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Categoria: Humanismo

1 de Outubro, 2026 Onofre Varela

A LAICIDADE DO ESTADO NÃO DEVE SER ESQUECIDA

A Associação República e Laicidade (ARL) enviou uma carta a várias individualidades, de entre as quais se contam o Procurador-Geral da República, o Provedor de Justiça e o Presidenta da Comissão da Liberdade Religiosa, protestando sobre um acto que não devia ter acontecido, mas aconteceu e foi divulgado pela imprensa, com foto, mostrando membros do governo – incluindo o Presidente da República e o Primeiro-Ministro – a fazerem o “sinal-da-Cruz” no acto medieval e obsoleto de se “benzer” uma escola pública no momento da sua inauguração.

Aqui deixo o protesto da ARL:

1. Em Portugal vigora constitucionalmente a separação entre o Estado e as igrejas e outras comunidades religiosas (nº 4 do artigo 41º da Constituição da República portuguesa), que constitui até um limite material de revisão constitucional (alínea c) do artigo 288º da Constituição da República portuguesa); o ensino público é não confessional (nº 3 do artigo 43º); a Lei da Liberdade Religiosa (Lei 16/2001, de 22 de Junho) especifica que «o Estado não adota qualquer religião nem se pronuncia sobre questões religiosas» (nº 1 do artigo 4º) e também que «nos atos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade» (nº 2 do artigo 4º), que «o Estado não discriminará nenhuma igreja ou comunidade religiosa relativamente às outras» (nº 2 do artigo 2º), e ainda que «ninguém pode ser obrigado a professar uma crença religiosa, a praticar ou a assistir a atos de culto, a receber assistência religiosa ou propaganda em matéria religiosa» (nº 1, alínea a do artigo 9º). Não há qualquer exceção a estas normas para as autarquias.

2. A Câmara Municipal de Cascais, no dia 21 de Setembro de 2026, integrou no ato oficial de inauguração da Escola Secundária de Cascais uma cerimónia religiosa católica («bênção») dirigida pelo Patriarca de Lisboa, na presença do Presidente da República, do Primeiro-ministro, do Ministro da Educação, Ciência e Inovação e do Presidente da Câmara Municipal de Cascais. Segundo o próprio município, «alunos, famílias, professores, funcionários da escola e representantes de várias entidades juntaram-se à cerimónia, que começou com o descerramento da placa inaugural e a bênção do Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério».

3. Note-se que não apenas foi incluída uma cerimónia religiosa neste ato oficial da autarquia de Cascais, tornando-o confessional, como aparentemente foram convocados professores e funcionários, presumivelmente presentes por obrigação hierárquica, e estavam presentes alunos. A não confessionalidade do ensino público foi infringida, assim como o direito individual de não assistir a atos religiosos. É também uma discriminação a favor da comunidade católica.

4. Acrescente-se que é provável que a presença do sacerdote acima mencionado tenha sido remunerada.

5. A Associação República e Laicidade traz este assunto à sua consideração, e requer que se pronuncie sobre as ilegalidades cometidas nesta situação.

(Carta assinada pelo presidente da ARL, enviada no dia 23 de Setembro)

Os crentes leitores deste texto poderão dizer “uiii que exagero… daí não vem mal ao mundo!…”. Lembro que a lei da separação do Estado, da Igreja, existe para ser cumprida (aliás, como todas as leis). Tal dito é habitual nos crentes que não têm em consideração os actos religiosos misturados na política como se fez no ocidente em tempos de Inquisição Católica, e como se faz hoje em países muçulmanos extremistas, com final dramático… (por cá, se a extrema-Direita um dia for poder, podemos assistir a cenas com o mesmo final). 

Perguntem a Mahsa Amini, aquela jovem de 22 anos morta pela polícia numa cadeia do Irão, por mostrar uma madeixa de cabelo, o que vai contra as regras da religião oficializada pelos Ayatollahs.

7 de Setembro, 2026 Onofre Varela

GUERRA DA OPUS DEI CONTRA O PAPA

Soube-se agora (notícia do jornal espanhol El País de 3 de Setembro último) que o Papa Francisco foi ameaçado por clérigos afectos à seita extremista católica de Direita, Opus Dei (OD) criada pelo fascista espanhol Escrivá de Balaguer em 1928 e metida no Vaticano, como prelatura pessoal, pelo Papa João Paulo II, em 1982. Balaguer acabou por ser canonizado em 2002, sendo cumprida a sua grande “meta biográfica”.

A organização OD é dona de várias empresas e universidades, tem elementos dispersos por partidos políticos e Parlamentos e, à semelhança do que acontecia com os agentes da polícia política nazi de Salazar, a PIDE, nunca sabemos quem se senta ao nosso lado no café ou no Metro, com a intenção de nos espiar. Também é dona de um santuário em Aragão (o Santuário de Torreciudad – Huesca) que na sua origem foi um forte muçulmano ocupado pelos cristãos no século XI.

A guerra que a OD movia ao Papa Francisco acabou por ser herdada por Leão XIV perante o dilema de decidir de que lado está nesta guerra intestina que os extremistas religiosos ultraconservadores mais agarrados à tradição e contrários à modernização da Igreja que o Papa promovia, alimentavam contra Francisco.

A OD anda de “candeia às avessas” com a Santa Sé desde Julho de 2023, por ver destituído o reitor de Torreciudad, que foi substituído por um bispo da confiança do Papa Francisco. Numa carta de Francisco, dirigida no mesmo ano de 2023 a Pérez Pueyo, bispo de Barbastro (município que tem a jurisdição do Santuário de Torreciudad) e agora divulgada, Francisco recomendava: “Não cedas”… e dizia mais isto “… procuro livrar-te de todas as intrigas mafiosas que estão em curso”, traçando um novo destino para o Santuário.

Angel Javier Pérez Pueyo foi nomeado bispo de Barbastro pelo Papa Francisco em 2014, o que nunca agradou à OD que o quer destituir daquele posto. Nas cartas de Francisco é notório o apoio que o Papa dava a Pueyo e a sua vontade de cortar a influência da OD.

Para além disto, Francisco anulou o carácter exclusivo de “Prelatura Pessoal” da OD, em 2022, título de que gozava desde 1982… o que, evidentemente, não agrada à “obra” do fascista Escrivá de Balaguer. Na biografia de Pérez Pueyo consta que na “Conferência Episcopal Espanhola” ele é membro da “Comissão para os Laicos, Família e Vida”.

Estas questões de interesses de poder numa organização bi-milenar como é a Igreja Católica, não configuram nenhuma novidade. São tão antigas quanto o credo, e em cada tempo a minoria tradicionalista tenta impor as suas vontades numa guerra intestina de colocar “os nervos em pé” a quem deseja viver pacificamente consigo e com os outros… e, ainda mais, no seio de uma Igreja que se diz “pacificadora e distribuidora de amor”… o que vindo do lado mais bafiento da instituição só pode causar riso se não, mesmo, horror… mas também, e principalmente, preocupação, não só para os religiosos católicos, mas para todos os “Homens de Boa Vontade”… como são os ateus.

CURIOSIDADE: Uma universidade espanhola detida pela OD é a Universidade de Navarra. Eu tenho um certificado de jornalista, numa formação que fiz no Centro de Formação de Jornalistas, no Porto, em 1995, ministrada pela Universidade de Navarra!… E esta, heim?!…

26 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (7)

As escolas estabelecidas em todas as sociedades não são apenas lugares de transmissão de saberes… também desenvolvem estilos de consciência… e de esquecimento de outras capacidades, orientando as consciências para comportamentos locais, distanciando-as do entendimento universalista das coisas naturais, construindo um modo de pensar limitado a uma facção, como acontece no xamanismo e também é notório na aprendizagem de cultos religiosos e políticos ministrados pelos interesses instalados em cada grupo.

Carlos Stepanoff é membro do Laboratório de Antropologia Social do Colégio de França e director da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Especialista nos rituais xamánicos, diz que o sonho, o devaneio (o sonhar acordado) ocupa 50% da actividade do espírito, desempenhando um importante papel no funcionamento da imaginação.

Estudos de neuropsicologia mostram que a imaginação é mobilizada quotidianamente durante toda a nossa vida, implicando incessantes “viagens mentais”. Esta construção da nossa consciência, do espírito humano, não evoluiu na contemporaneidade, no ambiente que hoje nos faz, construído por interacções acontecidas entre humanos, mas reporta-se, sim, a contextos que o Ser Humano viveu como presa de outros animais predadores.

Tais ensinamentos de antanho, passados de geração para geração, são a base da consciência religiosa que hoje ainda nos domina. Na modernidade, estes “sonhos” da actividade espiritual favorecem uma inovação individual imprimindo alguma transformação na passagem de antigos conceitos para as novas gerações, o que se reflecte na criação constante de novas técnicas rituais, como é bem visível nas seitas ditas evangélicas que romperam com as missas tradicionais católicas, mas que têm, na sua essência, a mesma razão de ser que trazemos colada, como cromo de colecção, na caderneta que o nosso cérebro é.

Quem sabe muito sobre a consciência é o nosso cientista António Damásio, um dos mais reputados neurocientistas do mundo, radicado nos EUA há imenso tempo, onde dirige o Brain and Creativity Institute na Universidade da Califórnia do Sul. Nas suas obras “O Livro da Consciência” (2010) e “Sentir & Saber” (2020), ambas editadas pela Temas e Debates / Círculo de leitores, diz-nos o que é possível sabermos, hoje, sobre a consciência como produto do cérebro.

Começa por informar que o cérebro não é mais do que um aparelho físico-químico composto por objectos físicos, denominados neurónios, que se contam em número astronómico na ordem dos milhares de milhões. Várias são as características que o nosso cérebro nos oferece: a Inteligência, que nos dá a capacidade de resolver problemas colocados na luta pela vida; a Mente, como grande armazém de imagens; o Raciocínio, como ferramenta que nos permite recordar e resolver problemas; os Afectos, que provocam reacções emotivas e alteram o organismo numa dinâmica a que também chamamos “estado de espírito”; os Sentimentos, experiências mentais que acompanham vários estados do organismo, como a fome e a sede, mas também provocam emoções como o medo, a raiva e a alegria; e, por fim, a Consciência, que entra em nós guiada pelos sentimentos, já que todos eles são conscientes por definição.

“Sem consciência nada se pode saber […] [ela] foi indispensável para a ascensão das culturas humanas e mudou o rumo da História”.

(Conclui na próxima semana)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (6)

A consciência é uma qualidade da mente e é por ela que cada um é como é, age e reage do modo como o faz, e é sempre limitada àquilo com que cada um a equipou. É uma construção do cérebro de todos nós, independentemente da etnia do seu portador. A matriz é a mesma para qualquer indivíduo sem importar a sua origem. Sendo constituída por conjuntos complexos de neurónios, a consciência acaba por ser forjada de acordo com a sociedade onde o indivíduo se faz, pois embora seja algo inerente a todos os seres humanos e funcione com a mesma química, a verdade é que a herança genética, a educação e o meio social acabam por moldar a consciência de cada um.

Durante tanto tempo reservada aos filósofos, a consciência é terreno fértil para sementeiras religiosas, e conhece hoje um notável progresso com o desenvolvimento das neurociências que, pouco a pouco, progridem na revelação dos segredos que ainda nos esconde o mais complexo órgão do nosso corpo, que é o cérebro.

O cérebro é um órgão biológico admirável e surpreendente, nele se origina a origem da produção e do desenvolvimento de todas as ideias, de raciocínios, de percepções, de sonhos e de sentimentos que fazem a vida de qualquer ser humano. Cada indivíduo tem a sua própria consciência que é aquilo a que chamamos “espírito”, ou modo de ser, de fazer e de sentir: a sua personalidade. Para os religiosos será a sua “alma”, o seu animismo… isto é, o que o movimenta, o anima (mas já relacionado com uma divindade).

A consciência educa-se, e cada sociedade tem na “consciência colectiva” aquilo que ela produziu através da educação nacional e da sua própria história. Na Coreia do Norte, por exemplo, as consciências foram educadas no culto da personalidade do seu chefe Kim Jong-un, e no Japão induziu-se a imagem do trabalho como símbolo da vida, levando muitos reformados a considerarem o suicídio quando deixam de produzir para, economicamente, não pesarem ao Estado.

Paralelamente, há, em cada comunidade, consciências diversas do colectivo porque sendo a consciência naturalmente universalista, ela pode ser independente das influências do meio em que o indivíduo cresce e se educa, causando dissidentes. Por isso é que há ateus em sociedades religiosas, religiosos em sociedades que quiseram impor o ateísmo colectivo, e que na Coreia de Kim Jong-un há quem o deteste e deseje vê-lo morto!

A consciência e a sensibilidade estão irmanadas, quer seja na Religião, na Política e na Cultura – incluindo nesta a Arte – exactamente por serem características universais inerentes ao facto de se ser Ser Humano, sem importar o local onde se nasce. A igualdade é universal.

Como acontece com a maioria dos estudos sérios e precisos sobre o corpo humano – para além das conclusões dos não menos importantes sábios da antiguidade, que usaram pela primeira vez as palavras “Psyché” (Grego) para Psíquico, e “Anima” (Latino) para Alma, também a palavra “Conscientia” (para Consciência) foi escrita, pela primeira vez, por Cícero [106 – 43 aC]. Mais tarde, já na nossa era, o escritor cristão Cassiodoro [490 – 580] inspirado por Platão, referiu o “Homem Interior” – também o estudo do cérebro se iniciou entre os séculos XVII e XIX. Talvez o primeiro cientista a trabalhar no terreno do Conhecimento tenha sido o alemão Korbinian Brodmann (1868 – 1918), mas também o espanhol Ramón Cajal (1852 – 1934).

A consciência é usada como se usa o corpo em sociedade, e é alvo de uma aprendizagem muito diversificada… daí haver “consciências desencontradas” na nossa formatação, indutoras de tantas sensibilidades, levando à criação de tantas religiões e de tantos partidos políticos. 

(Continua)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (5)

Perante as duas hipóteses com que terminei o último artigo, penso que a verdade poderá estar mais próxima da segunda hipótese. A cultura religiosa do paciente fará a interpretação daquele acidente vivencial, construindo a primeira hipótese de acordo com a sua fé.

Eu nunca experimentei a EQM com tanta espectacularidade… mas a minha mulher sentiu-a quando fez uma infecção no pós-operatório de uma cirurgia aos intestinos causada por uma peritonite. Depois da calma, da paz, da luz intensa dentro de um túnel, e da observação da enfermaria do hospital a partir do tecto onde se sentia flutuar vendo-se deitada no leito com médicos e enfermeiras à sua volta, de repente tudo ficou negro e sentiu dor, obrigando-a ao grito e ao choro. O médico acabara de lhe perfurar, a sangue frio, a zona do abdómen onde se localizava a infecção que por pouco não a matou, expulsando todo o pus ali concentrado.

Da minha juventude recordo um episódio que pode constituir a experiência da primeira fase da EQM. O caso deu-se numa tarde de Verão, passada na praia fluvial do Areinho, em Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia), com travessia do rio Douro em barco a partir da marginal do Porto na zona do Freixo, num tempo que situo no início da década de 1960, altura em que ainda não tinha aprendido a nadar, e por isso não me aventurava a mergulhar nem a sair de local onde tivesse pé e a água não me ultrapassasse a linha da cintura.

Um colega que queria, por força, ver-me mergulhar, não aceitou a minha recusa e empurrou-me violentamente obrigando-me ao mergulho. A aflição de me sentir envolvido pela água sem saber esboçar gestos que me permitissem flutuar, levou-me a esbracejar energicamente sem conseguir levantar-me nem colocar a cabeça fora de água.

Naquele momento, que foi ínfimo, pois logo a seguir o mesmo colega agarrou-me um braço e colocou-me em pé, vi a minha curta vida projectada no cérebro a uma velocidade estonteante mas com imagens perfeitamente distintas, nas quais identifiquei os meus pais, irmãos, familiares, amigos e vizinhos (experiência idêntica às que contam os alpinistas que sobrevivem a uma queda).

Escusado será dizer que jamais voltei àquele lugar na companhia daquele colega, e obriguei-me a aprender a nadar, o que fiz no rio Leça, na zona da Ponte de Pedra (S. Mamede de Infesta) num tempo em que naquele bucólico lugar se alugavam barcos a remos para passeios fluviais com a namorada, e a indústria do azeite estabelecida na margem do rio, a montante, ainda não poluía (muito) aquelas águas.

É pela cultura religiosa que se interpreta o túnel de luz e a paz como caminho para o Paraíso onde se encontra a luz divina. Na realidade, quem conta o “seu regresso à vida” após a situação de quase morte, fá-lo de acordo com a sua cultura. Quem tem o cérebro clonado por uma religião, inevitavelmente irá dizer que teve um encontro com Deus após a viagem que fez até ao Paraíso por um túnel iluminado pela divindade, garantindo que lhe aconteceu o que, na realidade… não aconteceu.

O que terá acontecido foi a construção de uma “explicação” à medida da sua crença formatada na sua consciência religiosa… e talvez não seja mais do que isso… mas aqui temos que indagar: o que é a consciência?

Será tema para o próximo artigo.

(Continua)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (4)

A crença na imortalidade universalizou-se transformando a morte numa espécie de “vida prolongada”, como disse Morin. O trauma da morte conduziu à aspiração da vida eterna… e até o alindar das campas (como é comum na nossa cultura) tão presente no lembrar dos nossos familiares mortos no dia 1 de Novembro, transformando os cemitérios em exposição de flores, obedece a esse acto piedoso de não esquecermos os nossos mortos.

Não há dúvida de que o registo da memória dos que partiram é a verdadeira eternidade em forma de recordação… mas, para além desta irrefutável verdade biológica e histórica, há imensos testemunhos recolhidos em várias partes do mundo, de gente que diz ter experimentado a proximidade da condição de morta, mas que, no último instante, se manteve viva, ou, se o podemos dizer, “regressou à vida”, não tendo, por isso, morrido concretamente.

É essa experiência que têm para contar, e todos os relatos são unânimes na descrição de uma mesma imagem: visão panorâmica de toda a sua vida; um forte sentimento de paz; a sensação estranha de saírem do seus próprios corpos sentindo-se a flutuar junto ao tecto do quarto ou da enfermaria do hospital, vendo-se deitados no leito onde repousam, e terem a sensação de atravessarem um túnel que se transforma em espaço de resplandecente luz.

Na “Experiência de Quase Morte” (EQM), ou morte iminente, há a referência a um estado vivencial no qual a pessoa experimenta um conjunto de sensações associadas à iminência da morte no decorrer de uma doença grave ou outra ocorrência da qual possa resultar perigo de vida. Em tais circunstâncias há uma espécie de “projecção da consciência” que o paciente refere como “experiência fora do corpo”, acompanhada de uma sensação de serenidade e a passagem por um “túnel de luz”.

A EQM é um termo que foi proposto pelo psicólogo francês Victor Egger, em 1896, em resultado das discussões mantidas entre cientistas, relativas às histórias contadas por escaladores que, durante as quedas a que sobreviviam, tinham uma visão panorâmica da vida durante o momento em que durava a queda. O interesse generalizado pelo tema só aconteceu em 1975, resultando da publicação do livro “Vida Depois da Vida” do psiquiatra e parapsicólogo norte americano Raymond Moody.

Os cientistas que estudam os casos de EQM ainda não chegaram a um consenso científico que explique o fenómeno de forma definitiva. Há quem considere a característica de “alucinação” surgida durante um estado de coma, ou perda de consciência profunda, sendo esta a tentativa de explicação mais plausível que até hoje foi encontrada, desconhecendo-se, no entanto, o modo como o nosso cérebro processa tais alucinações.

Em 1982, um estudo do Instituto Gallup (empresa que se dedica à pesquisa de opinião, nos EUA, fundada em 1930 pelo técnico de estatística George Gallup) referiu que cerca de oito milhões de norte-americanos já tinham passado pela EQM. Até 2005 foram registados casos idênticos em 95% das culturas do mundo, o que torna a experiência bastante frequente, independentemente do grau académico e cultural de cada protagonista. Perante tais depoimentos há quem avance duas hipóteses explicativas para o fenómeno: 1 – Prova da existência de um Paraíso para onde vamos após morrermos, no qual não há sofrimento nem trevas… apenas paz e luz. 2 – Última reacção neurológica construída pelo nosso cérebro, por deficiente função química resultante da menor irrigação sanguínea quando se aproxima o momento da falência de orgãos vitais. (Continua)

10 de Maio, 2026 Onofre Varela

CUBA E O LOUCO QUE SE IMAGINA DONO DO MUNDO

Por Onofre Varela

Cuba é uma ilha situada nas Caraíbas, onde as águas do Golfo do México (que não da América) e do Oceano Atlântico se encontram. Historicamente pertenceram a Espanha desde o século XV (quando Portugal, Espanha, Inglaterra e Holanda demandavam os mares nas suas caravelas com marinheiros aventureiros “achando” [*] terras), até à “Guerra Hispano-Americana” de 1898, tendo sido a ilha ocupada pelos EUA a partir de 1902.

Os cubanos, que ambicionavam a independência e não a transferência de colonizador, nunca se renderam aos espanhóis nem aos novos colonizadores americanos. Os conflitos sociais acabaram por conduzir a uma espécie de “Golpe de Estado” promovido pelos EUA em 1952, colocando no poder o militar cubano Fulgêncio Baptista que já tinha sido presidente de Cuba na década de 1940.

Como ditador que era, Baptista nunca foi aceite pelo povo cubano que se organizou em Movimento Revolucionário tendo à cabeça Fidel Castro (cubano) e Che Guevara (argentino). Fulgêncio Baptista foi destituído pelos revoltosos independentistas em Janeiro de 1959 que estabeleceram um regime comunista liderado por Fidel, desde então até hoje. Fidel morreu em 2016, aos 90 anos de idade, e os seus sucessores continuam no governo comunista da ilha.

De costas viradas para os EUA desde 1959, Cuba recebeu o desprezo e a perseguição dos EUA desde sempre, e teve, também desde sempre, a ajuda da União Soviética até 1991, e da Rússia a partir da desintegração das repúblicas socialistas soviéticas por Mikhail Gorbatchov, colmatando o boicote dos EUA nas suas necessidades económicas.

No governo dos EUA dirigido por Barack Obama, este tentou uma aproximação a Cuba, com Raúl Castro (irmão de Fidel, então no poder), na tentativa de se finalizar o conflito petrificado desde 1959 entre os dois países, e se estabelecer a paz entre eles, activando o comércio com as respectivas adaptações possíveis para uma paz com futuro.

E tudo indiciava que as questões políticas entre os dois vizinhos do golfo do México poderiam ser solucionadas com sabedoria e respeito pelos povos cubano e americano… porém, os ventos da História mudaram de rumo e sofreram alterações que apontam para a possibilidade de haver resultados desastrosos para Cuba e para a paz no mundo.

Com o comando dos EUA entregue a uma personalidade como Donald Trump, que só por si é uma tragédia humana, de espírito narcisista desrespeitador de tudo e de todos, o mundo está constantemente em perigo. Ao comissionista Trump só lhe falta querer facturar o ar que se respira em todo o mundo… e quem não pagar, que morra.

Trump quer apoderar-se de Cuba, tratar o Povo Cubano como trata o Povo Palestino, e transformar a ilha em estância de férias para os americanos ricos, com hóteis e demais infraestruturas turísticas geridos pela sua própria família. O mundo assiste… e deixa!…

[*] – Termo bonito para substituir a palavra “roubando”, porque se algumas das terras eram selvagens e desabitadas, outras eram habitadas… tinham dono.

OV

12 de Abril, 2026 Onofre Varela

DESRESPEITO PELOS IMIGRANTES QUE NOS ENGRANDECEM

A revista Visão, na sua edição do dia 6 de Novembro de 2025, inclui um Dossiê/Reportagem sobre imigração com o título “Isto já não é um país acolhedor”, assinado por três jornalistas: Alexandra Correia, Lucília Monteiro e Francisco Romão Pereira, que fizeram um trabalho de investigação digno de nota.

Transcrevo o último parágrafo da reportagem, porque ele contempla uma das mais importantes mensagens que a reportagem contém, no sentido da valorização do trabalho imigrante na economia do país. (As frases entre parêntesis são da minha responsabilidade):

«Todos os indicadores económicos e demográficos apontam o valor inestimável da imigração para o nosso país. Vários sectores, como a agricultura, as pescas, o turismo e a restauração, não sobreviveriam já sem eles. O medo (disseminado por má-fé pelos xenófobos) é simplesmente algo sem fundamento. (Resulta) da emoção primária usada no discurso político para obtenção de vantagens eleitorais. Já o ódio, esse, tem várias explicações. Pondo o dedo na ferida: o racismo tem sempre implícita a ideia de que o outro ser humano vale menos. E, portanto, como bons cobardes, decide-se bater no elo mais fraco. Naturalmente, o discurso xenófobo vindo dos políticos atiça e inspira a violência nas ruas. Não há inocentes neste caminho. É nesta encruzilhada que nós, enquanto sociedade, nos encontramos (e para dela sairmos temos de crescer em termos de raciocínio humanista, não admitir o ódio dos extremistas e combatê-los, até. Só assim faremos jus ao facto de sermos portugueses e termos herdado uma cultura multi-racial desde que andamos pelo mundo a deixar marcas em todas as regiões)».

A solidariedade – que nos torna humanos na melhor definição do termo – é atacada pelos piores de nós que fazem alarde do primitivo sentido racista que representam e alimentam.

Por associação de ideias, e pegando na frase “a ideia de que o outro ser humano vale menos” acima mencionada, recordo que o racismo levou ao “apartheid” na África do Sul, desde 1948 até 1994.

Nos EUA o “apartheid” praticado pelos americanos tomou o nome de “segregação racial”… a qual, no fundo, praticava o mesmo desrespeito pelo ser humano de tom de pele diferente.

O “apartheid” sul-africano foi condenado internacionalmente como injusto e racista nas Nações Unidas em 1973, mas só em 1976 a ideia ganhou força e caminhou “em câmara lenta” levando à sua abolição, apenas, em 1994, quatro anos depois da libertação de Nelson Mandela a 11 de Fevereiro de 1990.

31 anos nos separam de tal data que marca um avanço na história da Humanidade. Constatarmos, hoje, que a ideia do racismo e da segregação faz o dia-a-dia de muitos países (entre os quais Portugal) que alimentam extremas-direitas xenófobas, é constatar que a Humanidade está em regressão… a andar em marcha-atrás.

A solidariedade e a amizade entre os povos, que faz a melhor parte de nós, é atacada por essas direitas que alastram no mundo como nódoa em tecido precioso.

De facto, tal como se diz na reportagem, isto já não é um país acolhedor… e tal constatação só nos diminui.

É preciso que o tempo avance, permitindo que os eleitores alimentadores de xenófobos percebam a “marcha-atrás” social e humanista que apoiaram… e se envergonhem…

OV

28 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quinta (!) Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui, a terceira carta está aqui e a quarta carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue. Convém deixar claro que a dada altura desta conversa informei o meu interlocutor que estava a publicar esta troca neste blog.

Confesso que nesta altura da discussão, já estamos a chover no molhado. Não digo que a minha resposta diga algo de novo. É uma questão de ser obstinada em debater até que todas as perguntas sejam respondidas, mesmo quando já está visto que o interlocutor não é intelectualmente honesto o suficiente para se chegar a bom porto. Sabendo que a conversa é circular, também achei que não a partilhar seria injusto. Faria parecer que o crente desistiu, quando não o fez. Por isso, para quem queira ler, aqui vai:

Boa tarde.

É giro. ☺️

Mas se funciona para ti, tudo bem. 👌

Eu é que invadi o teu espaço e por isso peço desculpa.

Eu tenho as minhas convicções, que já não não fazem parte da fase da fé mas sim do saber.

Eu não acredito em Deus, eu sei que Ele existe.

A partir daí, tudo o resto ganha outra dimensão.

E independentemente das minhas convicções, nunca quis impor a ninguém, seja o que for.
Mas não posso nunca deixar de divulgar e acima de tudo tentar ser a melhor versão que posso ser, enquanto espírito encarnado.

Não me leves a mal, mas toda a tua explicação é única e exclusivamente baseada nos 5 sentidos, pois falas em vários avanços científicos, mas sempre com o apoio dos 5 sentidos. E está tudo certo 👌
Eu apenas acredito em mais, muito mais.

Falas em dinheiro 💰 😁

A base do espiritismo é dar aos outros de graça aquilo que nos foi dado de graça. Portanto, há uma tremenda mistura de que não posso concordar, pois estás a inserir o espiritismo no mesmo saco que o ocultismo. Nada tem a ver com oculto.

As bases do Espiritismo aceitam, na região, filosofia e ciência. Estavtrindade não pode ser separada, pois há uma correlação entre elas.

Percebo o que dizes, pois visto do teu ponto de vista, alguém dizer não há certo nem errada, há apenas diferentes visões para uma mesma coisa, seja complicado.
Mas do “meu” ponto de vista, faz sentido. ☺️

Pois tu acreditas, que a sociedade só obedece a leis sociais, ou seja – casos extremos, nós só não matamos alguém porque fomos educados a não o fazer e também temos leis que o proíbem. Mas imagina, se não houvesse alguém que a um determinado momento tivesse assassinado alguém, tu pura e simplesmente nem sequer sabias que matar era errado. Apenas o sabes porque alguém o fez. Neste sentido, alguém cometeu algo atroz mas serviu de ensinamento.
E isto é válido para tudo na vida. Tudo tem dois opostos, a não ser a inteligência suprema (Deus).

E para o teu problema de, então se Deus é bondoso e nos ama a todos por igual, porque permite toda esta atividade no planeta Terra? 😁

Muito simples, a ideia é evoluir, só vamos evoluir, experimentando, errando, mas todos lá chegaremos.
É uma maratona, não uma corrida de velocidade.

A Terra tem à volta de 4 mil milhões de anos. O ser humano homo sapiens tem 300 mil anos.
Olha o que nós evoluímos desde aí? ☺️

Já saimos do mundo primitivo, estamos agora num mundo de provas e expiações.
Iremos passar para um mundo de regeneração a seu tempo. 👌
E isso estamos a falar do planeta Terra.

Enfim… Muito há a falar e a discutir e é sempre bom questionarmos tudo. Até porque se assim não for, como iríamos evoluir?

Percebo se não me quiseres aturar, até porque à primeira vista, sou apenas mais um que vive uma fantasia. 😂

Sem stress, vivo bem com isso. 👌

Beijinhos, é sempre um prazer. 🙏

E mais uma vez, como um cão atrás da cauda, voltei a repetir argumentos e a reiterar a oferta de submeter o Espiritismo ao escrutínio da ciência:

Boa tarde!

Gosto imenso do novo tom. O “é giro”, é tão conciliador que quase soa a paternalismo. Quase. Mas convém não confundir simpatia com competência no debate de ideias. Agora já só te estás a repetir em argumentos que já desmontei. O padrão que noto nesta conversa é mesmo este. Eu desmonto argumentos, tu repetes a mesma coisa por palavras diferentes, vestidas de epifania. Já reparaste que ao longo desta conversa foste deixando cair temas que não te davam jeito, enquanto eu faço questão de ir ponto por ponto a todas as tuas afirmações? Estranho, não é? Há até questões que deixaste por responder. Mas não faz mal, eu não me importo de as ir repetindo. Pode ser que te surja outra epifania, tenho essa esperança. Afinal, o que acontece uma vez, pode acontecer mais vezes, não é?

Podemos começar pelo ponto em que insistes em repetir uma frase feita que cheira ao mofo das igrejas: “eu não acredito, eu sei que Deus existe”. Continuas a usar o verbo “saber” num sentido que não corresponde ao que ele significa. Eu acho que já te expliquei isto, mas sou uma rapariga muito paciente. O facto de estares muito convicto, emocionalmente seguro ou existencialmente confortável não transforma uma crença metafísica em conhecimento. Chamar “saber” a uma convicção íntima e pessoal não a torna menos crença, pelo contrário. Torna o teu discurso mais vazio, mais emocional, e se calhar até mais apelativo às pessoas menos racionais, Enfim, é uma espécie de chantagem emocional. Se eu disser que não sabes porque não tens como saber, sou a vilã, que é precisamente a função retórica dessa formulação. Depois de várias trocas de mensagens acho que deixei claro que não me sinto na obrigação de albergar sentimentalismos alheios ou de concordar só para agradar. Não se coaduna nem com a verdade nem com a minha personalidade.

Qualquer sistema fechado de crenças ganha coerência interna a partir do momento em que aceitas o seu postulado central como sendo indiscutível. Neste caso a existência de um deus supremo e de um mundo de fantasmas que andam aí a flutuar com o objetivo de vir “cá abaixo” tomar um cafezinho com os vivos mas cuja sabedoria não se estende a oferecer soluções para os problemas da Humanidade. O Casper tinha mais utilidade. É uma estrutura circular de pensamento, em que um deus justifica a existência de alminhas penadas e as alminhas penadas são elas mesmas a prova de que esse deus existe. Não é sequer mais sofisticado do que o argumento mais comum dos meus debates semanais: “deus existe porque a Bíblia diz que existe, e a Bíblia é verdade porque deus existe”. Aplique-se o mesmo ao Corão, que é usado exatamente da mesma forma. O problema é o facto de não acrescentares qualquer poder explicativo verificável sobre a realidade.

Quanto à insistência nos “5 sentidos”, lá estás tu a repetir uma caricatura que já foi desmontada na minha mensagem anterior. Repara que contra-argumentar é apresentar razões fortes (no mínimo) para contrariarmos o que foi dito anteriormente. Mas se tu achas que faz sentido ficar só a papaguear o que já foi dito, então legitimas a minha própria repetição: não baseio nada exclusivamente nos meus cinco sentidos. Baseio-me, ou antes, confio em cientistas que se baseiam em métodos que corrigem, amplificam e vão além dos sentidos: instrumentos, medições, modelos matemáticos, testes cegos, replicação independente, entre os vários métodos que produziram as conclusões científicas que te permitem, por exemplo, tomar vacinas, ou estar agora mesmo a segurar num telemóvel. A ciência existe precisamente porque os sentidos são falíveis. O que tu chamas “acreditar em mais” não é nem ir além dos sentidos, nem é nada de transcendente. É só uma recusa em aceitar qualquer mecanismo de controlo do erro. Como opinião pessoal, que vale o que vale, é só uma forma de te sentires superior a outras pessoas porque sabes algo que não está ao alcance delas, coitadinhas. Eu reservo a inveja para gente que entende coisas como astronomia, física e matemática. Esses sim, são admiráveis. Mudam o mundo todos os dias. Se tens mais de 30 anos, deves isso a gerações e gerações de gente que ampliou o conhecimento científico, não a fantasmas e almas penadas. Muito menos a Allan Kardec.

Sobre o dinheiro: não falei de ti, nem de centros espíritas específicos. Falei do fenómeno geral da espiritualidade enquanto mercado, e ele existe, quer gostes quer não. Saberás melhor que eu porque é que enfiaste esse barrete. O facto de uma doutrina se autodescrever como gratuita e caridosa não a coloca automaticamente fora de escrutínio, e muito menos a livra de crítica. A maioria das religiões também dizem viver do amor, da partilha e da fraternidade. Isso nunca as impediu de acumular poder, influência e capital. E, já agora, o Espiritismo pode não ser “oculto”, mas é igualmente infundado. Não são sinónimos, mas também não são opostos. Carecem ambos de prova, são ambos baseados em experiências pessoais, ambos fazem afirmações fantásticas sobre a realidade. Naquilo que interessa, ocultismo, espiritismo, espiritualidade, religião, superstição, bruxaria, entre outras, são exatamente iguais.

A tal “trindade” ciência–filosofia–espiritismo é outro exemplo de colagem arbitrária. Acho sinceramente que podemos afirmar que a ciência e filosofia dialogam porque partilham critérios racionais e disposição para revisão. Acima de tudo, a filosofia não tende a apresentar verdades absolutas com base na revelação. O Espiritismo não partilha dessa vontade de falsificar as próprias hipóteses. Apropria-se da linguagem da ciência, cita-a quando convém, ignora-a quando contraria os seus postulados, tal como a religião e o ocultismo e qualquer outra forma de pensamento mágico. É parasitismo e espero que entendas que na prática não há diferença nenhuma entre um espírita e a vidente, médium, taróloga do TikTok (sim, os títulos são engraçados e vêm sempre aos trios, no mínimo). Se achas que há, convido-te a submeteres a tua prática religiosa ao escrutínio da ciência.

Quero só fazer mais uma observação quanto à ideia de que o mal é necessário para aprendermos que o mal é mau. Não precisamos de assassinos para sabermos que matar é errado. As crianças mostram, desde muito pequenas, empatia, aversão ao sofrimento alheio e sentido de justiça antes de qualquer enquadramento religioso. A moral nasce da capacidade de reconhecer o sofrimento humano. Isto é inato porque é biológico e evolucionário. É muito simples entender que uma espécie animal como a nossa necessita de controlar a sua violência e preservar o outro, como forma de garantir a continuidade da espécie. Somos primatas que evoluíram em sociedades que têm como principal pilar a cooperação. O teu raciocínio não só falha como justifica retroativamente atrocidades como etapas pedagógicas divinamente impostas. Não posso aceitar este argumento, que é o clássico de teodiceia, e continua tão fraco hoje como sempre foi.

Dizes que tudo tem dois opostos, exceto o teu deus. Olha que “giro”! Um sistema que começa por afirmar uma dualidade universal e imediatamente cria uma exceção absoluta para salvar a própria tese não explica nada. Tudo tem um criador exceto o teu deus. Afinal, se a regra universal tem uma exceção, quem te diz que não tem duas, ou três, ou mil? Quem te diz que não é o universo essa exceção?

Quanto à história da evolução moral da Terra, dos mundos de provas e expiações aos mundos de regeneração, desta forma religiosa, é apenas uma forma de apresentar uma cronologia religiosa. A questão não é se evoluímos, é se a nossa existência é fruto de um deus omnipotente, omnibenevolente, omnisciente e omnipresente. Esse deus é tão bom e tão poderoso que esta é a melhor ideia que consegue ter? Eu que sou humana e limitada consigo ter ideias melhores. Aposto que tu também. Esse é um deus pouco poderoso, pouco criativo ou pouco competente. Em todo o caso, é acima de tudo, pouco. Uma explicação estilo “é a vontade de deus nosso senhor” não explica nada, não prevê nada, nem resolve nada. É uma narrativa confortável apenas porque promete uma redenção após “esta vida”. Justifica emocionalmente o sofrimento, mas só se tiveres os olhos fechados, os ouvidos tapados e a boca cosida. Funciona bem como consolo. Agora, como descrição da realidade, é risível.

Dizes que percebes se eu te achar mais um a viver uma fantasia. Não é uma questão de “achar”. Fantasia é o nome que se dá a um sistema explicativo que não tem correspondência demonstrável com os factos e que resiste à refutação porque redefine constantemente os seus critérios. O pensamento mágico é o Ventura da racionalidade humana.

Quanto a não impor nada a ninguém: divulgar convicções como se fossem conhecimento é uma forma suave (suave, no teu caso, suponho) de imposição. Tudo bem que não é coerciva, mas é real. Acima de tudo faz uso de uma chantagem emocional descarada. “Isto é a minha crença, eu estou a dizer-te que é verdade e se me contrariares és rude e estás a chamar-me de louco ou mentiroso. Como te atreves, sua herege??? Respeita a minha crença!!!” É feio, é paternalista, é o que faz persistir o incómodo em criticar ideias religiosas. As ideias competem no espaço público, quer queiramos quer não, e algumas fazem mais estragos do que parece. Sobretudo quando se apresentam como moralmente superiores e imunes à crítica. Lembra-te que o Espiritismo desde 1857 e nada vos impede de submeter as vossas conclusões ao escrutínio da ciência. Quando quiseres, eu própria faço os contactos necessários para submeter uma das vossas sessões à verificação de cientistas e céticos. Acho que já tinha feito esta oferta. És muito simpático e tal, mas esta parte não dá jeito, não é?

Por isso não, não te levo a mal, nem me cansas. Mas convém chamar as coisas pelo nome. Não estamos perante duas “formas igualmente válidas de viver o mundo”. Estamos perante um conflito claro entre pensamento crítico e crença metafísica escondida atrás de uma certeza subjetiva, emocional e logicamente inválida.

Por muito simpático que seja o tom, a falta de pensamento crítico não se resolve com emojis e beijinhos. Eu estou mais que disponível a entender melhor o teu ponto de vista quando te cansares de repetires sempre a mesma narrativa religiosa, supersticiosa e fantasiosa e quiseres entrar no ramo dos factos. Que conclusão consegues apresentar, dentro do Espiritismo que seja testável e repetível? Lembra-te que tem de ser falsificável, ter poder preditivo, ser internamente consistente, compatível com o conhecimento científico já existente, parcimoniosa, independente da crença do observador e passível de correção quando se revelar errada. Se os cientistas fazem isto diariamente, tenho a certeza de que as pessoas iluminadas, superiores e dotadas de poderes mediúnicos também o conseguem fazer e, quiçá, superar.

Fico a aguardar com expectativa a oportunidade de contactar cientistas e céticos para colocar o Espiritismo à prova. A menos que lá no fundo saibas que é uma fantasia mágica da qual não queres abrir mão e que tens medo de ver desconstruída de uma vez por todas. E está tudo bem, cada um anda com as bengalas que quer, ou das quais depende.

Espero, de resto, que a tempestade não te tenha afetado, nem aos teus entes queridos. Será que os fantasmas sentiram a ventania da noite passada?

Alcina Lameiras
27 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quarta Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui e a terceira carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue.

Já tinha perdido esperança de receber uma resposta. Notei que a resposta anterior tinha sido gerada pelo ChatGPT ou outra IA qualquer, pelo que percebi que o meu interlocutor estava cansado do debate e com preguiça mental. Respondi com a terceira mensagem porque não conseguia deixar de o fazer, mas achei sinceramente que não ia receber resposta. Esta última pareceu-me, pelo menos, mais intelectualmente honesta:

Bom dia. Ando há meses para tentar arranjar algo que faça sentido para te responder.

E tive uma epifania agora mesmo.

Nós andamos a responder um ao outro com base naquilo que acreditamos, naquilo que estudamos, naquilo que nos faz sentido enquanto seres humanos pensantes.

Todavia nós esbarramos em algo muito peculiar e até caricato.

Ti respondes com base única e exclusivamente com I que achas que é a verdade, ou seja o que os teus 5 sentidos conseguem detectar. E aí é que está o cerne da questão, e ao qual este diálogo será sempre de sentido único tanto para mim, como para ti.

Já eu, acredito em muito mais do que aquilo que os meus 5 sentidos podem captar. Não há aqui certos nem errados, há apenas uma diferença de viver a vida e o mundo.

E se tu és uma pessoa com dois dedos de testa, ou seja, não praticas o mal, não desejas mal a ninguém, és fraterna, solidária, caridosa, tu até podes ser hippie, gótica, budista, hinduísta, etc.

É-me completamente diferente. ☺️

Se há coisa que aprendi com a minha experiência de vida é que isto não é uma corrida de velocidade e sim uma maratona tão longa quanto o infinito.

Portanto, não faz sentido usarmos literatura, frases feitas, pois nós os dois conseguimos defender a nossa crença, e não crença (de algo mais que a matéria) com alguma facilidade tendo em conta o nosso estudo contínuo.

Não quer dizer que não ache peculiar e deveras interessante as nossas discussões, saudáveis.

Mas realmente é um ponto engraçado.

Pois tu achas que tudo é fruto do acaso e não de uma inteligência superior.

Ben um acaso é mesmo inteligente, para conseguir criar um universo tao denso e tão perfeito. 😁

Não me interpretes mal mas é suigeneres e deveras engraçado, a forma como vês o mundo.

Tu podes dizer exatamente isso mesmo de mim, 👌.

No entanto o busílis da questão é, se é for boa pessoa qual é o problema deveu acreditar no Pai Natal e no Coelhinho da Páscoa? 😂

Um ótimo fim de semana para ti.

Desculpa, deixei de ser tão formal e espero que não me leves a mal.

Beijinhos.

Foto de Greg Rakozy na Unsplash.

Não pude deixar de responder porque, como já sabem, não resisto a contra-argumentar falácias:

Não imaginava que esta conversa pudesse gerar uma epifania, mas fico contente. Claro que a minha alegria não é tanta que não discorde dessa dicotomia entre os que se limitam aos 5 sentidos e os que vão supostamente além disso. Antes de mais, porque não me cinjo aos meus 5 sentidos. Confio em cientistas que dispõem de muito mais do que os 5 sentidos para investigar a realidade (e a base da minha confiança é a verificabilidade e repetibilidade das descobertas científicas). A ciência moderna baseia-se em observações e experiências que testam o mundo real com instrumentos que desenvolveu para esse fim (e que sabemos que funcionam porque produzem resultados). O que não faz e que eu própria recuso fazer é basear o conhecimento da realidade em raciocínios a priori, intuições ou (ainda pior) revelações. Gostava de te relembrar que muitos dos avanços científicos (como a existência de bactérias, ondas de rádio ou buracos negros) são invisíveis aos 5 sentidos, mas foram confirmados com recurso a instrumentos como telescópios e microscópios. Portanto, tratar a visão sobrenaturalista e o método científico como se estivessem no mesmo plano é cair num viés que eu recuso com repulsa. Não são a mesma coisa. A ciência, com os seus instrumentos, permite que tenhas coisas como a internet e o GPS, raios-x, hemodiálise, entre tantos outros. O paracetamol, porra! A espiritualidade permite, como único resultado palpável, verificável e repetível que meia dúzia de pessoas saquem algum ou muito dinheiro a outras. Não é o mesmo nível de resultados, utilidade ou factualidade.

Também não posso aceitar a ideia de que “não há certo nem errado, apenas pontos de vista diferentes igualmente válidos”. Essa postura relativista absoluta destrói logo qualquer possibilidade de critério objetivo. Se todos os pontos de vista fossem colocados no mesmo plano, um especialista numa determinada área teria exatamente o mesmo peso que alguém a opinar sem qualquer base. Eu sei que é isso mesmo que acontece nas redes sociais, e por vezes até nos órgãos de comunicação social. Não devia acontecer. Que entende uma zé ninguém como eu de ciência para opinar sobre a administração de tratamentos médicos? Se calhar tenho opiniões ou experiências pessoais, mas não sou especialista. Acima de tudo, não sou suficientemente arrogante para achar que vou eu descobrir a pólvora quando há médicos que estudam a vida inteira para salvar vidas. Para quem acha isso, a solução é uma: estudar medicina e revolucionar o ramo científico a que se decida dedicar. O cientista não pode ser colocado no mesmo patamar que o tasqueiro que tem a solução para tudo e mais alguma coisa. Posicionar o conceito de verdade como inteiramente relativo impede que tenhamos parâmetros para distinguir facto de fantasia. Há pela internet gente que mete gotas de urina nos olhos para tratar a miopia. Consegues, em consciência, dizer que cada um tem a sua verdade quando há gente a provocar infeções oculares por pura ignorância e uma dose pouco saudável de estupidez? Reconhecer diferentes perspetivas é legítimo, também acho que cada um tem uma cabeça para pensar. Agora, afirmar que todas as perspetivas são igualmente válidas já não é coisa com que eu possa concordar. Caso contrário coloco um biólogo contra um padre e aceito que o padre tem uma posição válida por exemplo, quanto a questões do corpo feminino que supostamente nunca observou, estudou ou sequer tocou.

Quanto ao argumento de que o universo é “perfeito demais para ter surgido ao acaso”, desculpa que te diga, mas estás a assentar numa falácia que já foi desmantelada ad nauseam. A noção de “ajuste fino” (que é uma falsidade religiosa) não implica sequer design consciente, muito menos inteligente. Usar a improbabilidade como prova de intenção está errado. É que assim, confundes dizer “não sei como isto aconteceu” com “logo, alguém teve de criar o universo”. Isso é uma falácia do apelo à ignorância. A história da ciência está cheia de exemplos de fenómenos que noutros tempos foram atribuídos a inteligências superiores que hoje compreendemos perfeitamente por mecanismos naturais. A ignorância momentânea nunca foi boa base para postular entidades sobrenaturais e chama-se a isso o “Deus das Falhas”. Ou seja, à medida que a ciência avança, deus recua. Digo deus, poderia dizer deuses, é apenas o sobrenatural que dá lugar ao natural à medida que as explicações são dadas. Nunca um deus foi necessário à ciência ou à humanidade para avançar o conhecimento. O oposto já é verdade. Tens, aparentemente, um problema com o acaso, ou antes com a existência não intencional de alguma coisa. No entanto, vives todos os dias rodeado de acasos que não te confundem. Pior ainda, achas que há um grupo de pessoas que conseguem falar com os “espíritos” de quem já morreu e que desde 1857 a ciência não consegue estudar fenómenos supostamente testáveis e repetíveis. E eu é que tenho crenças sem sentido?

Passando, por fim, à tua comparação com o Pai Natal e o Coelhinho da Páscoa, a diferença é que essas figuras são assumidamente ficcionais, não têm como objetivo explicar a realidade nem orientar decisões sobre o dia a dia das pessoas. As crenças espirituais e religiosas é que fazem afirmações sobre a natureza da realidade, da consciência, da moral e da suposta vida após a morte, e influenciam comportamentos individuais e coletivos, aliás, sociedades inteiras. Dizer “qual é o problema de acreditar, se a pessoa for boa?” é ignorar que uma crença, por ser infundada, não é necessariamente inofensiva. A bondade de uma pessoa não valida a veracidade daquilo em que acredita, nem transforma uma crença falsa em verdade. O critério não é a intenção moral, é a correspondência com os factos. Por outro lado, como dizia Weinberg, as pessoas boas hão-de fazer coisas boas e as pessoas más, coisas más. Mas para pôr pessoas boas a fazer coisas más, é preciso religião. São crenças no sobrenatural que iludem, por exemplo, pessoas boas a acharem-se parte de um grupo especial. Por exemplo, acreditarem que têm poderes sobrenaturais, que conseguem ajudar outras pessoas que precisam de cuidados médicas e, no processo matá-las. Não houve neste exemplo uma transgressão moral, a pessoa acha que tem poderes e que há um médico que encarna no seu corpo para curar. Entretanto um cancro fica sem tratamento. Essa pessoa é má? Não. Talvez seja pouco inteligente, mas normalmente só foi endoutrinada e é (quase) tão vítima quanto a sua própria vítima. Normalmente quando digo isto a resposta é: “Ah, mas na minha doutrina/religião/grupo/etc. não fazemos isso! Quando vemos que a pessoa tem um problema de saúde encaminhamos para o médico!”. Pois… porque o que quer que vocês estejam a fazer é um placebo na melhor das hipóteses e desastroso na pior.

Uma questão muito diferente seria se eu julgo uma pessoa como imoral porque tem crenças religiosas, se a quero perseguir ou se quero proibir a crença que tanto a conforta. Se essa questão te tiver passado pela cabeça, a resposta é não. A maioria das pessoas que professam crenças religiosas ou que são supersticiosas não são más pessoas. Ter crenças falsas não é necessariamente ser-se cruel, ou mau. Mas que é um bom sítio para evoluir nesse sentido, lá isso é. A História comprova-o sem sombra de dúvidas.

A nossa evolução pessoal e coletiva depende da disposição de cada um de nós para submeter as nossas ideias ao escrutínio. Ficarmos presos a uma ideia falsa apenas porque nos dá conforto não é intelectualmente honesto nem válido e, acima de tudo, não nos ajuda a nenhum nível. Prezar o pensamento crítico não é uma questão de cinismo ou de arrogância. Pelo contrário, é recusar confundir conforto emocional com factos. Entre preservar crenças porque fornecem algum tipo de certeza inabalável (provavelmente o conforto de achar que esta vida não é o fim) e aceitar apenas aquilo que resiste à crítica racional, eu prefiro estar desconfortável mas entregue à verdade.

Posto isto, bom fim de semana, foi uma excelente conversa!