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VIDA DEPOIS DA MORTE (4)

A crença na imortalidade universalizou-se transformando a morte numa espécie de “vida prolongada”, como disse Morin. O trauma da morte conduziu à aspiração da vida eterna… e até o alindar das campas (como é comum na nossa cultura) tão presente no lembrar dos nossos familiares mortos no dia 1 de Novembro, transformando os cemitérios em exposição de flores, obedece a esse acto piedoso de não esquecermos os nossos mortos.

Não há dúvida de que o registo da memória dos que partiram é a verdadeira eternidade em forma de recordação… mas, para além desta irrefutável verdade biológica e histórica, há imensos testemunhos recolhidos em várias partes do mundo, de gente que diz ter experimentado a proximidade da condição de morta, mas que, no último instante, se manteve viva, ou, se o podemos dizer, “regressou à vida”, não tendo, por isso, morrido concretamente.

É essa experiência que têm para contar, e todos os relatos são unânimes na descrição de uma mesma imagem: visão panorâmica de toda a sua vida; um forte sentimento de paz; a sensação estranha de saírem do seus próprios corpos sentindo-se a flutuar junto ao tecto do quarto ou da enfermaria do hospital, vendo-se deitados no leito onde repousam, e terem a sensação de atravessarem um túnel que se transforma em espaço de resplandecente luz.

Na “Experiência de Quase Morte” (EQM), ou morte iminente, há a referência a um estado vivencial no qual a pessoa experimenta um conjunto de sensações associadas à iminência da morte no decorrer de uma doença grave ou outra ocorrência da qual possa resultar perigo de vida. Em tais circunstâncias há uma espécie de “projecção da consciência” que o paciente refere como “experiência fora do corpo”, acompanhada de uma sensação de serenidade e a passagem por um “túnel de luz”.

A EQM é um termo que foi proposto pelo psicólogo francês Victor Egger, em 1896, em resultado das discussões mantidas entre cientistas, relativas às histórias contadas por escaladores que, durante as quedas a que sobreviviam, tinham uma visão panorâmica da vida durante o momento em que durava a queda. O interesse generalizado pelo tema só aconteceu em 1975, resultando da publicação do livro “Vida Depois da Vida” do psiquiatra e parapsicólogo norte americano Raymond Moody.

Os cientistas que estudam os casos de EQM ainda não chegaram a um consenso científico que explique o fenómeno de forma definitiva. Há quem considere a característica de “alucinação” surgida durante um estado de coma, ou perda de consciência profunda, sendo esta a tentativa de explicação mais plausível que até hoje foi encontrada, desconhecendo-se, no entanto, o modo como o nosso cérebro processa tais alucinações.

Em 1982, um estudo do Instituto Gallup (empresa que se dedica à pesquisa de opinião, nos EUA, fundada em 1930 pelo técnico de estatística George Gallup) referiu que cerca de oito milhões de norte-americanos já tinham passado pela EQM. Até 2005 foram registados casos idênticos em 95% das culturas do mundo, o que torna a experiência bastante frequente, independentemente do grau académico e cultural de cada protagonista. Perante tais depoimentos há quem avance duas hipóteses explicativas para o fenómeno: 1 – Prova da existência de um Paraíso para onde vamos após morrermos, no qual não há sofrimento nem trevas… apenas paz e luz. 2 – Última reacção neurológica construída pelo nosso cérebro, por deficiente função química resultante da menor irrigação sanguínea quando se aproxima o momento da falência de orgãos vitais. (Continua)

Perfil de Autor

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Onofre Varela nasceu no Porto em 1944, estudou pintura e exerceu a atividade de desenhador gráfico em litografia e agências de publicidade, antes de abraçar a carreira de jornalista (na área do cartune), em 1970, no jornal O Primeiro de Janeiro. Colaborou com a RTP, desenhando em direto a informação meteorológica no programa Às Dez e animando espaços infantis. Foi caricaturista e ilustrador principal no Jornal de Notícias, onde também escreveu artigos de opinião, crónicas e entrevistas.