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Autor: Onofre Varela

20 de Julho, 2023 Onofre Varela

O Missódromo do Trancão

Texto de Onofre Varela previamente publicado na imprensa escrita.

Os jornais e noticiários de rádio e televisão não têm sido avaros em espaços informativos sobre a última polémica protagonizada pelo Governo, pela Igreja e pelas autarquias de Lisboa, Loures e Oeiras, relacionada com a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que acontecerá em Lisboa de 1 a 6 de Agosto.

É a “Festa do Avante da Igreja Católica” que, segundo a imprensa, deverá custar ao Estado cerca de 80 milhões de euros… mas com as derrapagens habituais naquilo que são as empreitadas para Governo e autarquias, não nos admiremos se o resultado final ultrapassar os 100 milhões… acrescentados, ainda, de outros 80 milhões suportados pela Igreja Católica.

Dizem os entendidos em constitucionalidade, que tal saída de dinheiros públicos dos cofres de uma República Laica para acudir a uma fé religiosa, não fere a Constituição… eu não tenho a mesma certeza… mas sei que fere o meu sentimento laico e a minha moral, e também sei que tal verba nunca seria oferecida às Testemunhas de Jeová para fazerem festa igual!

A construção foi adjudicada à construtora Mota-Engil por mais de quatro milhões de euros, o contrato está assinado, o tempo disponível para a construção é curto para emendas… e mesmo sendo possível fazê-las, ninguém acredita que a construtora vá querer facturar menos do que a verba contratualizada e já aprovada.

O Partido Comunista faz muito melhor e muito mais barato! Perguntem-lhe como se constrói a Festa do Avante que dura o mesmo tempo da JMJ e não se gasta nem uma pálida sombra dos euros que vão ser comidos no Missódromo do Trancão!

A obra consta de um palco com cinco níveis, considerando quatro sacristias e espaços específicos para bispos e cardeais, mais zona de orquestra e aposentos para o Papa e sua comitiva. No palco caberão duas mil pessoas… e para servir toda esta gente, não sei quantas dezenas de retretes vão ser construídas… com esgoto para o Trancão ou Tejo!

Para além deste espaço ainda se vão montar equipamentos nos parques Eduardo VII e da Boavista, Terreiro do Paço e Alameda D. Afonso Henriques.

Em Madrid, a JMJ de 2011 custou 50 milhões e nem um cêntimo saiu dos cofres do Estado, aproveitando-se o terreno de um aeródromo para o efeito. A nossa mania das grandezas, própria de um povo menor que passa fome mas quer mostrar que tem vida folgada, escolhe gastar à grande e à Vaticana!

Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, exibindo o seu colar de autoridade medieval “deu o corpo às balas” garantindo que “nas nossas vidas não vamos ter evento com a mesma dimensão”… isto de o Papa chegar ao Trancão é mais importante do que a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, de Vasco da Gama à Índia ou do Homem à Lua!

O Papa Francisco, com a sua reconhecida pobreza franciscana, estará envergonhadíssimo e só não mandará à fava tal evento por respeito à juventude entusiasmada com a viagem a Lisboa que os libertará do jugo dos papás durante uma semana.

O Papa Francisco não merecia tal vergonha… e se Jesus Cristo cá estivesse hoje, corria ao tabefe e a pontapé estes “vendilhões do Missódromo do Trancão”, cujos promotores (entenderia ele) não mereceriam mais do que umas valentes trancadas!

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV

11 de Janeiro, 2021 Onofre Varela

Crentes, ateus e humor

Por Onofre Varela

Amos Oz foi um escritor israelita que nos deixou em 2018 contando 79 anos de idade. Era um defensor dos palestinianos e da paz que considerava dever existir entre Israel e Palestina. Uma voz discordante das relações azedadas entre os dois povos vizinhos, que não conseguiu fazer-se ouvir pelos (ir)responsáveis políticos que fazem a guerra em vez de construírem a paz. É dele a frase: “O sentido de humor é uma grande cura. Jamais vi, na minha vida, um fanático com sentido de humor”. Ao contrário dos fanáticos que militam numa qualquer religião, há ateus que alimentam um saudável sentido de humor (também os haverá sisudos!). Lembro que há mais de uma vintena de anos participei, em Coimbra, numa reunião preparatória para a legalização da Associação Ateísta Portuguesa. O evento aconteceu num hotel onde se encomendou um almoço para aquele grupo de ateus que se reunia pela primeira vez, sob o lema: “Vale mais o primeiro almoço do que a última ceia”.

Christopher Hitchens, escritor e jornalista britânico, autor do livro “deus não é Grande” (Dom Quixote, 2007), soube que, em consequência do cancro que lhe encurtava a vida, havia quem fizesse apostas na Net sobre se se converteria quando sentisse estar às portas da morte, e declarou com sarcasmo: “Se me converter é porque acho preferível que morra um crente do que um ateu”.

Voltaire, no seu leito de morte, teve à cabeceira um padre que pretendia convertê-lo para exibir a sua conversão como troféu. Ao aperceber-se da intenção do clérigo que queria ouvir o pensador a negar o diabo, Voltaire disse-lhe: “Não é o momento apropriado para criar inimigos”.

Também Jesus Cristo era um homem cheio de humor, embora o Novo Testamento não o afirme… mas também não diz que ele respirava!… O escritor espanhol Félix Caballero Wangüemert escreveu o livro “Jesús Humorista – Comicidad, Humorismo y Sátira en los Evangelios” (Madrid, 2019). O autor fez um estudo dos Evangelhos e escreveu 316 páginas, referindo o humor que neles encontrou. É evidente que para uma análise deste tipo o leitor tem de deixar a religiosidade no bengaleiro e ler o Evangelho com olhos de céptico.

Um bom exemplo do humor de Jesus pode ser aquela descrição da transformação de água em vinho na boda de Canaã na Galileia (João 2: 1-11), para a qual Jesus e os seus discípulos foram convidados. O vinho acabou-se antes de terminada a refeição, e Jesus mandou que enchessem seis talhas com água e a servissem como se fosse vinho. Quando o mestre-sala o provou, comentou: “Habitualmente é servido o melhor vinho em primeiro lugar, quando os convidados ainda estão capazes de o apreciar. Mas aqui guardaram o melhor para depois!”.

Conseguir um bom vinho usando no seu fabrico, apenas água, dispensando as melhores cepas… convenhamos que, não sendo truque de magia, só pode ser humor!

Tenham uma Boa Festa da Família em recato, resguardados do vírus que por aí anda. Abraço-vos.

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV

11 de Janeiro, 2021 Onofre Varela

SER BOA PESSOA É SER CRENTE?

Texto de Onofre Varela

A resposta à pergunta formulada no título desta crónica pode ser encontrada por cada um de nós no juízo que fazemos do comportamento das pessoas que conhecemos, incluindo familiares, amigos e pessoas públicas. É verdade que o juízo é nosso e nada garante que possamos ser correctos na avaliação, porque obedecemos a preconceitos que alteram a honestidade da nossa apreciação.

Eu parto do princípio que o Ser Humano é igual em qualquer parte do mundo. Todos temos as mesmas emoções. Somos capazes de fazer o amor… mas também fazemos a guerra! As sociedades regem-se por valores éticos que não são muito diferentes entre elas. O respeito pelo outro parece-me ser a marca comportamental de todos nós, e na sociedade cristã onde nasci, fui criado e vivo diariamente, há uma ética comportamental que, se fosse observada por todos, viveríamos no melhor dos mundos. Obviamente que há sempre excepções que confirmam a regra… mas no essencial acredito que o Ser Humano é bom e fraterno por imposição não só das leis, mas também, se não principalmente, de uma ética natural ditada pelo cérebro que possuímos e registada na herança genética que recebemos e que a evolução vai aprimorando. O simples facto de haver regras sociais democráticas, comprova a nossa boa intenção, porque fomos nós quem as criou!

Steven Weinberg é um académico dos EUA que recebeu o Prémio Nobel da Física em 1979. É dele esta frase lapidar: “Com ou sem religião teremos sempre boas pessoas a fazer coisas boas, e más pessoas a fazer coisas más. Mas para termos boas pessoas a fazer coisas más, para isso, precisamos de uma religião”. Para comprovar a verdade da sua frase, basta-nos ver os actos bárbaros de religiosos muçulmanos fundamentalistas que matam excelentes pessoas sem outra “razão” que não seja a fé que têm de que “Deus quer vê-las mortas”. A barbárie religiosa muçulmana fundamentalista dos nossos dias pede meças com as históricas Cruzadas (1096-1270) que alimentaram uma guerra religiosa entre cristãos e muçulmanos por quase dois séculos.

Hoje, para além dos actos terroristas de religiosos muçulmanos (os mais recentes ocorrem no norte de Moçambique), também temos, no ocidente, dois casos de governantes que professam a fé cristã e são exemplos negativos pelas suas acções políticas: Bolsonaro no Brasil e Trump nos EUA. Ambos são profundamente crentes (Bolsonaro até se deixou “benzer” pelo explorador da fé Edir Macedo Bezerra, fundador da seita IURD). Usam o nome de Deus nos seus discursos, não respeitam etnias, agridem o ambiente e não esboçam qualquer gesto de combate à pandemia Covid, transformando os seus países em cemitérios de vala-comum para sepultar milhões de vítimas, não só do Covid, mas principalmente das suas atitudes perante os outros, imbuídos de um poder dado pelo povo… que já o retirou a Trump. É necessário retirá-lo, também, a Bolsonaro… e ao Edir, já agora!…

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV