VIDA DEPOIS DA MORTE (5)
Perante as duas hipóteses com que terminei o último artigo, penso que a verdade poderá estar mais próxima da segunda hipótese. A cultura religiosa do paciente fará a interpretação daquele acidente vivencial, construindo a primeira hipótese de acordo com a sua fé.
Eu nunca experimentei a EQM com tanta espectacularidade… mas a minha mulher sentiu-a quando fez uma infecção no pós-operatório de uma cirurgia aos intestinos causada por uma peritonite. Depois da calma, da paz, da luz intensa dentro de um túnel, e da observação da enfermaria do hospital a partir do tecto onde se sentia flutuar vendo-se deitada no leito com médicos e enfermeiras à sua volta, de repente tudo ficou negro e sentiu dor, obrigando-a ao grito e ao choro. O médico acabara de lhe perfurar, a sangue frio, a zona do abdómen onde se localizava a infecção que por pouco não a matou, expulsando todo o pus ali concentrado.
Da minha juventude recordo um episódio que pode constituir a experiência da primeira fase da EQM. O caso deu-se numa tarde de Verão, passada na praia fluvial do Areinho, em Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia), com travessia do rio Douro em barco a partir da marginal do Porto na zona do Freixo, num tempo que situo no início da década de 1960, altura em que ainda não tinha aprendido a nadar, e por isso não me aventurava a mergulhar nem a sair de local onde tivesse pé e a água não me ultrapassasse a linha da cintura.
Um colega que queria, por força, ver-me mergulhar, não aceitou a minha recusa e empurrou-me violentamente obrigando-me ao mergulho. A aflição de me sentir envolvido pela água sem saber esboçar gestos que me permitissem flutuar, levou-me a esbracejar energicamente sem conseguir levantar-me nem colocar a cabeça fora de água.
Naquele momento, que foi ínfimo, pois logo a seguir o mesmo colega agarrou-me um braço e colocou-me em pé, vi a minha curta vida projectada no cérebro a uma velocidade estonteante mas com imagens perfeitamente distintas, nas quais identifiquei os meus pais, irmãos, familiares, amigos e vizinhos (experiência idêntica às que contam os alpinistas que sobrevivem a uma queda).
Escusado será dizer que jamais voltei àquele lugar na companhia daquele colega, e obriguei-me a aprender a nadar, o que fiz no rio Leça, na zona da Ponte de Pedra (S. Mamede de Infesta) num tempo em que naquele bucólico lugar se alugavam barcos a remos para passeios fluviais com a namorada, e a indústria do azeite estabelecida na margem do rio, a montante, ainda não poluía (muito) aquelas águas.
É pela cultura religiosa que se interpreta o túnel de luz e a paz como caminho para o Paraíso onde se encontra a luz divina. Na realidade, quem conta o “seu regresso à vida” após a situação de quase morte, fá-lo de acordo com a sua cultura. Quem tem o cérebro clonado por uma religião, inevitavelmente irá dizer que teve um encontro com Deus após a viagem que fez até ao Paraíso por um túnel iluminado pela divindade, garantindo que lhe aconteceu o que, na realidade… não aconteceu.
O que terá acontecido foi a construção de uma “explicação” à medida da sua crença formatada na sua consciência religiosa… e talvez não seja mais do que isso… mas aqui temos que indagar: o que é a consciência?
Será tema para o próximo artigo.
(Continua)
Perfil de Autor
Onofre Varela nasceu no Porto em 1944, estudou pintura e exerceu a atividade de desenhador gráfico em litografia e agências de publicidade, antes de abraçar a carreira de jornalista (na área do cartune), em 1970, no jornal O Primeiro de Janeiro. Colaborou com a RTP, desenhando em direto a informação meteorológica no programa Às Dez e animando espaços infantis. Foi caricaturista e ilustrador principal no Jornal de Notícias, onde também escreveu artigos de opinião, crónicas e entrevistas.
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CATEGORIES
Arte e cultura Ateísmo Diário de uns ateus Humanismo Religiões -
DATE
10 de Agosto, 2026 -
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