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Categoria: Não categorizado

27 de Julho, 2013 Ludwig Krippahl

Testes e explicações.

O Miguel Panão, entre outros, tem defendido que «O conhecimento científico e saber teológico [são] métodos distintos e que respondem a questões de natureza diferente sobre a realidade»(1). Eu tenho discordado desta posição porque a ciência responde a qualquer questão factual que admita respostas testáveis. O que sobra, no contexto das afirmações de facto, são apenas proposições que não podem ser testadas e que, por isso, também não se pode saber se são verdadeiras ou falsas. Se o domínio da teologia é esse conjunto de proposições então a teologia não pode gerar conhecimento. No máximo, produz crenças ou especulações. Contrapondo isto, o Miguel Panão tem insistido que as afirmações da teologia são testáveis, mas não cientificamente, o que não se percebe porque ou é possível testar ou não é. A ciência não exige nenhuma forma particular de testar. Mas agora o Miguel tentou uma nova abordagem.

Começa por apresentar uma versão da minha posição que não corresponde à minha posição: «hipóteses impossíveis de testar no âmbito de um método, como o teológico, são razão necessária e suficiente para descartar o método»(2). Pelo contrário, já defendi várias vezes que a ciência consegue lidar com hipóteses impossíveis de testar. O que faz é despejá-las no caixote das especulações infundadas porque, se são impossíveis de testar, então é impossível distingui-las da infinidade de alternativas na mesma situação. O Miguel Panão diz que a teologia resolve isto decidindo com base nas «evidências providenciadas pela revelação e pela doutrina» (1), mas avaliar o dogma considerando o dogma como prova de si mesmo é raciocinar aos círculos.

A novidade no argumento do Miguel é alegar, agora, que a ciência também acha «worth trying»(2) considerar hipóteses não testáveis. Não parece que isto o ajude a justificar a ideia da ciência e a teologia como abordagens complementares para problemas independentes. Mas, seja como for, o exemplo que o Miguel Panão escolheu não serve para demonstrar o que o Miguel pretende.

O artigo “A Universe without expansion”(3), que ainda nem foi publicado nem sujeito a revisão pelos pares, oferece uma explicação alternativa para a observação de que a luz que nos chega de galáxias distantes está tão mais desviada para comprimentos de onda maiores (para o “vermelho”) quanto maior for a distância entre nós e cada galáxia. Em vez de explicar este desvio pela expansão do universo, com galáxias mais distantes afastando-se de nós a velocidades maiores, explica o desvio pelo aumento da massa. Segundo este modelo, as galáxias mais distantes emitiram a luz que agora vemos há mais tempo, quando todas as partículas tinham menos massa e, por isso, a luz era menos energética. Guiando-se pela notícia, o Miguel Panão afirma que «A ideia é plausível, mas não pode ser testada» porque só podemos medir massas em relação umas às outras, e se todas mudam não notamos a diferença. Directamente. Mas isto não quer dizer que não se possa testar a hipótese de forma indirecta.

Este modelo do aumento da massa não difere do modelo do universo em expansão apenas na massa. Difere também na expansão. Qualquer medição que nos dê uma estimativa independente da expansão do universo pode servir para distinguir entre os dois modelos. Se bem que na prática isso não seja fácil, em teoria pode-se testar. Mas, mais importante do que isto, o modelo proposto por Christof Wetterich é uma explicação para o desvio da luz de galáxias distantes para maiores comprimentos de onda. Não é a única explicação; hoje em dia a explicação consensualmente aceite é a de que a luz sofre este desvio devido à expansão do universo. Mas é uma explicação porque esse modelo segundo o qual a massa de todas as partículas vai aumentando implica necessariamente que se observe esse desvio para comprimentos de onda maiores. Se a observação fosse outra, o modelo teria de ser falso. O que demonstra cabalmente que é testável.

Isto faz parte de ser explicação. Uma explicação só o é se implicar necessariamente as observações que pretende explicar. Caso contrário, não explica. Mas se implica necessariamente algo que se observa, então é testável. O exemplo que o Miguel Panão escolheu não é um exemplo da ciência levar a sério hipóteses impossíveis de testar. Pelo contrário, ilustra bem a futilidade de perder tempo com hipóteses dessas. Os cientistas formulam hipóteses para explicar algo que os intriga. Christof Wetterich propôs a hipótese da massa das partículas aumentar porque, se isso for verdade, então é inevitável que a luz das galáxias mais distantes esteja deslocada para comprimentos de onda maiores. É uma explicação possível, mesmo que ainda não se justifique preferí-la à hipótese da expansão. Christof Wetterich não propôs explicar o aumento do comprimento de onda invocando um deus, milagres, bruxaria ou seres invisíveis de outras dimensões porque isso não serve de nada. Postular um deus omnipotente, ao contrário de postular um aumento de massa de todas as partículas, não permite inferir um aumento no comprimento de onda. Com um deus omnipotente o comprimento de onda podia aumentar, diminuir, ficar na mesma, desaparecer ou até transformar-se num duende com calças azuis e barrete encarnado. É por isso que a hipótese de haver um deus omnipotente por trás de cada mistério não pode ser testada, é por isso que não serve para explicar coisa nenhuma e é por isso que hipóteses assim não podem ser conhecimento.

1- Comentários em Treta da semana: iNdulgência.
2- Miguel Panão, Hipóteses impossíveis de testar … worth trying …
3- Christof Wetterich, A universe without expansion.

Em simultâneo no Que Treta!

24 de Julho, 2013 Carlos Esperança

Não se pode sair da rua

É preferível morrer de insolação, cair inerte desidratado ou errar por caminhos desertos do que entrar em casa ou num café onde nos espera sempre uma televisão com imagens de uma estrela pope, o Papa, perante o delírio místico de cariocas alucinados ou notícias sobre a cria de uma princesa inglesa.

À falta de um deus, cada vez menos provável, encena-se um espetáculo gigantesco em torno de uma estrela que não canta, não dança, não toca bateria e que usa como único instrumento as mãos e como adereço uma batina branca.

Em Inglaterra, a cria real, cujo desconhecimento do nome provoca apoplexias e calores nas senhoras e subida de tensão arterial nos cavalheiros, chegou bem, sabe-se o peso do animal vivo, imagina-se o futuro inútil e decorativo a que o destinam e garante à Igreja anglicana um futuro chefe cujos bispos são nomeados pelo poder político sem que Deus seja chamado para os negócios da fé.

Que interessam milhões de crianças com fome, os inúmeros mortos que a loucura da fé e a maldade dos homens produzem, o ambiente que se degrada, a água contaminada e o ar irrespirável no mundo cada vez mais injusto e nas mãos de cada vez menos pessoas?

O circo, mesmo sem pão, é o soporífero que anestesia os povos e mantém calmos os que apenas têm a morte como horizonte. É preciso embrutecer antes que acorde a energia de quem nada tem a perder.

21 de Julho, 2013 David Ferreira

Hóstia dominical – V

Portugal não é um país católico, tal como não é um país benfiquista. Não
é a maior percentagem de adeptos de uma determinada organização que define a
identidade do que se conceituou ser o conjunto de todas as realidades
socioculturais existentes num determinado território delimitado por fronteiras.

19 de Julho, 2013 Carlos Esperança

AS NOVAS INDULGÊNCIAS DO PAPA FRANCISCO

AS NOVAS INDULGÊNCIAS DO PAPA FRANCISCO

Por

João Pedro Moura

A afirmação do papa Francisco de que concederia “indulgência plena” aos seus seguidores no Twitter, embora a troco de “terem feito a sua confissão a um padre, recebido a absolvição e participado da missa“ é uma incongruência teológica, que deita abaixo a auréola de seriedade e simplicidade que este papa já granjeou, para quem for  católico sério e analisar seriamente tal ideia…

Com efeito, o papa Francisco faz o que o papa Leão X fez, “in illo tempore”, que é o de transformar o “perdão dos pecados” num ato de tipo comercial: tu dás-me e/ou fazes o que eu quero; em troca dou-te a remissão dos pecados.

Isto é, mesmo o maior bandido e criminoso, que desse dinheiro à Igreja, no séc. XVI, recebia indulgência plenária, detraindo a necessidade religiosa e concetual do “arrependimento”, questão eminentemente do foro individual e de sinceridade do indivíduo.

Isto é, um qualquer indivíduo, seguidor do papa no Twitter, desde que diga que foi à confissão, que foi absolvido e que foi à missa, recebe “indulgência plena” do papa…

… Mas não a recebe, quem não seguir o papa no Twitter, ou porque não liga a essa rede, ou porque não sabe, mesmo que se sinta um sincero e devoto católico… de confissões e missas… e reconhecimento público e eclesiástico paroquiais…

A Questão das Indulgências, que o frade agostinho, Martinho Lutero, levantou, afixando “95 teses contra as indulgências” na porta da igreja de Wittenberg, na Alemanha, em 31 de outubro de 1517, traçou a linha demarcativa, que levaria ao maior cisma da Igreja, até hoje: a Reforma Protestante.

E a Questão das Indulgências foi o mote dessa crise fundamental.

Com efeito, o papa Leão X, promoveu a venda de indulgências, a partir de 1515, na Alemanha do norte, a troco de dinheiro para a construção da basílica de S. Pedro, em Roma.

Lutero, uma daquelas pessoas muito sinceras na sua devoção e avessas a situações de corrupção ideológica e material, detetou logo a incongruência entre tal venda e a “salvação da alma”.

A tese fundamental de Lutero, nessa matéria, é a de que o indivíduo se salva pelo arrependimento sincero e vontade de se corrigir e não por uma aquisição de perdão, ainda por cima conseguido por dinheiro…

O que o papa Francisco quer estabelecer agora, é uma recorrência da essência da atitude papal de outrora: conseguir não já dinheiro, mas o apoio de seguidores duma rede social, desde que cumpram formalidades de missas e confissões, recebendo tais sequazes, em troca, uma “indulgência plena”, diferenciando-os, numa situação discriminatória e arbitrária, de todos aqueles católicos que, mesmo sem seguirem o papa no Twitter, são devotos do papa e do catolicismo.

Com esta atitude, o papa Francisco, determina categorias de remissão dos pecados e, consequentemente, de crentes, não pela aplicação teológica do conceito de arrependimento e de fé salvífica, mas sim pela mera e formal inscrição numa rede social informática.

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A cobrança de indulgências, no séc. XVI,

pela Igreja católica visava arranjar dinheiro para a

construção da basílica de S. Pedro, em Roma,

durante o papado de Leão X (1513-1521)

Eis alguns extratos significativos da argumentação teológica de Lutero contra as indulgências papais:

“1. Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: “Arrependei-vos” etc., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento.

2. E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo do ofício dos sacerdotes.

5. O papa não quer e não pode dispensar outras penas, além das que impôs ao seu alvitre ou em acordo com os cânones, que são estatutos papais.

6. O papa não pode perdoar dívida senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus; ou então faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida deixaria de ser em absoluto anulada ou perdoada.

21. Eis porque erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante a indulgência do papa.

27. Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao

cair na caixa a alma se vai do purgatório.

28. Certo é que no momento em que a moeda soa na caixa vêm o lucro e o amor ao dinheiro, cresce e aumenta; a ajuda porém, ou a intercessão da Igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.

32. Irão para o diabo juntamente com os seus mestres aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.

35. Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.

36. Todo e qualquer cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados, sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.”

Martinho Lutero, “95 Teses contra as Indulgências”

http://www.arqnet.pt/portal/teoria/teses.html