mas que a nossa civilização não foi (ainda) capaz de distinguir “mente e consciência”.

Nem sequer Husserl, que foi o primeiro a fazer da consciência o tema central da filosofia contemporânea. (Edmund Gustav Albrecht Husserl [1859-1938] foi um filósofo e matemático alemão, fundador da “escola da fenomenologia”, cujo pensamento influenciou profundamente todo o cenário intelectual do século XX, mais a parte do século XXI em que já vivemos).

Ao contrário do que é aceite – de que a mente está no cérebro – Calasso defendeu o contrário: o cérebro é que está dentro da mente! A identificação entre mente e cérebro é um dos descalabros do pensamento moderno – dizia ele – para a seguir sentenciar que “na sociedade secular tudo é idolatria, e que toda a boa literatura é sagrada”. A mente deixou-se embrulhar na sua própria projecção “e a inteligência deixou-se absorver pelos algoritmos”, do que resultou esta fatalidade: “os verdadeiros problemas não têm solução”… ou não estamos nada interessados em procurá-la, encantados que nos sentimos na artificialidade com que decoramos a naturalidade, como se fosse uma árvore de Natal!… 

 OV 

Roberto_Calasso_(1991)_by_Erling_Mandelmann

7 de Agosto, 2025 João Monteiro

Sobre “A hóstia do questionamento”

Ricardo Correia, um jovem ateu, contactou-nos com uma ideia: “e se promovêssemos o ceticismo e a cultura portuguesa num registo descontraído e acessível”? E logo de seguida concretizou: a ideia passaria por “rancho folclórico cético”, que combinasse a estética tradicional dos ranchos folclóricos portugueses com letras que promovessem o pensamento crítico e o humor cético.

Estava lançado o mote que logo concretizou na sua página do facebook e que, com a devida permissão, aqui partilhamos:

Hóstia do Questionamento

(Instrumental tradicional – acordeão abre, toque alegre e animado)

Verso 1:

No terreiro da aldeia, o povo a dançar,
Mas o vinho que eu trago é pra mente acordar.
Não quero promessas, nem dogma a mandar,
Só hóstia de dúvida pra nos alimentar.

Refrão:

Adega cética, filhos da razão,
Bebo o vinho da dúvida, não sigo o sermão.
Com acordeão e palito, vou questionar,
No rancho da verdade, vamos todos cantar!

Verso 2:

O padre e a missa, a festa tradicional,
Mas o santo que eu venero é o meu pensamento racional.
No meio da dança, uma risada solta,
É a ética que muda, a fé que não volta.

Refrão:

Adega cética, filhos da razão,
Bebo o vinho da dúvida, não sigo o sermão.
Com acordeão e palito, vou questionar,
No rancho da verdade, vamos todos cantar!

Ponte:

E se o mundo acabar, antes da próxima festa,
Que eu morra cético, e com alegria na testa!
Nada de mentiras, nem conto do vigário,
Só a luz do conhecimento, o nosso sagrado relicário.

Refrão final:

Adega cética, filhos da razão,
Bebo o vinho da dúvida, não sigo o sermão.
Com acordeão e palito, vou questionar,
No rancho da verdade, vamos todos cantar!

Foto que acompanha o poema na conta do Facebook do Ricardo. Créditos: Vítor Neno, Jornal de Cá.