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Categoria: Religiões

30 de Novembro, 2018 Carlos Esperança

Luta de gerações

Sente-se que uma época chega ao fim. Esgotam-se os combustíveis fósseis, o ar torna-se irrespirável, escasseia a água, faltam alimentos, aquece o Planeta, os solos aráveis dão lugar aos desertos, a bomba demográfica explode e Deus é cada vez mais cruel.

Não acredito, como os cínicos, na incapacidade dos atuais políticos mundiais e na inconsciência dos líderes dos países mais ricos e poderosos.

O radicalismo religioso e o regresso ao fundamentalismo fazem o seu percurso perante a cumplicidade de setores sociais mais empenhados na salvação da alma do que no futuro coletivo da humanidade.

Há muito que a bomba demográfica devia ter sido desativada, que a economia baseada em combustíveis fósseis, como se fossem eternos, podia ter mudado e procurado novos rumos, que esta geração que confiscou os recursos globais devia ter sentido vergonha de se apropriar do que as gerações passadas deixaram e do que as vindouras necessitam.

O consumo atual é insustentável, os horizontes dos jovens tornam-se sombrios e a luta de classes, que levou o pânico à burguesia, dará lugar à luta de gerações e à invasão de países ricos por multidões de famintos com um Deus que não lhes tira a fome mas pode tirar a vida a todos.

A fome, o desespero e o medo da morte despertam a fé em Deus, seja lá isso o que for.

25 de Novembro, 2018 Carlos Esperança

Guarda — Cidade Natal

O pio autarca, Álvaro Amaro, decidiu que entre 1 e 25 de dezembro deste ano a Guarda seja “cidade Natal”. O Jornal do Fundão, desta semana, diz que é uma reincidência, com comunicado, onde o edil declara que “a Guarda brilha mais alto com a cidade Natal”, um slogan capaz de erguer presépios em cada esquina e atrair turistas a todos os becos.

A ideia não é original, já Fernando Ruas, há anos, proclamou Viseu “capital do Natal”, o que hilariou autóctones e forasteiros. Álvaro Amaro, mais modesto, retirou a “capital” à lucubração litúrgica, e manteve o brilho das boas ideias com um slogan à sua altura.

O grande timoneiro teve uma ideia brilhante e, ao contrário do poeta, “Natal é quando um homem quiser”, decidiu amputar seis dias ao mês do Natal das gentes cristãs.

Se a fúria litúrgica for contagiosa, como a gripe ou a tuberculose, os autarcas do distrito correm atrás dos rituais e teremos Seia, cidade da Páscoa; Gouveia, cidade do Advento; Pinhel, cidade da Quaresma; Sabugal, cidade da Semana Santa; e, esgotados os tempos litúrgicos, as outras autarquias confiscam as festividades cristológicas.

Meda será a cidade da Epifania; Sabugal, cidade do Batismo do Senhor; Foz-Coa, cidade da Apresentação do Senhor; Trancoso, cidade d’A Ascensão do Senhor; Fornos de Algodres, vila do Pentecostes; Aguiar da Beira, vila da Santíssima Trindade; Celorico da Beira, vila do Sagrado Coração de Jesus; Figueira de Castelo Rodrigo, vila do Cristo Rei; ficando a minha querida Almeida, a vila do Corpus Christi.

Ámen.

Apostila – Aproveitei para recordar aos meus leitores mais pios os tempos litúrgicos e as festas cristológicas que as minhas catequistas me ensinaram, por entre terrores do Inferno e ameaças de tuberculose e cegueira originadas por pecados que ignorava ainda.

21 de Novembro, 2018 Carlos Esperança

A Áustria e o véu islâmico

A Áustria tem um governo que integra a extrema-direita onde a xenofobia não é apenas a imagem que lhe está associada. A política contra os imigrantes, sejam eles refugiados, a fugir à fome ou à guerra, ou outros, à procura de trabalho, não têm uma vida fácil.

O racismo e a xenofobia jamais serão virtudes democráticas, mas nem todas as medidas que um governo desta natureza tome, são igualmente condenáveis.

O Parlamento austríaco, através dos partidos que formam o governo, aprovou hoje, dia 21, a proibição do véu islâmico nas escolas do ensino primário, abrangendo as crianças do sexo feminino, entre os seis e os dez anos.

Nota-se a intenção anti-islâmica da medida, mas ela devia ser uma decisão na defesa da laicidade, incluída na proibição de símbolos religiosos no espaço da escola pública. Se a defesa da laicidade fosse a prática dos governos europeus, sempre prontos à genuflexão pia, os símbolos ostensivos de qualquer religião deviam ser retirados do espaço público, sobretudo das escolas, onde a cidadania se deve sobrepor ao comunitarismo.

Há quem pense que a proibição das vestes eclesiásticas na via pública, fora das práticas religiosas autorizada, é um atentado à liberdade individual, tal como a proibição do véu islâmico ou da burka, e não imaginam que, no último caso, por cada mulher que deseja usar esses símbolos há dezenas a quem é imposto pelos maridos, pais e irmãos.

Longe de ser o direito que se exerce, é uma provocação com que se desafia a civilização que se repudia, e que abomina a integração. Sob o pretexto do respeito pelas liberdades de cada um, é a sujeição da mulher em contexto islâmico que se perpetua. A conivência dos países de acolhimento desperta a onda de racismo que cresce na Europa, e é o húmus onde a extrema-direita medra.

Uma escola que não eduque para a igualdade entre os sexos, a cidadania e a liberdade, não cumpre a função cívica que lhe cabe.

A proibição do véu islâmico devia ser encarada por todos os países laicos como uma obrigação equivalente à frequência escolar, às vacinas e normas de higiene.

Estou bem longe do governo austríaco e tão perto do apoio à proibição de hoje!  

8 de Novembro, 2018 Carlos Esperança

Irlanda despenaliza a blasfémia

A blasfémia ou é um crime contra o que não existe ou uma forma de censura contra a liberdade de expressão. O ‘crime’, uma herança medieval, persiste em numerosos países civilizados, Áustria, Canadá, Itália, Alemanha, Chéquia, Grécia, Irlanda, Espanha, Malta, Polónia, Reino Unido, Montenegro, San Marino e outros de duvidoso índice de democraticidade, Turquia e Cazaquistão, sem referir países onde o fascismo islâmico mostra a natureza totalitária através da sharia.

Quer assuma a forma de insulto ou a mera negação de um dogma, a sua criminalização é sempre uma forma de impedir a crítica aos preconceitos de quem se julga com direito e força para a impedir. A crítica ao deus dos outros é o direito que a inteligência impõe, enquanto ao próprio é a ofensa que só a morte repara.

Dizer que Maomé violava crianças, pois casou com uma de seis anos cuja consumação ocorreu aos nove, é blasfémia contra o Islão, e uma evidência que os crentes confirmam e perpetuam no seu piedoso desprezo pela mulher e compra de crianças para casamento.

As recusas de dogmas, alguns bem recentes e tão idiotas como a virgindade de Maria ou a infalibilidade papal, são blasfémias que enfurecem fundamentalistas, especialmente os membros do Opus Dei. O último dogma inventado data de 1950. Foi o da Assunção de Maria, cujo corpo subiu ao Céu, fique lá isso onde ficar, certamente em sítio alto, pois, de outro modo, o corpo que foi procurar a alma, desceria em vez de subir.

Que as religiões criem verdades absolutas, inquestionáveis, é um direito seu, tal como a vergonha de as verem questionadas e reduzidas ao ridículo, mas é intolerável que as queiram impor e, sobretudo, punir quem as enjeite.

Apesar da religiosidade de muitos crentes, há entre eles tradições blasfemas que tocam as raias da obscenidade. Espanhóis dos meios rurais ameaçam fazer à hóstia e à Virgem o que um ateu, por educação, é incapaz. No entanto, as mais deliciosas blasfémias são as dos italianos, sobretudo no sul do País, que aliam o maior respeito ao clero, à máfia, à liturgia e aos dogmas, com as mais divertidas expressões de afronta ao Divino.

Na Irlanda, ainda há poucos anos uma reserva do catolicismo jurássico, no referendo do último sábado de outubro, quase 65% dos eleitores votaram a eliminação de tão arcaico delito da Constituição, decisão que abolirá o anacronismo.

A votação é tão relevante que mereceu um comunicado de Harlem Désir, representante para a Liberdade de Imprensa da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) a felicitar o povo irlandês por “um passo positivo para a liberdade de expressão” e a fazer apelo aos 16 países da OSCE, onde a blasfémia continua a ser um delito, para seguirem o exemplo de Irlanda, porque esse tipo de leis “são incompatíveis com as normas internacionais sobre liberdade de expressão”.

Desacreditada a Igreja católica autóctone por numerosos escândalos e crimes graves, a liberdade de expressão deu um salto enorme na Irlanda. Em poucos anos, o País tornou-se uma democracia onde a saúde reprodutiva da mulher, o divórcio e a educação sexual deixou de se submeter à vontade do clero e aos preconceitos da tradição.

6 de Novembro, 2018 Carlos Esperança

Franco e a memória histórica

Abra-se o Google, procure-se uma enciclopédia, leia-se um pouco da História do século XX , e Franco está sempre entre os mais inclementes e frios assassinos da Humanidade.

Como pode, pois, uma família que se locupletou com os roubos que o ditador lhe legou, reclamar do opróbrio do presumível ascendente a honra de que se ufana e condicionar o Estado espanhol na tardia reparação que deve às centenas de milhares de vítimas, com a trasladação do cadáver para um sítio discreto?

A transição pacífica para a democracia permaneceu cheia de equívocos, com o medo a espreitar dos quartéis, as estátuas do ditador a decorarem as praças e as academias, e o franquismo a manter-se vivo no paço real, nos tribunais, nas escolas e nas igrejas.

Quando o ditador morreu, o rei que ora é julgado pela opinião pública por comissões em negócios, fuga de capitais e branqueamento de capitais, defendido de uma investigação por uma iníqua imunidade perpétua, deu-lhe como túmulo um monumento faraónico no Vale dos Caídos, um monumento de exaltação da vitória fascista sobre a República e de afronta às centenas de milhares de vítimas da sedição contra o regime legal.

Mais tarde, quando a viúva faleceu, Filipe Gonzalez deu-lhe, em terreno do Estado, um túmulo digno de figuras históricas que honram o passado de Espanha. Estes equívocos alimentaram o ego e a cleptomania dos descendentes, indiferentes aos crimes que não cometeram, mas de que se honram.

Hoje, quando a Igreja católica se tornou mais cauta, como sucede com todas as instituições, em democracia, e procura esquecer o seu passado sombrio na ditadura, é surpreendente como os herdeiros de Franco ainda detêm poder para estorvarem a reparação histórica que a democracia exige e os familiares das vítimas merecem.

Por que motivo Hitler, Mussolini, Pétain, Tiso, Salazar, Mosley ou Pinochet, bem como outros facínoras europeus de países colaborantes dos dois primeiros, ou Tojo Hideki, no Japão, não têm monumentos fúnebres a perpetuarem-lhe a memória?

Certamente, os familiares também haviam de gostar, mas, contrariamente a Franco, não tiveram sucessor imposto nem condições que o permitissem.

A urgência da trasladação dos restos mortais de Franco é uma questão de salubridade política e de justiça histórica.

4 de Novembro, 2018 Carlos Esperança

Epifania