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Categoria: Não categorizado

1 de Setembro, 2010 Ludwig Krippahl

Equívocos, parte 8.

No novo episódio desta série, o Alfredo Dinis aborda o que diz ser o «Oitavo equívoco [do ateísmo]: a persistência do literalismo bíblico»(1). Alega que os ateus recusam «afastar-se da interpretação literal sistemática e descontextualizada» da Bíblia, «à boa maneira do fundamentalismo criacionista».

Não é verdade. Os fundamentalistas defendem que a Bíblia é a palavra literal e inerrante de Deus enquanto os ateus defendem que a Bíblia contém afirmações falsas e maus conselhos. Como, por exemplo, que o universo foi criado em seis dias ou que se deve apedrejar as crianças desobedientes. Por isso, fundamentalistas e ateus têm posições opostas acerca da Bíblia, e não semelhantes como o Alfredo sugere. Uns defendem que a Bíblia é a verdade revelada por Deus e os outros que defendem tratar-se de histórias inventadas por humanos.

A posição católica é que está no meio. Admitindo que a maior parte do que está na Bíblia não é aceitável se for lido como foi escrito, defende que ainda assim é verdade porque tem de ser “interpretado”. E aqui começam outros problemas.

Escreve o Alfredo que a interpretação literal da Bíblia é «descontextualizada», não considerando «o contexto histórico e cultural dos textos bíblicos.» Mas é a interpretação católica moderna que retira os textos bíblicos seu contexto original e os reinterpreta à luz da nossa cultura moderna. Originalmente, o Génesis foi escrito – e era lido – como um relato factual da criação do universo. E as recomendações do Deuterónimo, como apedrejar os filhos desobedientes, não eram uma mera ilustração dos costumes bárbaros de tribos primitivas. Foram escritas e lidas como representando a vontade de Deus. E foi assim durante séculos até que o progresso da ciência e da ética obrigaram muitos religiosos a rejeitar a letra da Bíblia. Mas, no contexto original, a Bíblia era para ser levada à letra como fazem os fundamentalistas.

O Alfredo Dinis explica também que se deve considerar «quatro sentidos hermenêuticos na interpretação do texto bíblico: literal, metafórico, moral e escatológico» e que devemos dar atenção «às formas literárias e às maneiras humanas de pensar presentes nos textos bíblicos». Apesar dos teólogos modernos deturparem o sentido original destes textos, concordo com a ideia em abstracto. A análise de um texto, enquanto tal, deve considerar os sentidos de interpretação, os estilos literários e essas coisas.

Mas o que está aqui em causa não é a crítica literária. O que separa crentes e ateus não são questões de estilo ou de interpretação. É saber se a Bíblia é como defendem os crentes, um veículo da revelação divina de factos e deveres, ou se é como desconfiam os ateus, opiniões e histórias escritas por humanos. E para ver se a Bíblia tem origem divina temos de testar o que lá está escrito. Para isso as hermenêuticas não ajudam. O Alfredo também não daria vinte valores a um aluno que, não tendo uma única resposta certa, lhe dissesse saber tudo da matéria mas que o seu exame devia ser interpretado e não levado à letra. Para avaliarmos se a Bíblia foi mesmo algo que Deus revelou àqueles que a escreveram temos de considerar o que está lá escrito e o contexto em que o escreveram.

As (re)interpretações modernas da Bíblia constituem uma falácia de petição de princípio. Escreve o Alfredo que a interpretação literal da Bíblia «não é possível, por exemplo, quando entra em contradição com dados provenientes da história, das ciências naturais, etc.» Mas a interpretação literal é sempre possível. Só que mostra que a Bíblia não surgiu por revelação divina mas sim por especulação humana, porque a Bíblia exprime exactamente os erros e preconceitos que se esperaria ver num texto escrito por pessoas como aquelas que a escreveram. É isto que os ateus apontam.

Quando o Alfredo diz que essa interpretação literal “não é possível” porque contradiz os factos está a assumir, implicitamente, que é impossível a Bíblia conter falsidades. Mas é precisamente essa premissa que está em causa. A reinterpretação que a teologia moderna faz da Bíblia surge de assumir como premissa aquilo que só faria sentido como conclusão: que a Bíblia é a palavra inerrante de Deus.

A teologia diz que a Bíblia deve ser sempre interpretada de forma a não contradizer o que sabemos. O reverso da medalha é que, com esta restrição, a Bíblia nunca nos pode dar qualquer novidade testável. Ou a interpretamos pelo que julgamos saber ou especulamos que nos diz coisas cuja verdade nunca poderemos determinar. Isto protege a teologia de qualquer refutação mas torna-a numa mera mancha de Rorschach que só mostra o que lá imaginamos ver. E isto acaba por dar razão aos ateus. A religião não é uma revelação divina de verdades profundas. É apenas uma ilusão criada por humanos.

1- Alfredo Dinis, Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Em simultâneo no Que Treta!

1 de Setembro, 2010 Luís Grave Rodrigues

Citação do Dia

 

«Uma semana antes dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, estive num debate com Dennis Prager, que é uma das mais conhecidas personalidades religiosas da televisão na América.

Ele desafiou-me publicamente a responder ao que chamou «uma pergunta de sim ou não» e eu concordei de boa vontade.

– Muito bem, declarou ele: eu devia imaginar-me ao anoitecer numa cidade desconhecida; devia imaginar que via um grande grupo de homens a aproximar-se de mim. Agora – sentir-me-ia mais seguro, ou menos seguro, se soubesse que estavam apenas a voltar de um encontro de oração?

Como o leitor perceberá, esta pergunta não pode ser respondida com um sim ou um não.

Mas eu respondi como se não fosse hipotética:

– Para me manter apenas na letra “B”, já tive essa experiência em Belfast, Beirute, Bombaim, Belgrado, Belém e Bagdad. Em todos os casos posso dizer com certeza, e apresentar razões para a minha resposta, porque é que me sentiria imediatamente ameaçado se pensasse que o grupo de homens que se aproximava de mim ao anoitecer vinha de uma cerimónia religiosa».

Christopher Hitchens

21 de Agosto, 2010 Ludwig Krippahl

Crença, fé e religião

Muitas vezes que escrevo sobre isto noto que estes termos causam alguma confusão. Não quero obrigar ninguém a usar estas palavras como eu as uso mas queria esclarecer o que quero dizer com elas e salientar diferenças que me parecem importantes.

Uma crença é a aceitação de uma ideia. Se a ideia for uma proposição acerca dos factos, então crer é considerar essa ideia como verdadeira, correspondendo à realidade. Se a ideia for um juízo de valor, crer será adoptá-lo. Se for um ideal será partilhar desse ideal, e assim por diante. E todos temos crenças. Não se pode saber algo sem acreditar que é verdade, não se pode preferir algo sem acreditar que é melhor e não se pode almejar algo sem acreditar que vale a pena. Assim, quando critico crenças procuro explicar porque as rejeito e talvez persuadir alguém a rejeitá-las também. Se são crenças acerca dos factos posso apontar que não se justifica concluir que são verdade, e se são acerca de valores posso apontar inconsistências com outros valores. Mas como crer é uma atitude pessoal a discussão assenta sempre no princípio de que cada decidirá por si em que há de acreditar e mais ninguém tem nada com isso.

A fé é uma meta-crença, como diz Dennett. As crenças acerca dos factos carecem de uma justificação objectiva. Não podemos justificar acreditar que algo é verdade só porque queremos ou nos dá jeito. Mas a fé, para quem a tem, permite ignorar este requisito. Quem tem fé confia que aquelas crenças que a sua fé abrange estão automaticamente justificadas. A fé é crer na legitimidade dessas crenças. Sendo também uma atitude pessoal, fica igualmente ao critério de cada um decidir em que há de ter fé ou se há de ter fé alguma. Mas como a fé apenas dá a sensação de justificação a quem a tem, nunca se consegue justificar a quem não a tenha e não explica porque se há de ter fé numas crenças e não noutras, não há muito a discutir acerca disto a não ser apontar estes defeitos.

Uma religião é algo diferente porque é uma construção social e não uma atitude pessoal. Não é apenas a opinião de uma pessoa ou uma opinião partilhada por muitos. Uma religião é uma organização com uma classe profissional que alega saber mais que os outros acerca dos deuses, que afirma os seus dogmas como verdade e não como mera crença e que goza de benefícios, prestígio e poder injustificados. Injustificados porque assenta em fantasias disfarçadas de verdades. Não há evidências que o Joseph Smith tenha traduzido placas de ouro que Deus lhe emprestou, nem que Maomé tenha falado com Deus, nem que a Terra tenha sido criada em seis dias ou que Deus se tenha disfarçado de carpinteiro e morrido crucificado para perdoar pecados que não cometemos. E eu considero que é má ideia criar organizações influentes à volta de teses sem fundamento como estas.

O problema não é a crença ou a fé, que fazem parte da liberdade de crer e pensar. Os defeitos que tenham algumas crenças ou a fé devem ser mitigados de forma a respeitar esta liberdade. Podemos explicar que a astrologia é treta, que as medicinas alternativas não funcionam e que os OVNIs não são pilotados por ETs. E se, no fim disto tudo, alguém ainda quiser acreditar nessas coisas, paciência. Isso é lá consigo.

Mas as religiões afectam terceiros e temos de decidir o que permitimos a essas organizações. Se queremos crucifixos nas escolas e aulas de religião no ensino público. Se aceitamos as objecções à educação sexual e às lojas abertas ao domingo. Se permitimos que ganhem dinheiro com dízimos ou na venda de milagres e paraísos. Se financiamos missas e excursões aos centros de aparecimentos, e assim por diante.

Neste debate público, no qual a democracia assenta, somos responsáveis por distinguir aquilo que é crença subjectiva daquilo que é legítimo considerar facto e igualmente válido para todos. Não vamos inventar dados acerca da saúde, do desemprego ou da segurança rodoviária apenas pela fé. E, ao contrário do que as religiões defendem, a fé também não serve para inventar factos acerca da vida depois da morte, dos deuses e dos milagres. Por isso as religiões participam neste debate de uma forma intrinsecamente desonesta ao insistir ser facto dogmas que não passam de mera crença.

Esta diferença é importante. Quando critico crenças e fé estou a explicar a minha posição consciente de que não virá mal nenhum se discordarem de mim e não chegarmos a conclusão alguma. Mas quando critico religiões estou a participar num processo colectivo de decisão, que é prejudicial deixar em suspenso, e a denunciar como ilegítima a alegada autoridade dos membros destas organizações. Quando uma pessoa morre por recusar uma transfusão de sangue, ou vive um casamento miserável porque não se consegue divorciar, parte da culpa é do próprio por tomar tão más decisões. Mas parte da culpa é dos que lhe dizem saber, como facto, que há um deus que castiga quem se divorciar, receber transfusões ou duvidar de fábulas. Não só lhes falta legitimidade para afirmar que sabem tais coisas – sabem tanto disso como qualquer um de nós – como o mais provável é ser tudo treta, que isso não é coisa que seja fácil acertar à sorte.

Em simultâneo no Que Treta!

12 de Agosto, 2010 Fernandes

Pagando com a mesma moeda

Uma casa de strip-tease no Ohio é perseguida por uma comunidade cristã que faz piquetes, exibe placas, filma quem entra no estabelecimento e coloca online, e até usa megafones, tudo para fechar o estabelecimento.

A casa de diversões, para exercer a atividade em paz, tentou processar a igreja  mas acabou por perder. Não ficaram de braços cruzados.

As strippers resolveram pagar com a mesma moeda. Protestar em frente da igreja. Elas vestem as melhores roupas de “trabalho” e acampam na frente da igreja batista, com pistolas d’água, cadeiras de praia e uma churrasqueira. Elas trazem placas alertando os fiéis sobre os falsos profetas.

 Aqui:  http://www.dispatch.com/live/content/local_news/stories/2010/08/09/of-ire-and-brimstone.html´

11 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

Silly Season

Hutton Gibson, pai do actor Mel Gibson, está dando o que falar. Em entrevista para uma rádio nesta segunda-feira, 09, ele atacou a Igreja Católica dizendo que o Papa é gay. O senhor de idade disse ainda que a instituição religiosa está lutando contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo porque os religiosos do Vaticano são gays

8 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

Carta ao DN sobre as afirmações de um bispo…

… que atira a pedra e esconde a mão.

Exmo. Senhor
– DN Gente –
Avenida Liberdade, 266
1250-149 LISBOA

Exmo. Senhor:

Na sequência da entrevista concedida pelo bispo Carlos Azevedo à jornalista Patrícia Jesus, [DN – Gente, de 31 de Julho de 2010], a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) ficou perplexa com as referências feitas a esta associação.

Transcreve-se o último parágrafo: Outro dos seu traços marcantes é a frontalidade. Que às vezes lhe vale a colagem a uma ala mais fundamentalista da Igreja. Recusa o rótulo. “Da primeira vez que a Associação Ateísta se meteu comigo, escrevi-lhes uma carta. Acho que ficaram surpreendidos. Sou frontal mas com uma abertura enorme. Gosto do diálogo, fruto de ter crescido com nove irmãos. E admiro todas as pessoas que são verdadeiras na sua busca.”
Além da referência à Associação Ateísta Portuguesa aparecer como Pilatos no Credo, sem qualquer nexo, a AAP nega que se tenha «metido» alguma vez com o Sr. Bispo e lamenta nunca ter recebido qualquer carta sua. A AAP não pode assim confirmar essa frontalidade e abertura que o Sr. Bispo alega. Também nos foi até agora impossível aproveitar a admiração do Sr. Bispo pelas pessoas que são verdadeiras na busca do diálogo pois, após várias críticas à AAP e ao seu presidente num matutino onde é colunista, jamais aceitou o direito ao contraditório.

Na esperança de termos sido privados da tal carta, apenas por um percalço postal, e de não terem sido publicadas as nossas respostas somente por falta de espaço no matutino onde o Sr. Bispo escreve, pedimos-lhe que revele a data e o conteúdo da carta mencionada e que encete finalmente connosco o diálogo que diz admirar.

Por exemplo, sobre a peregrinação a Fátima organizada a 13 de Maio de 2008 «contra o ateísmo na Europa», comandada pelo cardeal Saraiva Martins, então chefe da Repartição do Vaticano onde se rubricam milagres e criam beatos e santos. Uma peregrinação a favor da fé pareceria mais de acordo com a abertura que o Sr. Bispo apregoa, se bem que, admitimos, uma cruzada contra o ateísmo possa ter toda a frontalidade de uma carga de cavalaria.

Ou sobre as palavras do Sr. Patriarca Policarpo que, no mesmo ano, considerou o ateísmo como o «maior drama da humanidade», maior ainda que a fome, as doenças, as guerras, as catástrofes naturais, a pedofilia e o terrorismo religioso. Seria outro tema digno de diálogo entre pessoas como aquelas que o Sr. Bispo diz admirar, as que são verdadeiras na sua busca.

A AAP reconhece, e defende, o direito do Sr. Bispo de não gostar de ateus e de manifestar o azedume que a associação lhe tem causado, em pouco mais de dois anos de existência, com esta direcção que iniciou o seu segundo mandato em 27 de Março último. Sabemos como reagiu mal, no matutino onde escreve, ao comunicado da AAP sobre a canonização de Nuno Álvares Pereira, que não merecia tal desrespeito, e à denúncia de a ICAR ter transformado em colírio um herói nacional a quem a sua Igreja atribuiu a cura do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos ferventes de óleo de fritar peixe.
Aceitamos também a frontalidade com que o Sr. Bispo Carlos Azevedo e os seus colegas João Alves e António Marcelino se exprimiram em artigos de opinião, respectivamente no Correio da Manhã, no Diário de Coimbra e no Soberania do Povo, de Águeda, criticando a AAP e o seu presidente. Sabemos que não são imunes à pressão mediática a que a Igreja católica tem sido submetida, pelas piores razões, desde o encobrimento de crimes de pedofilia ao branqueamento de capitais no I.O.R., como documenta o livro «Vaticano, S. A.».

O que a AAP não aceita, por amor à verdade, é a referência a um diálogo que não existiu e a cartas que a AAP não recebeu. Por isso, a AAP gostaria que o Sr. Bispo Carlos Azevedo esclarecesse este mal-entendido, indicando a data e o teor da carta que alega, na entrevista ao DN, ter escrito à AAP, e que demonstre de uma forma mais visível que o diálogo frontal que defende não é apenas um monólogo sem direito de resposta.

Cumprimentos.

Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 1 de Agosto de 2010

Nota: Esta carta, cuja não publicação compreendemos, por questões de espaço, só hoje é revelada.

4 de Agosto, 2010 Eduardo Costa Dias

Quem quer “papar” missas paga!

Como notícia a AFP, durante a visita em Setembro ao Reino Unido as missas celebradas pelo papa serão pagas e, tendo em linha de conta a sua duração e os gadegts extras, o seu preço variará entre os 12 e os 30 euros. De todas as missas, a mais cara será a de Birmingham, durante a qual será beatificado o cardeal John Henry Newman ; foram postos à venda 70.00 bilhetes de 25 Libras (30 euros).

4 de Agosto, 2010 Carlos Esperança

Uns vão ao Zoo, outros ao Vaticano

Milhares de acólitos europeus com o Papa

Bento XVI sublinha ambiente de festa no Vaticano com a presença de 60 mil participantes em peregrinação internacional

Bento XVI manifestou esta Quarta-feira a sua “alegria” com a presença no Vaticano dos cerca de 60 mil participantes na peregrinação internacional de acólitos promovida pela associação Coetus Internationalis Ministrantium (CIM).

31 de Julho, 2010 Ludwig Krippahl

Treta da semana: a assistente da Dra.

No preçário do Centro Maria Helena podemos ver o preço para as consultas «Presenciais com a Dra. Maria Helena», 110€, e as consultas «Presenciais com a Assistente da Dra.», só 55 € (1). A Maria Helena é “Dra” porque tem uma licenciatura em sociologia e, na mesma página, está escrito que «Todos os serviços são prestados por técnicos licenciados em Universidades Portuguesas». Por isso a “Assistente da Dra” deve ser tão “Dra” como a própria “Dra”. Faz-me lembrar a Susaninha, a amiga da Mafalda, que queria ter um filho médico para ser a dona Susaninha mãe do senhor doutor filho da dona Susaninha.

A Maria Helena dá também informação acerca dos anjos (2). Infelizmente, faltou descrever o processo de investigação que permitiu apurar quais são os Serafins, Querubins e afins, ou o que fazem. A lista não menciona Izual, o que até se compreende, mas – falha grave – também omite Tyrael, que ajudou os Horadrim num momento tão terrível da História. E é curioso que Mumaiah esteja tanto na categoria dos Anjos como na dos Arcanjos. Não sei se terá sido uma promoção rápida durante a elaboração do documento ou mera falta de imaginação.

O triste é haver quem paga para ouvir a “Dra” e a “Assistente da Dra” dissertar sobre estes disparates. E pagam porque estão convencidos que isto é verdade, que esta gente vê o futuro nas cartas ou nas posições das estrelas, que sabe o nome do anjo da guarda em função do signo e assim por diante. É um abuso indecente da confiança e credulidade destas vítimas.

O que me traz à distinção entre “crentes sofisticados” e “não sofisticados”, feita por crentes que se consideram entre os primeiros e que assim evitam ter de fundamentar pela religião as práticas religiosas da maioria. São pouco sofisticados, está-se a ver, não importa. E, pelos vistos nem sequer importa esclarecê-los. O Diogo Ramalho explica porque é que os crentes “sofisticados” não tentam educar os restantes:

«Por exemplo: eu não acho que o ir de joelhos até Fátima vá levar a que algum milagre médico ocorra. Mas quando vejo pessoas a praticarem estas formas de espiritualidade o que me parece é que elas têm sentimentos profundos de relação com Deus e que aquela é a melhor forma de que dispõe para manifestarem esses sentimentos.»(3)

Não é só ir de joelhos. É pagar ao padre para dizer o nome do falecido marido durante a missa julgando encurtar a sua estadia no purgatório. É pagar pernas e braços de cera cuja queima se crê tornar mais eficazes os milagres da virgem. É dar ouro, jóias e dinheiro à Igreja para purificar a alma ou obter favores sobrenaturais. É muita coisa que, sob o rótulo de “espiritualidade”, acaba por ser o mesmo que a Maria Helena faz aos seus clientes.

Dizem que a Igreja é diferente porque não exige dinheiro, que as pessoas dão porque querem. Mas quem paga consultas de astrologia também dá dinheiro porque quer, esse truque do pagamento voluntário é também usado por Mamadus de toda a espécie e o próprio santuário de Fátima tem um preçário (4). Por exemplo, no baptizado cobra-se 35€ de Taxa do Santuário mais 17,5€ de Taxa da Câmara Eclesiástica de Leiria. Para um serviço que, na prática, equivale a uma carta astrológica ou à invocação do anjo da guarda.

O Diogo Ramalho admite que não explicar aos crentes menos sofisticados que Deus não quer jóias, dinheiro ou que se arrastem de joelhos «Pode parecer grotesco, antiquado ou mesmo errado aos sofisticados mas estes remetem-se a um respeito pela solução que o não-sofisticado encontra de viver a força do seu sentimento religioso.» Antiquado não me parece que seja. Pelo que vejo, está sempre na moda levar o dinheiro das pessoas aproveitando o “respeito” pelo seu “sentimento religioso”. E não diria que é grotesco porque é mais trágico do que ridículo. Mas errado, é. E indecente, e imoral.

Deixam que aquela gente se arraste e dê as suas poupanças na esperança de comprar milagres, metem o dinheiro ao bolso e capitalizam a publicidade que lhes traz esses sacrifícios. Até encorajam estas coisas ensinando que é uma virtude peregrinar e dar dinheiro à Igreja. Mas dizem que estas são expressões “menos sofisticadas” de quem julga, enganado, que pode comprar favores divinos.

A Maria Helena ainda pode ser que esteja tão iludida quanto os seus clientes e os engane apenas por negligência, por não ter tido o cuidado de verificar se lhes vende algo eficaz em vez de placebo. A ela posso dar o benefício da dúvida, mesmo que o benefício tenha de ser grande por a dúvida ser tão pequena. Mas a Igreja Católica, e a sua hierarquia de crentes sofisticados, admite perpetrar o pior tipo de embuste por beneficiar da credulidade dos que considera menos sofisticados, sabendo que estes acreditam em falsidades e não fazendo nada para os esclarecer. E ainda têm a lata de dizer que é por respeito que recebem o dinheiro dos pobres e o sacrifício dos enfermos.

1- Centro Maria Helena, Tabela de Preços
2- Centro Maria Helena, Hierarquias Angelicais
3- Comentários em Agora é por ser blasfémia….
4- Santuário de Fátima, SEPALI – Serviço Pastoral Litúrgica

Em simultâneo no Que Treta!

30 de Julho, 2010 Fernandes

Monita Secreta

Os Jesuítas andam à solta! Era o que gritavam delirantemente absolutistas e liberais desde o Marquês de Pombal até à primeira República sempre que queriam identificar as causas do atraso nacional e as razões da dificuldade do país acertar o passo com o progresso.

Monita Secreta – Instruções Secretas, foi dos libelos mais significativos e mais publicitados no âmbito do larguíssimo conjunto de peças de polémica antijesuítica. Este catecismo secreto reforçou muito a aparelhagem argumentativa para o combate ao jesuitismo e a tudo o que ele representava. Quem poderia pensar , efectivamente, que um libelo redigido no início do século XVII por um obscuro pároco polaco, que se queria vingar da Companhia de Jesus, conheceria uma tal difusão até ao nosso século, e que seria traduzido em múltiplas línguas? Esse sucesso só pode ser comparado ao dos Protocolos de Sião, escritos no final do século XIX por um departamento da polícia czarista.

A “Allgemeine Deutsche Bibliothek”, revista principal da Aufklarung na Alemanha, costumava publicar recensões de obras contemporâneas relacionadas com toda a área do saber, para elucidar os seus leitores esclarecidos. Em 1738, esta revista dedica um pequeno artigo a um livro intitulado, Monita Secreta patrum Societatis Lesu nunc primum typis expressa ( Instruções secretas dos Padres de Jesus, impressas agora pela primeira vez) e a sua tradução alemã que tinha sido publicada em 1782. Este livro era extremamente raro, segundo dizia o jornalista, já que os Jesuítas compravam todos os exemplares disponíveis desta obra. Apesar da condenação episcopal e da proibição de Roma, os Monita Secreta espalham-se logo por toda a Europa. Com efeito, estas “Instruções Secretas” foram abundantemente divulgadas no período do liberalismo português.

Que diziam as instruções? 

– Para se tornarem agradáveis aos vizinhos do lugar, muito importa explicar-lhes o objectivo da Companhia prescrito na Regra, onde se diz que a companhia se dedica com empenho e dedicação à salvação do próximo.

– Ao princípio, devemos evitar a compra de propriedades; mas se comprarem algumas, bem situadas, façam-no por empréstimo em nome de amigos fiéis e secretos. E para que a nossa pobreza se veja melhor, o Provincial atribua a colégios afastados os bens que são vizinhos[…] para que os príncipes e magistrados nunca tenham conhecimento exacto dos rendimentos da Companhia.

– Devemos fazer os maiores esforços para captar a atenção e o ânimo dos príncipes e das pessoas importantes[…] a fim de que ninguém se levante contra nós.

– Para ganhar o espírito dos príncipes, será útil que os nossos, habilmente, e por terceiras pessoas, se insinuem para os representarem em embaixadas honoríficas e favoráveis nas cortes de outros príncipes ou reis […] pelo que não devem ser destinadas a essas funções senão pessoas muito zelosas e experientes do nosso Instituto.

– A experiência tem-nos mostrado quanta vantagem a Companhia tem tirado em negociar casamentos entre príncipes […] por isso sejam propostos […] amigos ou familiares dos parentes e dos amigos dos nossos.

– Devem-se tornar participantes de todos os méritos da Companhia […] todos aqueles que podem favorecer extraordinariamente a companhia, mostrando-lhes a importância desse privilégio.

– Visitem as viúvas e assim que elas mostrem alguma afeição à companhia […] que elas se ocupem em ornamentar alguma capela ou oratório […] deve-se-lhe apresentar as vantagens do estado de viuvez e os incómodos do casamento repetido […] Deverá encaminhar-se a viúva para a prática de obras meritórias.

– Para obter a disposição dos rendimentos, que uma viúva possui, em benefício da Companhia, ser-lhe-á encarecida a perfeição do estado dos santos homens, que tendo renunciado ao mundo,[…] se puseram ao serviço de Deus com grande resignação e alegria de espírito. […] mostre-se repetidas vezes àquelas que são ligadas às esmolas e a ornamentação das igrejas, que a soberana perfeição consiste em despojarem-se do amor das coisas terrenas, fazendo seus possuidores o próprio Cristo […] deve-se-lhe aconselhar e louvar o uso dos sacramentos, em especial o da Penitência […] logo que se tenha a certeza de que está decidida a ficar viúva, deve-se recomendar-lhe a vida espiritual, como foi a de Paula e Eustáquio.

– As mães, quando as filhas já forem mulherzinhas […] devem mostrar-lhes insistentemente as dificuldades que são comuns a todas no casamento […] convém que procedam sempre de modo que sobretudo as filhas […] pensem ser religiosas.

– Os nossos devem conversar amavelmente com os filhos e, se estes se mostrarem aptos para a Companhia, devem-nos introduzir oportunamente no colégio

– Não será pequena a vantagem, alimentarem-se, secretamente e com prudência, divisões entre os grandes e os príncipes.

– Deve-se, por todos os modos, persuadir o povo e os grandes, que a Companhia foi estabelecida por uma particular providência divina, de acordo com as professias do Abade Joaquim para exaltar a igreja humilhada pelos hereges.

    *Eduardo Franco, José. Vogel, Christine. – Monita Secreta. Instruções Secretas dos Jesuítas – História de um Manual Conspiracionista. – Roma Editora.