Confesso que não li a Bíblia. Ou antes, ainda não ti a Bíblia toda. Pela singela razão de que não gosto de prosseguir a leitura de um livro ser ter compreendido devidamente a leitura anterior. Ora, na Bíblia empanquei naquela parte que diz que Caim, depois de ter matado Abel e de Javé se ter chateado com ele quando descobriu, o que

quer dizer que aquela cena do “Deus sabe tudo” é uma brande treta, dizia eu que Caim foi, segundo a Bíblia, ter à terra de Node. Aí conheceu sua mulher, mas em lado nenhum diz donde veio essa mulher, o que é estranho se considerarmos que até ao episódio em questão só havia três pessoas à face da Terra, ou seja, Eva, Adão e Caim, já que Abel tinha entrado em defunção. Ora, não compreendendo isto, acho que é meu dever ético não prosseguir a leitura, não vá a compreensão do episódio fazer falta para compreender os episódios que, fatalmente, hão-de seguir-se.
Compadecido com as minhas dúvidas, e ansioso por que eu voltasse às sagradas leituras, o meu amigo Libório, católico confesso a compulsivo, elucidou-me: “Não tens de te preocupar. Até ao episódio de Abrão, a Bíblia é uma metáfora, nada daquilo é verdade. Só a partir de Abraão, ele incluído, é que passa a ter foros de verdade, ou seja, tudo aquilo aconteceu mesmo!”
Acabei por me tranquilizar, mas logo outra dúvida me surgiu:
– Olha lá, Josué é antes ou depois de Abraão?
– É depois, naturalmente! Abrão é referido no Génesis, ao passo que Josué só surge no Êxodo.
– Então – prossegui eu – se tudo o que acontece após Abraão é verdade, parece não haver dúvidas de que o Sol anda à volta da Terra, e não o contrário.
E sem lhe dar tempo:
– Porque em Josué 10:12 refere-se que “Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor deu os amorreus nas mãos dos filhos de Israel, e disse na presença dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeom, e tu, lua, no vale de Ajalom.” Ora, a Lua toda a gente sabe que gira à volta da Terra; quanto ao Sol, se Josué também o mandou parar é porque ele é que anda.
O meu amigo ficou de me dar uma resposta mais tarde.
O 1.º aniversário do pontificado do papa Francisco é o pretexto para acelerar a máquina de propaganda que, há um ano, ganhou novo fôlego, quando Bento XVI preferiu manter a cabeça e abdicar da tiara, do anel e do alvará pontifícios.
Hoje, um ano depois de lhe ter sido conferido o diploma para criação de cardeais, beatos e santos, a comunicação social portuguesa atesta que os autóctones o querem em Fátima no 1.º centenário das aparições que, em 1917, ajudaram a combater a República e, mais tarde, o comunismo, como se não houvesse portugueses indiferentes à agenda católica e às celebrações litúrgicas.
Francisco era o Papa de que a Igreja de Roma precisava para o transformar numa estrela pop, à semelhança do que havia feito com João Paulo II. Adoram-no, porque se chama Francisco, como o venerariam se tivesse escolhido o nome de Roberto; exultam quando diz a palavra ‘homossexual’, como sucederia de dissesse ‘valha-me deus’, em calão, à semelhança do soldador a quem cai um pingo de solda num olho; arfam beatos, quando fala, como palpitariam se ficasse calado.
Cria cardeais e não interrompeu a indústria da santidade. Defuntos antigos continuam a fazer milagres prodigiosos e a ser elevados aos altares. Pecadores endemoninhados são curados por imposição das mãos papais. Os exorcismos continuam a ser uma terapêutica pia, para os males da alma, como o chá de cidreira para as moléstias do corpo, em meios rurais, onde minguam drogas mais elaboradas.
O obscurantismo e a superstição permanecem, embalados em sorrisos, divulgados pela máquina de propaganda, enquanto os crentes veem, nas vestes talares, o sinal divino dos negócios pios.
Pouco há a esperar de um mundo misógino onde os celibatários se julgam guardiões da moral e juízes dos valores sociais. A igualdade entre homens e mulheres terá de esperar neste estranho mundo onde são femininas as vestes, masculinos os atores e coloridas as vaidades.
Para descontrair…
Um padre recebeu um pedido urgente para ministrar a extrema-unção e como não podia deixar o confessionário vazio, pediu ao rabino vizinho, seu amigo, que ficasse no seu lugar.
— Você também é um sacerdote do mesmo Deus e acredito que não haverá problemas. Ouça umas confissões comigo e você vê como é que se faz.
O rabino sentou-se ao seu lado e observou cuidadosamente enquanto o padre recebia as confissões.
— Padre, eu cometi adultério.
— Quantas vezes?
— Três vezes.
— Reze duas avé-marias, ponha cinco euros na caixa das esmolas e não peque mais.
Mais tarde, outra mulher confessa ter cometido adultério.
— Quantas vezes? — pergunta o padre.
— Três vezes.
— Reze duas avé-marias, ponha cinco euros na caixa das esmolas e não peque mais.
Mais algumas confissões e o rabino declara-se capaz de substituir o padre e, momentos mais tarde, recebe a primeira senhora no confessionário.
— Padre, eu cometi adultério — confessa ela ao rabino.
— Quantas vezes?
— Ora, uma vez!
— Então vá lá e faça mais duas vezes, que estamos com uma promoção especial esta semana: três por cinco euros!
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