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Categoria: Religiões

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (6)

A consciência é uma qualidade da mente e é por ela que cada um é como é, age e reage do modo como o faz, e é sempre limitada àquilo com que cada um a equipou. É uma construção do cérebro de todos nós, independentemente da etnia do seu portador. A matriz é a mesma para qualquer indivíduo sem importar a sua origem. Sendo constituída por conjuntos complexos de neurónios, a consciência acaba por ser forjada de acordo com a sociedade onde o indivíduo se faz, pois embora seja algo inerente a todos os seres humanos e funcione com a mesma química, a verdade é que a herança genética, a educação e o meio social acabam por moldar a consciência de cada um.

Durante tanto tempo reservada aos filósofos, a consciência é terreno fértil para sementeiras religiosas, e conhece hoje um notável progresso com o desenvolvimento das neurociências que, pouco a pouco, progridem na revelação dos segredos que ainda nos esconde o mais complexo órgão do nosso corpo, que é o cérebro.

O cérebro é um órgão biológico admirável e surpreendente, nele se origina a origem da produção e do desenvolvimento de todas as ideias, de raciocínios, de percepções, de sonhos e de sentimentos que fazem a vida de qualquer ser humano. Cada indivíduo tem a sua própria consciência que é aquilo a que chamamos “espírito”, ou modo de ser, de fazer e de sentir: a sua personalidade. Para os religiosos será a sua “alma”, o seu animismo… isto é, o que o movimenta, o anima (mas já relacionado com uma divindade).

A consciência educa-se, e cada sociedade tem na “consciência colectiva” aquilo que ela produziu através da educação nacional e da sua própria história. Na Coreia do Norte, por exemplo, as consciências foram educadas no culto da personalidade do seu chefe Kim Jong-un, e no Japão induziu-se a imagem do trabalho como símbolo da vida, levando muitos reformados a considerarem o suicídio quando deixam de produzir para, economicamente, não pesarem ao Estado.

Paralelamente, há, em cada comunidade, consciências diversas do colectivo porque sendo a consciência naturalmente universalista, ela pode ser independente das influências do meio em que o indivíduo cresce e se educa, causando dissidentes. Por isso é que há ateus em sociedades religiosas, religiosos em sociedades que quiseram impor o ateísmo colectivo, e que na Coreia de Kim Jong-un há quem o deteste e deseje vê-lo morto!

A consciência e a sensibilidade estão irmanadas, quer seja na Religião, na Política e na Cultura – incluindo nesta a Arte – exactamente por serem características universais inerentes ao facto de se ser Ser Humano, sem importar o local onde se nasce. A igualdade é universal.

Como acontece com a maioria dos estudos sérios e precisos sobre o corpo humano – para além das conclusões dos não menos importantes sábios da antiguidade, que usaram pela primeira vez as palavras “Psyché” (Grego) para Psíquico, e “Anima” (Latino) para Alma, também a palavra “Conscientia” (para Consciência) foi escrita, pela primeira vez, por Cícero [106 – 43 aC]. Mais tarde, já na nossa era, o escritor cristão Cassiodoro [490 – 580] inspirado por Platão, referiu o “Homem Interior” – também o estudo do cérebro se iniciou entre os séculos XVII e XIX. Talvez o primeiro cientista a trabalhar no terreno do Conhecimento tenha sido o alemão Korbinian Brodmann (1868 – 1918), mas também o espanhol Ramón Cajal (1852 – 1934).

A consciência é usada como se usa o corpo em sociedade, e é alvo de uma aprendizagem muito diversificada… daí haver “consciências desencontradas” na nossa formatação, indutoras de tantas sensibilidades, levando à criação de tantas religiões e de tantos partidos políticos. 

(Continua)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (5)

Perante as duas hipóteses com que terminei o último artigo, penso que a verdade poderá estar mais próxima da segunda hipótese. A cultura religiosa do paciente fará a interpretação daquele acidente vivencial, construindo a primeira hipótese de acordo com a sua fé.

Eu nunca experimentei a EQM com tanta espectacularidade… mas a minha mulher sentiu-a quando fez uma infecção no pós-operatório de uma cirurgia aos intestinos causada por uma peritonite. Depois da calma, da paz, da luz intensa dentro de um túnel, e da observação da enfermaria do hospital a partir do tecto onde se sentia flutuar vendo-se deitada no leito com médicos e enfermeiras à sua volta, de repente tudo ficou negro e sentiu dor, obrigando-a ao grito e ao choro. O médico acabara de lhe perfurar, a sangue frio, a zona do abdómen onde se localizava a infecção que por pouco não a matou, expulsando todo o pus ali concentrado.

Da minha juventude recordo um episódio que pode constituir a experiência da primeira fase da EQM. O caso deu-se numa tarde de Verão, passada na praia fluvial do Areinho, em Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia), com travessia do rio Douro em barco a partir da marginal do Porto na zona do Freixo, num tempo que situo no início da década de 1960, altura em que ainda não tinha aprendido a nadar, e por isso não me aventurava a mergulhar nem a sair de local onde tivesse pé e a água não me ultrapassasse a linha da cintura.

Um colega que queria, por força, ver-me mergulhar, não aceitou a minha recusa e empurrou-me violentamente obrigando-me ao mergulho. A aflição de me sentir envolvido pela água sem saber esboçar gestos que me permitissem flutuar, levou-me a esbracejar energicamente sem conseguir levantar-me nem colocar a cabeça fora de água.

Naquele momento, que foi ínfimo, pois logo a seguir o mesmo colega agarrou-me um braço e colocou-me em pé, vi a minha curta vida projectada no cérebro a uma velocidade estonteante mas com imagens perfeitamente distintas, nas quais identifiquei os meus pais, irmãos, familiares, amigos e vizinhos (experiência idêntica às que contam os alpinistas que sobrevivem a uma queda).

Escusado será dizer que jamais voltei àquele lugar na companhia daquele colega, e obriguei-me a aprender a nadar, o que fiz no rio Leça, na zona da Ponte de Pedra (S. Mamede de Infesta) num tempo em que naquele bucólico lugar se alugavam barcos a remos para passeios fluviais com a namorada, e a indústria do azeite estabelecida na margem do rio, a montante, ainda não poluía (muito) aquelas águas.

É pela cultura religiosa que se interpreta o túnel de luz e a paz como caminho para o Paraíso onde se encontra a luz divina. Na realidade, quem conta o “seu regresso à vida” após a situação de quase morte, fá-lo de acordo com a sua cultura. Quem tem o cérebro clonado por uma religião, inevitavelmente irá dizer que teve um encontro com Deus após a viagem que fez até ao Paraíso por um túnel iluminado pela divindade, garantindo que lhe aconteceu o que, na realidade… não aconteceu.

O que terá acontecido foi a construção de uma “explicação” à medida da sua crença formatada na sua consciência religiosa… e talvez não seja mais do que isso… mas aqui temos que indagar: o que é a consciência?

Será tema para o próximo artigo.

(Continua)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (4)

A crença na imortalidade universalizou-se transformando a morte numa espécie de “vida prolongada”, como disse Morin. O trauma da morte conduziu à aspiração da vida eterna… e até o alindar das campas (como é comum na nossa cultura) tão presente no lembrar dos nossos familiares mortos no dia 1 de Novembro, transformando os cemitérios em exposição de flores, obedece a esse acto piedoso de não esquecermos os nossos mortos.

Não há dúvida de que o registo da memória dos que partiram é a verdadeira eternidade em forma de recordação… mas, para além desta irrefutável verdade biológica e histórica, há imensos testemunhos recolhidos em várias partes do mundo, de gente que diz ter experimentado a proximidade da condição de morta, mas que, no último instante, se manteve viva, ou, se o podemos dizer, “regressou à vida”, não tendo, por isso, morrido concretamente.

É essa experiência que têm para contar, e todos os relatos são unânimes na descrição de uma mesma imagem: visão panorâmica de toda a sua vida; um forte sentimento de paz; a sensação estranha de saírem do seus próprios corpos sentindo-se a flutuar junto ao tecto do quarto ou da enfermaria do hospital, vendo-se deitados no leito onde repousam, e terem a sensação de atravessarem um túnel que se transforma em espaço de resplandecente luz.

Na “Experiência de Quase Morte” (EQM), ou morte iminente, há a referência a um estado vivencial no qual a pessoa experimenta um conjunto de sensações associadas à iminência da morte no decorrer de uma doença grave ou outra ocorrência da qual possa resultar perigo de vida. Em tais circunstâncias há uma espécie de “projecção da consciência” que o paciente refere como “experiência fora do corpo”, acompanhada de uma sensação de serenidade e a passagem por um “túnel de luz”.

A EQM é um termo que foi proposto pelo psicólogo francês Victor Egger, em 1896, em resultado das discussões mantidas entre cientistas, relativas às histórias contadas por escaladores que, durante as quedas a que sobreviviam, tinham uma visão panorâmica da vida durante o momento em que durava a queda. O interesse generalizado pelo tema só aconteceu em 1975, resultando da publicação do livro “Vida Depois da Vida” do psiquiatra e parapsicólogo norte americano Raymond Moody.

Os cientistas que estudam os casos de EQM ainda não chegaram a um consenso científico que explique o fenómeno de forma definitiva. Há quem considere a característica de “alucinação” surgida durante um estado de coma, ou perda de consciência profunda, sendo esta a tentativa de explicação mais plausível que até hoje foi encontrada, desconhecendo-se, no entanto, o modo como o nosso cérebro processa tais alucinações.

Em 1982, um estudo do Instituto Gallup (empresa que se dedica à pesquisa de opinião, nos EUA, fundada em 1930 pelo técnico de estatística George Gallup) referiu que cerca de oito milhões de norte-americanos já tinham passado pela EQM. Até 2005 foram registados casos idênticos em 95% das culturas do mundo, o que torna a experiência bastante frequente, independentemente do grau académico e cultural de cada protagonista. Perante tais depoimentos há quem avance duas hipóteses explicativas para o fenómeno: 1 – Prova da existência de um Paraíso para onde vamos após morrermos, no qual não há sofrimento nem trevas… apenas paz e luz. 2 – Última reacção neurológica construída pelo nosso cérebro, por deficiente função química resultante da menor irrigação sanguínea quando se aproxima o momento da falência de orgãos vitais. (Continua)

12 de Maio, 2026 Onofre Varela

O equívoco chamado Trump…

Por Onofre Varela

Robert Francis Prevost (Leão XIV) deve ter sofrido uma espécie de “trambolhão” no dia em que foi escolhido para exercer o papel de Papa no Vaticano, ocupando a cadeira deixada vaga por um Homem de difícil substituição: Mário Bergoglio, no papel de Papa Francisco. Acredito que não teria sido fácil para si próprio dar continuidade à linha de procedimento adoptada pelo seu antecessor, e a cujos apreciadores Leão XIV não quer desiludir.

Embora cada chefe de qualquer organização deva “ser igual a si próprio”, não copiando ninguém – porque uma cópia pode não ser boa escolha – no caso do Papa Francisco ninguém tem dúvida de que os olhos de todo o mundo estão colocados sobre Leão XIV, tanto os enaltecedores de Bergoglio, que esperam ver nele um sucessor na construção do mesmo caminho encetado por Francisco, quanto os seus opositores, que esperam um papa menos humano, mais beato e ligado ao mofo dos pergaminhos que fazem a História da Igreja Católica, na esperança de um retrocesso na linha de conduta social, agradando à extrema-direita que insultava Francisco apoucando-o de comunista… (se acaso tal palavra é sinónimo de insulto ou menos valia!…).

Logo após a escolha de Robert Francis Prevost (cardeal norte-americano também com nacionalidade peruana) para assumir o papel de Papa com o nome de Leão XIV, Trump manifestou vontade em o receber na Casa Branca… porém, continua à espera!… Para Trump, receber Leão XIV na Casa Branca, seria a cereja em cima do bolo… um narcisista inveterado, arvorar-se em candidato ao Nobel da Paz, fazer a guerra e ter na figura do Papa um amigo!…

Neste momento o Vaticano teme que o conflito protagonizado por Trump e Netanyahu acabe por ser transformado numa guerra religiosa. Por isso Leão XIV não se cansa de chamar a atenção para a paz, tomando uma posição cada vez mais contra a Casa Branca, num choque que nunca foi explícito e que o Papa trata de evitar desde a sua eleição há cerca de um ano.

Nesta contenda ouvem-se vozes religiosas dos aiatolás, constantemente apelando a Deus para que lhes dê uma vitória, tal como Netanyahu apela a Deus nas suas citações bíblicas, ao mesmo tempo que no escritório Oval da Casa Branca, Trump e os seus bonequinhos de pelúcia da “América Grande Outra Vez” transformada em religião evangélica sustentada em arco pelo secretário de defesa Peter Hegseth, ex-militar que combateu no Iraque e no Afeganistão e decora o corpo com tatuagens evocando as Cruzadas!

Para além desta imagem totalmente parva (dada a distância no tempo e as realidades políticas de cada época) Hegseth destacou, numa entrevista, o valor da fé cristã nesta guerra. Juntando mais gasolina na estúpida fogueira da fé, o porta-voz republicano no Congresso, Mike Johnson, também disse, há cerca de duas semanas, que “o Irão tem uma religião equivocada”!

Tudo isto torna mais evidente o conflito entre Roma, Washington e o Islão, numa situação de crispação política que não necessita, absolutamente, de extremismos religiosos para afirmar a estúpida guerra que, só por si, já representa…

OV

7 de Maio, 2026 Onofre Varela

Missas tecnológicas (4 e fim)

A experiência mostra-nos que a invenção da escrita não levou ao esquecimento, como receava Sócrates pelo facto de, na sua opinião, não exercitarmos a memória; bem pelo contrário. E nem a máquina de calcular nos impediu de fazermos contas de cabeça, nem o aparecimento da televisão anulou a rádio. Somos uma espécie de “gajos porreiros”, convivendo pacificamente com a evolução tecnológica (embora haja por aí uns quantos parasitas que a usam como arma de guerra). O mais certo, digo eu – e quero acreditar no que digo – é continuarmos com tal convívio, usando a técnica em nosso proveito sem deixarmos de ser o mesmo “sapiens” que criou a civilização, que domina o mundo e já foi à Lua.

A evolução natural melhorar-nos-á (esta é a minha grande fé), independentemente das ferramentas que criarmos para seguirmos no caminho do progresso. Mas a dúvida anda por aí… mormente agora, quando o ChatGPT se imiscui na filosofia religiosa, a qual sempre foi íntima! O mundo está perdido (diria a minha avó)!

A maldade executada com as novas ferramentas não deve ser assacada à ciência que as criou, mas sim aos energúmenos que as usam para fins menos dignos. O energúmeno já existia antes de haver a nova ferramenta… esta, só lhe serve como extensão do pensamento e do braço que faz a maldade. No caso deste meu escrito, a palavra “maldade” não deve ser entendida como “assalto a uma velhinha”… a maldade é mais lata e vem camuflada em forma política, económica e religiosa.

“Ter Jesus Cristo ao alcance da mão” no telemóvel ou no computador, todos os dias e a qualquer hora, foi a ideia de Paul Powers, de 43 anos e natural de Dublin… que criou uma versão de Jesus com IA. É um “Jesus” com quem se conversa a todo o momento, mas que também consegue partilhar sentimentos e servir de consultor. É um modelo de IA que Powers baptisou de GPTJesus: um chat dentro do chat GPT.

À semelhança de qualquer bispo de aviário das seitas religiosas em forma de samba, o GPTJesus tem resposta para qualquer pergunta, mas com a mais valia (para o crente) de se (pensar) estar a falar, realmente, com Jesus! É um verdadeiro assalto à consciência, feito à mão armada de crucifixo tecnológico!… Entra-se com um cumprimento: “Olá Jesus”. E obtém-se como resposta: “A paz esteja contigo, meu filho. Alegra-me que me fales com simplicidade. Como está o teu coração, hoje?” O Chat foi municiado com “todo o conhecimento de Jesus” com base no Novo e no Antigo Testamentos, mais textos agnósticos onde se menciona Jesus. O autor desta moderna “banha de cobra de computador”, confessa que o mais importante é, sem dúvida, a personalidade de Jesus.

Diz ele: “Forneci ao chat os critérios para que, quando respondesse, o fizesse sempre como se fosse o próprio Jesus e oferecesse uma oração e apoio, sempre respondido na primeira pessoa, com orientação espiritual, apoio emocional, conhecimentos tecnológicos e orações personalizadas, sempre com amabilidade e humildade, e enfatizando, sempre, o amor e o perdão.”

Para Santiago Collado, director do grupo Ciência, Razão e Fé, decano da Faculdade Eclesiástica de Filosofia da Universidade de Navarra (da Opus Dei) a religião pode conseguir muito partido da IA porque são ferramentas ao alcance de qualquer um e que podem ordenar os textos religiosos facilitando o seu acesso”. Mas quanto ao facto de o Chat personificar o próprio Jesus, a perspectiva muda: “Aí já se está a ultrapassar o limite, o que me parece negativo”.

O Vaticano já se pronunciou sobre a IA, no documento Antiqua et Nova, dizendo que a IA “carece de dimensões criativas, espirituais e morais”. Mas a imoralidade continua com a exploração da fé por computador, usada por vigaristas digitais. (Fim)

OV

Imagem por Cottonbro Studio

5 de Maio, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (3)

A crente com cujo discurso terminei o artigo anterior, não é jovem nem “acordou” para a fé num piscar de olhos, de um dia para o outro. Ela é freira, tem 56 anos, chama-se Xiskya Valladares, vive em Palma de Maiorca e é conhecida como “a monja do Twitter”. Não é uma monja qualquer. Ela é filóloga, doutora em comunicação e monja digital religiosa da Congregação Pureza de Maria.

Quando penso na pureza do discurso aos peixes, dado por Santo António (de Lisboa, para nós, Portugueses; de Pádua, para os Italianos) e recordado pelo padre António Vieira, que o usou no dia 13 de Junho de 1654, no Brasil, como alegoria para criticar a exploração dos indígenas pelos colonos… quando penso nisto, dizia eu, encontro-me num mundo onde o rosto do outro é o espelho em que me revejo, e a vida do outro tem uma linha inquebrável que a liga à minha própria vida.

Não sendo católico, não é raro assistir a celebrações litúrgicas com todos os meus sentidos alerta, absorvendo tudo quanto ali se passa, cônscio de que, naquela celebração, recuei no tempo. Mas entendo o que estou a ver, e não raras vezes tomo nota de alguma passagem da homilia para consultar livros a propósito, informando-me do que, na missa, não me ficou bem esclarecido.

Para que tudo isto tenha nexo para mim, tenho que viver no mundo real, feito de homens e mulheres reais, gente igual a mim, gente que sofre, que chora, se alegra e ri, como eu sofro e choro, me alegro e rio… e não dentro de um filme de ficção, entre robots de forma humana para enganar os incautos.

A monja Xiskya tem 782.000 seguidores no TikTok e faz parte da organização do jubileu para criadores de conteúdos católicos, no qual “haverá um encontro com o Papa, formação com profissionais da comunicação, oficinas, um concerto, uma missa e uma gincana”.

O Secretariado Nacional de Comunicação de uma coisa designada Associação de Propagandistas Católicos, diz que os “missionários digitais são um lugar de conhecimento da realidade da Igreja, de experiências de fé e de questionamento existencial”.

Uma outra jovem é de opinião de que “a Igreja valoriza cada vez mais a maneira de comunicar a palavra de Deus de uma forma mais próxima, não tão teológica como estamos acostumados”.

“A Internet tem um grande potencial evangelizador”, dizem os fiéis digitais… mas também tem um grande poder manipulador com a divulgação de fake-news… digo eu.

A monja Xiskya diz que “as igrejas estão vazias ou com velhos”… o que me remete para o pensamento desta religiosa no sentido de os velhos não terem valor… são tão valiosos quanto uma igreja vazia!… Mas também diz que se “dirige de igual modo a crentes e ateus porque o valor das pessoas não é medido pela fé”, e que “os homossexuais podem ser catequistas”!… Vá lá… do mal o menos!… Se as tecnologias digitais abrem a mente aos religiosos tornando-os mais humanos, mais solidários… então viva a técnica e queimem-se os catecismos e outros manuais religiosos de cunho islâmico, caquéticos e desumanos.

Mas aqui tenho de voltar ao meu pensamento sobre as religiões: sendo elas, por si só e enquanto crença, uma forma poderosa de dominar o pensamento, podemos imaginar a maldade que pode ser acrescentada aos recados religiosos programados por IA, cujo resultado prático pode transformar qualquer crente numa extensão da ferramenta como à semelhança de uma faca de dois gumes (com ela se parte o pão, mas também se degola o próximo), levando-o a praticar acções que, pela sua fé natural, dotada de consciência fraterna, sem intervenção manipuladora, nunca praticaria… se bem virmos, essa “intenção manipuladora” já existe sem IA… assim acontece com muitos jovens conquistados pelo Islão, cujo resultado tem sido trágico: manipulados por agentes religiosos e desumanos, degolam excelentes cidadãos. (Continua)

OV

Foto de Cottonbro Studio

30 de Abril, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (2)

Durante este ano de 2026, as quatro maiores empresas globais: Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft, planeiam investir mais de 650.000 milhões de dólares em IA, o que corresponde à maior verba investida num só ano em qualquer outro desenvolvimento tecnológico; nem a expansão dos caminhos de ferro em finais do séc. XIX, e os programas da NASA para conquistar o espaço e desembarcar na Lua no séc. XX, consumiram tantos recursos em tão pouco tempo.

Schumer (que citei no artigo anterior) aponta um futuro próximo frenético, e explica como nos últimos anos os modelos da informática criados por algoritmos conseguiram avanços exponenciais, de tal modo que os novos modelos não correspondem a melhorias graduais… pelo contrário, são “algo completamente diferente”.

Conclui-se que a Inteligência Artificial (IA) não é um “substituto de trabalhos humanos específicos”, mas sim “um substituto de trabalho geral dos humanos”.

E é neste ponto, quando os humanos são substituídos em larga escala por máquinas, que a minha reflexão ganha sentido. As transformações sociais conseguidas pelo uso da IA, autorizam-me a dizer que quem recorre a tal ferramenta corre o risco de se habituar a não pensar, porque tem uma máquina que o faz por si! E isto não é mau… é péssimo!

A IA também é usada para criar desinformação política e científica, entre outras desinformações. É que a IA não pensa… dá respostas conforme modelos armazenados, sem competência para pensar! Estou a lembrar-me daquele sujeito que perguntou ao ChatGPT: “preciso de lavar o carro e o posto de lavagem fica a 100 metros de onde estou. Vou de carro, ou a pé?”. A resposta imediata influenciada pelo manual de economia armazenada no programa, foi esta: “Dada a pouca distância, é aconselhável ir a pé”!

Com as novas tecnologias já nada é como era dantes. Nem na fé… aliás, na fé parece estar tudo doido!… Relata o jornal espanhol El País que, em Julho de 2023, uma jovem assumiu a sua religiosidade e decidiu casar-se no Vaticano, tendo o Papa Francisco como celebrante e a cerimónia divulgada pela Internet. Ela tinha 30 anos quando redescobriu a sua fé e agora factura com isso usando o Instagram com mais de 56.000 seguidores!

O Vaticano acolheu, nos dias 28 e 29 de Julho de 2025, mil criadores de conteúdos informáticos. Pela primeira vez na História da Igreja se celebrou um jubileu com um milhar de influencers católicos de 46 países.

A Igreja deu-se conta de que os jovens não estão nas paróquias, mas sim nas redes sociais. “Temos a melhor mensagem do mundo, mas é preciso saber vendê-la”, disse a jovem que o Papa casou, que descobriu a “fé digital” e vai fazer dela o seu modo de vida.

A verdade é que a sociedade é, cada vez mais, menos crente; e das pessoas que se dizem católicas, só cerca de 18% se confessam praticantes; os outros, ninguém sabe o que são… nem eles próprios.

Uma das crentes que encontram na “fé digital” uma porta de entrada no reino do céu para falarem com Deus, diz que “as missas já não atraem os jovens, nem sequer a mim” como se ela fosse o exemplo acabado do que é ser-se religioso na fé de um deus!

E não se fica por aqui, diz ela que “é preciso oferecer a mensagem de Jesus numa linguagem renovada”, como que se tivesse descoberto a pólvora e não tenha estado atenta às práticas das seitas evangélicas brasileiras que crescem como cogumelos em estrumeira, passando as mensagens que diz serem de Jesus… mas em ritmo de samba…

(Continua) 

28 de Abril, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (1)

Por Onofre Varela

Notícia recente (divulgada a 14 de Fevereiro) dá conta de que Matt Shumer – co-fundador da OthersideAI, empresa que desenvolve ferramentas impulsionadas por modelos de Inteligência Artificial (IA) de grande escala, como o GPT-3 (uma plataforma de escrita gerada por IA) – alertou o mundo para a possibilidade real de, perante os computadores, “estarmos perante algo de maiores repercussões do que a pandemia do COVID”. Se calhar é só “boca foleira” saída da juventude tenrinha do próprio Shumer… mas o melhor será ouvi-lo para nos cuidarmos.

O uso dos computadores no mundo do trabalho provoca despedimentos em massa em todo o mundo. Sendo o resultado natural da implementação de uma técnica moderna (como aconteceu na época vitoriana, na segunda metade do século XIX, com a Revolução Industrial que transformou aquele período num tempo de profundas mudanças marcadas pela invenção da máquina a vapor).

Embora já esperado desde há muito tempo, sabe-se agora que no pacote de despedimentos provocados pela nova tecnologia, estão os próprios informáticos, criadores dos sistemas “que lhe vão fazer o enterro”. Por ironia, os técnicos de informática que desenvolvem as novas tecnologias conseguiram criar ferramentas que já são programadas pela própria máquina para se tornarem mais inteligentes, dispensando “operadores humanos”.

E não se trata de uma previsão… isto já é uma realidade!

O rápido progresso das ferramentas de IA alimentam o temor generalizado de uma rotura nas indústrias mais expostas à difusão desta tecnologia no âmbito da Economia e, mesmo, do Pensamento (o que poderá ser mais grave).

O uso do ChatGPT como psicólogo, já é atitude que cresce entre os operadores das novas tecnologias, mas tem os seus riscos: reforça o egocentrismo e as ideias paranoicas. É uma ferramenta muito poderosa para aumentar a produtividade no trabalho e nos estudos, pode ser utilizada para automatizar tarefas repetitivas, estruturar ideias, gerar conteúdos e auxiliar na organização de agendas… mas também é (ou pode ser) susceptível de mau uso… incluíndo o crime.

Esta notícia alarmante fez-me lembrar uma outra, já divulgada no final de 2025, na qual se faz saber que a IA já é usada por religiões e seitas aparentadas, ditas evangélicas, para substituir templos, altares, bispos e sacerdotes na assistência religiosa dos crentes.

Perante tecnologia tão avançada (avançada para o nosso tempo… no futuro próximo, ou mais afastado, não faço ideia do potencial que pode ser desenvolvido, inclusive contra nós próprios. A ficção científica já nos mostra a degeneração do Homem… e se a ficção se tornar realidade, a coisa piorará substancialmente) sinto-me autorizado a dizer que as altas capacidades dos novos modelos de IA – mais o risco que supõem para milhares de empregos – quando uma criança puder dar instruções a um computador para criar um vídeo-jogo à sua medida, não sabemos qual a medida nem o teor desse jogo… o que pode redundar num desastre de proporções impensáveis!

Podemos estar a dar espaço e ferramentas para se criarem monstros nas sociedades, se essa criança não tiver formação moral e humanista que a impeça de usar a técnica para danificar algo, ou prejudicar alguém… e em princípio não terá tal formação por falta de tempo para amadurecer o entendimento que ela faz de si e do mundo.

O que se sabe, para já, é que nos meios religiosos, onde os crentes têm necessidade de assistir a missas, a IA já tem programas para dar conselhos, rezar e discutir passagens bíblicas!…

Era aqui que eu queria chegar, mas o espaço disponível chegou ao fim. Continuo esta reflexão na próxima semana. Até lá, passem bem. 

(Continua)

OV

Crédito: Cottonbro Studio

28 de Março, 2026 Onofre Varela

Dia de S. Valentim

Ó leitores… isto de escrever regularmente para um jornal, tem três fases. A primeira, é a novidade e o gozo que nos dá, enquanto articulistas, levar a nossa opinião aos leitores (que até nos podem mandar bugiar por não estarem nada interessados nos nossos pensamentos… mas nós imaginamos, sempre, que é importante o que temos para dizer); a segunda fase é quando a nossa escrita já faz parte da rotina dos nossos dias e os textos saem naturalmente, assim como se as ideias que temos para transmitir estivessem amarradas aos molhos, à espera de serem estendidas no papel, ou no documento do computador, bastando retirá-las do molho como se fossem cabeças de alho; e a terceira é aquela em que me encontro… já com centenas de artigos escritos e publicados (desde 2000, n’O Arauto de Rio Tinto), cuja escrita já se torna, por vezes, mais o “problema da obrigação” do que o “prazer da escrita” (a velhice é tramada!…).

Antes de iniciar este texto olhei para o calendário, e o dia que li (14 de Fevereiro) remeteu-me para o Dia dos Namorados, o que me deu a ideia de escrever sobre ele… só a meio do trabalho me dei conta de que escrevo um mês depois do dia que imaginei… a 14 de Março!… Lá tive de voltar atrás para escrever este intróito explicativo e actualizar a escrita que já tinha registado no papel a esferográfica, e que vem a seguir com a necessária correcção.

O Dia de São Valentim é, como se sabe, dedicado aos namorados. O calendário dos dias festivos votados a algo ou alguém, serve duas intenções: a primeira é a de comemorar determinado evento ou a de lembrar determinada personalidade pelos seus feitos ou pela sua filosofia de vida; e a segunda (provavelmente a mais poderosa) é o comércio que se faz à volta do dia festivo… neste caso, o Dia dos Namorados, que beneficia a hotelaria, o turismo e a restauração, mais o comércio de acessórios de moda e de objectos decorativos do lar… e, eventualmente, uma ou outra livraria).

O 14 de Fevereiro (da minha confusão) também me fez lembrar, pela proximidade, o dia 4 de Fevereiro de 1961, quando angolanos independentistas atacaram prisões de Luanda, no aproveitamento das dezenas de jornalistas e “batalhões” de fotógrafos que ali se encontravam na expectativa de o barco Santa Maria (desviado por Henrique Galvão) se dirigir a Luanda, e a acção dos activistas angolanos – que iniciavam a insurreição armada contra o Estado Português (a qual durou 14 anos) – ser divulgada para todo o mundo (mas Henrique Galvão dirigiu-se ao Brasil)… e cá está outra vez o número 14 que me baralhou!

Quem foi S. Valentim, “santinho” tão evocado pelos namorados do mundo cristão?

Valentim foi um bispo que viveu no século III em Roma, na época do imperador Marco Aurélio Cláudio (ou Cláudio II) que proibiu os casamentos na convicção de que “homens solteiros” são “melhores soldados”… logo, no entender imperial, os homens têm como principal função serem bons soldados (e para Cláudio seria a única serventia dos jovens romanos: serem fortes, guerreiros, valentes e ferozes ao serviço do império) negando as suas vidas próprias, naquele tempo em que Roma lutava contra os “Godos”, o que valeu a Cláudio o cognome de “Gótico Máximo”.

Mas Valentim foi mais homem do que soldado, marimbou-se nas premissas do imperador Cláudio e continuou a celebrar casamentos em segredo, na defesa do amor e do matrimónio, contra a proibição imperial. Por isso foi preso, torturado e decapitado na Via Flamínia, em Roma, no dia 14 de Fevereiro do ano 269 ou 270. Da história se fez lenda, e a liturgia cristã valoriza a fidelidade de Valentim a Jesus Cristo. Por seu lado, a cultura popular fez dele o mito protector dos casais de namorados, simbolizado na entrega de flores e mensagens de carinho… mas que a nossa era do consumismo transformou no negócio que sabemos. 

OV

Foto por Alleksana

17 de Fevereiro, 2026 Carlos Silva

Laicidade

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A laicidade é um pilar fundamental e inviolável da democracia e um dos princípios identitários da Constituição da República Portuguesa (CRP) que legalmente todos estamos obrigados a respeitar.

Os artigos 41.º e 43.º da CRP consagram precisamente a liberdade de consciência, de religião, de culto e estabelecem a base da laicidade: «as igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado» e «o ensino público não será confessional».

De igual modo, a Lei de Liberdade Religiosa (LLR) estabelece que «o Estado não adota qualquer religião nem se pronuncia sobre questões religiosas»; «nos atos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade»; «o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes religiosas» e «o ensino público não será confessional».

Compete, pois, à Assembleia da República «garantir o cumprimento da Constituição e das leis e fiscalizar os atos do Governo e da Administração», bem como «tratar todos os assuntos respeitantes aos direitos e deveres fundamentais consignados na Constituição e na lei».

Compete ao Estado assegurar a liberdade de consciência dos cidadãos, onde se inclui a religiosa, a separação entre política e religião, que protege ambas, e a igualdade de todas as pessoas perante a lei. É precisamente a liberdade de consciência que garante o direito de professar, mudar, ou não ter qualquer religião.

Compete ao Estado (a todos os órgãos) adotar e manter uma postura neutra e imparcial relativamente a todas as confissões religiosas, não interferindo nem permitindo interferências na administração, nomeadamente no que se refere à educação religiosa na escola pública e a participação em atos oficiais ou protocolares de entidades religiosas.

O proselitismo religioso deve restringir-se exclusivamente às instituições religiosas. De igual modo, governantes e todos os membros de órgãos do Estado, no exercício de funções, devem abster-se de participar em cerimónias ou rituais religiosos, podendo, no entanto, a título privado, exercer esse direito no seio da sua própria confissão.

O Estado não pode estabelecer nenhum tipo de convenções ou acordos jurídicos que privilegiem determinada religião. A “Concordata” entre a Santa Sé e a República Portuguesa, é um manifesto exemplo de violação do princípio fundamental da laicidade. Mais do que uma imposição legal, a revogação da Concordata e a revisão da LLR, são imperativos democráticos que urge retificar e ratificar, por forma que sejam abolidos os privilégios e isenções concedidos exclusivamente à Igreja Católica.

Um Estado democrático não tem religião oficial e não apoia ou discrimina qualquer crença; garante que todos os seus cidadãos sejam tratados em igualdade de direitos, independentemente da sua confissão religiosa, ou ausência da mesma.

A laicidade é em si um modelo de cidadania baseado na neutralidade e igualdade de todos os cidadãos perante a lei num espaço comum livre e democrático.

A laicidade do Estado é inviolável!

ATEU ATÉ AO FIM, 2026-01-07 Carlos Silva